24 maio 2026

Eva - Joseph L. Mankiewicz (1950)

Com Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Thelma Ritter, Celeste Holm, Marilyn Monroe.
Duração: 2h18m

1950. Ano de grande qualidade em Hollywood.

Dois filmes incontornáveis. Verdadeiras jóias da história do cinema.

"Sunset Boulevard" ("O Crepúsculo dos Deuses") de Billy Wilder, com a grande Gloria Swanson (já vimos).

Se este é um retrato impiedoso, mas lúcido, sobre Hollywood, em Los Angeles, o outro, "Eva" é o equivalente sobre o universo da Broadway, em Nova Iorque.

Cinema e teatro. Actores. O palco e os bastidores. Carreirismo e oportunismo. Conspirações. Egos à deriva. Competição. Rivalidade. Auge e decadência. Hipocrisia e fragilidade.

Sinopse. Eva Harrington (Anne Baxter), jovem, bonita, aspirante a actriz. Infiltra-se no camarim da diva do teatro Margo Channing (Bette Davis). Falsa inocente. Fala, fala e fala, conta histórias tristes de fazer chorar a calçada (mentiras, saberemos mais tarde). A estrela tem bom coração. Resolve ajudá-la. Protege-a. Contrata-a para a sua "entourage" pessoal.

Foi o pior que lhe podia acontecer. Eva vai-se infiltrando no universo íntimo da prima dona absoluta Margo. Conhece os amigos e amigas. Faz chantagem. Manipula. Não tem escrúpulos. O seu objectivo perverso é usar a grande dama como trampolim de ascensão. E consegue. Transforma-se em estrela que substitui a anterior. Uma espécie de transferência num ciclo repetitivo quase com um sentido biológico. O velho dá lugar ao novo. E assim sucessivamente. Tomou o lugar e a vida daquela que idolatrava. E, no fim, já outra candidata se aproxima.

Cito João Bénard da Costa: "A última imagem do filme mostra-nos Phoebe (Barbara Bates), com o casaco de peles de Eva Harrington e o "Sarah Siddons Award" na mão, avançando solenemente para um espelho com seis faces, seguida pela câmara que nos dá a ver as múltiplas imagens dela, distribuindo sorrisos e agradecendo imaginários aplausos." Fim.

Tudo é contado em flashback, a duas vozes. Addison DeWitt (George Sanders), um crítico teatral cínico e com muita vivência, e Karen Richards (Celeste Holm), mulher do dramaturgo amigo da estrela, vão contando as peripécias, expondo o jogo.

Tudo começa numa requintada, mas simultaneamente triste cerimónia, alguém lhe chamou um ritual necrófilo. Entrega do "Sarah Siddons Award", o prémio da melhor actriz de teatro do ano. A consagração de Eva como estrela teatral em ascensão.

Gradualmente vai-se conhecendo como tudo começou, se desenvolveu, quais os personagens envolvidos e os jogos de bastidores ocorridos. E as coisas não foram nada decentes. Na verdade, num jogo de pequenas e grandes hipocrisias, (quase) todos enganaram todos.

Grande recital de representação a quatro vozes femininas - Bette Davis, Anne Baxter, Celeste Holm e Thelma Ritter - fora as outras, femininas e masculinas. E George Sanders, esse actor genial a fazer papéis de canalha e de vilão. O Oscar assentou-lhe que nem uma luva. As palavras que saíam da sua boca, ainda que muitas vezes acertadas, às vezes, com a delicadeza do florete, feriam como facas.

Neste tabuleiro de grandes actrizes e actores, uma premonição. A personagem de Marilyn Monroe quase não entra na história, ela que confundia waiter com butler ou sable com Gable. A certa altura o crítico teatral atira-lhe "I can see your career rising east like the sun." ("Vejo a tua carreira a erguer-se a nascente, como o sol."). Da ficção para a realidade, assim aconteceu à actriz, para prazer de todos nós. Bastava "Quanto Mais Quente Melhor" de Billy Wilder, "O Pecado Mora ao Lado" também de Billy Wilder e "Os Homens Preferem as Louras" de Howard Hawks.

Já agora mais um desvio, uma informação curiosa. A magnífica Anne Baxter era neta de Frank Lloyd Wright, o grande arquitecto americano que marcou o século XX e também tem que ver com as memórias do cinema. Hitchcock, numa das suas obras-primas, "Intriga Internacional" (1959), usou como décor marcante para a ficção uma casa com um design futurista explicitamente inspirado na Casa da Cascata, um dos projectos realizados mais brilhantes daquele mestre.

Também King Vidor, outro dos grandes clássicos de Hollywood fez, em 1949, "Vontade Indómita" com Gary Cooper a fazer de arquitecto ousado nas ideias e conceitos, criado ficcionalmente a partir de Frank Lloyd Wright.

Já passámos os dois filmes.

"Eva" foi durante muitos anos uma referência maximalista dos prémios de Hollywood. Teve quatorze indicações para Oscar, acabando por ganhar seis, nomeadamente melhor filme, melhor realizador, melhor argumentista e melhor actor secundário (George Sanders). Surpreendentemente quer Bette Davis como Anne Baxter que tinham sido nomeadas para o Oscar de melhor actriz (algo anormal, no mesmo filme) acabaram por ir para casa de mãos a abanar.

Só muitos anos depois outro filme teria igual número de nomeações - "Titanic" (1997), de James Cameron.

Uma ficção que privilegia as palavras, com diálogos espantosos e sequências brilhantes. Mankiewicz era um mestre da escrita. Mas também um maravilhoso jogo de imagens, que se colam, se contradizem, se sobrepõem. Um filme superlativo.

Joseph L Mankiewicz (1909-1993). Uma das figuras de Hollywood clássico, juntamente com o irmão mais velho.

Este, Herman J. Mankiewicz (1897-1953), foi um dos grandes argumentistas do cinema americano (foi ele o parceiro de escrita de Orson Welles de "O Mundo a Seus Pés" e ganharam o Oscar).

Joseph, o irmão mais novo teve uma carreira multifacetada - produtor, argumentista e realizador - deixando para a história algumas preciosidades.

Como se escreve numa das enciclopédias de cinema de referência "...provou ser um dos mais inteligentes e refinados realizadores de Hollywood... privilegiando ficções com argumentos inteligentes e sagazes, muitas vezes com diálogos sarcásticos, extraindo dos seus actores performances maravilhosas.".

Além de "Eva", lembro mais alguns filmes dele.

Dois já vimos - "Júlio César" (1953), Marlon Brando no apogeu, e "Bruscamente no Verão Passado (1959), a partir de Tennessee Williams.

Mas não esquecer "A Condessa Descalça" (1954), Ava Garner e Humphrey Bogart, ou "O Americano Tranquilo" (1956), a partir de Graham Green (já vimos uma segunda versão e não é de deitar à rua).
E foi ele que pegou em "Cleópatra" (1963) - quando a produção estava a afundar - e o levou a bom porto, depois de muitas confusões, paragens, desistências, substituição de realizador e de actores, mudança de estúdio e birras e escândalos envolvendo as superstars Elizabeth Taylor e Richard Burton.

"Eva" resistiu ao tempo. As autoridades americanas consideram o filme cultural, histórica e esteticamente significativo e incluem-no nos cem filmes mais importantes da história do cinema. americano.

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