Duração: 122 min
Elia Kazan a emparceirar
com F. Scott Fitzgerald. Um dos cineastas mais reconhecidos da história do
cinema - lá iremos - e um dos escritores americanos mais conhecidos do grande
público, ainda que a sua obra não tenha sido muito ampla. Mas quem não leu ou
não conhece "O Grande Gatsby"? E "Terna é a Noite"? Ou
" Este Lado do Paraíso"? Os bons velhos tempos da jazz age. Escreveu
bastantes contos (para sobreviver), e andou por Hollywood a escrever para o
cinema e a embebedar-se, que era uma sua especialidade não literária. O mundo
do cinema, e as suas personagens, deram-lhe inspiração para alguma da sua
ficção, nomeadamente para o último romance que não acabou - morreu com quarenta
e tal anos - " The Love of the Last Tycoon" mas que foi completado por
Edmund Wilson, amigo escritor, a partir de notas e apontamentos deixados.
Teve uma vida complicada.
Decadentismo, excentricidades, alcoolismo, a mulher Zelda (também escritora)
com graves problemas psiquiátricos (esquizofrenia) e uma certa errância. Muito
do material dramático usado nas suas ficções era apropriado da sua vivência
tumultuosa e instável com a mulher.
O tycoon (magnata, rico,
poderoso, quero, posso e mando) da ficção vestia a pele de um personagem real
de Hollywood daqueles tempos heróicos, que deixou escrita para a história do
cinema páginas inapagáveis: Irving Thalberg (senhor todo-poderoso da MGM, mas
começou na Universal). Produtor entre 1921 e 1936 (fez a ponte complicada do
mudo para o sonoro), morreu de tuberculose com 37 anos, mas deixou uma marca
profunda em todo o sistema de produção de Hollywood. Era chamado o 'wonder boy
' de Hollywood. Pois o Fitzgerald, que certamente se cruzou muitas vezes com
ele nos estúdios, palcos, bares e mansões opulentas de Hollywood, tomou-o como
modelo do seu personagem Monroe Stahr.
Elia Kazan. Basta três ou quatro
títulos para o identificar, mesmo fora do mundo da cinefilia: 'Um Eléctrico
Chamado Desejo', 'Há Lodo no Cais', 'A Leste do Paraíso ', 'Esplendor na
Relva'. Nós próprios já nos cruzámos com ele aqui.
O Kazan (que, já em pré-reforma,
se tornou romancista) terminou a sua carreira cinematográfica com este filme
(antes do cinema tinha sido um notável encenador teatral em Nova Iorque).
Hollywood foi a sua casa durante décadas, conhecia como poucos o seu glamour e
a sua podridão, os seus heróis e a sua miséria. Ele próprio não se saiu bem do
episódio mais degradante da história do cinema americano - denunciou colegas na
purga Mccarthista dos anos 50. Nobody is perfect, como dizia o personagem do
filme do Billy Wilder, mas o Kazan foi demasiado imperfeito.
Nada no livro lhe era
desconhecido, trunfo adicional para a conceção do filme. Apesar de meio
retirado, o seu nome ainda era respeitável no sistema. Conseguiu reunir um
grupo alargado de atores notável. Um elenco de luxo. Uns vindos lá de trás, dos
bons velhos tempos (Ray Milland, Tony Curtis, Robert Mitchum), outros já na
liderança dos novos tempos de Coppola,
Scorsese e Spielberg (Robert de
Niro, Jack Nicholson). E até a francesa Jeanne Moreau aterrou em Hollywood para
servi-lo.
Mas antes disso ainda contou com
o Harold Pinter para lhe escrever o argumento a partir do livro. Que luxo.
Dramaturgo excelentíssimo no teatro inglês, com sucesso nas grandes capitais
mundiais e também com traquejo de argumentista a partir de outros escritores
("A amante do Tenente Francês", por exemplo). Mais tarde (2005)
Harold Pinter foi Prémio Nobel da Literatura e, por esses tempos, um pacifista
politicamente controverso, com posições nem sempre compreensíveis.
Anos 30. Hollywood. Estúdio de
cinema. Sequência a preto-e-branco. Filme de gangsters. Um assassinato em
grande estilo. São as rushes (material filmado em bruto) das filmagens daquele
dia. O grande produtor Monroe Stahr vai tomar decisões, o que cortar, o que
refilmar, o que alterar no guião. Era o senhor absoluto. A ele tudo chegava,
tudo ele decidia. Mas era um homem solitário. Vivia no vazio. A mulher tinha
sido uma grande estrela do cinema, mas morreu jovem. Vivia da memória dela,
fascínio mais criado no seu imaginário do que alimentado pelo que tinha sido a
vida em comum.
Um encontro acidental no estúdio
com uma jovem desconhecida desperta-lhe o passado. A sósia da mulher morta,
torna-se fixação. Jogo perigoso e dúbio de aproximação/afastamento. A jovem
misteriosa vai e vem numa indecisão gerada pelo medo. A vida dele é o estúdio,
ela percebeu. Acaba por sair em segurança, casando com um terceiro.
No fim, o grande produtor, o rei
e senhor daquele mundo de sonhos embalados em celulóide, onde as
idiossincrasias pessoais são inchadas, arrasta-se pelos estúdios delirante:
"não te quero perder". Engolido pelo silêncio escuro do estúdio, o
seu poder omnipotente transmutou-se no vazio.
A sua vida é como a sua casa em
construção. Falta o telhado.
Saída do mundo do cinema em grande de um enorme criador. Prazer para nós com esta história que é também uma belíssima ilustração do cinema naqueles anos de construção de Hollywood (década de 30). É o star system em formação, a bipolarização New York (dólares) / Los Angeles (filmes), os produtores deus ex-machina, a organização industrial da produção nos estúdios, os sonhos feitos e desfeitos de milhares de jovens candidatos a estrelas.
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