11 outubro 2026

Jogos de Prazer (1997) - Paul Thomas Anderson

Boogie Nights.webpCom Mark Wahlberg, Julianne Moore, Burt Reynolds, Philip Seymour Hoffman.
Duração: 2h33m

Comecemos pelo princípio, passe a redundância. Quero eu dizer, não pelo filme mas pelo realizador. E aqui digo ao que venho.

No panorama actual do cinema americano - em que impera, de um modo asfixiante, a cretinice e o infantilismo sob a forma das mais abstrusas ficções onde os efeitos especiais electrónicos são a normalidade e muitos filmes não passam de vídeojogos ampliados, restam poucos grandes criadores dos anos 70 e 80 (Spielberg e Scorsese, o Coppola já está retirado, parece) - temos que reconhecer algumas excepções, nomeadamente os irmãos Coen, Quentin Tarantino, Wes Anderson e Paul Thomas Anderson.

Agora é este último que nos interessa. A meio dos cinquenta, é um realizador com uma obra brilhante, um "autor" segundo o conceito histórico dos "Cahiers du Cinéma", isto é, um criador artístico e intelectual que projecta em cada filme que faz a sua identidade, como no seu tempo o fizeram Alfred Hitchcock, Howard Hawks, Fritz Lang, Nick Ray, Anthony Mann e mais uns poucos.

Temos que reconhecer que o sistema o tem tratado com consideração, pois já teve várias  candidaturas a Óscares (quatorze) e já foi premiado. O ano passado teve a consagração de Hollywood com "Batalha atrás de Batalha" com Leonardo Di Caprio. Seis Óscares, nomeadamente de melhor filme e melhor realizador. Sean Penn, teve o Óscar de melhor actor secundário, com a sua personagem de militar, imbecil e quadrado, absolutamente espantosa, daquelas interpretações que ficam para a vida. 

Lá para trás (1999) Anderson já tinha ganho o Festival de Berlim com o magnífico "Magnólia" que iremos ver no segundo período.

Em 2006 fez "Haverá Sangue" com um dos maiores actores do nosso tempo, Daniel Day-Lewis que, com ele, ganhou o Óscar de melhor actor. Day-Lewis já tinha ganho outros dois Óscares, com as suas interpretações em "O meu Pé Esquerdo" e em "Lincoln" de Spielberg.

Em "2012" Anderson fez outro grande filme sobre o mundo oculto, oportunista e perverso das seitas religiosas, com outro actor fabuloso - Joaquim Phoenix.

E agora o filme. "Boogie Nights"/ "Jogos de Prazer" foi o segundo filme de Paul Thomas Anderson (tinha vinte e sete anos) e teve logo três indicações para o Óscar.
Boogie nights, calão, gíria. Noites de dança e ritmo. Dancings. Animação nocturna. Imagem universal daquele universo sombrio - onde circulava a droga, o álcool e o sexo era um produto à mão e descartável - em agitação, em alienação.

O universo em análise é o mundo da pornografia. Retrato polimórfico do cinema pornográfico americano nos anos 70 (euforia) e 80 (queda).

Até nós tivemos eco disso quando após o 25 de Abril cá estrearam nas salas "normais" filmes como "Garganta Funda" com a  estrela do porno Linda Lovelace que, durante uns tempos, em pleno PREC, fizeram um certo bruaá, com ecos na imprensa e na vivência social. Depois, durante alguns anos, houve vários cinemas que se especializaram até o fenómeno naturalmente se desvanecer.

Califórnia, San Fernando Valley, a Hollywood do cinema pornográfico americano. Na verdade, uma extensão de Los Angeles, a vinte e tal minutos de carro. Foi aí que nasceu e cresceu Paul Thomas Anderson. Aquele universo, as suas personagens e as suas histórias, vivências, desgraças e pequenas mitologias, eram-lhe vizinhas e próximas, de tal modo que, aos dezoito anos, fez um  filme escolar (uma média metragem, como se fosse um documentário) que já abordava esse tema. "The Dirk Diggler Story" assim se chamava e a referência era o actor  pornográfico John Holmes, a superstar de San Fernando Valley. Morreu cedo, de sida.

Jack Hornet (Burt Reynolds) é um realizador de filmes hard core (ele chama-lhe exotic films), com a mania de que podia com eles criar arte quando na verdade era um medíocre artesão, mas um tipo simpático. Uma noite, numa discoteca (eram os anos do disco) encontra um jovem. Eddie Adams (Mark Wahlberg), assim se chamava ele, em pouco tempo passou de lavador de pratos em bar da moda a estrela da pornografia. Em rotura com o universo familiar, o sucesso bate-lhe à porta. Trunfo: as suas intumescências priápicas. Foi a realização do seu sonho americano. "I am a star" (referia-se a ele e ao seu sexo) dirá ele, lá mais para a frente. O estrelato. O dinheiro. A casa e os luxos domésticos. Os carros. Dirk Diggler é o nome de guerra adoptado (retomado do filme feito pelo realizador quando jovem). Depois é a rampa descendente - drogas, degradação, esquecimento. A solidão e a angústia. Ascensão e queda. Há saída? Se calhar, não.

Paul Thomas Anderson usa um leque de actores de elevada qualidade e até "ressuscitou" o canastrão Burt Reynolds que durante os anos 70 e 80 fez carradas de filmes medíocres, tipo meia bola e força, mas ganhou nos círculos da América profunda uma identidade icónica de símbolo sexual. Gostos não se discutem, mas podem-se rejeitar. No entanto tinha feito, em parceria com John Voigt, no princípio da década de 70 um dos filmes mais importantes daquela altura - "Deliverance" ("Fim de semana alucinante") de John Boorman, que já aqui vimos. O seu papel candidatou-o ao Óscar de melhor actor secundário.

No outro extremo temos Philip Seymour Hoffman, que era um actor habitual nos filmes de Paul Thomas Anderson,  eram amigos. Morreu precocemente. Entrou em cinco filmes dele, nomeadamente em "Magnólia". Um pequeno papel mas nunca neutro. Ele tinha a faculdade de "iluminar" o écran. O ano passado vimo-lo em "Perfume de Mulher" com o enorme Al Pacino.

Mark Wahlberg é o prostituto, o astro da pornografia. Andou pela música rap, com sucesso, e pela publicidade, tendo ficado conhecido do grande público internacional pelas campanhas das cuecas da Calvin Klein. Se calhar foi por isso que o realizador o escolheu. Não foi certamente por acaso que aparecem vários planos da personagem em cuecas. Já agora, Julianne Moore. "Actriz" e parceira do realizador, é uma mulher de duas faces (ou melhor de dois corpos), "actriz"  pornográfica e mulher frágil, triste, com problemas complicados para resolver. Foi candidata ao Óscar de melhor actriz secundária.

Boogie Nights é uma vasta tapeçaria de emoções e desilusões, sonhos e pesadelos. Narrativa polifónica, cruzamento de histórias e personagens (como em alguns filmes de Robert Altman - "MASH", recordam-se? -  de quem o autor se considera discípulo) onde a amoralidade impera e o exibicionismo é imagem de marca. Cada personagem é, á sua maneira, uma criança grande num mundo que mais parece um manicómio.

Paul Thomas Anderson domina como ninguém as técnicas de filmar. Preste-se atenção á sequência inicial - vários minutos com a câmara em movimento "perseguindo" algumas das personagens que vamos conhecer ao longo da ficção. 

Notas:
  1. O filme tem duas horas e meia... portanto considerem a compatibilidade com as vossas obrigações familiares.
  2. Se passasse na TV, o filme seria assinalado com aquela bola que adverte que algumas imagens podem ser eventualmente chocantes.
Sabem ao que vão! Somos todos crescidos.

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