Hemingway
(1898-1961) e Espanha. Relação amorosa continuada, alimentada até ao último
suspiro. O livro derradeiro do grande escritor, antes de se despedir
voluntariamente da vida - enfiou com um balázio na cabeça - foi "O verão
perigoso". Touros, toureiros e touradas. Trabalho jornalístico de fôlego
para a revista americana "Life". Vários meses acompanhando o
"duelo" nas trincheiras entre Luis Miguel Dominguin e Antonio
Ordoñez, dois toureiros rivais, dos maiores da história da tauromaquia
espanhola. O fascínio do embate do homem com a besta, a linha difusa
entre a vida e a morte. A coragem e solidão do toureiro nas praças de
touros plenas da efervescência e fanatismo das multidões.
Vindo lá da
América profunda (Illinois), Hemingway tornou-se, no entanto, um homem do
mundo, fascinado pela Europa. Jovem aprendiz das letras, tinha andado pela I
Grande Guerra como motorista de ambulâncias da Cruz Vermelha (Itália). Passados
uns anos voltou à frente de batalha na Guerra Civil de Espanha (1936-39), como
correspondente de guerra. Pelo meio tinha vivido a década prodigiosa dos anos
20, em Paris, onde culturalmente tudo acontecia. Lá estavam (ou por lá
passavam) muitos jovens que marcaram a escrita do século XX - os americanos
Ezra Pound, Scott Fitzgeral e Gertrude Stein foram alguns desses.
O fascínio
das touradas e de Espanha já tinha apropriado a escrita do Hemingway com
"Fiesta" (1926). Mas a experiência vivida no confronto, na loucura
fratricida da guerra civil, foi de outra dimensão. O resultado, em termos
ficcionais, foi "Por quem os sinos dobram". Grande sucesso e
aclamação. Todos os referenciais da escrita de Hemingway lá estão explanados.
Economia de linguagem, palavra depurada, ausência de artificialismos, procura
de pureza de valores, decência e ética de comportamentos.
Peço
emprestada uma opinião a Amos Oz (esse grande escritor israelita que, se ainda
fosse vivo, estaria envergonhado e amargurado, com o que Israel está a fazer
aos palestinianos). Em "Uma história de amor e trevas", livro de
memórias, recorda: "Naquela época li quatro ou cinco vezes 'Por quem os
sinos dobram', de Ernest Hemingway, um romance cheio de mulheres fatais e
homens taciturnos, sem esperança, que escondiam uma alma de poeta atrás de uma
aparência dura."
Robert Jordan
(Gary Cooper), um americano já maduro de idade, é um especialista em
explosivos. É pressuposto pertencer às Brigadas Internacionais ("Por
vuestra libertad y la nuestra" era o seu grito de guerra), força
paramilitar que agregou os voluntários estrangeiros que lutaram do lado dos
republicanos na guerra civil (1936-38), cerca de quarenta mil, muitos dos quais
não sairam vivos daquele inferno.
Maria (Ingrid
Bergman) jovem espanhola violada pelos nacionalistas, que lhe assassinaram os
pais e miraculosamente sobrevivente. Vive com um grupo de refugiados algures na
montanha longe das frentes de guerra. O casal Pablo e Pilar (uma mulher de
armas) vão dirimindo as tensões entre si e entre os membros do grupo. Os
valores e as intenções daquela gente não são claros. Republicanos ou
franquistas? Destruir a ponte ou não? A coragem, o medo e a cobardia vão
aflorando. Foram apanhados na curva da vida. A sobrevivência é o que importa. A
traição espreita.
A chegada do
Inglês (era assim para os espanhóis, embora ele fosse americano) criou tensões.
Tem um desígnio, uma missão - estourar com uma ponte ferroviária de grande
importância estratégica para os republicanos.
O inevitável
acontece. O americano apaixona-se por Maria e vice-versa.
Ele, tem a
consciência de que a sobrevivência é uma hipótese ínfima. Ela, agarra-se
desesperadamente ao sonho. A América, a paz, a fuga àquele universo
tresloucado. O amor com carácter de urgência, como escreveu o poeta Daniel
Filipe em "A invenção do amor". Tiveram o prazer efémero da vida no
prazer escondido daqueles poucos dias. Melhor que nada.
Hemingway
cita em epígrafe John Donne (poeta inglês do século XVII): "A morte de
qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não
perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti."
Na verdade,
dobraram por Jordan e pelos milhares e milhares de mortos naquela guerra tão
bárbara, selvagem e absurda, mesmo aqui ao lado.
Emílio Mola,
general relevante dos nacionalistas (aparentemente eliminado por Franco, para
evitar a concorrência ao poder), escreveu: "É necessário espalhar o terror
eliminando sem escrúpulos ou hesitação todos aqueles que não pensam como
nós."
Mas do outro
lado a atitude era similar e ainda mais complexa. Padres e freiras desapareciam
aos milhares em execuções sumárias e os ajustes de contas entre grupos
ideologicamente diferentes (v.g. comunistas versus anarquistas)
na frente republicana eram mato. Uma loucura!...
Hollywood
pegou nesta ficção e deu-lhe identidade fílmica. Tinha todos os ingredientes
para resultar - uma história dramática na Espanha sanguínea, uma trama amorosa
apelativa, um escritor já com um enorme prestígio mundial. A isso juntou um
factor determinante, os actores. As estrelas. Ingrid Bergman e Gary
Cooper. E a coisa resultou em cheio. Sucesso de mercado.
Um filme com
todos os contornos clássicos, campo/contra-campo, a gramática do cinema
funcional, filmado a cores e com óptimas sequências. E o rosto belo da jovem
sueca, múltiplas vezes deliberadamente privilegiado pela câmara - a beleza de
um rosto juvenil na loucura suicidária dos espanhóis.
O realizador
foi Sam Wood, um tarefeiro de Hollywood, que fez a maior parte dos filmes (e
foram muitos) para o caixote do lixo da história, com excepção de poucos. Este
é um deles e, já agora, "Uma noite na ópera" e "Um dia nas
corridas", ambos com os Irmãos Marx.
Contradição
das contradições. Sam Wood era politicamente um hiper conservador, um radical.
Um falcão, na gíria da política de Washington. Em 1947 deu com a boca no
trombone denunciando colegas de Hollywood como infiltrados comunistas.
Como fez este
filme, quatro anos antes, a partir de um livro de Hemingway, anti fascista,
vigiado pelo FBI como comunista? E não traiu a essência do livro. Só os deuses
poderão responder. Certamente um milagre do cinema, sem efeitos especiais, e de
longa duração. Saliento que são duas horas e meia. Organizem as vossas vidas na
quarta-feira. O prazer recompensa.
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