05 outubro 2026

O Pecado Mora ao Lado (1955) - Billy Wilder

Com Marilyn Monroe, Tom Ewell.
Duração: 1h45m 

A meio dos anos cinquenta  vivia-se na América uma vida pulsante, positiva, entusiástica e consumista. Todos os valores e práticas da sociedade da abundância estavam em consolidação. Tudo corria sobre rodas, com uma pulsação de desenvolvimento e afirmação imparável.

As feridas da Segunda Guerra Mundial estavam a sarar e a Guerra da Coreia também já lá ia, embora tenha deixado marcas profundas. A Guerra Fria, com uma lógica dual - nós ou eles - já minava o mundo há uns anos. A tragédia do Vietname viria uns anos depois.

Dinâmicas sociais ascendentes, novos usos e costumes, as comodidades e os gadgets, com a televisão a tornar-se gradualmente um instrumento  omnipresente em todos os lares, uma espécie de prolongamento do corpo e alma de cada cidadão, uma plaina arrasadora de diferenças e particularidades.

Manhattan, Nova York. Richard Sherman (Tom Ewell), um bem sucedido quadro numa editora de livros populares, fica sozinho em casa por uns dias. A mulher vai de férias para a praia com o puto lá de casa, no Maine, estado americano na costa ocidental, quase a entrar no Canadá.

Por cima da casa deles vive desde há pouco uma jovem (Marilyn Monroe), modelo, bonita, espampanante e com muita facilidade de relacionamento. Nunca viremos a saber o nome dela.

Uma onda de calor abrasadora abateu-se sobre a cidade. A pré disponibilidade para o pecado é maior. As hormonas em ebulição podem fazer das suas.

Dois vizinhos sozinhos. O encontro é inevitável. A queda de um vaso com tomates, acidente estúpido, que podia ter tido consequências graves, leva ao encontro. Um copo na casa de Richard. Muita conversa. Música. 

Acontece o previsível. As atribulações de um homem de meia idade. Richard entra em ebulição. Tinha uma imaginação fértil e algo delirante, vivia num permanente diálogo entre o desejo e a proibição. Pesadelos. Delírios. Sedução e infidelidade na sua cabeça. Fantasias eróticas. Culpa.  A comichão dos sete anos de casado ("The Seven Year Itch" é o título original do filme). Na verdade, o pecado morava em cima e não ao lado.

A partir das atribulações de Richard, com a sexualidade desgovernada como um puto iniciático, Billy Wilder construiu uma sátira requintada com um olhar implacável, lúcido, mordaz e ácido sobre os códigos de conduta moral e sexual da América e os sinuosos caminhos da repressão matrimonial.

Mas o Código Hays, que funcionava como uma malha espartana para Hollywood, ainda estava vigente e em força. O assunto era demasiado sensível para a mente quadrada da máquina da censura. A peça de teatro que deu origem ao filme, de George Axelrod, tinha sido um sucesso na Broadway. As situações eram mais picantes e os dois vizinhos tinham mesmo pecado (pelos padrões judaico-cristãos). No quadro moralista da América daquelas décadas, a Broadway funcionava com matrizes comportamentais muito mais abertas e permissivas.

Billy Wilder contornou, com grande criatividade, os impedimentos moralistas estúpidos do Código, refazendo diálogos e reescrevendo cenas, mesmo se o autor da peça original se tenha queixado a posteriori de desvios e traições ao texto original. Problema dele. O resultado foi uma obra-prima que, passadas tantas dezenas de anos, se vê com o mesmo prazer da estreia.

Os diálogos são espirituosos. As situações são muitas vezes hilariantes.

A célebre sequência no respiradouro do metro ficou para a história do cinema e no imaginário do século XX - cena icónica (com regularidade ainda é reproduzida, citada ou glosada, nomeadamente em publicidade - veja-se um anúncio ao Novobanco a passar atualmente na televisão portuguesa). 

Dizem as crónicas da altura que esta sequência desencadeou o ponto final no casamento já então muito tremido entre Marilyn e o seu marido de então, o célebre Joe DiMaggio, estrela idolatrada do basebol, herói americano, nessa altura já retirado, tinha acabado a carreira em 1951. 

DiMaggio, que assistiu às filmagens, não terá gostado nada da forma como Billy Wilder fez a exposição do corpo dela ao mundo, daquela forma tão despudorada e ao mesmo tempo tão inocente, e foi à sua vida. 

Mais tarde o último marido, o também célebre dramaturgo Arthur Miller ("A morte de um caixeiro viajante"), também iria à sua vida após cinco anos de casamento. Coitada da Marilyn.

Só para referência,  Arthur Miller escreveria uns anos mais tarde (1961) "Os Inadaptados" que  John Huston filmaria com Marilyn Monroe e Clarke Gable. Foi o último filme que ambos fizeram. Gable morreu uns meses depois, de doença e velhice. Marilyn, morreu (suicídio? homicídio?) um ano depois.

George Axelrod era essencialmente um escritor de rádio e televisão, então ainda um brinquedo em aperfeiçoamento onde aconteciam coisas interessantes. Escreveu muito para a televisão, mas também para a Broadway. Acabou por se cruzar com o cinema, tendo escrito e produzido alguns filmes importantes além deste, nomeadamente "Boneca de Luxo" (1961) de Blake Edwards, com Audrey Hepburn,  a partir de Truman Capote e "O Candidato da Manchúria" (1962) de John Frankenheimer, um thriller intenso no contexto da Guerra Fria.

Billy Wilder já é cá da família. Cineasta maior da história de Hollywood, teve uma carreira longa e brilhante. Jovem argumentista na Áustria e Alemanha, foi obrigado a fugir à besta nazi e acabou por chegar à América. Para trás ficaram familiares (nomeadamente a mãe) que acabaram mortos nos campos de concentração.

Da sua ampla obra, com muitos filmes brilhantes, há dois incontornáveis (já aqui passaram): "Quanto Mais Quente Melhor" (1959) com o trio irresistível Marilyn Monroe, Jack Lemmon e Tony Curtis. É iconográfica a última sequência: "Well, nobody is perfect". 

"O Crepúsculo dos Deuses", (1950) com Glória Swanson, a grande deusa do cinema mudo a viver num quadro de alienação acolitada pelo enigmático realizador/actor Erich Von Stroheim. Um filme incrível sobre a magia  e o fingimento no cinema.

Este filme foi mais uma jóia para a consagração de Marilyn Monroe. A partir daí consolidou o  estatuto de diva, movie star, passou a andar pela passadeira vermelha,  despertando paixões por todo o mundo. Morreu nova, mas continua a ser um foco de luz no nosso imaginário.

Tom Ewell, o seu parceiro, foi daqueles actores americanos que fez muitos filmes e muita televisão, actor secundário seguro, pau para toda a obra. "O Pecado Mora ao Lado" deu-lhe alguma visibilidade e foi o pico da sua carreira.

Com estes dados como resistir ao encontro? Se não vierem ver o filme, o João Bénard da Costa que infelizmente já está no céu (certamente na Cinemateca lá do sítio a rever os filmes da sua diva predilecta) chamar-vos-á nomes, ele para quem a Marilyn Monroe era a essência da divindade (cinematográfica).

01 outubro 2026

Programação para o 1º período

"O tempo, esse grande escultor" é o título de um livro da grande Marguerite Yourcenar. Quem dela nunca leu "As Memórias de Adriano" perdeu um grande prazer. Ainda estão a tempo de recuperar. Se calhar até há na Biblioteca. (Nota da Biblioteca: Há mesmo! Ver aqui.)

Vamos continuar a circular pelo nosso tempo. Anos 60 para a frente. Nova temporada. Nova viagem. O carrocel do nosso imaginário em movimento. Mais um leque de filmes que são  incontornáveis ou referenciais nas últimas décadas. 

De Hollywood à Europa. Escolha sempre relativa. Tantas hipóteses. Porque não aquele filme que vi no "444" à meia-noite? Resistiu ao tempo? Ah, a impressão com que fiquei quando vi aquele outro filme, no "Satélite", há trinta e tal anos. E daquela vez que fui ao "Monumental"? As coboiadas no "Cinema Jardim"? E o "Quarteto", do Pedro Bandeira Freire? Etc. Etc. A passagem do tempo vai relativizando as coisas. Mas mesmo as decepções são interessantes. Já vivemos mais, já acumulámos novas experiências e saberes. É a vida.

Quando se começa com o vestido da Marilyn Monroe a voar pelas suas pernas acima (o Billy Wilder era um requintado perverso, cheio de ironia) e termina com a poesia como leitmotiv da revolução interior no colégio, orquestrada pelo Robin Williams, tudo pode acontecer.

O que vai certamente acontecer é que vamos ver alguns filmes com o Philip Seymour Hoffman - actor genial que infelizmente morreu cedo - por sugestão do Paulo Folgado, o incomparável gestor das informáticas, disponível a cem por cento. Muito obrigado. "Jogos de Prazer" e "O Homem mais Procurado" (o seu último filme) serão os primeiros. Haverá mais nos outros períodos escolares.

Eis a primeira lista de prazeres, espero eu.

  • O Pecado Mora ao Lado (1955). Billy Wilder, um dos grandes mágicos da história de Hollywood. Com Marilyn Monroe. Quatro anos depois fez com ela o que eu considero a melhor comédia da história do cinema - "Quanto Mais Quente Melhor". Aqui é a esplendorosa loura sujeita a uma onda de calor em Nova York e às investidas pecaminosas do vizinho casado, acidentalmente sozinho em casa, na crise dos sete anos de casamento. A hipocrisia do status quo gerida magistralmente pelo mestre. A nossa homenagem a Marilyn Monroe no ano do seu centenário.
  • Jogos de Prazer (1997). Paul Thomas Anderson, um dos cineastas contemporâneos mais relevantes, autor do portentoso "Magnólia" que veremos no segundo período. Aqui é o mundo da pornografia, na sua época de ouro - anos 70. No berço de ouro da Califórnia, uma bela história de ganância e egoísmo. Um filme de referência da década de 90, com um leque alargado de bons actores, nomeadamente Philip Seymour Hoffman, que naqueles anos foi ganhando um lugar de referência no cinema americano.

  • Através da Noite (1999). Woody Allen no seu melhor. Questionável no seu quadro familiar (histórias afectivas pouco claras, ódios e ressentimentos nebulosos), é incontestável como criador - argumentista e realizador e, muitas vezes, actor.  Neste filme, pequena preciosidade, W. Allen presta homenagem ao grande guitarrista de jazz, o cigano belga Django Reinhardt, e aos anos trinta. Um músico genial, mas arrogante e mulherengo, que encontra uma mulher muda. O som e o silêncio. Sean Penn imparável e brilhante nesta comédia agridoce. 

  • Scarface (1983). Brian de Palma, um dos cineastas americanos mais importantes das décadas de 70 e 80 (um claro e assumido fascínio pelo cinema de Hitchcock), fez uma versão actualizada de um dos filmes mais conhecidos do cinema dos anos 30, feito pelo grande Howard Hawks (havemos de ter um dos seus clássicos mais à frente), que com ele estabeleceu a matriz temática e dramática dos filmes de gangsters. Nesse tempo, Al Capone foi a referência para o anti-herói. Agora, é um refugiado cubano que, em Miami, cria um império a partir do negócio do narcotráfico e da ausência de escrúpulos. Al Pacino com uma interpretação arrebatadora no feroz gangster.

  • A Árvore dos Tamancos (1978). Ermano Olmo constrói de forma quase documental uma história saída do fundo do tempo no universo agrícola de Bérgamo, Itália, no fim do século XIX. A vida comunitária como há séculos, num universo neo-realista e poético. Tão diferente, mas tão genuíno. A antropologia sob a forma de cinema. Cannes reconheceu isso e deu-lhe a Palma de Ouro.

  • O Homem mais Procurado (2014). John Le Carré cruzado com Philip Seymour Hoffman. Um belo filme de Anton Corbijn (um realizador muito ligado ao universo musical - rock and roll e pop). Uma ficção que é cada vez mais realidade no quadro alucinado do mundo em que vivemos. Islamismo. Terrorismo. Emigração. Polícias secretas. Europa versus EUA. Espionagem e suspense, o universo de referência do grande escritor inglês, com uma bela adaptação cinematográfica.

  • A Piscina (1969). Jacques Deray. Um cineasta francês de rotina. Pouco a ver com a revolução (nouvelle vague) dos seus contemporâneos Godard,  Truffaut, Rivette, Chabrol e outros. Mas desta vez saiu-lhe a sorte grande. O filme ficou no nosso imaginário e os corpos da Romy Schneider e do Allain Delon. Escreveu Deray: "É antes de mais uma história de amor, de um amor em estado de crise. Tínhamos dois casais: um amante-amante, o outro pai-filha. Durante três dias jogam o jogo do amor e da mentira. E esse jogo conduz a um homicídio." "A Piscina" voltou agora ao grande público. Passados todos estes anos. Merecidamente.

  • Verão de 42 (1971). Robert Mulligan. Verão. Férias. Os EUA finalmente em guerra contra os nazis e os japoneses. Numa praia um grupo de miúdos à procura de novas sensações, à descoberta da vida - as mulheres, o sexo. Um deles deriva. Encontra uma mulher mais velha, em ausência de afectos, com medo do futuro. Recém casada, o marido está na guerra. A aproximação é mútua mas desigual. Paixão platónica. Bela, sensível e bucólica história. Música belíssima.

  • A Desaparecida (1956). John Ford excelso. John Wayne denso. Texas. América profunda, após a guerra civil. Comanches. Ataque a um rancho. Matam os pais e raptam as duas filhas. Matam a mais velha e levam a outra para a tribo. Durante cinco anos o tio (regressado da guerra) busca incansavelmente a jovem no deserto. Ódio e obsessão alimentam a sua energia. No fim regressa com ela. Será que ela queria? Uma obra prima inquestionável.

  • A Primeira Noite (1967). Mike Nichols - "Artigo 22" - outra vez revisitado. Um jovem recém licenciado regressa a casa de férias. Tímido e inexperiente. Tem tudo de bom à espera. O aconchego da família, um carro desportivo...e Mrs. Robinson, a mulher do casal amigo dos pais. "Mrs. Robinson, you are trying to seduce me?." E seduziu mesmo. Uma história de afectos, traições e equívocos. Com a música imortal de Simon & Garfunkel. Dustin Hoffman, em estreia, e Anne Bancroft. Vale a pena rever de tantos em tantos anos.

  • O Clube dos Poetas Mortos (1989). Peter Weir, um óptimo cineasta australiano ("Piquenique em Hanging Rock") acertou na mouche com esta história forte. 1959. Um colégio americano de élite. Rígido, conservador, quase uma instituição militar. Um professor de inglês - enorme prestação de Robin Williams - inconformista, carismático, fora da caixa, desencadeia uma "revolução pela poesia" entre os jovens estudantes. Carpe diem (aproveita o dia). Nada voltará a ser como antes. A versão teatral está em exibição no Teatro da Trindade. Aproveitem a coincidência.

O Pecado Mora ao Lado (1955) - Billy Wilder

Com Marilyn Monroe, Tom Ewell. Duração: 1h45m  A meio dos anos cinquenta  vivia-se na América uma vida pulsante, positiva, entusiástica e co...