17 maio 2026

A Noite Americana - François Truffaut (1973)

Com François Truffaut, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Léaud, Valentina Cortese.
Duração: 1h55m

Nos manuais de cinema anglo-saxónicos é "Day for Night", os franceses chamam-lhe "La Nuit Américaine". 

Técnica cinematográfica de rodagem de cenas durante o dia como se fossem cenas nocturnas, usando filtros especiais. O fingimento como projecto. A essência do cinema. Desde George Méliès.Tudo é diferente do que parece, tudo é artifício. A encenação do real e do imaginário, nos tempos actuais cada vez mais  cada vez mais verosímil e barato.

Um filme em rodagem nos estúdios Victorine em Nice. 

Título: "Je vous présente Pamela".

Um rapaz francês (Alphonse - Jean- Pierre Léaud) conhece em Inglaterra uma jovem inglesa (Pamela - Jacqueline Bisset). Apaixonam-se e casam. Três meses depois ele leva-a a conhecer os pais - Alexandre e Séverine - na Riviera francesa. Prosperidade, bom gosto. Normalidade burguesa...Mas anormalidade nos sentimentos. O pai dele e a jovem mulher dele envolvem-se num processo escandaloso, apaixonam-se e fogem.

Alexandre irá atrás deles. A sede de vingança é enorme.

Trama de telenovela nos seus excessos dramáticos, nos seus contornos trágicos, com lógica de best seller. 

Genérico. A preto e branco. A ficha técnica. O nome dos actores, dos técnicos, de todos os que, em equipa, fazem um filme, dos produtores e do realizador. No lado direito do ecrã passa o registo visual da banda de som.

Depois, um longo plano-sequência (uma cena inteira é filmada num único take, sem cortes de montagem, registando a acção em tempo real) numa praça. Um traveling (movimento físico da câmera no espaço, sobre um trilho ou carris) acompanha o movimento das pessoas. Passos apressados, vaivém, um carrinho de bébé, um cão, um autocarro, a entrada do metro, um personagem que sai do metro, um carro desportivo que se aproxima. Sempre em contínuo, a câmara aproxima-se de outro personagem que caminha em sentido contrário e se encontra com o do metro. Este vira-se e atinge-o com uma bofetada. Coupez, corta, ouve-se uma voz (provavelmente a do realizador). A câmara sobe elegantemente em contre plongé e revela tudo. Estamos numa praça recriada em estúdio, azáfama, com figurantes por todo os lados mais os técnicos e os equipamentos, uma parafernália...e as coisas não correram bem. Vão ter que fazer uma nova take, e outra, e outra... até ficar como o realizador quer. A cena terá que ser refeita com mudança do fim da história porque um dos actores entretanto morre num acidente. Coisas da vida e do cinema.

O realizador, os actores, os técnicos e mais uma catrefada de gente que entra e sai. Um mundo em pulsação, em diferentes velocidades, perguntas, excitações, actos falhados, alterações de última hora. Interrupções. Enganos. Tudo é possível. É a essência de fazer cinema.

Pelo meio há as histórias cruzadas das pessoas que fazem o filme. Os sonhos do realizador (Truffaut, ele mesmo, a fazer o papel de Ferrand, o realizador), enquanto criança, a roubar cartazes de "O Mundo a Seus Pés" do Orson Welles.

Os caprichos do actor que faz de Alphonse, uma criança grande, que consome filmes e tem grandes dúvidas existenciais. A namorada fugiu com o cascadeur inglês que quase nada tinha a ver com a história. Bem merecido, o chato que ele era...

As antigas estrelas que, nos bons velhos tempos, andaram por Hollywood, a recordar petites histoires deliciosas.

As histórias de cama acidentais e os amores imprevistos. A revelação inesperada dos interesses amorosos do velho galã.

François Truffaut (1934-1984). Vida relativamente curta mas uma carreira bem cheia. Fez 21 filmes, mais umas curtas-metragens, e muitos deles preencheram o imaginário da nossa geração.

Teve uma infância solitária, difícil e infeliz. Filho de pai incógnito, andou por reformatórios. Muito jovem começou a refugiar-se no mundo de fantasia do cinema. Consumidor exaustivo de filmes, acabou por ser protegido por André Bazin, seu pai adoptivo, na verdade, o "pai" de todos os jovens cineastas franceses da "Nouvelle Vague" - além de Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette, Alain Resnais, Éric Rohmer e mais alguns. 

No interim, teve mais problemas pessoais. Desertou do serviço militar e esteve preso. 

Quando se safou do poder jugular da tropa, começou a escrever em contínuo sobre cinema para os "Cahiers du Cinéma" e outras revistas francesas. Na essência muito poucos realizadores franceses (e mesmo europeus) se safaram do veneno da sua pena, num estilo feroz e cáustico. Para ele, naqueles anos 50, os filmes franceses eram convencionais, pretensiosos e artificiais. Em contrapartida, os filmes americanos - John Ford, Howard Hawks, Nicholas Ray, Alfred Hitchcock, entre outros - eram vivos, audazes, intensos, expressando uma identidade autoral, o realizador. Foi a célebre Teoria do Autor.

Quando tinha  vinte e sete anos, fez o seu primeiro filme de fundo e subiu em grande velocidade as escadas da fama, do sucesso e do dinheiro. "Os 400 golpes", a história de um jovem de 12 anos, rebelde , delituoso, com problemas de integração e sociabilidade. Na verdade o filme tinha um forte conteúdo autobiográfico. A personagem - Antoine Doinel - interpretada pelo jovem Jean-Pierre Léaud era o alter ego do jovem François Truffaut. Este continuou, durante vinte anos, à medida que o actor ia crescendo, a fazer filmes que eram a hipotética evolução da sua história pessoal. Fez mais cinco filmes (um dos quais média-metragem) com Antoine Doinel/Jean-Pierre Léaud. Em 1979 "Amor em fuga" termina o ciclo Doinel, com sucesso comercial.

Depois de "400 Golpes" foi fazendo filmes que eram muito o espelho da sua França. Contradição de fundo. Ele que cresceu a alimentar-se dos filmes americanos - "O que me levou aos filmes foi a enxurrada de filmes americanos em Paris, após a libertação" - criou uma obra genuinamente francesa mesmo quando usava como matriz básica livros de escritores americanos - fez vários policiais.

O segundo filme foi "Disparem sobre o pianista" (1960), um policial a partir de um escritor americano, David Goodis. Fascinado por Hitchcock, ao longo da carreira fez mais uns thrillers a partir de histórias anglo-saxónicas  transferidas, com as necessárias adaptações, para o universo francês.

Em 1962 fez o célebre "Jules e Jim" , dois homens e uma mulher (Jeanne Moreau) em ménage à trois. Imoralidade ou amor?

"A Noiva Estava de Luto" (1967?). Jeanne Moreau, outra vez, em assassina profissional.

"A história de Adele H." (1975),  um projecto muito interessante sobre o amor louco. Uma filha de Victor Hugo obsessivamente apaixonada por um oficial inglês, sem eco do lado de lá.

"O Homem que Gostava de Mulheres " (1977). No funeral de um homem, a presença de um número inusitado de mulheres, que tinham sido suas amantes. Recordações.

"O Último Metro " (1980), Catherine Deneuve e Gérard Depardieu numa bela história em Paris ocupada pelos nazis.

"A Mulher do Lado" (1981), outra vez Depardieu, desta vez com Fanny Ardant, que foi a última parceira do realizador, numa boa história de (des)encontros amorosos.

Tal como em "A noite Americana ", Truffaut entrou em outros filmes dele como actor, nomeadamente "O Quarto Verde", uma ficção algo mórbida sobre o amor aos nossos mortos. Em 1977 Steven Spielberg convidou-o para fazer de cientista francês no célebre "Encontros Imediatos do Terceiro Grau". Estreará brevemente o último filme do cineasta americano, que volta tematicamente ao mesmo tema - os OVNI.

Voltando a "A Noite Americana". Fim da produção. Cada um volta para casa. Alguns vão logo para o próximo filme. Outros irão aguardar novos contratos das produtoras, outros vão inscrever-se no desemprego. Uma espécie de intervalo no ciclo de vida de cada um. O estúdio fica vazio. É triste.

O realizador vai certamente fazer a montagem. Quando o filme estrear já nada cabe a nenhum daqueles personagens que acompanhamos. O público decidirá e pode ser que o sucesso bata à porta. Neste caso, tudo se conjugou favoravelmente, o mercado, a crítica e as instituições - "A Noite Americana" foi galardoado em Hollywood com o Oscar do melhor filme estrangeiro de 1974.

13 maio 2026

E Deram-lhe uma Espingarda - Dalton Trumbo (1971)

Com Timothy Bottoms, Jason Robards, Donald Sunderland.
Duração: 1h51m

Princípio dos anos 70. Relembremos o contexto político mundial do tempo. Vietname. Os EUA gradualmente atolados num quadro de guerra  doloroso, uma calamidade. Passados poucos anos os soldados americanos iriam abandonar aquelas paragens com o rabo entre as pernas, feridos na honra, com um enorme défice de orgulho.

Foi neste contexto que surgiu "E Deram-lhe uma Espingarda". Primeiro e único filme de Dalton Trumbo, como realizador, que, como  argumentista, deixou um marco indelével na história de  Hollywood. Lá iremos.

Em 1939 foi editada uma ficção de Dalton Trumbo com o título "E Deram-lhe uma Espingarda". Era um rebelde, estava já a consolidar a sua longa e atribulada carreira de argumentista em Hollywood,  mas paralelamente era romancista com algum sucesso. Este era um romance clara e assumidamente pacifista, anti-guerra. Relembremos que nesse ano começou o segundo pesadelo mundial do Século XX.

Primeira Guerra Mundial (primeiro pesadelo). Último dia antes da rendição alemã. Joe Bonham, soldado americano, é atingido em cheio por um projéctil de artilharia. Pouca sorte. Acorda (miraculosamente) numa cama de um hospital militar sem olhos, sem ouvidos, sem braços, sem pernas, sem rosto. Um pedaço de corpo. Um homem prisioneiro nos destroços da sua carne. Um homúnculo. Um morto-vivo. Em estado vegetativo. Mas com a consciência de si. O seu quadro mental sobreviveu incólume à destruição do seu corpo. A sua capacidade de memória perdurou. Um milagre. E agora?

Aquela massa amorfa já teve uma vida. Nas regressões da sua mente propulsionadas pelos analgésicos com que os médicos e enfermeiras anestesiam a sua dor, entre a realidade e a fantasia, vai-se conhecendo a essência da sua vida, a família, a igreja, a namorada. Flashbacks. Mas também os seus sonhos, frustrações, devaneios e medos. Reminiscências. A medicação (certamente ópio) vai libertando o seu Id (inconsciente). Delira. Na deriva da sua mente até vai interagir com Jesus Cristo.

Apesar daquele quadro aterrador, consegue comunicar com as pessoas que tomam conta dele. Percutindo a cabeça na travesseira, utiliza o código Morse que tinha aprendido em miúdo. Diálogo difícil. Ele tem consciência do seu estado irreparável. Um freak.  Quer morrer, quer que o matem ou que exponham o seu corpo em espectáculos de feira, miserável "troféu" de guerra. Claro que o exército não atende as suas súplicas. Vão continuar a mantê-lo nos esconsos hospitalares, bem escondido de todos. Resta-lhe continuar a apelar em vão. SOS. SOS. "Matem-me" "Matem-me". Sem eco, sem resposta.


Todo o percurso mental de Joe, caótico, não linear, misturando memórias, impressões sensoriais e emoções é feito como um fluxo de consciência, desordenado, subjectivo.

Por outro lado a organização da imagética ficcional faz uma partição entre o agora - o que resta de Joe na solidão de um quarto hospitalar - (a preto e branco) e as suas recordações, devaneios, regressões e fantasias (a cores).

Dalton Trumbo titulou a sua ficção a partir de um slogan de recrutamento militar americano durante a Primeira Grande Guerra, "Johnny Get Your Gun".

Dalton Trumbo. O realizador do filme, o argumentista de muitos filmes de referência da história do cinema americano. O escritor do livro. Foi um dos criadores mais importantes de Hollywood das décadas de ouro. Um intelectual de esquerda, talentoso e prolífico escritor, foi perseguido pela pandilha mccarthista nos anos 40. Esteve preso quase um ano, condenado por desobediência civil ao Congresso dos EUA (por se ter recusado à delação) e, metido na lista negra, foi proibido de trabalhar em Hollywood. Exilou-se no México, mas o seu talento era tão grande que, mesmo nesses horríveis anos negros, continuou a escrever para os estúdios, criando, sob pseudónimo, muitos argumentos transformados em filmes.

Começou a escrever em Hollywood em 1936 e continuou até ao princípio dos anos 70. O último argumento que escreveu foi "Papillon", que já aqui vimos. Mas em 1960 escreveu "Spartacus" para  Stanley  Kubrick (também já vimos) e "Exodus" para Otto Preminger. Escreveu para Vincent Minelli "Adeus Ilusões" (1965). E para William  Wyler "Férias em Roma" (1953). 

Nunca mais acabava, indicar todos os filmes que escreveu. Só mais um, pelo lado risível e irónico da situação. Em 1956 o argumento de "O rapaz e o touro", de Irving Rapper, um realizador banal, foi ganho por Robert Rich que, inexplicavelmente, ninguém conhecia em Hollywood e não foi buscar o Oscar. Era Dalton Trumbo, que vivia do outro lado da fronteira. 

A riqueza da personalidade e as histórias associadas ao Dalton Trumbo nos tempos áureos de Hollywood até mereceram um filme sobre ele, precisamente "Trumbo" feito há uns anos por Jay Roach. Muito interessante.

"Metallica". Não estou a delirar ou com uma neurose freudiana, e também não houve qualquer "colagem" acidental de textos. Explico-me. Em 1989 os "Metallica", que felizmente ainda andam por aí, cheios de energia e qualidade, fizeram um videoclipe de "One", uma das  músicas identitárias do grupo, incorporando sequências do filme. Acabaram por comprar os direitos e editá-lo em DVD.

Espantosamente, com imprevisto sucesso de mercado, o filme - que, no seu lançamento, tinha tido uma carreira simpática - ressuscitou e tornou-se um "filme de culto". A cinefilia em dívida para com o heavy metal, o rock da pesada. Demos graças.

Também nas artes pode haver milagres.

06 maio 2026

O Homem a Quem Chamaram Cavalo - Elliot Silverstein (1970)


Com Richard Harris, Judith Anderson.
Duração: 1h54m

Fiquemo-nos pelos povos que os "descobridores" encontraram, os indígenas, os nativos, os índios, os peles-vermelhas, os selvagens como os brancos os chamavam (a maioria desses brancos era a pior escumalha - assassinos, ladrões, marginais - degredada da Europa).

O processo civilizacional americano foi, em última instância, um processo de eliminação gradual e sistemática das populações autóctones pelos emigrantes europeus.

À medida que o país ia ganhando identidade e o poder político e militar se ia consolidando, as populações autónomas iam sendo dizimadas de forma sistemática ou, mal menor, iam sendo deslocadas à força das suas terras originais para reservas longínquas, em marchas forçadas de dias e dias em condições horríveis que acabavam com muitas mortes por fadiga e doenças.

John Morgan (Richard Harris), um aristocrata inglês de modos refinados e comportamento aventureiro. Muita fortuna e enorme vazio existencial. Em 1821 faz uma expedição de caça ao Dakota no centro do território americano. As coisas correram mal. O grupo de caçadores foi atacado por índios Sioux, originários e viventes naquele espaço há séculos. Foi o único que sobreviveu. Capturado, salvo pela estranheza (para os índios) do seu cabelo louro - ao longo dos séculos, pequenos incidentes têm tido efeitos incríveis no sentido da História - foi oferecido de presente à mãe do chefe da tribo "Mãos Amarelas".

O choque é profundo. Um aristocrata britânico escravizado pelos índios no centro da América. Transformado em animal de carga e criado das mulheres. Ridicularizado por todos.

Encontra no acampamento outro branco cativo, Batise, um francês que só pensa fugir. Na verdade ele era o único elo de comunicação de Morgan com a tribo. Este também tenta fugir e é punido. Mas gradualmente acaba por ir aceitando o seu novo mundo. Uma espécie de fusão cultural entre um antes e um agora. Aculturação.

Num conflito com outra tribo, quase por acaso, transforma-se em herói ao matar índios inimigos.

Apaixona-se pela irmã do chefe, mas para ficar com ela tem que passar pela prova suprema de coragem, um teste à dor. Um ritual sádico imposto pela tradição.

A união amorosa termina tragicamente e o lorde inglês afasta-se da tribo, pressupostamente para regressar a Inglaterra.

Num filme destes a partir de um referencial real - os Sioux - e num quadro alargado de análise antropológica, levantam-se questões pertinentes: o que é verdade e o que é ficcional? o que foi inventado? o que foi deturpado?

Aparentemente o sacrifício (sequência fulcral e identitária do desenvolvimento dramático da ficção) foi inventado ou, pelo menos, forçado, não fazia parte dos rituais iniciáticos dos Sioux. Pelo menos houve da parte da produção a preocupação de reproduzir o quadro vivencial dos índios. Nem tudo é perfeito e Hollywood tem os seus próprios mecanismos de afirmação e criação ficcional. O mercado é que manda.

Richard Harris. Actor irlandês de qualidade superior. Carreira longa (fez filmes ao longo de quarenta anos). Já nos últimos anos da sua vida, entrou nos dois primeiros "Harry Potter" (Alvo Dumbledore), criando uma forte identidade junto do público juvenil.

Muitos e variados personagens ele encarnou na longa lista de filmes em que entrou, desde "Revolta na Bounty" com Marlon Brando, até "Gladiador" com Russell Crowe. Tanto alinhava em projectos de grande público como "Os Canhões de Navarone" como em filmes de arte e ensaio como "O Deserto Vermelho" de Michelangelo Antonioni.

A sua personagem John Morgan marcou a sua identidade como actor.

Judith Anderson. Actriz australiana com uma história riquíssima e longa nos palcos australianos, americanos e ingleses, com prática de Shakespeare, Tchekhov, Pirandello, Eugene O'Neill e outros grandes autores teatrais. Mas, pontualmente, era atraída pelo cinema, participando em obras que ficaram no imaginário do século XX: "Rebecca" de Hitchcock (já vimos), "Laura" de Otto Preminger e "Gata em Telhado de Zinco" (já vimos) de Richard Brooks, a partir de Tennessee Williams (já vimos).

Aqui faz de índia sénior, uma espécie de referência dos Sioux para o "invasor".

Elliot Silverstein, o realizador, não é propriamente um nome sonante no universo criador do cinema americano. Foi essencialmente um realizador de televisão. Numa carreira longa, com muitas séries e filmes para consumo televisivo, fez alguns saltos até Hollywood e em seis filmes que lá fez acertou na mouche em dois. Um foi este "O Homem a Quem Chamaram Cavalo" e o outro foi "Cat Ballou" ("A Mulher Felina") que, em 1965 valeu o Oscar a Lee Marvin (um pistoleiro bêbado impagável) que estrelou com a então jovem Jane Fonda, uma comédia desopilante sobre as mitologias do Oeste.

Os realizadores de Hollywood devem ao interesse militante de Elliot Silverstein a validação por Hollywood, em 1964, do "Director's Cut", isto é o direito dos autores dos filmes à versão (montagem) final de acordo com as suas ideias e a sua concepção artística. Nem sempre as coisas correm bem no universo dos filmes e há na história do cinema múltiplos casos em que o filme que vai para o mercado é a versão dos produtores e não a que o autor considera o "seu" filme, muitas vezes atropelando escandalosamente o projecto inicial. Basta lembrar nos anos 40 e 50 os filmes do Orson Welles que, com excepção de "Citizen Kane", foram sempre amputados ou adulterados às ordens dos estúdios.

"O Homem a Quem Chamaram Cavalo" faz parte de um conjunto de filmes que, nos anos 60 e 70, o cinema americano produziu num processo de revisão crítica da história do Oeste americano, da relação entre os brancos e os índios.

Há historiadores do cinema que consideram que esse revisionismo do "western" começa em 1956 com "A Desaparecida" de John Ford, considerado um dos filmes maiores da história do cinema, com o John Wayne desesperadamente procurando recuperar uma sobrinha, Nathalie Wood, raptada pelos Comanches e que, naturalmente, "se tinha tornado um deles".

Arthur Penn fez "O Pequeno Grande Homem" (1970) onde a ficção se cruza com a batalha de Little Big Horn que uma coligação de Sioux e Cheyennes venceu, derrotando o general Custer (já vimos).

Ralph Nelson fez "O Soldado Azul" (1970) a partir de um massacre índio em Sand Creek em 1874, entendido na altura como uma alegoria à guerra do Vietname.

Um dos últimos filmes de John Ford (ele que se tinha fartado de "matar" índios nas suas ficções) foi um acto de contrição. "O Grande Combate" (1964) é a marcha de uma tribo Cheyenne de volta às suas terras de origem a partir de uma reserva para onde tinham sido desterrados pelo poder branco.

Fizeram-se mais alguns filmes pró-índios, mas sem grande importância, até porque estava no fim a idade gloriosa do "western".

Face ao sucesso de mercado de "O Homem a Quem Chamaram Cavalo", Hollywood não dormiu, como nunca dorme, sempre atenta ao tilintar dos dólares. Foram feitos mais dois filmes sobre a ligação entre os Sioux e John Morgan em 1976 e 1983, igualmente com o Richard Harris, mas já tinha passado o élan. Nada de especial. Passaram à história sem lastro.

A Noite Americana - François Truffaut (1973)

Com François Truffaut, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Léaud, Valentina Cortese. Duração: 1h55m Nos manuais de cinema anglo-saxónicos é ...