01 outubro 2026

Programação para o 1º período

"O tempo, esse grande escultor" é o título de um livro da grande Marguerite Yourcenar. Quem dela nunca leu "As Memórias de Adriano" perdeu um grande prazer. Ainda estão a tempo de recuperar. Se calhar até há na Biblioteca. (Nota da Biblioteca: Há mesmo! Ver aqui.)

Vamos continuar a circular pelo nosso tempo. Anos 60 para a frente. Nova temporada. Nova viagem. O carrocel do nosso imaginário em movimento. Mais um leque de filmes que são  incontornáveis ou referenciais nas últimas décadas. 

De Hollywood à Europa. Escolha sempre relativa. Tantas hipóteses. Porque não aquele filme que vi no "444" à meia-noite? Resistiu ao tempo? Ah, a impressão com que fiquei quando vi aquele outro filme, no "Satélite", há trinta e tal anos. E daquela vez que fui ao "Monumental"? As coboiadas no "Cinema Jardim"? E o "Quarteto", do Pedro Bandeira Freire? Etc. Etc. A passagem do tempo vai relativizando as coisas. Mas mesmo as decepções são interessantes. Já vivemos mais, já acumulámos novas experiências e saberes. É a vida.

Quando se começa com o vestido da Marilyn Monroe a voar pelas suas pernas acima (o Billy Wilder era um requintado perverso, cheio de ironia) e termina com a poesia como leitmotiv da revolução interior no colégio, orquestrada pelo Robin Williams, tudo pode acontecer.

O que vai certamente acontecer é que vamos ver alguns filmes com o Philip Seymour Hoffman - actor genial que infelizmente morreu cedo - por sugestão do Paulo Folgado, o incomparável gestor das informáticas, disponível a cem por cento. Muito obrigado. "Jogos de Prazer" e "O Homem mais Procurado" (o seu último filme) serão os primeiros. Haverá mais nos outros períodos escolares.

Eis a primeira lista de prazeres, espero eu.

  • O Pecado Mora ao Lado (1955). Billy Wilder, um dos grandes mágicos da história de Hollywood. Com Marilyn Monroe. Quatro anos depois fez com ela o que eu considero a melhor comédia da história do cinema - "Quanto Mais Quente Melhor". Aqui é a esplendorosa loura sujeita a uma onda de calor em Nova York e às investidas pecaminosas do vizinho casado, acidentalmente sozinho em casa, na crise dos sete anos de casamento. A hipocrisia do status quo gerida magistralmente pelo mestre. A nossa homenagem a Marilyn Monroe no ano do seu centenário.
  • Jogos de Prazer (1997). Paul Thomas Anderson, um dos cineastas contemporâneos mais relevantes, autor do portentoso "Magnólia" que veremos no segundo período. Aqui é o mundo da pornografia, na sua época de ouro - anos 70. No berço de ouro da Califórnia, uma bela história de ganância e egoísmo. Um filme de referência da década de 90, com um leque alargado de bons actores, nomeadamente Philip Seymour Hoffman, que naqueles anos foi ganhando um lugar de referência no cinema americano.

  • Através da Noite (1999). Woody Allen no seu melhor. Questionável no seu quadro familiar (histórias afectivas pouco claras, ódios e ressentimentos nebulosos), é incontestável como criador - argumentista e realizador e, muitas vezes, actor.  Neste filme, pequena preciosidade, W. Allen presta homenagem ao grande guitarrista de jazz, o cigano belga Django Reinhardt, e aos anos trinta. Um músico genial, mas arrogante e mulherengo, que encontra uma mulher muda. O som e o silêncio. Sean Penn imparável e brilhante nesta comédia agridoce. 

  • Scarface (1983). Brian de Palma, um dos cineastas americanos mais importantes das décadas de 70 e 80 (um claro e assumido fascínio pelo cinema de Hitchcock), fez uma versão actualizada de um dos filmes mais conhecidos do cinema dos anos 30, feito pelo grande Howard Hawks (havemos de ter um dos seus clássicos mais à frente), que com ele estabeleceu a matriz temática e dramática dos filmes de gangsters. Nesse tempo, Al Capone foi a referência para o anti-herói. Agora, é um refugiado cubano que, em Miami, cria um império a partir do negócio do narcotráfico e da ausência de escrúpulos. Al Pacino com uma interpretação arrebatadora no feroz gangster.

  • A Árvore dos Tamancos (1978). Ermano Olmo constrói de forma quase documental uma história saída do fundo do tempo no universo agrícola de Bérgamo, Itália, no fim do século XIX. A vida comunitária como há séculos, num universo neo-realista e poético. Tão diferente, mas tão genuíno. A antropologia sob a forma de cinema. Cannes reconheceu isso e deu-lhe a Palma de Ouro.

  • O Homem mais Procurado (2014). John Le Carré cruzado com Philip Seymour Hoffman. Um belo filme de Anton Corbijn (um realizador muito ligado ao universo musical - rock and roll e pop). Uma ficção que é cada vez mais realidade no quadro alucinado do mundo em que vivemos. Islamismo. Terrorismo. Emigração. Polícias secretas. Europa versus EUA. Espionagem e suspense, o universo de referência do grande escritor inglês, com uma bela adaptação cinematográfica.

  • A Piscina (1969). Jacques Deray. Um cineasta francês de rotina. Pouco a ver com a revolução (nouvelle vague) dos seus contemporâneos Godard,  Truffaut, Rivette, Chabrol e outros. Mas desta vez saiu-lhe a sorte grande. O filme ficou no nosso imaginário e os corpos da Romy Schneider e do Allain Delon. Escreveu Deray: "É antes de mais uma história de amor, de um amor em estado de crise. Tínhamos dois casais: um amante-amante, o outro pai-filha. Durante três dias jogam o jogo do amor e da mentira. E esse jogo conduz a um homicídio." "A Piscina" voltou agora ao grande público. Passados todos estes anos. Merecidamente.

  • Verão de 42 (1971). Robert Mulligan. Verão. Férias. Os EUA finalmente em guerra contra os nazis e os japoneses. Numa praia um grupo de miúdos à procura de novas sensações, à descoberta da vida - as mulheres, o sexo. Um deles deriva. Encontra uma mulher mais velha, em ausência de afectos, com medo do futuro. Recém casada, o marido está na guerra. A aproximação é mútua mas desigual. Paixão platónica. Bela, sensível e bucólica história. Música belíssima.

  • A Desaparecida (1956). John Ford excelso. John Wayne denso. Texas. América profunda, após a guerra civil. Comanches. Ataque a um rancho. Matam os pais e raptam as duas filhas. Matam a mais velha e levam a outra para a tribo. Durante cinco anos o tio (regressado da guerra) busca incansavelmente a jovem no deserto. Ódio e obsessão alimentam a sua energia. No fim regressa com ela. Será que ela queria? Uma obra prima inquestionável.

  • A Primeira Noite (1967). Mike Nichols - "Artigo 22" - outra vez revisitado. Um jovem recém licenciado regressa a casa de férias. Tímido e inexperiente. Tem tudo de bom à espera. O aconchego da família, um carro desportivo...e Mrs. Robinson, a mulher do casal amigo dos pais. "Mrs. Robinson, you are trying to seduce me?." E seduziu mesmo. Uma história de afectos, traições e equívocos. Com a música imortal de Simon & Garfunkel. Dustin Hoffman, em estreia, e Anne Bancroft. Vale a pena rever de tantos em tantos anos.

  • O Clube dos Poetas Mortos (1989). Peter Weir, um óptimo cineasta australiano ("Piquenique em Hanging Rock") acertou na mouche com esta história forte. 1959. Um colégio americano de élite. Rígido, conservador, quase uma instituição militar. Um professor de inglês - enorme prestação de Robin Williams - inconformista, carismático, fora da caixa, desencadeia uma "revolução pela poesia" entre os jovens estudantes. Carpe diem (aproveita o dia). Nada voltará a ser como antes. A versão teatral está em exibição no Teatro da Trindade. Aproveitem a coincidência.

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