29 abril 2026

Uma Vida Difícil, de Dino Risi (1961)

Uma Vida Difícil - Dino Risi. C/Alberto Sordi, Léa Massari. 113m. 1961
 
Commedia all'italiana. A comédia italiana. Uma designação, um título, uma marca, que funcionou durante anos - nas décadas de 50, 60 e 70 - como uma espécie de selo de identidade de uma determinada forma de o cinema "ler" a sociedade italiana na multiplicidade das suas facetas, na diversidade dos seus quadros políticos e sociais, nas contradições dramáticas ou risíveis e na variedade dos seus comportamentos. Em múltiplos filmes - muitos deles verdadeiras obras-primas e muitos outros uma chachada - o cinema italiano criou sátiras cruéis sobre os vícios sociais da Itália no processo do milagre económico do pós-guerra, com humor negro e ironia, a farsa e o grotesco a invadirem o ecrã, em tom agridoce e registo tragicómico. Verdadeiras sessões psicanalíticas colectivas sobre a sociedade italiana.

A Itália na montra, em exposição, sem filtros nem cortinas, despida, nua. Um dos filmes de referência da comédia italiana, também feito em 1969 pelo Dino Risi, chamava-se precisamente "Vejo tudo nu". Não houve tema, temática, instituições e ideias que não tenham sido abordados pelo cinema nesta altura: a família, o aborto, a igreja, o Estado, a política, as polícias, a universidade, os tribunais...

O período que vai da guerra até ao fim dos anos 60 é riquíssimo na história contemporânea de Itália: o fim do fascismo, a transição da monarquia para a república após referendo em 1946, o poder continuado da democracia cristã e a instalação do PCI como força política pertinente nas cinturas industriais e intelectualmente poderosa nos círculos culturais.

Este é o contexto de "Uma Vida Difícil".

Libertação da Itália depois da morte de Mussolini. Fim da guerra. Silvio (Alberto Sordi), comunista de alma e coração, idealista,  que tinha sido partiggiani (membro da resistência italiana), regressa a Roma. Consegue emprego, mal pago, como jornalista num jornal do partido. Mais tarde reencontra Elena (Léa Massari) que o tinha salvo de ser fuzilado por um soldado alemão e por quem se tinha apaixonado. Casam, mas tudo corre mal. O dinheiro é curto e a convicção política enorme. Gradualmente começam os conflitos. Obviamente tudo rebenta pelas costuras. Por entre a amargura e a angústia, o casamento entra em ruptura.

Silvio é preso, envolvido num caso dúbio de suborno e difamação por um poderoso Commendatore a partir dos artigos vitriólicos que publica, e acusado por perturbação pública aquando da tentativa de assassinato de Togliatti, o líder do PCI, em 1948. Escreve um romance autobiográfico (que não consegue publicar) que tenta vender para ser passado a filme e aí temos uma das várias sequências antológicas com a visita aos estúdios da Cinecittà onde se vai cruzando com vedetas do cinema, vendedores de sonhos - Vittorio Gassman, Silvana Mangano e Alessandro Blasetti (realizador de referência vindo do cinema mudo) - a prestarem-se ao cameo.

No arco temporal de quinze anos, Silvio vai perdendo a virgindade em relação à vida. A sua fidelidade a princípios morais, políticos e sociais vai-se debatendo com a incompreensão, o fracasso e a infelicidade. A amargura e a dignidade patética vão cedendo o lugar à lucidez e à consciência do eu. Mas não consegue fugir às confusões, trabalhando como secretário faz-tudo para um rico. Recupera o amor de Elena. Uma vitória que a priori não era previsível. O optimismo nem sempre finalizava a comédia italiana. Mas provavelmente os problemas voltam a acontecer logo que o casal sai orgulhoso da festa dos ricos, religiosos e poderosos. 

Com a passagem do tempo e o desenvolvimento da ficção a serem pontuados pelos títulos dos jornais (como em "Rocco e Seus Irmãos" do Visconti a história é organizada pelo nome de cada irmão), no universo superlativo criado por Dino Risi há algumas sequências soberbas. Para além da visita à Cinecittà, lembro mais três. O jantar no dia do referendo, na casa de uma família aristocrática, espelho da Itália velha, podre, bafienta, em vias de ser expulsa da História. O nosso herói, frustrado, bêbado, na estrada cuspindo para os carros, gesto paroxístico de desespero. O funeral da sogra. Silvio aparece num carrão exibindo uma falsa ostentação (o carro era do patrão e tinha sido desviado). O espanto dos aldeões é como se fosse um velho filme cómico mudo.

Alberto Sordi faz um personagem espantoso. Um homem cheio de ideais que não consegue gerir. Peripatético no seu idealismo deslocado. Cómico e trágico ao mesmo tempo.

Dino Risi é um nome incontornável do cinema europeu. Começou em 1950 e filmou até aos anos 90. Teve uma carreira fértil, deixou um conjunto de obras-primas e filmou com os melhores actores e actrizes - só com Vittorio Gassman fez 16 filmes. Alguns analistas escreveram que foi "o pai da comédia italiana".

Mas a comédia italiana teve muitas e diferentes facetas e sensibilidades. A Dino Risi podem acrescentar-se - longe de se ser exaustivo - outros nomes: Mario Monicelli, Luigi Commencini, Pietro Germi, Vittorio de Sica, Ettore Scola...

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