Com Claudia Cardinale, Jacques Perrin...
Duração: 1h53m
"Um drama de amor com fundo de Verdi e de luta de classes numa Itália onde começava o boom económico[...] Um genial uso da música." É assim que um texto da Cinemateca Portuguesa resumiu o filme. E acrescenta: "O filme mais célebre de Zurlini." Aqui, permito-me relativizar. E "O Deserto dos Tártaros"? (já vimos). E "Outono Escaldante"? O que importa reter é que é um óptimo filme. Vamos a ele.
Aida (Claudia Cardinale), jovem bonita, mãe solteira, cantora num grupo rock&roll. Isso vamos sabendo gradualmente. Tem uma história amorosa em que acredita piamente, mas é abandonada. Namoro desastroso com Marcello, um jovem da alta burguesia. Divergência total de intenções. Shit happens.
Mas o milagre pode acontecer. Ou não. Abandonada em Parma, vai à procura de Marcello. Uma explicação, uma razão, é o mínimo. Ela não acredita no que lhe está a acontecer. Consegue chegar à casa do namorado. Quem a recebe é Lorenzo (Jacques Perrin), irmão adolescente de Marcello, industriado pelo irmão para a pôr a mexer (não mora ali, é engano, mente). Mas, depois da conversa à porta de casa, nunca mais a vai largar. Homem-criança (um miúdo de 16 anos), começa por ajudá-la, desvia dinheiro lá em casa e apaixona-se por ela. Como é uso dizer-se em economia, troca desigual.
Quadro problemático.
O fim. Na estação de Parma Aida, enquanto aguarda o comboio para Roma, despede-se do jovem Lorenzo. Ele acredita que o milagre pode acontecer, se...Ela sabe que o seu futuro é uma grande incógnita. Ele vai-se embora deixando um envelope com dinheiro como se fosse uma mensagem de amor. Ela não apanha o comboio. Sai da estação na solidão da noite escura e avança para nós com a elegância do seu corpo, lentamente como se tivesse perdido a alma. Já não tem a mala. Ficou mais sozinha. A mesma música barroca.
Podemos pôr a nossa imaginação a funcionar e dar-lhe um fim cor de rosa. Seria exagerado. Se calhar o mais provável é que um commendatore com uma mulher feia, fanática de missas e terços, pegue nela e fique de casa posta, sempre com um sorriso nos lábios e as pernas abertas ao desejo e aos caprichos do senhor. Mas isso seria já um outro filme, uma comédia italiana feita pelo Dino Risi ou pelo Mario Monicelli.
A história de aproximação imprevisível (não impossível - recordem o caso do presidente francês) entre uma mulher adulta e um jovem imberbe é, na verdade, um encontro equivocado de solidões. Amor, desejo, engano. Mas também de impossíveis. Uma jovem já cansada da vida, com problemas lá para trás não resolvidos, mas princípios decentes, e um miúdo em aprendizagem da vida, a sonhar acordado, resguardado dos jogos dos adultos pelo quadro familiar burguês, de boa educação e boas maneiras, com a tia vigilante e o pai ausente, mas disponível. Não há cá misturas sociais.
Aida se chama a mulher como a da ópera de Verdi. Um amor impossível, como em Verdi. Analogia óbvia.
Claudia Cardinale, no esplendor da sua beleza mediterrânica, sensual e selvagem, com 23 anos, a fazer aqui o primeiro grande papel da sua carreira, embora já tivesse entrado nalguns filmes - em pequenos papéis - alguns que se tornaram clássicos, nomeadamente "Rocco e Seus Irmãos", de Visconti (1960), (que já vimos), e "Gangsters Falhados" (1958) de Mario Monicelli.
Jacques Perrin, o miúdo, (aqui na verdade já com 20 anos), fez uma década e meia depois "O Deserto dos Tártaros" (já vimos) e, na verdade, foi o actor fétiche do Valerio Zurlini. Anteriormente tinha feito igualmente "Dois Irmãos Dois Destinos" (1962) com Marcello Mastroianni.
Agora resta-nos apanhar a nossa mala imaginária, esvaziá-la e enchê-la de outros filmes para o próximo ano. Resta decidirmos quais. De certeza que serão suficientemente interessantes para nós e novos parceiros.

