Nos manuais de cinema anglo-saxónicos é "Day for Night", os franceses chamam-lhe "La Nuit Américaine".
Técnica cinematográfica de rodagem de cenas durante o dia como se fossem cenas nocturnas, usando filtros especiais. O fingimento como projecto. A essência do cinema. Desde George Méliès.Tudo é diferente do que parece, tudo é artifício. A encenação do real e do imaginário, nos tempos actuais cada vez mais cada vez mais verosímil e barato.
Um filme em rodagem nos estúdios Victorine em Nice.
Título: "Je vous présente Pamela".
Um rapaz francês (Alphonse - Jean- Pierre Léaud) conhece em Inglaterra uma jovem inglesa (Pamela - Jacqueline Bisset). Apaixonam-se e casam. Três meses depois ele leva-a a conhecer os pais - Alexandre e Séverine - na Riviera francesa. Prosperidade, bom gosto. Normalidade burguesa...Mas anormalidade nos sentimentos. O pai dele e a jovem mulher dele envolvem-se num processo escandaloso, apaixonam-se e fogem.
Alexandre irá atrás deles. A sede de vingança é enorme.
Trama de telenovela nos seus excessos dramáticos, nos seus contornos trágicos, com lógica de best seller.
Genérico. A preto e branco. A ficha técnica. O nome dos actores, dos técnicos, de todos os que, em equipa, fazem um filme, dos produtores e do realizador. No lado direito do ecrã passa o registo visual da banda de som.
Depois, um longo plano-sequência (uma cena inteira é filmada num único take, sem cortes de montagem, registando a acção em tempo real) numa praça. Um traveling (movimento físico da câmera no espaço, sobre um trilho ou carris) acompanha o movimento das pessoas. Passos apressados, vaivém, um carrinho de bébé, um cão, um autocarro, a entrada do metro, um personagem que sai do metro, um carro desportivo que se aproxima. Sempre em contínuo, a câmara aproxima-se de outro personagem que caminha em sentido contrário e se encontra com o do metro. Este vira-se e atinge-o com uma bofetada. Coupez, corta, ouve-se uma voz (provavelmente a do realizador). A câmara sobe elegantemente em contre plongé e revela tudo. Estamos numa praça recriada em estúdio, azáfama, com figurantes por todo os lados mais os técnicos e os equipamentos, uma parafernália...e as coisas não correram bem. Vão ter que fazer uma nova take, e outra, e outra... até ficar como o realizador quer. A cena terá que ser refeita com mudança do fim da história porque um dos actores entretanto morre num acidente. Coisas da vida e do cinema.
O realizador, os actores, os técnicos e mais uma catrefada de gente que entra e sai. Um mundo em pulsação, em diferentes velocidades, perguntas, excitações, actos falhados, alterações de última hora. Interrupções. Enganos. Tudo é possível. É a essência de fazer cinema.
Pelo meio há as histórias cruzadas das pessoas que fazem o filme. Os sonhos do realizador (Truffaut, ele mesmo, a fazer o papel de Ferrand, o realizador), enquanto criança, a roubar cartazes de "O Mundo a Seus Pés" do Orson Welles.
Os caprichos do actor que faz de Alphonse, uma criança grande, que consome filmes e tem grandes dúvidas existenciais. A namorada fugiu com o cascadeur inglês que quase nada tinha a ver com a história. Bem merecido, o chato que ele era...
As antigas estrelas que, nos bons velhos tempos, andaram por Hollywood, a recordar petites histoires deliciosas.
As histórias de cama acidentais e os amores imprevistos. A revelação inesperada dos interesses amorosos do velho galã.
François Truffaut (1934-1984). Vida relativamente curta mas uma carreira bem cheia. Fez 21 filmes, mais umas curtas-metragens, e muitos deles preencheram o imaginário da nossa geração.
Teve uma infância solitária, difícil e infeliz. Filho de pai incógnito, andou por reformatórios. Muito jovem começou a refugiar-se no mundo de fantasia do cinema. Consumidor exaustivo de filmes, acabou por ser protegido por André Bazin, seu pai adoptivo, na verdade, o "pai" de todos os jovens cineastas franceses da "Nouvelle Vague" - além de Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette, Alain Resnais, Éric Rohmer e mais alguns.
No interim, teve mais problemas pessoais. Desertou do serviço militar e esteve preso.
Quando se safou do poder jugular da tropa, começou a escrever em contínuo sobre cinema para os "Cahiers du Cinéma" e outras revistas francesas. Na essência muito poucos realizadores franceses (e mesmo europeus) se safaram do veneno da sua pena, num estilo feroz e cáustico. Para ele, naqueles anos 50, os filmes franceses eram convencionais, pretensiosos e artificiais. Em contrapartida, os filmes americanos - John Ford, Howard Hawks, Nicholas Ray, Alfred Hitchcock, entre outros - eram vivos, audazes, intensos, expressando uma identidade autoral, o realizador. Foi a célebre Teoria do Autor.
Quando tinha vinte e sete anos, fez o seu primeiro filme de fundo e subiu em grande velocidade as escadas da fama, do sucesso e do dinheiro. "Os 400 golpes", a história de um jovem de 12 anos, rebelde , delituoso, com problemas de integração e sociabilidade. Na verdade o filme tinha um forte conteúdo autobiográfico. A personagem - Antoine Doinel - interpretada pelo jovem Jean-Pierre Léaud era o alter ego do jovem François Truffaut. Este continuou, durante vinte anos, à medida que o actor ia crescendo, a fazer filmes que eram a hipotética evolução da sua história pessoal. Fez mais cinco filmes (um dos quais média-metragem) com Antoine Doinel/Jean-Pierre Léaud. Em 1979 "Amor em fuga" termina o ciclo Doinel, com sucesso comercial.
Depois de "400 Golpes" foi fazendo filmes que eram muito o espelho da sua França. Contradição de fundo. Ele que cresceu a alimentar-se dos filmes americanos - "O que me levou aos filmes foi a enxurrada de filmes americanos em Paris, após a libertação" - criou uma obra genuinamente francesa mesmo quando usava como matriz básica livros de escritores americanos - fez vários policiais.
O segundo filme foi "Disparem sobre o pianista" (1960), um policial a partir de um escritor americano, David Goodis. Fascinado por Hitchcock, ao longo da carreira fez mais uns thrillers a partir de histórias anglo-saxónicas transferidas, com as necessárias adaptações, para o universo francês.
Em 1962 fez o célebre "Jules e Jim" , dois homens e uma mulher (Jeanne Moreau) em ménage à trois. Imoralidade ou amor?
"A Noiva Estava de Luto" (1967?). Jeanne Moreau, outra vez, em assassina profissional.
"A história de Adele H." (1975), um projecto muito interessante sobre o amor louco. Uma filha de Victor Hugo obsessivamente apaixonada por um oficial inglês, sem eco do lado de lá.
"O Homem que Gostava de Mulheres " (1977). No funeral de um homem, a presença de um número inusitado de mulheres, que tinham sido suas amantes. Recordações.
"O Último Metro " (1980), Catherine Deneuve e Gérard Depardieu numa bela história em Paris ocupada pelos nazis.
"A Mulher do Lado" (1981), outra vez Depardieu, desta vez com Fanny Ardant, que foi a última parceira do realizador, numa boa história de (des)encontros amorosos.
Tal como em "A noite Americana ", Truffaut entrou em outros filmes dele como actor, nomeadamente "O Quarto Verde", uma ficção algo mórbida sobre o amor aos nossos mortos. Em 1977 Steven Spielberg convidou-o para fazer de cientista francês no célebre "Encontros Imediatos do Terceiro Grau". Estreará brevemente o último filme do cineasta americano, que volta tematicamente ao mesmo tema - os OVNI.
Voltando a "A Noite Americana". Fim da produção. Cada um volta para casa. Alguns vão logo para o próximo filme. Outros irão aguardar novos contratos das produtoras, outros vão inscrever-se no desemprego. Uma espécie de intervalo no ciclo de vida de cada um. O estúdio fica vazio. É triste.
O realizador vai certamente fazer a montagem. Quando o filme estrear já nada cabe a nenhum daqueles personagens que acompanhamos. O público decidirá e pode ser que o sucesso bata à porta. Neste caso, tudo se conjugou favoravelmente, o mercado, a crítica e as instituições - "A Noite Americana" foi galardoado em Hollywood com o Oscar do melhor filme estrangeiro de 1974.


