01 janeiro 2024

Sherlock Jr. (1924) e Marinheiro de Água Doce (1928) - Buster Keaton

Com Buster Keaton
Duração: Sherlock Jr. - 45 m | Marinheiro de Água Doce - 67 min

Hoje é dois em um. Pacote especial com lacinho. Como uma prenda de Natal. Dois filmes mudos, um criador total, enorme, intemporal... mas se calhar desconhecido para muita gente. Buster Keaton. Quem foi? Pamplinas. Ah... Pois! Pelo menos o nome (inventado para os mercados português e espanhol) dirá alguma coisa.

Em certo sentido Buster Keaton foi sugado pelo poder omnívoro de Chaplin, seu contemporâneo, tendo ficado sepultado por umas décadas num esquecimento mais ou menos envergonhado após a eclosão do sonoro. Felizmente foi recuperado para o nosso imaginário e é cada vez mais incensado.

Há até exegetas que o consideram superior ao Chaplin. Irrelevantes as comparações entre dois geniais criadores. O melhor é fruí-los a ambos. 

Estes dois filmes são, em certo sentido, a prova disso. Duas pequenas pedras preciosas de humor. 

Como Chaplin, Keaton criou uma identidade, uma personagem, que o acompanhava de aventura em aventura. 

Recorramos aos especialistas: "A personalidade cinematográfica de Keaton, os seus modos e estilo eram muito bem definidos. Tipicamente ele retratava um jovem respeitável, mas notavelmente contido cuja impávida e inexpressiva cara de pedra revelava frustração ou espanto somente através de leves contracções musculares.

Uma máscara fixa, uma sobrancelha erguida, o perfil de um olhar severo."

"The Filme Enciclopédia" - Ephraim Katz

Pois o Buster Keaton passou para a história do cinema, através  daquela personagem impassível, solene, estóico como 'o homem que nunca ri.'

Mas o seu corpo, com aquela fácies de mármore, era modelado por uma espantosa mobilidade, como se fosse de borracha - quedas aparatosas, funambulismo, acrobacias circenses. O risco físico era enorme e muitas vezes ele ficou aleijado. Mas voltava sempre, à procura da melhor ideia para imprimir na tela mais um gag, mais uma situação burlesca. Nós só temos que agradecer. 

Duas palavras sobre cada filme. 

"Sherlock Jr." Um jovem empregado num cinema. Simultaneamente projeccionista e empregado de limpeza. Sonha vir a ser detective, émulo de Sherlock Holmes. Uma namorada, um vilão. Um roubo. O nosso amigo aldrabado pelo vilão vai repor a verdade através da cartilha sherlockiana. O que é espantoso é que tudo acontece pelo lado da magia, do sonho. O personagem entra dentro do filme que está a projectar (o filme dentro do filme). Ideia brilhante (o Woody Allen fez isso aqui há uns anos) tanto mais quanto o cinema naqueles tempos estava a criar técnicas, métodos e linguagens. Efeitos ópticos e trucagens de câmara e grande eficácia de significados. 

O nosso amigo recupera a namorada, mas previsivelmente aquilo não vai dar nada. Os afectos são em segunda via... copiados tintim por tintim do filme que está a ser projetado lá em baixo no ecrã. 

"Marinheiro de Água Doce". Dois barcos a vapor em concorrência num rio. Um velho outro novo. Dois donos casmurros. A chegada de dois jovens (obviamente ele e ela) filhos de cada um dos donos em luta. Conflitos entre os dois barcos e a natureza a impor as suas leis implacáveis. Um grande ciclone põe tudo de pernas para o ar. No fim todos se salvam, como é óbvio. Mas não parece haver futuro para o jovem par. Os finais felizes para o Keaton eram como os do Chaplin. Apenas hipóteses longínquas. Para o personagem do Keaton a sobrevivência era mais importante, ele um lingrinhas pouco dotado. 

Só para referência, a sequência do ciclone é um must. A longa "encenação" da destruição pelo vento e chuva tem coisas incríveis que naqueles tempos eram filmadas sem efeitos especiais. Dizem os livros que foi gasta uma pequena fortuna a fazer (desfazer) aquilo. Só vendo e ficamos de boca aberta.

Que estes dois enormes objetos de prazer amenizem as loucuras que nos rodeiam na Ucrânia, em Israel e outros locais por aí. 

Relembro. É importante as pessoas virem às sessões. Tem que haver uma certa militância. E, já agora, lerem estes escritos. Não é por nada, modéstia à parte, mas ajudam a "ler" os filmes e os autores, penso que com valor acrescentado.

Pulp fiction - Quentin Tarantino (1994)

Com John Travolta, Samuel L. Jackson, Bruce Willis, Maria de Medeiros
Duração: 154 min

Quentin Tarantino opus dois. Depois de Cães Danados, Pulp Fiction. A mesma matriz composicional da ficção anterior - tragicomédia quanto baste, um quadro de marginalidade, pastiche, violência gráfica, uns excessos gore, sexualidade à flor da pele, sadismo, escatologia, racismo e muito paleio rasca (como falam tanto os personagens de extração tarantinesca). Mas, tal como em Cães Danados, há uma matriz ética forte. Há valores de lealdade e respeito. Não há maus puros.

Argumento de grande qualidade (Oscar de Hollywood) constrói-se numa narrativa fragmentada, articulando de forma brilhante três histórias em circularidade. Quando pensamos termo-nos despedido de um personagem a meio da ficção (exuberantemente morto por uma rajada de metralhadora) vamos reencontrá-lo mais à frente na continuação da história que vem lá de trás. Baralhados? Basta entrar na ficção e tudo é simples. Porque simples (e simplistas) eram as ficções onde o Tarantino colheu muito do seu imaginário - as pulp fiction eram revistas baratas de banda desenhada, muito populares nos EUA na primeira metade do século passado, com histórias violentas, mais ou menos bizarras e cheias de inverosimilhança. Mas fortemente apelativas.

E depois há as citações e piscadelas de olho à história do cinema e da música. Num bizarro bar cruzamo-nos com Marilyn Monroe (várias versões), os nossos personagens bebem um cocktail (Dean) Martin & (Jerry) Lewis e há um stake Douglas Sirk. Quem é? Pergunta a maior parte da nossa confraria cinéfila... Foi o autor de alguns dos mais belos melodramas da história do cinema. Fugiu à besta nazi (chamava-se Hans Detlef Sierck) e deu muito prazer lacrimejante nos anos 50 e 60. O grande e alucinado Fassbinder tinha-o como uma referência e a geração cinéfila dos nossos dias tem estado a recuperá-lo para o patamar superior da história do cinema. Se calhar, um dia destes, vamos fazer um ciclo Sirk para puxar as lágrimas ao canto do olho.

Neste diversificado universo da cultura pop, deixem-se envolver pela bela seleção musical que é a banda sonora.
Já agora...no meio da carrada de grandes actores a que o Tarantino recorreu encontramos a Maria de Medeiros, a filha do maestro António Vitorino de Almeida, que estava a tentar o salto para Hollywood, mas faltou-lhe o balanço. O cinema europeu agradeceu.

Vamos alinhar com o John Travolta (ressuscitado com o filme), Samuel L. Jackson (que grande papel) e mais não sei quantos grandes actores neste pot pourri que, não por acaso, ganhou naquele ano a Palma de Ouro em Cannes? Só temos a ganhar com isso.

Quem tramou Roger Rabbit? - Robert Zemeckis (1988)

Com Bob Hoskins, Christopher Lloyd
Duração: 104 min

Hollywood 1947. O coelho Roger Rabbit, actor de cinema célebre, vedeta da Hollywood de desenhos animados, desconfia que a sua mulher, Jessica, uma bela e sensual cantora, o engana. Em grande choque, decidido a descobrir a verdade, contrata o detetive humano Eddie Valliant (emulação de Philip Marlowe, criação suprema de Raymond Chandler) para investigar. Tudo aponta para a traição, mas... as coisas nem sempre são o que parecem, como na vida real. O alucinado Roger Rabbit (cujo sentido da vida é fazer rir) acaba acusado de homicídio, mas consegue fugir. Aí aparece o perverso juiz Doom, um homem (se calhar, não; fica lá mais para o fim desvendar o mistério ... a surpresa faz parte da essência da ficção) implacável, protegido por uma pandilha de fuinhas (tão violentos como estúpidos), tem como fim eliminar todos os desenhos animados e destruir o estúdio por perversas razões - construir uma grande auto-estrada com múltiplos negócios acoplados. Etc, etc. Nunca mais saíamos daqui se contássemos tudo. Felizmente acaba em bem, a justiça será feita. A bicharada fará um grande final, cantando e dançando. THAT'S ALL FOLKS.

Ufh... Fiquemos por aqui e preparemo-nos para mergulhar de cabeça na mais alucinante e verosímil ficção com os mais inverosímeis actores - toons, os personagens que vivem em Toonstown, e que se cruzaram connosco há muitos anos, antes dos filmes de fundo da nossa adolescência ou na televisão. São tantos e a um ritmo tão apressado que nem damos por todos, mas apanhamos com a criação do Walt Disney, da Warner Bros. e mais uns quantos de outras produtoras menores: Pato Donald, Mickey, Bugs Bunny, Dumbo, Betty Boop, Bip Bip, (Goofy) Pateta. E mais não digo, para deixar a cada um a surpresa de reencontros com a sua infância/adolescência.

Fantasia delirante em forma de policial (as referências são estimáveis - Dashiell Hammett e Raymond Chandler - na construção da matriz ficcional e na configuração do detetive particular), tecido híbrido utilizando técnicas de live-action, criaturas de animação com actores de carne e osso. A fusão é perfeita. Naqueles tempos em que tudo era feito à mão, isto é, sem computadores, o filme resultou um verdadeiro milagre. Nada é forçado, tudo funciona como se fora um monumental relógio com todas as peças, rodas, rodinhas e alavancas funcionando com rigor, na perfeição. O prazer é estimulante.

A criancice dos desenhos animados cola bem com os comportamentos adultos (as sugestões sexuais são diversas e divertidas), uma certa poesia da violência, como escrevia o Chandler, perpassa por toda a história qual hard boiled fiction, incorporando os arquétipos, a iconografia e a atmosfera que ele e o Hammett criaram nas suas histórias policiais nos anos 30 e 40.

O nosso detetive (real) é uma personagem à deriva, alcoolizado, falido, estouvado e em dor pelo assassínio, uns anos antes, por um toon nunca identificado, do seu irmão e sócio. A resolução do caso do estúdio será também a resolução do seu caso pessoal e provavelmente marcará a sua redenção da adição alcoólica.

Já a Jessica Rabbit é uma personagem de cartoon. Uma deusa do palco. Uma voz rouca murmurante e um corpo exuberante. Até o nosso amigo detective se sente enfeitiçado. Cheia de jogo de cintura, mas, no fundo, boa rapariga. Como ela diz: "Eu não sou má. Apenas me desenharam assim..." A voz da Jessica é fornecida pela Kathleen Turner, símbolo sexual de Hollywood dos anos 80. "Noites Escaldantes", com o William Hurt, é uma referência incontornável. O "boneco" da Jessica é muito parecido com o perfil da actriz.

Três pais (não sei se houve mães) do filme: o realizador Robert Zemeckis que coseu de forma brilhante os dois universos. Steven Spielberg que (em subcontratação da Walt Disney) uniu todos os fios humanos e logísticos para criar aquela trama tão requintada. Richard Williams, o director de animação que criou (com muitos desenhadores) todo aquele universo delirante de personagens e situações. Esta obra de pura filigrana durou dois anos e meio a fazer. Mas valeu a pena. Obteve 4 Oscares: Som, montagem, efeitos visuais e efeitos sonoros.

Querer mais é querer ir até ao fim do mundo. Fiquemo-nos por Linda-a-Velha e fruamos cada segundo da ficção com o prazer de crianças crescidas e a liberdade de espatifar tudo. Mentalmente, claro.

Fiesta (the sun also rises) - Henry king (1957)

Com Tyrone Power, Ava Garner, Errol Flynn, Mel Ferrer
Duração: 130 min

Acredito que, quando eram mais novos, todos leram os livros do E. Hemingway - "O velho e o mar", "O adeus às armas", "Por quem os sinos dobram". Eu sou um adepto. Li tudo. Escrita apelativa, só aparentemente simples e com matrizes ficcionais muito sólidas. Merecidamente Prémio Nobel da Literatura (1954).

"O sol nasce para sempre" é o segundo romance que ele escreveu (1926) e onde mostra todo o seu fascínio por Espanha e a sua cultura máscula - touros, toureiros e touradas - obviamente na perspectiva do americano sem restrições, bon vivant e com sentido de aventura, de que ele foi um exemplo superlativo.

Nos anos 20, na Europa em reconstrução da tragédia da guerra de 1914-18, Paris era o vértice e o vórtice da vida intelectual e artística do mundo. Escritores, pintores, jornalistas, actores, músicos . Picasso, Sartre, Stravinsky, Ravel, Gide, Diaghilev, etc. etc. (poderia enunciar uma lista de nomes de referência com quilómetros de extensão).Toda a gente fluía para lá, todos procuravam o seu quinhão de glória. Qualquer jovem americano ou inglês com pretensões culturais, zarpava no primeiro navio para lá chegar. Com poucos dólares ou libras no bolso tinham a aventura da vida à espera. E, muitas vezes, a decepção.

É nesse contexto febril que Hemingway criou a sua ficção.

Um grupo de expatriados, instalados em Paris ou a circular pela Europa, vive a vida a cem à hora. O hedonismo é uma forma de estar, a boémia a normalidade. Era a geração perdida dos roaring twenties, da jazz age...Ilusões perdidas, falência moral, dissolução espiritual, amores frustrados.

Existencialismo avant la lettre.

História de amor impossível entre Barnes, um jornalista americano (Tyrone Power) e Lady Brett Ashley, uma mulher aventureira à deriva, devoradora de homens (Ava Gardner). Impossível o amor (sexual) porque ele, aviador na guerra, foi ferido pelos alemães e ficou impotente (uns tempos antes não se poderia referenciar isso no cinema americano por restrições do código de Hays)... Resta-lhes a amizade e a cumplicidade na aventura da vida.

De Paris, dos seus bistrots e restaurantes, dos clubes de Bal-Musette, para Espanha. Pamplona e as Festas de San Fermin. A rota do prazer continua em crescendo. Agora é a hispanidade na sua exuberância. O álcool e a música. Os touros e os toureiros. A ritualização dos movimentos e das multidões em festa e os encontros/desencontros amorosos. Paixões não correspondidas e desajustamentos culturais e vivenciais.
No fim, pouco resta. Acabada a festa, cada um faz o seu balanço. Os touros e as multidões desapareceram e os amigos abandonam a cidade. Uns regressam a Paris, outros vão para casa na América ou em Inglaterra. Lady Brett procura um pouco de protecção no ombro do seu amigo, até à próxima aventura amorosa falhada. A vida é assim.

Mais de trinta anos passaram entre a saída do livro e a sua versão cinematográfica. Nos corredores dos estúdios de Hollywood o projecto andou de mão em mão e acredito que um dos factores de bloqueamento terão sido as restrições da censura dos costumes. Apesar do Hemingway ter torcido o nariz à adaptação, toda a gente considera que ele não tinha razão. A essência da ficção cinematográfica não traiu o livro. Por razões atmosféricas a Pamplona de Espanha foi filmada no México, mas Paris foi filmada em Paris. Já não foi mau.

Incongruência maior foi a idade dos actores. Era pressuposto serem jovens a despontar nos seus vinte e tal e apanhamos com "jovens" de quarenta e tal. Todos grandes vedetas. O Errol Flynn, a cair da tripeça (muitos anos depois de ter sido o Robin dos Bosques do nosso imaginário adolescente), mas faz uma personagem notável, um gentleman bêbado e às vezes rufião, que, na verdade, era a sua natural condição na fase final da sua vida.

Claro que é impossível passar ao lado da magnífica e magnética Ava Gardner sem admiração e, já agora, não ignorem a jovem e bonita Juliette Gréco, anos mais tarde a diva da noite parisiense, a voz do fundo do coração e a deusa do existencialismo sartriano.

Uma curiosidade. A personagem do jovem toureiro Pedro Romero foi interpretada pelo já não muito jovem americano Robert Evans que nem sequer era actor. O nome nada diz aos não especialistas, mas passados uns anos, tornou-se uma das personalidades mais importantes de Hollywood. Primeiro como produtor executivo na Paramount depois como produtor independente. A ele se devem filmes tão importantes como A semente do diabo, Serpico, O Padrinho, O grande Gatsby, Chinatown, O homem da maratona, Cotton Club... Nesses anos - 60 e 70 - Hollywood acordou dos mortos com a genialidade de Coppola, Scorsese, Friedkin, Bogdanovich, Schrader, Polanski e mais alguns com a parceria activa do Robert Evans. Nome incontornável da história do cinema contemporâneo americano.

Já agora, o realizador. Henry King era um dos bons. No filme está toda a essência do cinema clássico americano, ainda para mais em CinemaScope, uma inovação recente naqueles maravilhosos anos 50 de Hollywood.

Mais para a frente voltaremos a Hemingway.

Julius Caesar - Joseph L. Mankiewicz (1953)

Com Marlon Brando, James Mason, John Gielgud
Duração: 157 min

Shakespeare e Hollywood. A priori não miscíveis. Mesmo naqueles tempos áureos do cinema americano - anos 50 - era difícil conciliar a riqueza, a profundidade e a complexidade de uma peça de teatro de Shakespeare, com os valores de mercado subjacentes ao negócio do cinema de Hollywood. Mas há sempre alguém que luta contra o sistema e, se tiver talento e créditos, e um bocadinho de sorte, consegue furar. Foi o caso de Joseph Mankiewicz (argumentista e realizador), irmão de Herman Mankiewicz, grande argumentista de Hollywood com uma história menos convencional (alcoólico, iconoclasta e provocador) que foi o argumentista de "Citizen Kane/"O mundo a seus pés" do Orson Welles). Os dois irmãos tiveram Oscares.

Júlio César, um dos grandes imperadores romanos. Viveu no período que precedeu a vida de Jesus Cristo e foi assassinado (44 ac). Shakespeare baseou-se nos clássicos, nomeadamente em Plutarco para escrever (e representar, provavelmente) uma das suas magistrais peças de teatro. Lembremos que ele escreveu mais duas peças "romanas": "Coriolano" e "António e Cleópatra".

Senhor absoluto de Roma e do Império, Júlio Cesar (Louis Calhern) foi assassinado em pleno Senado por um grupo chefiado por Cássio (John Gielgud), general, e por Marco Bruto (James Mason), seu filho adoptivo, com o apoio e conivência da aristocracia romana, que há muito conspirava para o eliminar. Ao cair sob as punhaladas traiçoeiras extinguia-se com ele um dos períodos mais gloriosos da história de Roma.

Após o assassinato - dois discursos notáveis perante a multidão, um de Marco Bruto, um dos assassinos, e outro de Marco Antonio (Marlon Brando), jovem amigo do Imperador - Marco Antonio assumiu a luta contra os assassinos sublevados, que derrotou dois anos depois na batalha de Filipos na Macedónia.

Com este material, com centenas de anos de exibições pelos palcos, , Mankiewicz construiu uma obra notável, com uma dinâmica própria do cinema mas sem perder a sua essência teatral, suportada por um leque de actores brilhantes.

Na essência, a luta pelo poder, a demagogia e a retórica como factores determinantes do jogo político, a tirania como arma funcional de sustentação do poder. Eurípides ou Sófocles na Grécia antiga, ainda mais para trás, já tratavam disso, como nos nossos dias Bertolt Brecht ou Harold Pinter. O tempo muda e o homem (na essência) é o mesmo.

Uma história intemporal. O jogo político como centro entrópico. A manipulação de massas. Para manter coerência com a teatralidade original (a "prisão" do texto), Mankiewicz optou por décors estilizados onde a função do espaço é mais importante que a verosimilhança arquitectónica, e com isso conquistou o Óscar.

Naturalmente que um filme com um texto tão rico só poderia funcionar com um leque privilegiado de actores.

John Gielgud, um actor inglês com grandes interpretações de Shakespeare nos palcos e de muitos outros grandes dramaturgos, teve uma carreira longuíssima, entre o teatro e o cinema.

James Mason, enorme actor com tantos realizadores de referência, de Hitchcock a Kubrick, passando por George Cukor, Carol Reed, Sam Peckinpah...

Marlon Brando dispensa comentários: a sua personagem só emerge a meio do filme, mas é espantosa. Naquela fase (passagem dos 20 para os 30) fez ainda alguns filmes de referência de Elia Kazan: "Um eléctrico chamado desejo", "Há lodo no cais" e "Viva Zapata".

Mankiewicz é um dos nomes incontornáveis da história do cinema. E até nem fez muitos filmes, mas quase todos bons. Por exemplo, "Eva", "A condessa descalça", "Bruscamente no verão passado", "Cleópatra", "Sleuth: Autópsia de um crime", "O americano tranquilo". Além de realizador foi também argumentista de muitos e diversos filmes.

Que Shakespeare, através de Mankiewicz, nos traga um bom ano.

Voando sobre um ninho de cucos - Milos Forman (1975)

Com Jack Nicholson, Louise Fletcher, Danny de Vito, Christopher Lloyd
Duração: 133 min

1975. Tempos áureos da nossa vida. O 25 de Abril tinha libertado os desejos e as fúrias. Toda a gente tinha razão. Cada um tinha a sua verdade. Os sonhos e os desejos estavam ali ao virar da esquina. Na verdade, olhando em feedback, Portugal era naqueles tempos gloriosos um Júlio de Matos em que a loucura e a insanidade andavam a par e passo com a afirmação de um outro país possível. Mas demorou uns bons anos. 

Pois nesse ano apareceu este filme que fez a diferença, longe de se conformar com os modelos aceitáveis e normalizados da produção tipo de Hollywood. Um hospital psiquiátrico lá nos confins do Oregon, princípio dos anos 60, em funcionamento normal, estereotipado. Disciplina bem empacotada e diluída na medicamentação alienante e amorfizante. Rigor a disfarçar  crueldade e sadismo. Controle sociopata pela enfermeira-chefe da instituição (Louise Fletcher). Personagens (na verdade, autênticos bonecos inarticulados, sem alma) paranóicos, violentos, epilépticos e com outras anomalias de saúde mental, domesticados e amestrados. 

Até chegar um novo membro (Jack Nicholson). Por esperteza, ele, um marginal, delinquente com um bom currículo de prisões, consegue safar-se de trabalhos forçados fingindo loucura e entrando no hospital psiquiátrico. A sua impertinência,  petulância e rebeldia vão gradualmente "acordando" muitos daqueles personagens vegetais. O caos torna-se a normalidade. O sentido da ordem vai-se invertendo. A normalidade contida torna-se aventura sem limites. A rotina é esfrangalhada. O poder inverte-se.

Obviamente tudo vai acabar mal. Tem de acabar mal. As instituições têm as suas armas e defesas. A lobotomia foi a solução radical (o nosso Egas Moniz foi prémio Nobel da Medicina com o desenvolvimento científico desta técnica médica, controversa como se sabe). A normalidade foi aparentemente reposta Resta a esperança que o doente que fugiu encontre uma outra normalidade lá fora 

"Voando Sobre um Ninho de Cucos" foi galardoado com os Óscares mais significativos - filme, realizador, argumento, actor e actriz principais. Só uns anos depois aconteceria o mesmo com "O Silêncio dos Inocentes". Agora, à distância de umas décadas, pode questionar-se a validade das escolhas. Jack Nicholson fez aquilo com uma perna às costas, os trejeitos faciais e aquele lado meio louco apareceram em carradas de personagens ao longo da sua carreira. A Louise Fletcher faz uma personagem quase um robot, também nada de especial. E nem o Milos Forman fez um grande filme. Mas é a história do cinema a impor-se. E se passado este tempo o filme não me tocou tanto como naqueles tempos heróicos do pós 25 de Abril, não quer dizer que não me tenha dado imenso prazer, sempre pontuado por uma dor de alma que atravessa toda a ficção.

O filme foi feito a partir de um romance escrito por Ken Kesey, um autor da contracultura americana dos anos 50 e 60 (beat generation e hippies) a partir de uma experiência pessoal como funcionário num hospício em S. Francisco. Foi um dos companheiros de route dos "Grateful Dead", do Jerry Garcia, essa grande instituição americana do rock and roll, muito associados às grandes live performances psicadélicas bem turbinadas com LSD e outros ácidos pouco recomendáveis.

Ah. O filme foi produzido pelo Michael Douglas a partir dos direitos que o seu pai (Kirk Douglas) tinha do livro e sobre o qual ele tinha tentado fazer um filme, nos anos 50, mas sem êxito.

E assim fechamos o ano. Que o prazer cinéfilo vos tenha entusiasmado e incentivado a continuar este percurso de (re)descoberta do cinema e da sua linguagem.

Caminho para perdição - Sam Mendes (2002)

Com Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law, Daniel Craig
Duração: 117 min

"We are back", aproprio-me de um dos finais de filme mais conhecidos do grande público - "I'll be back", dizia o Arnold Schwarzenegger no fim de "Terminator", já há uns bons anos.

Tempos da grande depressão nos EUA. Mais concretamente, 1931. No universo da marginalidade organizada, das famílias de gangsters - quase todas de origem italiana ou irlandesa - o tráfico de bebidas alcoólicas e a exploração da prostituição eram as grandes áreas de poder. A idiotice política americana tinha criado a Lei Seca que perdurou por 13 anos desde 1920. Ajustes de contas, mortandades e assassinatos encomendados eram o dia a dia da América naqueles tempos. Al Capone, Frank Nitti, Dillinger ou Bonnie e Clyde eram tão temidos pela polícia como incensados pela população. 

Nesse contexto complexo e violento decorre esta história de afectos. Um líder mafioso irlandês, o seu filho mal amado e o seu protegido bem amado. Relações pai/filho. Filho adoptado versus filho biológico. Os assassinos também têm alma. Entre a honra e a redenção seguiremos o percurso de um assassino procurando recuperar o passado irrecuperável. Limpando o mundo do mal que ele foi criando ao longo da vida. Com a consciência de que não há salvação.

Mais uma ficção sobre a América profunda onde a normalidade social (os rituais religiosos, as festas familiares) vai a passo com a alucinação e a violência. E nesse sentido não faltam preciosidades na realização. O ajuste de contas entre o "filho" e o "pai" é absolutamente genial ou o assassinato do "irmão" fora de campo. E não só. Uma fotografia espantosa (teve o Oscar) mostra uma América desolada e desencantada. A realização é verdadeiramente brilhante. Sam Mendes deixa fluir o tempo e trata o espaço de uma forma eficaz - a câmara vai de uma forma subtil e leve acompanhando os personagens, em movimentos elegantes e requintados. 

Claro que estamos perante um filme superior. Tom Hanks, verdadeiramente brilhante numa personagem complexa. Todo o filme é o seu caminho de redenção, pedindo desculpa ao filho no último momento de vida.

Paul Newman. O "tio" tão afectivo para as crianças como amoralmente radical para os adultos. Grande sabedoria de representação numa das suas últimas aparições no ecrã.

E o miúdo que conta a história (Michael), provavelmente o único a salvar- se daquele universo demente? É difícil não sentirmos a angústia dele nos seus olhos inquisidores. Jovem actor brilhante que se perdeu nas curvas da vida.

Já agora refira-se que o actor que faz de filho do chefe mafioso em volta de quem se articula a ficção é Daniel Craig, o James Bond de última extracção. O Sam Mendes também fez um dos últimos 007 - "Skyfall" (2012).

A base da história foi uma graphic novel, uma banda desenhada, onde se misturam referências de ficção com outras reais e o filme tem o dedo do Steven Spielberg que foi o produtor (DreamWorks).

Mas quem deu a consistência artística a tudo foi o Sam Mendes. Realizador e encenador inglês, de ascendência portuguesa, que 3 anos antes tinha surpreendido o meio cinematográfico com "American Beauty", uma belíssima ficção com uma grande interpretação do Kevin Spacey que, lamentavelmente, nos últimos anos saiu da órbita da representação por razões politicamente correctas. #Metoo a fazer estragos. É a vida.

 Ah... Perdição é uma localidade onde tudo termina. Começa eventualmente para o jovem Michael.

 A não perder!

Depois do ódio - Marc Foster (2001)

Com Halle Berry, Billy Bob Thornton, Heath Ledger
Duração: 112 min

EUA. Geórgia. O sul profundo. O racismo no seu meio privilegiado. Uma mulher negra e o marido, condenado à morte, executado. O filho que lhe morre num acidente. Um guarda prisional branco, ultra conservador, que perde o filho (também guarda prisional) por suicídio. Odeia os negros e, se calhar, a ele próprio. Trabalha no corredor da morte. O encontro acidental entre duas almas penadas nas extremidades mais afastadas daquela sociedade, contra a lógica e as convenções. Atração física? Amor? Quem perde? Quem ganha? Ou perdem ambos? Ganham os dois?

Grande equação que é a da vida e dos afectos. Ali no deep south as restrições são maiores e mais variadas. O ódio racial é a essência daquela sociedade. Tem a idade da independência americana e alimenta-se diariamente da história. O Ku klux klan está sempre a espreitar por detrás das suas máscaras horríveis e nos últimos anos tem mostrado as garras cada vez mais afiadas e pestilentas. Por mais processos judiciais que o deus deles, o Trump, perca, mais poder ganha. A sociedade americana é um grande enigma. Cada vez maior.

Mas voltemos à ficção.

Halle Berry faz aqui um papel comovente. Frágil, desorientada, à procura de um pouco de segurança num futuro de desespero. E com isso teve o Oscar para a melhor actriz da Academia de Hollywood. A primeira actriz negra (african-american actress, como é politicamente correcto dizer) a ganhá-lo.

Billy Bob Thornton, o sulista, que segue o passado do pai, num processo sem afectos nem sonhos. Depois dos encontros e desencontros contra-natura com a mulher negra, só as estrelas do céu dirão no fim o que vai acontecer. Se calhar, mais um falhanço.

O filho suicida é representado por Heath Ledger, um notável jovem actor australiano que lamentavelmente se extinguiu à velocidade de um cometa. Overdose. Tão talentoso como estúpido. Paz à sua alma.  Já morto e enterrado foi contemplado com o Oscar de melhor actor secundário pelo seu papel em "O Cavaleiro das Trevas", filme sobre o Batman do Christopher Nolan (que é agora candidato a um pacote de Oscares com o enorme "Oppenheimer". Ainda estão a tempo de ver).

Marc Foster, o realizador. É suíço, mas a carreira é americana. Há pouco tempo passou dele "Um homem chamado Otto", com o Tom Hanks, muito interessante sobre a terceira idade. Mas também passou pelo 007 - "Quantum of Solace".

 Já agora, porque o timing o justifica. Mera coincidência. Está aí em exibição o último filme do mesmo realizador, Marc Foster - "Pássaro Branco - Uma História Extraordinária". Uma matriz ficcional fortíssima, muito bem contada, de uma jovem judia francesa apanhada no meio da perseguição nazi. Conseguiu fugir aos campos de concentração e à morte provável através de um jovem francês handicapé e tornou-se uma artista plástica de dimensão internacional. Mais um de milhentos casos em que a solidariedade fez milagres que não fizeram esquecer o aterrador balanço da barbárie nazi.

Mas... passadas décadas é no mínimo estranho o que se passa em Israel e como essa herança heróica se esfuma pelas brumas da violência judaica - nazis a extinguir judeus, antes, judeus a extinguir palestinanos, agora. Raios. Nunca mais aprendemos.

É um filme de uma grande sensibilidade muito bem construído. Um bom pretexto para saírem de casa.

Dueto da corda - John Landis (1980)

Com John Belushi, Dan Aykroyd
Duração: 133 min

Slapstick. Tipo de comédia física que envolve acções exageradas, energéticas, muitas vezes violentas, sempre com elevado sentido de humor, que excedem os limiares do senso comum. A suada criação é praticamente da idade do cinema. Charles Chaplin, Mack Sennett, Harold Lloyd, os irmãos Marx e o nosso "recém descoberto" Buster Keaton foram, cada um à sua maneira, grandes protagonistas.

Já no nosso tempo, o Stephen Spielberg fez em 1979 um grande filme, uma homenagem à loucura sadia daqueles velhos tempos, "1941", com uma dupla louca - John Belushi e Dan Aykroyd. Um grande programa de slapstick, retorno de 50 anos no imaginário do cinema. Já o passámos aqui há uns tempos.

Agora, na mesma linha programática, temos "O Dueto da Corda" . Título em português, pífio para um muito mais significativo e directo - "The Blues Brothers" . E, se calhar não por acaso, com a mesma pandilha alucinada de "1941" - o Belushi e o Aykroyd.

Dois irmãos, músicos fanáticos do Rythm & Blues. Tiveram uma antiga banda, desagregada pela prisão de um dos irmãos. Quando retorna à liberdade, os irmãos assumem como epifania, a reconstituição da banda, com uma missão divina - reunir 5 mil dólares para pagar ao fisco uma dívida da Igreja Católica que os criou enquanto jovens sem família. O propósito divino que os mobiliza move montanhas. A redenção das suas penas leva tudo à frente.

O processo iniciático da procura e convencimento dos músicos a retornar é o mergulho na loucura. Perseguições automóveis, fugas à polícia, confrontos com normalidade trumpiana (a música country, a boçalidade dos clubes), confrontos com o partido nazi (aquela cena da morte do chefe nazi é de um requinte humorístico inestimável).

A parte final é uma lição suprema daquele excesso. Uma exegese. Uma longa perseguição policial com dezenas de carros da polícia a espatifarem-se, as forças armadas (polícias, militares, força aérea) mobilizadas como se para enfrentar um exército, a verossimilhança forçada pela lógica simples do humor e do ridículo (as habilidades incríveis do velho carro que é a imagem de marca dos irmãos).

A perseguição implacável da noiva traída que ataca o noivo traidor, qual Arnold Schwarzenegger feminino, à metralhadora, à bazucada e a lança-chamas. Os dois irmãos, nos seus fatinhos pretos, de gravatinha, chapéu e óculos escuros, saem sempre dos escombros intocados, quais heróis de desenhos animados, sempre em pé e nem sequer farruscados. O último encontro com a assassina falhada é um bom exemplo da gestão do timing no humor.

E, por último, a música. "The Blues Brothers" tem a estrutura de um filme musical, essa essência de Hollywood nos heróicos anos 30, 40 e 50. Uma história que vai progredindo em circuito fechado entre a prisão e... a prisão. Naquele percurso alegremente destrutivo vamo-nos cruzando com um conjunto de personalidades de excelência da música negra americana: James Brown, Aretha Franklin, Ray Charles, John Lee Hooker, Cab Calloway... Números musicais extraordinários. Ritmo, dança e coreografia a puxar pelo nosso corpo e reconhecimento.

Só um exemplo: Cab Calloway, uma das maiores estrelas da música negra dos anos 30 e 40. Rei do Harlem e senhor do Cotton Club aqui a interpretar brilhantemente, com o swing todo de um corpo já não jovem "Minnie The Moocher", um sucesso imparável de 1931. Um milagre de mise-en-scéne... com o tempo a recuar umas décadas. Pro memória - o F. F. Coppola recriou esse número no filme "Cotton Club" que já aqui vimos também.

Obviamente que os nossos amigos pequenos delinquentes acabam por pagar às finanças a dívida da Igreja Católica a um funcionário manga-de-alpaca que é nem mais nem menos que o Steven Spielberg. Devia estar no estúdio por qualquer razão profissional e o John Landis abarbatou-o para fazer uma perninha. Recebeu a massa para o Ministério das Finanças mas os nossos amigos foram diretamente para a prisão. Com os prejuízos públicos e privados (lá atrás tinham destruído um centro comercial) que provocaram é de admitir que tenham ficado lá em prisão perpétua. Óptimo para os presos que passaram a ter música ao vivo de qualidade superior.

"The Blues Brothers" é já um filme clássico de culto. Com reconhecimento institucional, pois foi selecionado para preservação no "National Film Registry" pela Library of Congresso por ser, e cito, "cultural, histórica e esteticamente significativo." Está dito. Que cada um entre na ficção com as suas defesas em baixo e se deixe envolver saudavelmente pela loucura surrealista que dela se vai libertando. No fim é cá um alívio!...

A filha de Ryan - David Lean (1970)

Com Sarah Miles, Robert Mitchum, Trevor Howard, John Mills
Duração: 3h 15m

O esplendor do melodrama num quadro histórico real, dramático, decisivo para o futuro da Irlanda.

Irlanda, 1916, parte do Império Britânico de continuidade atlântica em polvorosa e a ferro-e-fogo. Ao fim de mais de 700 anos de domínio inglês o nacionalismo irlandês quer pegar nas próprias mãos o seu país e libertar-se do jugo colonial, colocando os ingleses entre a espada e a parede.

Nesta segunda década do século XX os ingleses estavam a defrontar os alemães em França e os irlandeses em casa. Quadro de guerra civil. Sectarismo, terrorismo, violência. De um lado e do outro. Muitas mortes, muitas execuções primárias, muito ódio. Tudo mais extremado pela religião. Católicos irlandeses versus protestantes ingleses. Como, infelizmente, acontece nos nossos dias, embora noutro contexto.

A designada Irlanda do Sul conseguiu obter a independência do Reino Unido em 1937 (mas desde 1921 foi governada com o estatuto transitório de autonomia) mas a Irlanda do Norte continua a ser inglesa. E, como todos sabemos, o quadro está longe de estar resolvido. Nos últimos anos estabilizou, mas nunca se sabe quando entra em polvorosa. É como os vulcões.

 O enquadramento da história está feito, vamos à estória.

Irlanda, a sudoeste. O mar omnipresente e omnipotente. E a chuva. E o vento. As falésias (Cliffs of Moher) são impressionantes. Aquilo é um espaço difícil. O padre católico (Collins) domina a aldeia e o pub é a sala de visitas. Uma jovem bonita (Rosy) , cheia de sonhos e desejos, romântica até à ponta das unhas. Sem o exprimir, o que ela quer é sair para o mundo. Filha de Ryan, o dono do pub. À falta de melhor, ou porque estava a jeito, casou com o professor primário, viúvo e muito mais velho (Robert Mitchum). Um tipo decente, com o sentido do outro. A vida a dois após o casamento é assim para o cinzento baço.

Naquele universo rude, alegre e folião onde a música impera e a cerveja e o whisky escorrem pelas gargantas, sente-se a negação da colonização. Toda a gente é contra os ingleses. De uma forma explícita e, por vezes, desafiante. O pai da Rosy não se coíbe de exibir por detrás do balcão uma fotografia dele com um dos líderes militares irlandeses, em fuga, condenado à pena de morte. Os soldados ingleses são recebidos no pub com o desprezo de quem está a mais.

E então, o impensável acontece. Chega o major Randolph, novo chefe militar do quartel das tropas inglesas, a recuperar de ferimentos na guerra com os alemães. O encontro ocasional entre a mulher e o homem tem a intensidade de um relâmpago e a fulgurância de uma onda daquele mar indomável. Dupla traição. Adultério. Tudo acontece num quadro de proibição de duas ordens: uma jovem casada numa sociedade católica repressiva; uma jovem irlandesa apaixonada pelo inimigo inglês.

 

Acontece o óbvio. O amor solta-se apaixonado nos recantos das praias ou na erva macia dos pântanos. Nada mais será igual. As restrições são radicais. Não é possível. Tudo aponta para um fim triste, dramático.

Pelo meio a evidência político-militar a cruzar-se com os personagens. Um descarregamento de armas e munições (oferecidas pelo Império Alemão - inimigo do meu inimigo, meu amigo é) para a resistência irlandesa é mal sucedido, com ecos de traição do pai de Rosy, por todos considerado um herói da resistência.

Aquele casal desigual em tudo (o traído e a traidora), será repelido daquele lugar. O oficial inglês suicida-se por nada mais lhe restar. E a aldeia ficará lá naquele sítio no fim do mundo, orgulhosa das suas profundas raízes irlandesas que se perdem no tempo imaginário dos elfos, das bruxas e outras manigâncias celtas.

Do princípio ao fim acompanhamos os personagens atrás do bobo, o mudo, o maluquinho da aldeia, simultaneamente desprezado e acarinhado, uma espécie de acólito do padre. No seu vaivém vai deixando pistas sobre os outros - os encontros e desencontros, os pecados e as derivas. Grande papel (pantomima trágica) de John Mills, justamente premiado com o Oscar para melhor actor secundário.

E o padre? Imagem metafórica do domínio da igreja católica na Irlanda do Sul. Tudo passa por ele, tudo ele conserta, entre a bonomia e a intransigência. E sabe perdoar. Grande papel de Trevor Howard que tínhamos visto (em Outubro do ano passado) noutro filme do David Lean - "Breve Encontro" - 25 anos antes.

Um clássico inquestionável. Mas... quando saiu, o filme foi muito maltratado pela crítica. Acusado de falsamente épico, de desajustamento entre o contexto (a exuberância das paisagens - Oscar da melhor fotografia) e o conteúdo (uma história de amor, mais uma). Em contrapartida, nesse ano era o "Love Story" que recolhia todas as parangonas, citações e prémios. Felizmente que a passagem do tempo repôs a verdade dos factos: "A Filha de Ryan" é um clássico entre os clássicos. Mas o David Lean foi esmagado pela situação - só conseguiu fazer mais um filme, magnífico, aliás -"Passagem para a Índia" - 14 anos depois.

Que todos tenham o mesmo prazer que lá em casa tivemos em revê-lo. Quem estiver habituado a lanchar traga uns snacks. É que a jornada vai ser longa. Três horas e um quarto. Tenham isso em conta na programação da vossa tarde.

Olhos grandes - Tim Burton (2014)

Com Amy Adams, Christoph Waltz
Duração: 101 min

A pedido de várias famílias, bah, bah, bah. Não. Foi uma boa sugestão da Midá. No Museu da Marioneta está uma exposição sobre o Mundo Animado de Tim Burton, que é um dos mais produtivos e geniais cineastas do nosso tempo...apesar de ser assim para o marado. Entre o génio e a loucura muitas vezes há apenas a distância de um hífen. É o caso. Quem fez Eduardo mãos de tesoura, Sweeney Todd, Alice no país das maravilhas, Marte ataca, Ed Wood... e Dumbo (estreado há uns meses) tem alguma coisa de criador. O seu universo é barroco, gótico, excêntrico e, às vezes, um pouco perverso. Mas cada história dele é muito bem contada e ilustrada musicalmente. E como podem ver na exposição que aí está, é também um belíssimo cineasta de animação onde todos esses aspectos da sua personalidade são inquestionáveis - O estranho mundo de Jack, A noiva cadáver, Frankenwee.

Olhos grandes é um bom exemplo (não necessariamente o mais ilustrativo) do estranho mundo do Tim Burton. A partir de uma história real de um falso pintor que atinge a fama e o proveito financeiro com os quadros pintados pela mulher.(com um repetitivo estilo kitsch) cria um belo retrato de como funcionam as relações de poder no interior da família e como os mercados da arte podem ser completamente minados pelos efeitos da aderência dos poderosos - há uma multiplicidade de figuras top  (intelectuais, financeiros, artistas) dos anos 60 que comprou quadros deste(a) pintor(a). Só quando o processo se tornou insustentável a pintora fez o corte com a situação, em parceria com a jovem filha, mas com elevado custo pessoal. O marido, que aparentemente nunca tinha pintado, continuou até ao fim da vida a acreditar no mundo artificial que foi criando ao longo dos anos em parceria com a mulher, com crescente violência psicológica imposta pela força da masculinidade (são os anos 50 e 60, não se esqueçam). Com os olhos abertos venham até ao mundo onírico e excêntrico do Tim Burton.

A golpada - George Roy Hill (1973)

Com Paul Newman, Robert Redford, Robert Shaw
Duração: 124 min

No espírito do Carnaval, que já lá vai, hoje temos A Golpada. Assim um filme leve, uma comédia à maneira, com dois grandes actores das nossas vidas - Paul Newman (grande actor) e Robert Redford (actor quanto baste, melhor realizador...mas sex symbol daqueles tempos. Felizmente ainda está entre nós). Chicago nos infernais anos trinta da América em que as grandes cidades eram controladas pela mafia. E Chicago era das mais loucas cidades, com grupos de gangsters a eliminar-se uns aos outros. Pois neste cenário vamos encontrar-nos com dois grandes trafulhas, burlões altamente refinados. O ritmo é infernal numa cidade reconstituída à maneira e com um guarda-roupa requintado. É a essência de uma grande produção de Hollywood dos velhos tempos, naqueles anos em que começava a cair aos bocados. Foi bem recompensada pelo sistema: Sete Óscares incluindo o de melhor realizador para o George Roy Hill que era um realizador de  segunda classe. Mas as coisas são assim em Hollywood tal como no Prémio Nobel - Quantos escritores nobelizados foram enterrados pela história? Mas se há um dado que não podemos retirar da biografia do filme é a música. Espantosamente a produção foi desenterrar do passado (fim do século XIX) a música de Scott Joplin, um negro lá do sul profundo que inventou um estilo de música assim uma mistura estranha entre a música europeia dos Chopins e companhia e a música dos escravos da sua origem familiar. é o rag - uma música belíssima, apelativa e altamente melódica. Só por isso vale a pena ver o filme. Mas (particularmente as colegas cinéfilas) não se esqueçam dos olhos do Newman e do charme (de aldrabão) do Redford.

30 dezembro 2023

Vontade indómita - King Vidor (1949)

Com Gary Cooper, Patricia Neal, Raymond Massey
Duração: 114 min

Um melodrama que termina bem num quadro ascencional metafórico quanto baste, mas a simbologia está lá. A felicidade encontra-se no céu. Mas para lá se chegar não foi fácil. Pelo contrário.

Um arquitecto de ideias revolucionárias, visionário, inamovível nas suas convicções estéticas e arquitetónicas, fora dos cânones.

Uma jovem jornalista filha de arquiteto senior - referência estética e conceptual dos modelos arquitetónicos de sucesso - em desacordo estético com o pai.

Um self made man proprietário de um jornal (Banner) assim tipo Correio da Manhã, paladino de ideias e valores conservadores, com um especialista reacionariamente militante na área da arquitetura.

Ficção sado-masoquista escreveu alguém e com razão. Também ficção sobre o(s) poder(es) da imprensa, das corporações...

Ideias versus compromissos, pragmatismo versus idealismo, liberdade de criação versus utilidade pública, orgulho versus solidão e compromisso versus exclusão.

Howard Roark, o jovem arquitecto (o Gary Cooper já não era jovem, mas o star system funcionava assim, e bem) engoliu pedras para chegar ao topo daquele arranha-céus em construção com que termina a ficção. Conseguiu impor os seus sonhos, conseguiu ganhar um jogo que durante anos o esmagou.

Patricia Neal, que não acreditava no amor, acabou enleada pelos seus poderosos braços com a vida facilitada pelo suicídio heróico do seu marido. Raymond Massey que numa interpretação brilhante põe a nu a complexidade da alma humana. Começa como um aviltante patrão de jornal (sem ética nem princípios) a destruir o que não concordava e termina a entregar ao arquitecto revolucionário projetos arquitectónicos para o futuro, ele que sabe que a sua mulher está destinada pelos deuses àquele.

Tirando alguns artifícios de escrita na história do argumento, obviamente os enredos amorosos, o arquitecto que enformou a personagem foi o Frank Lloyd Wright, americano, pioneiro da arquitetura moderna, paladino da arquitetura orgânica, de harmonização entre as pessoas e o ambiente. Teve uma vida muito longa e a ele se devem algumas das criações icónicas com que provavelmente alguns de vocês se cruzaram (direta ou indiretamente). Eu já visitei em Nova York o belíssimo  Guggenheim Museum, mostruário de arte do século XX. Indiretamente, via Hitchcock, já andei por uma réplica/variante do Fallingwatter (Casa da Cascata) via "Intriga Internacional" acompanhando as desventuras do coitado do Cary Grant.

Pois o Frank Lloyd Wright, que estava longe da contenção, escreveu que... "o génio permite ao homem superior ignorar todas as restrições morais ou éticas". Estamos conversados. Se não há bitolas de referência... podemos acabar mal.

Um filme de King Vidor (de origem húngara) e está tudo dito, ele que foi um dos grandes realizadores de Hollywood - sucessos no cinema mudo e no cinema sonoro. Como John Ford, um dos pilares incontornáveis da história do cinema.

Apesar do seu estatuto privilegiado em Hollywood fez muitos e diferentes filmes. Nos anos vinte fez clássicos como "A multidão" e "Aleluia", espantosamente um filme só com negros (o nosso amigo tinha consciência social e poder de argumentação face aos big moguls de Hollywood). Fez muitas coboiadas, das quais resultaram clássicos como "Duelo ao sol" e projetos megalómanos como "Guerra e Paz".

Ah. A banda sonora. Quem tenha, há umas semanas, visto uma série sobre a música no cinema (Canal 2), sabe que Max Steiner foi um dos autores citados. Austríaco de nascimento, criou durante décadas o som de Hollywood para centenas de filmes. Muitas e muitas horas, Múltiplas nomeações e três Oscares. Só três referências emblemáticas: "E tudo o vento levou", "King Kong" e "O tesouro da Serra Madre". Neste filme é muito forte o papel dramático que a banda sonora assume na definição ou ênfase das situações. Partitura ora atroante ora poética.

Mergulhemos, pois, num grande clássico do cinema. No catálogo do "Ciclo de Cinema Americano dos Anos 40",  João Benard da Costa é, como habitualmente, enfático, categórico - "Vontade Indómita" é o melhor filme americano de 1949. Se não foi, anda por lá perto.

05 dezembro 2023

Deus sabe quanto amei - Vincent Minnelli (1958)

Com Shirley McLaine, Frank Sinatra, Dean Martin, Arthur Kennedy
Duração: 137 min

Por vezes a humanidade toca o seu próprio chão e nós sentimos que há um outro som possível para a verdade. Minnelli consegue dizê-lo da forma mais subtil e fulgurante. Por isso o aroma de morte que envolve as cenas de ameaçada felicidade é mais terrível do que muitas tragédias. É a sensação de uma injustiça infinita, de um escândalo inteiramente insuportável. Tanta vida, tanto amor afinal para coisa nenhuma. Mas são coisas tão nenhumas como esta que ainda nos fazem chorar."

Quem escreveu isto, em 2002, foi Eduardo Prado Coelho e com ele estou em absoluto acordo. Noutros contextos nem sempre tínhamos as mesmas posições e discordávamos radical e publicamente quanto ao Jean Luc Godard que ele considerava quase um deus. Eu... reconhecia a sua importância para a história do cinema, mas já não estava disponível para muitas das coisas que ele fez como filmes. Mantenho a opinião de então. Águas passadas. Infelizmente já nos abandonou.

A América profunda, organizada nos seus eixos morais e sociais, com uma camada exterior elegante a esconder por baixo do tapete as porcarias e outras coisas mais subtis. O conservadorismo como modo de vida. As hierarquias (e os rituais) sociais a marcarem a vivência. 

Um militar veterano (Frank Sinatra) regressa a uma pequena cidade, após 16 anos fora. Andou pela guerra. Romancista em crise existencial, descrente do seu talento, o whisky como força possível na sua letargia. Amargo. Tem contas a ajustar com o irmão mais velho. E com aquela sociedade bafienta e hipócrita. 

Ginnie (Shirley MacLaine), uma jovem sem eira nem beira, à deriva, acidentalmente ligada ao retornado, após monumental bebedeira. Namorada (?) de um gangster rasca que, no fim, dramaticamente tudo precipitará. Amor incondicional. Excessos em tudo - na maquilhagem, na generosidade, na ingenuidade... no amor. Coitada. Vai acabar mal. 

Um irmão pusilânime (Arthur Kennedy) , bem instalado no status local. Vazio nos afectos familiares, procura fora de casa as compensações. Em meio pequeno tudo se sabe. A hipocrisia é a pele que o cobre. 

Um jogador profissional (Dean Martin), a correr para coisa nenhuma, alcoólico sem remédio. Tem alguma ponta de vergonha, mas a sua história não acabará bem. 

Uma professora puritana, complicada da cabeça, organizada ao milímetro para preencher os seus vazios, com um mundo curto e fechado, desperdiça a oportunidade de amor que lhe foi oferecida. 

Dos jogos de relações entre os personagens vai-se criando uma matriz complexa de aproximação e afastamento num universo que é opressivo. As jovens querem pôr-se a mexer, o romancista irá certamente voltar para uma grande cidade, o irmão continuará lá porque é o mundo que o fez, mas a Ginnie (admirável Shirley McLaine) também vai ficar lá para sempre, enterrada, assassinada às portas da sua felicidade pelo gangster de pacotilha que com ela tinha vindo de Chicago. 

Essa penúltima sequência, que dá o destino a toda a ficção, é absolutamente espantosa, alucinante, um tour de force de montagem cinematográfica, as personagens entre a multidão numa feira popular, uma perseguição que acabará com a morte da jovem numa espécie de união final de corpos  (quase que ritualizada) entre dois parceiros que nunca poderiam sê-lo em vida. 

Outra citação sobre a Ginnie, do João Bénard da Costa, o Director da Cinemateca durante muitos anos (infelizmente já desaparecido) com um estilo de escrita barroco, gongórico, hiperbólico: "Aquela cujo amor nos faz tanta pena (para citar um poeta português) é o centro deste filme prodigioso e o mais bonito personagem que o cinema alguma vez inventou." 

Há que relativizar, mas que o filme é um daqueles incontornáveis e que o Minnelli é um dos grandes criadores da história do cinema e que a música do Elmer Bernstein, etc e tal. Nunca  mais sairíamos do registo dos panegíricos. Limitem-nos a fruí-lo com todo o prazer.

26 novembro 2023

Frankenstein Junior - Mel Brooks (1974)

Com Gene Wilder, Peter Boyle, Marty Feldman, Terry Garr. 1974. 106 min

Comecemos pelo autor. Mel Brooks, na verdade Kelvin Kaminsky. O nome não engana. Judeu de origem polaca, mas nascido em Brooklyn. Woody Allen também é nome fake. Na origem é bem judeu - Allan Stewart Konigsberg. Isso de muitos actores e outros artistas americanos mudarem de nome não é assim tão neutral ou artificioso. Em muitos casos, como este, era por razões defensivas. Nome judaico? Não. A psicanálise ajudará eventualmente a esclarecer o imbróglio. 

Pois o Mel Brooks fez-se artista como escritor de sketches cómicos para televisão (tal como o Woody Allen) e músico. Deve-se-lhe a criação, juntamente com Buck Henry, da série televisiva cómica de grande sucesso - "Get Smart" (que também passou por cá).

Depois foram as suas aventuras no grande ecrã. Começou com sucesso. "O falhado amoroso" deu-lhe o Oscar do melhor argumento. Já aqui entrava o Gene Wilder, com os seus olhos esbugalhados, membro da pandilha de actores que foram fazendo os filmes do Mel Brooks.

A partir daí (1968), vai fazer um conjunto de filmes que definem a sua obra como um projeto alargado de filmes sobre filmes, ie. uma abordagem paródica, crítica, cínica, por vezes risível, de modelos do cinema clássico americano: o western, o horror, o policial, o épico histórico, a ficção científica, o filme mudo. É neste quadro que nasceu o projecto de "Frankenstein Junior" escrito a meias com o Gene Wilder que faz o papel do neto de Frankenstein.

"Frankenstein" foi um livro escrito por Mary Shelley, em Inglaterra no princípio do século XIX, e tornou-se um êxito como manifestação de um romantismo decadente, algo doentio. Hollywood no início do sonoro (1931) vai pegar no livro e transforma-o num sucesso. Boris Karloff, o actor, atinge o zénite. Depois, Hollywood foi explorando ao longo do tempo, de todas as formas e feitios, o personagem, a par e passo de Drácula  (também um êxito do mesmo ano, a partir de um livro de Bram Stocker -1897).

Pois em 1974 é a vez de Mel Brooks. O neto de Frankenstein, um jovem professor universitário neurocirurgião na América, recebe como herança do seu avô um castelo na Transilvânia (engraçado, é que esta região da Roménia, lá para os Cárpatos, está associada, isso sim, à lenda de Drácula). Vai lá, onde encontra um livro com os textos do avô sobre as suas experiências. A sua curiosidade científica vai lançá-lo num processo perigoso - criar vida a partir da morte. Vamos acompanhá-lo naquele universo barroco, onde a mística judaica e a cabalística se cruzam com a alquimia. Os seus companheiros

na aventura são bizarros, uma menina angélica, um corcunda mais feio que o Frankenstein, uma governanta perversa, etc.

Naquele processo alquímico a lógica é subertida, o excesso nem sempre respeita a verosimilhança. Mas isso interessa?

O gozo é muito neste filme a preto e branco, num estilo visual como se fosse feito nos heróicos anos 30 nos estúdios da Universal, que ganhou para si a identidade e o proveito deste género em Hollywood . Obviamente nesses longínquos tempos a Universal fez mais não sei quantos filmes a partir do original - a noiva de, o filho de, o fantasma de Frankenstein...e por aí fora.

Já agora... Nos anos 50 e 60, em Inglaterra produziram-se carradas de filmes deste universo bizarro. Christopher Lee foi a estrela de bastantes dráculas de dentes afiados e sotaque british.

Este tipo de filmes tem ao longo dos anos criado um imaginário rico que vem de muito de trás. A essência do cinema expressionista alemão das duas primeiras décadas do século XX, o gótico e o sobrenatural, são aqui muito bem reproduzidos. Filmes com "O gabinete do Dr. Caligari" , "O Golem" e "Nosferatu" são referências de topo da história do cinema.

Posto isto, preparemo-nos para acompanhar o Peter Boyle no corpo do homúnculo naquele universo bizarro, mas tudo com bonomia, num filme que é considerado uma das grandes comédias da história do cinema.

05 novembro 2023

Carta de uma desconhecida - Max Ophuls (1948)

Com Joan Fontaine, Louis Jordan
Duração: 87 min

Comecemos pelo realizador. Depois se perceberá melhor o filme. Max Ophuls. Realizador de múltiplas facetas e diferentes línguas.  Nascido na Alemanha, francês por naturalização (fugiu à besta nazi por ser de origem judaica, apesar do prestígio acumulado como jovem encenador nos grandes palcos alemães e austríacos), deambulou pela Europa - França, Holanda, Itália, Suíça - até ao limite. Em 1942, quando o cerco nazi o estrangulava, conseguiu safar-se para a América com passagem (e estadia) em Lisboa.

Suportado pelo prestígio acumulado na Europa e apoiado pelo argumentista e realizador Preston Sturges (que belas e satíricas comédias sociais ele fez) entrou na máquina de sonhos de Hollywood. Fez uns filmes, mas claramente em desajustamento no império dos sonhos. Enquanto, por exemplo, Fritz Lang fez uma brilhante segunda carreira na América, para Ophuls Hollywood foi um limbo, um tempo de passagem. Era talvez demasiado  marcado pela cultura do século XIX do império austro-húngaro, pela sua identidade de mitteleuropeu.

Mas no vazio caem às vezes as pepitas de ouro. Foi o caso deste filme. Considerado pelos anais do cinema um dos mais belos melodramas, é uma história à maneira de um cineasta, da sua identidade e das suas origens. A partir de um livro de Stefan Zweig, escritor de Viena, também ele fugido ao nazismo (foi para o Brasil onde não aguentou o exílio e se suicidou), é uma história intensa de amor (romantismo às avessas, se se pode dizer). Amor, paixão e maldição.

E começa pelo fim. Longos flashbacks. Uma mulher que se suicidou, mas antes escreve uma carta ao equivocado objeto da sua funesta paixão. Depois vamos percebendo o que se passou e apreendendo como naquele mundo de convenções e salamaleques tudo era precário, tirando a paixão assolapada da heroína (é uma forma de dizer, o mais correcto seria chamá-la de pateta). Amar sem ser amada. Amor absoluto versus ausência de amor. A percepção do precipício e a incontrolável fuga para a frente. Ele, jovem génio pianista,  bem falante e elegante perdeu-se no labirinto das aventuras amorosas sem consequência; ela, obsessivamente apaixonada, sem qualquer sentido do real; um marido decente, a essência do militarismo e da honra. Um filho (fruto do pecado, na linguagem novelesca... ah ah ah) apanhado pela foice mortal do tifo. Tudo começa e acaba num duelo entre os homens. O que acontecerá fica para a nossa imaginação.

Depois da aventura americana, Max Ophuls regressou à Europa em 1950 e, em cinco anos, fez quatro filmes que são considerados obras-primas, particularmente o último, "Lola Montes". Um filme incrível, no seu universo barroco, a partir da história real de uma bailarina, actriz e cortesã do século XIX que foi amante de Liszt e de Luis I da Baviera. Ophuls explora até aos limites  a féerie da câmara móvel, da elegância formal e das cores exuberantes em atmosfera circense. Onírico.

François Truffaut, que naqueles anos 50 aprendia cinema - i.e.  vendo filmes - na Cinemateca Francesa, uma espécie de catedral frequentada por todos os jovens candidatos a cineastas, escreveu, e muito bem, que Ophuls - cineasta de cabeceira para a nouvelle vague - era um cineasta balzaquiano.

Para terminar, permitam recorrer a "The Film Enciclopedia" (Ephraim Katz) que assim descreve o cinema de Ophuls, tão bem ilustrado no filme de hoje:

"A sua reputação como um dos grandes realizadores do cinema decorre não propriamente do conteúdo dos seus filmes, que era muitas vezes bastante frágil ou inconsistente, mas da sua forma. Ophuls era um virtuoso do estilo de realização que enfatizava a mise-en-scene. A sua câmera era incrivelmente fluída, movimentando-se constantemente numa matriz de planos em movimento, planos de cima para baixo e inversamente, ângulos estranhos, acariciando sensualmente a textura barroca luxuriante do mundo intemporal em que os seus personagens românticos se movimentam."

O desafio está lançado. Um mundo que já passou (Viena do fim do século XIX ) reproduzido num sistema de produção cinematográfica que já não existe (Hollywood no seu auge) e uma história que, na sua matriz base, poderia ser de agora. A alma humana é muito complexa... 

07 maio 2023

A difícil arte de amar - Mike Nichols (1986)

Com Meryl Streep, Jack Nicholson
Duração: 108 min

A coisa está difícil. Agora foi um feriado a interferir com os nossos pequenos prazeres cinéfilos. Retomemos o fio à meada. Um salto de quase 10 anos após a estreia da Meryl Streep em "Julia" e ei-la em grande a enfrentar o Jack Nicholson. Nesse tempo fez um percurso ascendente rapidíssimo e empolgado para o céu de Hollywood. Para nosso enorme prazer. 

Não é preciso recordar todos os filmes que ela fez nesse interim. Só meia dúzia: "O caçador" (M. Cimino), "Manhattan" (W. Allen), "Kramer versus Kramer" (R. Benton), "A amante do tenente francês" (K. Reisz), "A escolha de Sofia" (A. J. Pakula), "Out of Africa" (Sidney Pollack).

Quando Meryl Streep era já a incontornável estrela do cinema americano, aceitou o convite do Mike Nichols (com quem já tinha feito, três anos antes, "Silkwood") para esta história elaborada por Nora Ephron - um best seller autobiográfico - a partir da sua experiência pessoal do casamento com Carl Bernstein (1976-1980). Situemo-nos perante os personagens. 

Carl Bernstein. Foi um dos dois jornalistas do Washington Post (o outro foi Bob Woodward) que desencadearam o processo de Watergate que levou à renúncia de Nixon (1972). Naqueles anos tornaram-se estrelas mundiais. O cinema deu a versão dos acontecimentos com o filme "Os homens do presidente" do A. J. Pakula, e os jornalistas foram interpretados por Robert Redford e o Dustin Hoffman. 

Nora Ephron, uma intelectual proveniente da burguesia esclarecida de Nova York. Jornalista e escritora. Mais tarde escreveu argumentos (nomeadamente este) e dirigiu alguns filmes interessantes. 

A essência do filme é muito simples: O percurso de ajustamento/desajustamento entre duas personagens muito díspares. Ela, algo ingénua e romântica, com o sentido da maternidade, a procurar criar uma família. Ele em derivas de traição (caso com uma socialite inglesa, filha do antigo primeiro-ministro James Callaghan). Entre Nova York e  Washington vamos acompanhando os 4 anos que durou o casamento, num registo que às vezes remete para o universo filmico de Woody Allen, as discussões intelectuais, os encontros, os jantares... 

No fim, o inevitável acontece. A mulher, com o peso de dois filhos às costas, abandona tudo e regressa a casa dos pais em Nova York. Filme amargo e azedo onde a raiva anda a par da hipocrisia (quem melhor do que Jack Nicholson para aquele papel em que o Carl Bernstein se revela uma besta quadrada, independentemente do bem que uns anos antes tenha feito em prol da ética política nos EUA?). 

Para nossa referência: nunca em nenhuma situação são identificados os personagens reais. Apesar de toda a gente saber. Restrições jurídicas certamente. 

Pelo meio só coisas interessantes: Música da Carly Simon, uma das grandes musas da música americana daqueles tempos, mais a Joan Baez, a Carole King e a Joni Michelle...

O Milos Forman anda por lá como actor, ele que foi um dos maiores cineastas da nossa contemporaneidade - "Voando sobre um ninho de cucos", "Amadeus", "Larry Flint" e ficamos por aqui. 

A fotografia é só do Nestor Almendros, um dos maiores diretores de fotografia do cinema contemporâneo - saiu da Europa (François Truffaut, Éric Rohmer e muitos mais) para Hollywood onde foi altamente valorizado e premiado. 

Já agora o Mike Nichols. Foi ele que realizou, por exemplo, "A primeira noite", "Quem tem medo de Virgínia Wolf?" , "Iniciação carnal" e "Catch 22". 

Portanto, só bons motivos para retomar os pequenos prazeres que o bom cinema proporciona.

01 maio 2023

Florence, uma diva fora de tom - Stephen Frears (2016)

Com Meryl Streep, Hugh Grant
Duração: 111 min

Florence Foster Jenkins (1868-1944). Uma mulher rica de Nova York, frequentadora assídua dos círculos sociais da grande burguesia americana produzida pela revolução industrial, mais os condes, os marqueses e os duques vindos da Europa, nomeadamente exportados pela Rússia após 1917. O canto lírico é a sua grande obsessão. O universo operático é o seu quotidiano. Melómana. Megalómana. A sua generosidade financeira tem eco nos círculos dos músicos e cantores, como o comprovou o grande maestro Toscanini que dela beneficiava.

Com a sua fortuna criou o Clube Verdi, uma sala de espectáculos para os seus amigos e convidados, onde ela ousava cantar, revelando o mais desastroso talento lírico, mas usando o mais incrível vestuário . Era designada a diva do grito. "The world's worst opera singer" como escreveu um musicólogo. Mas tudo era em circuito fechado. Puro divertimento. Bravo!!!

St. Claire Bayfield (1875-1967). Actor inglês, de origem aristocrata, pouco dotado artisticamente, mas muito devotado à senhora Florence, com quem foi casado de 1909 a 1944. Diferença substancial de idades mas uma forte parceria pública (em privado eram duas vidas separadas e muito distintas). Tinha direito a uns monólogos de Shakespeare no Clube Verdi e a vidinha corria mais que bem. Até que tudo começou a ficar mais dramático assim como uma ópera de Verdi, de Puccini ou um lied de Mahler.

Florence - que tinha começado a ter aulas de canto com o melhor professor de Nova York, com o apoio de um jovem músico, de seu nome Cosmé McMoon (1901-1980) a procurar sobreviver (I am a serious pianist) - ousa dar um enorme passo em frente. Aproveitando umas férias do seu parceiro, fora de Nova York, aluga a célebre sala de espectáculos Carnegie Hall para uma apresentação sua, em grande, de consagração.

O caldo entornado. O pânico instalado. Há que controlar os riscos. Gerir a situação. Pagar aos críticos para não dizerem mal, vender os lugares aos habitués do Clube Verdi, oferecer bilhetes à tropa numa altura em que o exército americano está a atravessar o Atlântico para nos salvar da besta hitleriana.

As coisas até podiam ter corrido pior. Florence atingiu o zénite da sua não carreira. Passado um mês morreu (recorde-se que ela tinha 76 anos, que é uma idade em que nenhuma cantora de ópera ainda está no activo).

Neste quadro de obsessão e absurdo, em que a farsa é o embrulho adequado, saliente-se que as personagens têm alma. Não são bonecos. Tudo aquilo acontecia na especificidade do meio em que eles viviam. E nesse sentido temos mais uma grande composição da Meryl Streep numa personagem fake mas sem disso nunca ter consciência. Era assim e pronto. E é delicioso o seu canto desarmónico.

Hugh Grant, que tem tanto de cabotino como de bom actor, neste caso ficou do lado bom. No dualismo entre o marido devotado, protetor  e gestor e o outro, com uma vida jovem, afetiva e sexual,  dá-nos uma belíssima prestação, mesmo com algumas situações comoventes.

Já agora o Simon Helbey, o actor que faz de Cosmé, um grande papel, de quem está dentro e fora ao mesmo tempo. E com a consciência disso. O músico que ele representa ficou pelo caminho. Certamente esgotou-se com a energia transferida para a Florence.

E o realizador? O Stephen Frears fez alguns dos mais importantes filmes dos últimos vinte anos. Disso falaremos.

Há histórias que não precisam ser inventadas, por mais bizarras que sejam. Estes personagens existiram, as situações estão documentadas e um disco de árias de ópera que a Florence gravou é parte respeitada do património cultural americano.

Só nos resta dizer: E esta, hem?

Um dia nas corridas - Sam Wood (1937)

Com Irmãos Marx, Maureen O'Sullivan, Margaret Dumont. 1937. 111 min

Ponto de ordem ao e-mail: eu sou marxista. Não, não, não. Ninguém faça juízos de valor. O outro Marx, Karl de seu nome, não é para aqui chamado, independentemente do seu papel inapagável na história do mundo nos últimos 150 anos. Eu sou marxista enquanto fã incondicional dos irmãos Marx, que nasceram, ainda no século XIX, duas gerações depois do senhor das barbas imponentes. Judeus, nova-iorquinos, filhos de um casal franco-alemão. Três irmãos, (mais um no início, mas que mais para a frente se deixou de comédias) que desde o fim dos anos 20  fizeram algumas das comédias mais loucas (no bom sentido) da história do cinema.

Iniciaram-se como artistas de variedades, circulando pela América em espectáculos de vaudeville e burlesco. Mais para a frente têm a afirmação na Broadway e não resistiram ao fascínio de Hollywood. Em 1929, fizeram o primeiro filme "The Cocoanuts" a partir de uma comédia que eles representavam com sucesso em Nova York.

"Um dia nas corridas" é já da fase madura (sétimo filme) , dirigido por um realizador respeitável (Sam Wood) e a história é bem normal dentro dos padrões mais ou menos tipificados daquela altura: um sanatório com dívidas, na Flórida, em vias de ser abocanhando por especuladores imobiliários. Corridas de cavalos como hipótese de salvação do sanatório se os bons ganharem. Um médico que, na verdade, é veterinário, um jogo de equívocos muito próprio dos Marx. Um jovem casal, muito bonzinho a lutar pelo bem. Etc. e tal.

Obviamente tudo acaba bem para nosso gáudio depois de largas gargalhadas perante as múltiplas situações burlescas, surreais, bizarras e satíricas. O ritmo é delirante, frenético. E o fim é apoteótico de música e dança negra, algo quase irreal, se pensarmos na história da segregação racial nos EUA, fortíssima naquela altura. Quase revolucionário, se usássemos as referências do outro Marx. Ou isto anda tudo ligado?

Cada um dos Marx é uma personagem identificável desde o primeiro filme. O nome de guerra de cada um não era o seu nome civil.

Groucho - civilmente chamava-se Julius - óculos redondos, bigode enorme pintado e sobrancelhas maiores que um telhado, era o pinga-amor, com o andar projetado para a frente. Grandes citações, frases retóricas. Sempre à procura da mulher rica.

Chico. O charmoso de chapéu tirolês, falava inglês à italiana e tocava piano. Atenção ao dedinho.

Harpo. O mudo que não era mudo e que se fazia entender pelos seus códigos especiais - as cornetas, os assobios e o que mais necessário. Era o mimo, o artista da pantomima, um exímio tocador de harpa que experimentava sempre que o pretexto se apresentava. Então se fosse com uma orquestra era ouro sobre azul.

Perante isto, ouso escrever, vamos ver e recuar umas boas décadas até aquele tempo em que tudo era possível, com a poética desbragada dos Marx.

A rapariga da mala - Valerio Zurlini (1961)

Com Claudia Cardinale, Jacques Perrin... Duração: 1h53m "Um drama de amor com fundo de Verdi e de luta de classes numa Itália onde come...