Rocco e Seus Irmãos - Luchino Visconti. C/Alain Delon, Renato Salvatore, Annie Girardot, Claudia Cardinale. 1960. 2:54.
Luchino Visconti, o aristocrata comunista, o cineasta operático. Muitos outros selos identitários se lhe podem colar, mas basta considerar que foi um grande artista europeu do Século XX - cineasta e encenador.
Começou no cinema no pós-guerra, com "A Terra Treme" (1947), um espantoso documentário sobre os pescadores, mineiros e camponeses da Sicília, financiado pelo PCI, mas tinha aprendido, nos anos trinta, em França, com o mestre Jean Renoir. Em 1954 tinha feito o belíssimo "Senso" (que já vimos). Em 1963 fez o magnífico "O Leopardo" (também já vimos) e fez outros grandes filmes que são uma referência na nossa memória colectiva.
Em 1960 filmou "Rocco e Seus Irmãos", o seu sexto filme, que constituiu o seu primeiro sucesso de mercado e também crítico. História forte de incidência social e política, um retrato duro da Itália daquele tempo. Contrastes profundos. A Sicília e Milão. O sul e o norte. O campo e a cidade. O sub-desenvolvimento e a industrialização. "Drama realista marcado por um pessimismo dostoievskiano", como se escreve, e bem, num texto da Cinemateca Portuguesa.
A família Parondi. Rosario, uma viúva recente, e os seus cinco filhos. Com o filho mais velho já "emigrado", chega em bando lá do fundo miserável, medieval e violento da Itália, a Milão, espelho da dinâmica industrial e desenvolvimentista que o país foi, pouco a pouco, construindo após a guerra (houve quem lhe chamasse 'o milagre italiano'). O movimento migratório aconteceu naturalmente como em Portugal, por essa altura, (também do sul para o norte) com o Alentejo a "invadir" a margem sul do Tejo e a grande Lisboa, a chamada cintura industrial.
A família instala-se e cada membro incarna uma história, com sobreposições, contradições, invejas e conflitos. A procura de mão de obra industrial não era assim tão grande para uma oferta abundante e esfomeada vinda do campo. Nas franjas da sociedade, cada um dos irmãos tenta safar-se.
O boxe tinha o seu fascínio no meios proletários e no lumpen (constate-se o paralelismo com Portugal e a história do boxeur Belarmino, sobre quem o Fernando Lopes fez, em 1964, um magnífico documentário). A tragédia acontece naturalmente e a desintegração familiar é o resultado óbvio do choque com a grande cidade.
Dois irmãos e uma mulher, prostituta por necessidade. O amor nas margens da normalidade. A tragédia ao virar da esquina.
Não há direito ao sonho. Só o irmão mais novo, ainda uma criança, ousa pensar voltar às origens. É demasiado jovem. Ele não tem recordações do inferno que a família deixou. E também não sabe ainda que não há terra prometida.
À época a maioria das críticas ao filme na Europa decorriam de uma leitura excessivamente politizada, muitas vezes remetendo para os textos de teorização marxista de Gramsci em que toda a trama melodramática como que era codificada num âmbito mais alargado da luta de classes. Não é preciso irmos por aí. Fiquemos pelo melodrama no seu excesso épico e na violência dos actos. Mas não podemos alienar a conflitualidade social, as diferenças na condição humana, os desajustamentos vivenciais e a dinâmica social.
João Bénard da Costa, sempre analiticamente pertinente, escreveu num texto da Cinemateca Portuguesa: "A história dos cinco irmãos é a história de diferentes etapas na assunção da luta de classes: a passividade de Vincenzo, a perdição de Simone, o idealismo estéril de Rocco, a consciência crítica de Ciro e, finalmente, a caminhada de Luca para a terra prometida".
História poderosa, de amor e ódio, sobre códigos familiares em que o machismo intercala com o matriarcado, vindos lá do fundo dos tempos. Herança da estética neorealista num melodrama pungente.
Visconti sustentava cada projecto fílmico nos actores. Aqui temos o jovem Alain Delon na magnitude da sua presença, frágil mas convicto na defesa do espírito familiar e Annie Girardot, a grande actriz francesa, a ser a Nadia por quem os irmãos Simone e Rocco se perdem. Também há a Claudia Cardinale ainda muito nova, com um pequeno papel. Mas quem assume o eixo dramático daquela família em agitação é a mãe, interpretação superior da actriz grega Karina Paxinou, muito mais do teatro mas ganhando visibilidade quando chamada ao cinema. Faz o papel de mãe. Já a tínhamos visto uns anos antes (1943) em "Por Quem os Sinos Dobram", a partir de Ernest Hemingway.
Mas há mais estrelas no filme. Na fotografia o grande Giuseppe Rotunno, que filmou entre a Europa e Hollywood, fez nomeadamente "All that Jazz" para Bob Fosse. Nino Rota na música, valorizando dramaticamente as situações, com uma partitura quase paroxística. Seria o autor da maior parte das bandas sonoras dos filmes do Fellini (igualmente Rotunno foi parceiro criativo de Federico Fellini, para quem fez a fotografia de alguns dos seus clássicos) e fez a banda sonora de "O Padrinho" para o Francis Ford Coppola.
Rever este filme é, para além da fruição da sua inigualável qualidade ficcional e dramática, recordar, em certo sentido, por analogia, o nosso país naquele tempo cinzento e sem esperança. Felizmente houve o 25 de Abril.
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