Fiquemo-nos pelos povos que os "descobridores" encontraram, os indígenas, os nativos, os índios, os peles-vermelhas, os selvagens como os brancos os chamavam (a maioria desses brancos era a pior escumalha - assassinos, ladrões, marginais - degredada da Europa).
O processo civilizacional americano foi, em última instância, um processo de eliminação gradual e sistemática das populações autóctones pelos emigrantes europeus.
À medida que o país ia ganhando identidade e o poder político e militar se ia consolidando, as populações autónomas iam sendo dizimadas de forma sistemática ou, mal menor, iam sendo deslocadas à força das suas terras originais para reservas longínquas, em marchas forçadas de dias e dias em condições horríveis que acabavam com muitas mortes por fadiga e doenças.
John Morgan (Richard Harris), um aristocrata inglês de modos refinados e comportamento aventureiro. Muita fortuna e enorme vazio existencial. Em 1821 faz uma expedição de caça ao Dakota no centro do território americano. As coisas correram mal. O grupo de caçadores foi atacado por índios Sioux, originários e viventes naquele espaço há séculos. Foi o único que sobreviveu. Capturado, salvo pela estranheza (para os índios) do seu cabelo louro - ao longo dos séculos, pequenos incidentes têm tido efeitos incríveis no sentido da História - foi oferecido de presente à mãe do chefe da tribo "Mãos Amarelas".
O choque é profundo. Um aristocrata britânico escravizado pelos índios no centro da América. Transformado em animal de carga e criado das mulheres. Ridicularizado por todos.
Encontra no acampamento outro branco cativo, Batise, um francês que só pensa fugir. Na verdade ele era o único elo de comunicação de Morgan com a tribo. Este também tenta fugir e é punido. Mas gradualmente acaba por ir aceitando o seu novo mundo. Uma espécie de fusão cultural entre um antes e um agora. Aculturação.
Num conflito com outra tribo, quase por acaso, transforma-se em herói ao matar índios inimigos.
Apaixona-se pela irmã do chefe, mas para ficar com ela tem que passar pela prova suprema de coragem, um teste à dor. Um ritual sádico imposto pela tradição.
A união amorosa termina tragicamente e o lorde inglês afasta-se da tribo, pressupostamente para regressar a Inglaterra.
Num filme destes a partir de um referencial real - os Sioux - e num quadro alargado de análise antropológica, levantam-se questões pertinentes: o que é verdade e o que é ficcional? o que foi inventado? o que foi deturpado?
Aparentemente o sacrifício (sequência fulcral e identitária do desenvolvimento dramático da ficção) foi inventado ou, pelo menos, forçado, não fazia parte dos rituais iniciáticos dos Sioux. Pelo menos houve da parte da produção a preocupação de reproduzir o quadro vivencial dos índios. Nem tudo é perfeito e Hollywood tem os seus próprios mecanismos de afirmação e criação ficcional. O mercado é que manda.
Richard Harris. Actor irlandês de qualidade superior. Carreira longa (fez filmes ao longo de quarenta anos). Já nos últimos anos da sua vida, entrou nos dois primeiros "Harry Potter" (Alvo Dumbledore), criando uma forte identidade junto do público juvenil.
Muitos e variados personagens ele encarnou na longa lista de filmes em que entrou, desde "Revolta na Bounty" com Marlon Brando, até "Gladiador" com Russell Crowe. Tanto alinhava em projectos de grande público como "Os Canhões de Navarone" como em filmes de arte e ensaio como "O Deserto Vermelho" de Michelangelo Antonioni.
A sua personagem John Morgan marcou a sua identidade como actor.
Judith Anderson. Actriz australiana com uma história riquíssima e longa nos palcos australianos, americanos e ingleses, com prática de Shakespeare, Tchekhov, Pirandello, Eugene O'Neill e outros grandes autores teatrais. Mas, pontualmente, era atraída pelo cinema, participando em obras que ficaram no imaginário do século XX: "Rebecca" de Hitchcock (já vimos), "Laura" de Otto Preminger e "Gata em Telhado de Zinco" (já vimos) de Richard Brooks, a partir de Tennessee Williams (já vimos).
Aqui faz de índia sénior, uma espécie de referência dos Sioux para o "invasor".
Elliot Silverstein, o realizador, não é propriamente um nome sonante no universo criador do cinema americano. Foi essencialmente um realizador de televisão. Numa carreira longa, com muitas séries e filmes para consumo televisivo, fez alguns saltos até Hollywood e em seis filmes que lá fez acertou na mouche em dois. Um foi este "O Homem a Quem Chamaram Cavalo" e o outro foi "Cat Ballou" ("A Mulher Felina") que, em 1965 valeu o Oscar a Lee Marvin (um pistoleiro bêbado impagável) que estrelou com a então jovem Jane Fonda, uma comédia desopilante sobre as mitologias do Oeste.
Os realizadores de Hollywood devem ao interesse militante de Elliot Silverstein a validação por Hollywood, em 1964, do "Director's Cut", isto é o direito dos autores dos filmes à versão (montagem) final de acordo com as suas ideias e a sua concepção artística. Nem sempre as coisas correm bem no universo dos filmes e há na história do cinema múltiplos casos em que o filme que vai para o mercado é a versão dos produtores e não a que o autor considera o "seu" filme, muitas vezes atropelando escandalosamente o projecto inicial. Basta lembrar nos anos 40 e 50 os filmes do Orson Welles que, com excepção de "Citizen Kane", foram sempre amputados ou adulterados às ordens dos estúdios.
"O Homem a Quem Chamaram Cavalo" faz parte de um conjunto de filmes que, nos anos 60 e 70, o cinema americano produziu num processo de revisão crítica da história do Oeste americano, da relação entre os brancos e os índios.
Há historiadores do cinema que consideram que esse revisionismo do "western" começa em 1956 com "A Desaparecida" de John Ford, considerado um dos filmes maiores da história do cinema, com o John Wayne desesperadamente procurando recuperar uma sobrinha, Nathalie Wood, raptada pelos Comanches e que, naturalmente, "se tinha tornado um deles".
Arthur Penn fez "O Pequeno Grande Homem" (1970) onde a ficção se cruza com a batalha de Little Big Horn que uma coligação de Sioux e Cheyennes venceu, derrotando o general Custer (já vimos).
Ralph Nelson fez "O Soldado Azul" (1970) a partir de um massacre índio em Sand Creek em 1874, entendido na altura como uma alegoria à guerra do Vietname.
Um dos últimos filmes de John Ford (ele que se tinha fartado de "matar" índios nas suas ficções) foi um acto de contrição. "O Grande Combate" (1964) é a marcha de uma tribo Cheyenne de volta às suas terras de origem a partir de uma reserva para onde tinham sido desterrados pelo poder branco.
Fizeram-se mais alguns filmes pró-índios, mas sem grande importância, até porque estava no fim a idade gloriosa do "western".
Face ao sucesso de mercado de "O Homem a Quem Chamaram Cavalo", Hollywood não dormiu, como nunca dorme, sempre atenta ao tilintar dos dólares. Foram feitos mais dois filmes sobre a ligação entre os Sioux e John Morgan em 1976 e 1983, igualmente com o Richard Harris, mas já tinha passado o élan. Nada de especial. Passaram à história sem lastro.

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