Duração: 2h37m
Dino Risi. E vão três. Entendamo-nos. Três filmes. Ainda que goste muito do seu cinema, não é fixação. Aconteceu. Há umas semanas passámos "Um Dia Difícil". Há quinze dias vimos "Ultrapassagem" e hoje "Perfume de Mulher". Só que este é outro perfume. Também de mulher, mas americano, "Scent of a woman". Remake de um filme feito pelo Dino Risi, em 1974, com o mesmo título no mercado português, com o grande Vittorio Gassman que, em Cannes, conquistou o prémio de Melhor Actor. Foi um sucesso, premiado e criticamente elogiado. Dezoito anos depois, foi a vez de Hollywood. Com regularidade acontecem situações dessas - o cinema americano apropriar-se de filmes europeus e fazer a sua versão.
Dino Risi tinha ido buscar o argumento a uma short story, publicada em 1969, de um escritor e jornalista italiano chamado Giovanni Arpino. Martin Brest usou a mesma matriz ficcional transferindo-a para o universo americano (História, lugares, idiossincrasias) mas, na essência, o argumento manteve a história original.
Frank (Al Pacino) é um coronel aposentado. Cegou por um acidente militar. Na verdade por irresponsabilidade e desleixo no manuseamento de granadas. É um personagem irascível, rabugento, machista, mal educado, com tiques comportamentais e acessos de violência. Andou pelo Vietname e fez parte da entourage militar do presidente Johnson, pelo menos é o que ele diz cheio de bazófia. Não aceita nada bem o quadro limitado da sua vida, a restrição visual, como se diz agora. Assume uma lista de coisas a fazer antes de se suicidar. Aprecia os prazeres da vida. As suas paixões são caras - mulheres e Ferraris. Quer ter um fim de semana inesquecível, de arromba, antes de acabar com tudo.
Charlie (Chris O'Donnell) é um jovem estudante, certinho, que precisa de dinheiro para se aguentar. Está a aprender a vida. Estuda num colégio de topo, antigo, com peso institucional de respeito, escolhido pelos ricos e snobs. Ele está lá com o apoio de uma bolsa de estudo e tem que trabalhar uns fins de semana para se safar. É apanhado numa situação complicada quando, por mero acaso, juntamente com um colega (Philip Seymour Hoffman, mesmo miúdo já um grande actor), é testemunha acidental de uma partida de mau gosto feita por colegas ao Director do colégio.
Com o peso do ocorrido a minar-lhe a cabeça e com medo da penalização que possa sofrer na segunda-feira seguinte, é contratado para fazer de ama-seca do coronel no fim-de-semana.
Dia de Acção de Graças, o Thanksgiving Day, feriado nacional na América desde Abraham Lincoln. Dia da família, de gratidão pelas coisas boas recebidas ao longo do ano. É na quarta quinta-feira de Novembro e é, juntamente com o 4 de Julho (Dia da Independência), o feriado mais importante da América. A sobrinha de Frank sai de casa com a família e deixa-o entregue ao jovem Charlie. Tudo aponta para correr mal. O reformado é bruto e mal educado com o miúdo. Exagera no bourbon e nas obscenidades. E altera todos os dados combinados. Era pressuposto ficar em casa, mas os seus planos são outros e arrasta com ele o jovem.
New York é o destino. O programa é de topo. Viagem em primeira, alojamento em hotel cinco estrelas, refeições nos melhores restaurantes. Deambula pelos locais de prazer da grande metrópole numa espampanante limousine. Visita a família de um irmão. Desastre absoluto. Trata mal a família. Os sobrinhos contam um pouco da história dele. O acidente, o egoísmo, o militarismo primário. Quando se vai embora assume para o irmão, como que desculpando-se: "Eu não presto. Já não sirvo para nada."
Gradualmente o miúdo vai-se sentindo solidário com aquele personagem de excessos. Fica siderado com a exibição de dança quando ele executa, com a precisão de um relógio e a agilidade de um felino, o tango de Carlos Gardel "Por una cabeza". É parceiro irresponsável e conivente de Frank na corrida desvairada com um Ferrari pelas ruas desertas e abandonadas junto à Ponte de Brooklyn.
O jovem Charlie acaba por evitar que Frank ponha fim à sua vida. Este acaba por contribuir para que Charlie não fique marcado disciplinarmente no colégio. Troca por troca.
No fim cada um vai à sua vida. Frank retorna a casa e até tenta ser simpático para os filhos da sobrinha, provavelmente alimentando a esperança de uma história com a professora acabada de conhecer, depois de ter criado no seu imaginário de cego expectativas elevadas. A sua habilidade inata para identificar os perfumes das mulheres poderá trazer-lhe o benefício esperado. Quem sabe?...
O miúdo vai regressar ao colégio no pressuposto de que irá prosseguir os estudos em Harvard por indicação do Director. Ou não? O poder do dinheiro é muitas vezes perverso. E a vingança pode estar do outro lado da esquina. Pelo menos fica com o orgulho de não ter sido delator. Uma lição de vida. Já não é mau.
Al Pacino. A essência da representação. Aquele rosto neutro, vazio. Aquele corpo à procura de lugar. Aquela personagem de mal com o mundo, que se quer matar, mas o que quer mesmo é que alguém goste dele. Quem ousará afirmar que o seu Frank não é cego? Que é tudo a fingir?
Ao fim de não sei quantas citações para o Oscar - como Actor Principal e Actor Secundário - (lembremos "Serpico", "O Padrinho", "Um Dia de Cão" e "Justiça para Todos") finalmente Oscar de Melhor Actor. Mais do que merecido. Prazer absoluto.
Martin Brest foi o realizador. Poucos filmes, mas alguns que deixaram marca. Profissionalismo seguro.
Só duas referências.
Em 1984 fez "O caça polícias", blockbuster que projectou Eddie Murphy para a estratosfera do reconhecimento mundial e encheu de dólares os bolsos dos produtores.
Em 1998 em "Conhece Joe Black?", uma ficção espiritual um bocado bizarra (mortos-vivos pelo meio) suportada magnificamente por Anthony Hopkins e Brad Pitt.
"Perfume de Mulher", uma jornada inesquecível. É impossível não alinharmos com aquele duo tão diferente entre si. Acompanhemos o "ceguinho" (era assim que dizíamos quando éramos novos; podemos até recordar as melodias desafinadas que muitos tocavam para pedir esmola - mas isso é outra história.) no seu percurso de adiamento da morte. Pode ser que encontre as dádivas do amor envoltas num perfume inebriante. Às vezes há milagres.

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