Duração: 1h45m
Roma, 15 de Agosto, feriado religioso (lá como cá, Dia da Assunção de Nossa Senhora). Cidade deserta.
Bruno (Vittorio Gassman), um quarentão, bem vivido, engatatão, cheio de arrogância. Um fura-vidas. É um tipo superficial, falso, egoísta e vazio. Na verdade, é um infeliz.
Passeia-se pela cidade no seu Lancia Aurelia Sport já um bocado gasto. Não respeita regras. Acelera em grande. Avança pelo sentido proibido com a normalidade do Xico esperto. No seu percurso exibicionista pelas ruas da cidade, conhece Roberto (Jean-Louis Trintignant), um jovem estudante de direito, tímido, ingénuo e complexado.
Com a sua lábia irresistível, Bruno convence (na verdade, força) Roberto a sair da cidade com ele e irem por aí, a acelerar. Saem de Roma para norte, e acabam em Viareggio, na Toscana, trezentos e tal quilómetros depois. Deriva. Uma viagem sem rumo determinado. O carro, centro da vida. Metafórico símbolo de poder. Dino Risi explica: "A Itália da guerra é a terra da bicicleta ou dos que andam a pé; depois veio a 'motorina' (motorizada, a lambreta) e, por fim, 'la machina', o fabuloso automóvel".
Encontros e desencontros acidentais, com reencontros familiares pelo meio. O distanciamento a partir do discurso interior de Roberto ("O que é que estou aqui a fazer"? Não quero ir."). Mas a resistência inicial gradualmente transformou-se em anuimento e até parceria. Cada um com o seu passado, os equívocos, as contas por ajustar, os fantasmas. Como um road movie, em certo sentido, é a circulação em contínuo pela estrada que liberta os quadros ficcionais - os encontros, as memórias, as famílias, os engates... - e da comédia se vai, em mutação gradual, ao encontro do drama, da tragédia. Pelo meio vamo-nos cruzando com os pequenos e grandes contrastes da sociedade italiana, muitas vezes entre o ridículo e o riso. E o twist e as cantigas italianas do tempo.
O jovem Roberto gradualmente vai perdendo a sua ingenuidade, a sua virgindade. Vai-se tornando, em certo sentido, uma réplica de Bruno. Mas teve pouca sorte. Tudo acabou dramaticamente na ultrapassagem. Nem os deuses lhe valeram. Teve pouca sorte. Mercúrio não o protegeu. Foi escolhido por Letum.
Não estávamos à espera de um conto moral. Eric Rohmer, contemporâneo de Dino Risi, ali ao lado, em França, naquela década filmou vários que ficaram célebres. Quem não se lembra de "A minha noite em casa de Maud" (1969), precisamente com Jean-Louis Trintignant , um pouco mais velho, e "O Joelho de Claire" (1970)?
Para o espectador actual - nós - o prazer (afectivo) da distância temporal, da memória.
A Brigitte Bardot, sex symbol europeu daquele tempo, emblema identitário do estouvado Bruno. Uma foto bem visível no tablier da máquina desportiva.
Antonioni, o cineasta contemporâneo de Dino Risi, cujo cinema estava nos antípodas da comédia italiana, portanto de Risi, citado pelo Bruno, aliás de uma forma certeira. A certa altura diz ele para o seu jovem companheiro de viagem: "Aquela coisa que está muito na moda hoje, a alienação. Viste 'O Eclipse' de Antonioni? Que seca. Adormeci. Grande realizador, o Antonioni.".
Private joke de Dino Risi, obviamente. Naqueles tempos a criatividade no cinema italiano era enorme e muito variada, cabia lá tudo - Antonioni e Fellini, Pasolini e Ettore Scola, Sergio Leone e Rossellini, Luigi Visconti e Luigi Commencini, e por aí fora.
Já agora, na despedida da casa da infância do jovem Roberto, uma tia perguntando ansiosa se eles lá em Roma conheciam a Sofia Loren, como se fosse a vizinha do lado.
Revisitação de Dino Risi (1916-2008). Já aqui passou "Uma Vida Difícil" (1961) com Alberto Sordi. Nesta altura (princípio da década de 60) já ele tinha alcançado um estatuto de reconhecimento, com alguns sucessos de mercado. Fazia longas-metragens desde 1955, depois de um período de aprendizagem com curtas-metragens documentais. Acabou por ter uma carreira longa e prolífica.
De origem burguesa da Itália do norte, durante a guerra esteve refugiado na Suiça, licenciou-se em psiquiatria, mas acabou por enveredar pelos filmes. Foi certamente aquele lado da sua formação (chegou a praticar) que acabou por enformar a essência do seu cinema, dos argumentos que escolheu e co-escreveu. Foi um soberbo retratista da sociedade italiana, das suas peculiaridades e estereótipos. Manuseou a "alma italiana" - rindo, sorrindo, com simpatia ou desprezo, com bonomia ou azedume - com um bisturi afiadíssimo que, às vezes, deitava sangue. O seu cinema era um espelho muito cintilante do zeitgeist da Itália do seu tempo.
Dino Risi foi figura maior da commedia all'italiana, "bufão vigoroso despudoradamente explorando a sátira social". Opiniões estudiosas e especializadas põem-no no topo juntamente com Mario Monicelli.
"Ultrapassagem" (tal como "Uma Vida Difícil") figura entre os filmes de referência desse período riquíssimo do cinema italiano que começou nos anos 50 e foi até à década de 70.

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