19 junho 2026

A rapariga da mala - Valerio Zurlini (1961)

Com Claudia Cardinale, Jacques Perrin...
Duração: 1h53m

"Um drama de amor com fundo de Verdi e de luta de classes numa Itália onde começava o boom económico[...] Um genial uso da música." É assim que um texto da Cinemateca Portuguesa resumiu o filme. E acrescenta: "O filme mais célebre de Zurlini." Aqui, permito-me relativizar. E "O Deserto dos Tártaros"? (já vimos). E "Outono Escaldante"? O que importa reter é que é um óptimo filme. Vamos a ele.

Aida (Claudia Cardinale), jovem bonita, mãe solteira, cantora num grupo rock&roll. Isso vamos sabendo gradualmente. Tem uma história amorosa em que acredita piamente, mas é abandonada. Namoro desastroso com Marcello, um jovem da alta burguesia. Divergência total de intenções. Shit happens.

Mas o milagre pode acontecer. Ou não. Abandonada em Parma, vai à procura de Marcello. Uma explicação, uma razão, é o mínimo. Ela não acredita no que lhe está a acontecer. Consegue chegar à casa do namorado. Quem a recebe é Lorenzo (Jacques Perrin), irmão adolescente de Marcello, industriado pelo irmão para a pôr a mexer (não mora ali, é engano, mente). Mas, depois da conversa à porta de casa, nunca mais a vai largar. Homem-criança (um miúdo de 16 anos), começa por ajudá-la, desvia dinheiro lá em casa e apaixona-se por ela. Como é uso dizer-se em economia, troca desigual.
Quadro problemático.

O princípio de tudo. Um comboio que passa. Uma estrada paralela. Um carro desportivo que se aproxima. E para. Um jovem casal. Aida sai para se aliviar na berma recatada. Marcello vai ao porta-bagagens e mexe numa mala. Não percebemos. Continuam. Quando chegam ao destino, Parma, ele engendra uma situação em que fica sozinho. Tira a mala do carro que sabemos ser dela e põe-se a mexer. Termina assim uma aventura de umas semanas de prazer, sexo e divertimento. Bye bye. A mala (com todas as coisas dela) fica ali no chão de uma garagem como que em suspense enquanto passa o genérico com um fundo de música barroca.

O fim. Na estação de Parma Aida, enquanto aguarda o comboio para Roma, despede-se do jovem Lorenzo. Ele acredita que o milagre pode acontecer, se...Ela sabe que o seu futuro é uma grande incógnita. Ele vai-se embora deixando um envelope com dinheiro como se fosse uma mensagem de amor. Ela não apanha o comboio. Sai da estação na solidão da noite escura e avança para nós com a elegância do seu corpo, lentamente como se tivesse perdido a alma. Já não tem a mala. Ficou mais sozinha. A mesma música barroca. 

Podemos pôr a nossa imaginação a funcionar e dar-lhe um fim cor de rosa. Seria exagerado. Se calhar o mais provável é que um commendatore com uma mulher feia, fanática de missas e terços, pegue nela e fique de casa posta, sempre com um sorriso nos lábios e as pernas abertas ao desejo e aos caprichos do senhor. Mas isso seria já um outro filme, uma comédia italiana feita pelo Dino Risi ou pelo Mario Monicelli.

A história de aproximação imprevisível  (não impossível - recordem o caso do presidente francês) entre uma mulher adulta e um jovem imberbe é, na verdade, um encontro equivocado de solidões. Amor, desejo, engano. Mas também de impossíveis. Uma jovem já cansada da vida, com problemas lá para trás não resolvidos, mas princípios decentes, e um miúdo em aprendizagem da vida, a sonhar acordado, resguardado dos jogos dos adultos pelo quadro familiar burguês, de boa educação e boas maneiras, com a tia vigilante e o pai ausente, mas disponível. Não há cá misturas sociais.
Aida se chama a mulher como a da ópera de Verdi. Um amor impossível, como em Verdi. Analogia óbvia.

Claudia Cardinale, no esplendor da sua beleza mediterrânica, sensual e selvagem, com 23 anos, a fazer aqui o primeiro grande papel da sua carreira, embora já tivesse entrado nalguns filmes - em pequenos papéis - alguns que se tornaram clássicos, nomeadamente "Rocco e Seus Irmãos", de Visconti (1960), (que já vimos),  e "Gangsters  Falhados" (1958) de Mario Monicelli.
Jacques Perrin, o miúdo, (aqui na verdade já com 20 anos), fez uma década e meia depois "O Deserto dos Tártaros" (já vimos) e, na verdade, foi o actor fétiche do Valerio Zurlini. Anteriormente tinha feito igualmente "Dois Irmãos Dois Destinos" (1962) com Marcello Mastroianni.

Agora resta-nos apanhar a nossa mala imaginária, esvaziá-la e enchê-la de outros filmes para o próximo ano. Resta decidirmos quais. De certeza que serão suficientemente interessantes para nós e novos parceiros.

13 junho 2026

Perfume de Mulher - Martin Brest (1992)

Com Al Pacino, Chris O'Donnell, Philip Seymour Hoffman
Duração: 2h37m

Dino Risi. E vão três. Entendamo-nos. Três filmes. Ainda que goste muito do seu cinema, não é fixação. Aconteceu. Há umas semanas passámos "Um Dia Difícil". Há quinze dias vimos "Ultrapassagem" e hoje "Perfume de Mulher". Só que este é outro perfume. Também de mulher, mas americano, "Scent of a woman". Remake de um filme feito pelo Dino Risi, em 1974, com o mesmo título no mercado português, com o grande Vittorio Gassman que, em Cannes, conquistou o prémio de Melhor Actor. Foi um sucesso, premiado e criticamente elogiado. Dezoito anos depois, foi a vez de Hollywood. Com regularidade acontecem situações dessas - o cinema americano apropriar-se de filmes europeus e fazer a sua versão.

Dino Risi tinha ido buscar o argumento a uma short story, publicada em 1969, de um escritor e jornalista italiano chamado Giovanni Arpino. Martin Brest usou a mesma matriz ficcional transferindo-a para o universo americano (História, lugares, idiossincrasias) mas, na essência, o argumento manteve a história original.

Frank (Al Pacino) é um coronel aposentado. Cegou por um acidente militar. Na verdade por irresponsabilidade e desleixo no manuseamento de granadas. É um personagem irascível, rabugento, machista, mal educado, com tiques comportamentais e acessos de violência. Andou pelo Vietname e fez parte da entourage militar do presidente Johnson, pelo menos é o que ele diz cheio de bazófia. Não aceita nada bem o quadro limitado da sua vida, a restrição visual, como se diz agora. Assume uma lista de coisas a fazer antes de se suicidar. Aprecia os prazeres da vida. As suas paixões são caras - mulheres e Ferraris. Quer ter um fim de semana inesquecível, de arromba, antes de acabar com tudo.

Charlie (Chris O'Donnell) é um jovem estudante, certinho, que precisa de dinheiro para se aguentar. Está a aprender a vida. Estuda num colégio de topo, antigo, com peso institucional de respeito, escolhido pelos ricos e snobs. Ele está lá com o apoio de uma bolsa de estudo e tem que trabalhar uns fins de semana para se safar. É apanhado numa situação complicada quando, por mero acaso, juntamente com um colega (Philip Seymour Hoffman, mesmo miúdo já um grande actor), é testemunha acidental de uma partida de mau gosto feita por colegas ao Director do colégio.

Com o peso do ocorrido a minar-lhe a cabeça e com medo da penalização que possa sofrer na segunda-feira seguinte, é contratado para fazer de ama-seca do coronel no fim-de-semana.

Dia de Acção de Graças, o Thanksgiving Day, feriado nacional na América desde Abraham Lincoln. Dia da família, de gratidão pelas coisas boas recebidas ao longo do ano. É na quarta quinta-feira de Novembro e é, juntamente com o 4 de Julho (Dia da Independência), o feriado mais importante da América. A sobrinha de Frank sai de casa com a família e deixa-o entregue ao jovem Charlie. Tudo aponta para correr mal. O reformado é bruto e mal educado com o miúdo. Exagera no bourbon e nas obscenidades. E altera todos os dados combinados. Era pressuposto ficar em casa, mas os seus planos são outros e arrasta com ele o jovem.

New York é o destino. O programa é de topo. Viagem em primeira, alojamento em hotel cinco estrelas, refeições nos melhores restaurantes. Deambula pelos locais de prazer da grande metrópole numa espampanante limousine. Visita a família de um irmão. Desastre absoluto. Trata mal a família. Os sobrinhos contam um pouco da história dele. O acidente, o egoísmo, o militarismo primário. Quando se vai embora assume para o irmão, como que desculpando-se: "Eu não presto. Já não sirvo para nada."

Gradualmente o miúdo vai-se sentindo solidário com aquele personagem de excessos. Fica siderado com a exibição de dança quando ele executa, com a precisão de um relógio e a agilidade de um felino, o tango de Carlos Gardel "Por una cabeza". É parceiro irresponsável e conivente de Frank na corrida desvairada com um Ferrari pelas ruas desertas e abandonadas junto à Ponte de Brooklyn.

O jovem Charlie acaba por evitar que Frank ponha fim à sua vida. Este acaba por contribuir para que Charlie não fique marcado disciplinarmente no colégio. Troca por troca.
 
No fim cada um vai à sua vida. Frank retorna a casa e até tenta ser simpático para os filhos da sobrinha, provavelmente alimentando a esperança de uma história com a professora acabada de conhecer, depois de ter criado no seu imaginário de cego expectativas elevadas. A sua habilidade inata para identificar os perfumes das mulheres poderá trazer-lhe o benefício esperado. Quem sabe?...

O miúdo vai regressar ao colégio no pressuposto de que irá prosseguir os estudos em Harvard por indicação do Director. Ou não? O poder do dinheiro é muitas vezes perverso. E a vingança pode estar do outro lado da esquina. Pelo menos fica com o orgulho de não ter sido delator. Uma lição de vida. Já não é mau.

Al Pacino. A essência da representação. Aquele rosto neutro, vazio. Aquele corpo à procura de lugar. Aquela personagem de mal com o mundo, que se quer matar, mas o que quer mesmo é que alguém goste dele. Quem ousará afirmar que o seu Frank não é cego? Que é tudo a fingir?
 
Ao fim de não sei quantas citações para o Oscar - como Actor Principal e Actor Secundário - (lembremos "Serpico", "O Padrinho", "Um Dia de Cão" e "Justiça para Todos") finalmente Oscar de Melhor Actor. Mais do que merecido. Prazer absoluto.

Martin Brest foi o realizador. Poucos filmes, mas alguns que deixaram marca. Profissionalismo seguro.
Só duas referências.
 
Em 1984 fez "O caça polícias", blockbuster que projectou Eddie Murphy para a estratosfera do reconhecimento mundial e encheu de dólares os bolsos dos produtores.
 
Em 1998 em "Conhece Joe Black?", uma ficção espiritual um bocado bizarra (mortos-vivos pelo meio) suportada magnificamente por Anthony Hopkins e Brad Pitt.

"Perfume de Mulher", uma jornada inesquecível. É impossível não alinharmos com aquele duo tão diferente entre si. Acompanhemos o "ceguinho" (era assim que dizíamos quando éramos novos; podemos até recordar as melodias desafinadas que muitos tocavam para pedir esmola - mas isso é outra história.) no seu percurso de adiamento da morte. Pode ser que encontre as dádivas do amor envoltas num perfume inebriante. Às vezes há milagres.

A rapariga da mala - Valerio Zurlini (1961)

Com Claudia Cardinale, Jacques Perrin... Duração: 1h53m "Um drama de amor com fundo de Verdi e de luta de classes numa Itália onde come...