18 outubro 2026

Através da Noite (1999) - Woody Allen

Com Sean Penn, Samantha Morton, Uma Thurman Duração: 95 m

Allan Stewart Konigsberg. Cidadão americano, judeu de Nova York. Quem? Ah! Woody Allen. Pronto. Estamos esclarecidos. Ouso afirmar que todos vós, tal como eu, viveram uma parte substancial das vossas vidas com os filmes dele, as suas neuroses e ansiedades, as suas fixações, as suas interrogações, as suas dúvidas, as suas actrizes, os seus actores, a psicanálise e muito, muito, mais.

Os filmes começaram por ser com ele - "O que há de novo, gatinha?"(1965) foi o primeiro filme em que participou, como actor (também escreveu o argumento, uma glosa divertida ao James Bond) - mas, desde 1969, com "O Inimigo Público", os filmes passaram a ser dele (realizador, argumentista e, muitas vezes, actor).

Mas, antes disso ele já tinha uma história rica como escritor, actor e animador, na televisão e nos palcos  com stand-up comedy. Tinha escrito com sucesso peças para a Broadway, artigos para a revista de elite intelectual "The New Yorker" e muitas short stories de forte sentido humorístico, publicadas em livros que tiveram edição nacional.

Seis décadas de cinema. Obra vasta - durante muito tempo fazia um filme por ano - e de qualidade. Mesmo os filmes menos bons são filmes a ver. Todos eles escritos por ele, muitas vezes de forma brilhante. Mais ligeiros ou mais densos, com um sentido de humor inteligente, às vezes abstruso e paródico, dramáticos outras vezes, são um complexo e riquíssimo mostruário do nosso tempo, dos nossos sonhos - os afectos, os amores, os desejos, as frustrações, os falhanços e os sucessos.

Só para lembrar, um pequeno grupo de grandes obras do Woody Allen: 

  • "Annie Hall" (1978)
  • "Manhattan" (1980)
  • "Hannah e as Suas Irmãs" (1987)
  • "Rosa Púrpura do Cairo" (1986)
  • "Maridos e Mulheres" (1993)
  • "Match Point" (2006)
  • "Blue Jasmine" (2013)

Woody Allen nasceu em Nova York (Brooklyn), onde sempre viveu e é o espaço natural das suas ficções. Só na parte final da sua obra, porque começou a ter problemas no financiamento das suas ficções, fez a ponte para a Europa, respondendo a incentivos turístico-culturais, chamemos-lhe assim. Algumas das suas ficções foram contextualizadas em cidades europeias. Barcelona, San Sebastian, Londres, Paris e Roma.

Está nesta altura a realizar em Espanha mais um filme, o cinquenta e um da sua obra, com patrocínios oficiais em nome da promoção turística espanhola.

A obra de Woody Allen (sempre exterior a Hollywood, mesmo se foi por várias vezes premiado pelo sistema) foi gradualmente ganhando uma identidade artística superior, de tal modo que é uma honra para as actrizes e actores serem convidados a entrar nos seus filmes, uma espécie de selo de qualidade. O mesmo acontece com Pedro Almodóvar. Aquando da estreia de "Natal Amargo", o seu último filme, um dos actores referia-se a isso. É altamente prestigiante para qualquer actor espanhol ser convidado pelo cineasta. 

Voltando ao conceito de autor dos "Cahiers du Cinéma", Woody Allen é um autor, auteur à francesa. Poliédrico. Mesmo quando não é ele a representar, há sempre um actor que é seu alter ego, o Woody Allen disfarçado.

Ephram Kate, em The Film Encyclopedia", escreveu: "He began his career as a comedian, humorist and playwright; he became one of America's most inventive and idiosyncratic filmmakers." 

Já agora, quando no texto anterior,  "Jogos de Prazer", listei alguns nomes do cinema americano que podemos enunciar como autores, não fui exaustivo. O Luís Mira, o meu amigo cinéfilo a quem devemos a maioria dos filmes que aqui vemos, lembrou-me mais uns nomes, uns mais outros menos dentro do sistema: Todd Haynes, Richard Linklater, Alexander Payne, David Fincher, Spike Lee, Christopher Nolan, Noah Baumbach, Michael Mann, John Carpenter, Abel Ferrara. Já vimos filmes de alguns, iremos ver de outros. Aqui fica a referência a alguns dos criadores que vão lutando contra a idiotização do cinema. 

Recorde-se que há pelo menos duas grandes actrizes (musas) que estão intrinsecamente associadas à obra de Woody Allen, primeiro Diane Keaton, com quem fez "Annie Hall" (quatro Óscares) e depois Mia Farrow (13 filmes,  sua parceira amorosa até à dolorosa ruptura com a lavagem da roupa suja. Shit happens).

Na fase final da sua obra, podemos igualmente referenciar Scarlett Johansson.

Woody Allen sempre manifestou admiração por alguns cineastas europeus. Ingmar Bergman é a referência suprema. Federico Fellini e Antonioni, François Truffaut e Alain Resnais são outros nomes, e mesmo Jean-Luc Godard.

Além de cineasta, Woody Allen tem alimentado o seu fascínio pela música americana dos anos 20, 30, 40, pelo cancioneiro criado basicamente na Broadway, e também pelo jazz primitivo de New Orleans. Com um grupo de músicos seniores, todas as segundas feiras, costuma(va) tocar clarinete no Michael's Pub em Nova York. Não sei se continua a tocar, já tem mais de noventa anos. 

Assim, não por acaso, a maioria dos seus filmes teve bandas sonoras com as grandes músicas americanas desses tempos áureos, de compositores como George Gershwin, Richard Rodgers, Cole Porter, Irving Berlin, Harold Arlen, Jerome Kern, etc. etc.

E pela música entramos no filme. Anos 30. Tempo do charleston, que já vinha da década anterior, da dixieland, do swing. Emmet Ray (Sean Penn), um músico, guitarrista brilhante. Mas a harmonia e a genialidade da sua música era contrastante com o seu modo de vida.

Tinha uma vivência caótica, conflituosa, arrogante e irresponsável, excêntrica (com fixações - os comboios e a caça aos ratos). Alcoólico, é proxeneta e cleptomaníaco, uma espécie de génio maldito. Sem eira nem beira. Sem raízes nem afectos. Deslocava-se de acordo com as solicitações de espectáculos. New Jersey, Chicago, Detroit, Hollywood.

Até que encontra uma mulher especial, Hattie (Samantha Morton), muda, tímida, humilde. Contraste. O som, exuberante, virtuoso, da guitarra e o silêncio envergonhado da mulher. O músico complicado e a rapariga simples. O que pode resultar dali? Passado algum tempo, desapareceu, fez-se à estrada. A vida dele não era compatível com a estabilidade, "I am an artist" justificava-se ele cheio de prosápia, o segundo melhor guitarrista do mundo, a seguir a Django Reinhardt, para ele o deus.

Encontra outra mulher, Blanche (Uma Thurman), sofisticada, com inclinações intelectuais (quer ser romancista) e, sem dar por isso, casou com ela. Outra história amorosa falhada, com gangsters pelo meio. Foi traído pela mulher. Desapareceu do universo musical sem se perceber como, assim uma nuvem de fumo esvaindo-se no espaço.

O "modelo" de Emmet Ray foi reconhecidamente Django Reinhardt, um dos nomes incontornáveis da música do século XX, guitarrista genial, com uma história pouco convencional. 

Nascido na Bélgica, em 1910, era cigano da etnia rom. Naqueles tempos em que a música jazz estava ainda a conquistar o seu lugar, mesmo na América, ele foi um pioneiro na Europa (há quem escreva que foi o pai do jazz europeu, seja lá isso o que for, e há quem a propósito até tenha escrito gipsy jazz). 

Teve uma vida um bocado caótica - nunca renegou a identidade gitana, os seus usos e costumes, com alguma pré disponibilidade para uma certa marginalidade - e está associado à formação do clube de jazz de referência na Europa nesses tempos heróicos, o Quintette du Hot Club de France, com outro grande músico, violinista, Stéphane Grappelli (tive o prazer de o ver - no Coliseu? - já velhinho mas sempre maravilhoso). 

Django Reinhardt até à sua morte (1953) tocou com muitos músicos gigantes, nomeadamente com Duke Ellington, Dizzy Gillespie e Coleman Hawkins, qualquer um deles nome relevante na história do jazz. Já agora, sem desfazer, o maior guitarrista da história do jazz é Wes Montgomery (JBP dixit).

Voltando a "Através da Noite". Foi extremamente feliz a forma como Woody Allen organizou os materiais da ficção. A partir de uma personagem inventada, uma biografia fantasiosa, ele constrói um falso documentário. Vários "especialistas" (incluindo ele próprio), que conhecem a história do guitarrista ou que com ele se cruzaram, vão fazendo os seus depoimentos que nem sempre coincidem ou são mesmo contraditórios. Houve zonas nebulosas, imprecisas, lá para trás, mas todos reconhecem a sua genialidade. 

É deliciosa toda a sequência da perseguição do guitarrista à mulher traidora e ao seu amante gangster. Três hipóteses de vingança, qual delas a mais fantasiosa. Na última até encontra o seu ídolo Django Reinhardt.

Pequena e belíssima preciosidade. Para os olhos e os ouvidos.

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