Com Bob Hoskins, Christopher Lloyd
Hollywood 1947. O coelho Roger
Rabbit, actor de cinema célebre, vedeta da Hollywood de desenhos animados,
desconfia que a sua mulher, Jessica, uma bela e sensual cantora, o engana. Em
grande choque, decidido a descobrir a verdade, contrata o detetive humano Eddie
Valliant (emulação de Philip Marlowe, criação suprema de Raymond Chandler) para
investigar. Tudo aponta para a traição, mas... as coisas nem sempre são o que
parecem, como na vida real. O alucinado Roger Rabbit (cujo sentido da vida é
fazer rir) acaba acusado de homicídio, mas consegue fugir. Aí aparece o
perverso juiz Doom, um homem (se calhar, não; fica lá mais para o fim desvendar
o mistério ... a surpresa faz parte da essência da ficção) implacável,
protegido por uma pandilha de fuinhas (tão violentos como estúpidos), tem como
fim eliminar todos os desenhos animados e destruir o estúdio por perversas
razões - construir uma grande auto-estrada com múltiplos negócios acoplados.
Etc, etc. Nunca mais saíamos daqui se contássemos tudo. Felizmente acaba em
bem, a justiça será feita. A bicharada fará um grande final, cantando e
dançando. THAT'S ALL FOLKS.
Ufh... Fiquemos por aqui e
preparemo-nos para mergulhar de cabeça na mais alucinante e verosímil ficção
com os mais inverosímeis actores - toons, os personagens que vivem em
Toonstown, e que se cruzaram connosco há muitos anos, antes dos filmes de fundo
da nossa adolescência ou na televisão. São tantos e a um ritmo tão apressado
que nem damos por todos, mas apanhamos com a criação do Walt Disney, da Warner
Bros. e mais uns quantos de outras produtoras menores: Pato Donald, Mickey,
Bugs Bunny, Dumbo, Betty Boop, Bip Bip, (Goofy) Pateta. E mais não digo, para
deixar a cada um a surpresa de reencontros com a sua infância/adolescência.
Fantasia delirante em forma de
policial (as referências são estimáveis - Dashiell Hammett e Raymond Chandler -
na construção da matriz ficcional e na configuração do detetive particular),
tecido híbrido utilizando técnicas de live-action, criaturas de animação com
actores de carne e osso. A fusão é perfeita. Naqueles tempos em que tudo era
feito à mão, isto é, sem computadores, o filme resultou um verdadeiro milagre.
Nada é forçado, tudo funciona como se fora um monumental relógio com todas as
peças, rodas, rodinhas e alavancas funcionando com rigor, na perfeição. O
prazer é estimulante.
A criancice dos desenhos animados
cola bem com os comportamentos adultos (as sugestões sexuais são diversas e
divertidas), uma certa poesia da violência, como escrevia o Chandler, perpassa
por toda a história qual hard boiled fiction, incorporando os arquétipos, a
iconografia e a atmosfera que ele e o Hammett criaram nas suas histórias
policiais nos anos 30 e 40.
O nosso detetive (real) é uma
personagem à deriva, alcoolizado, falido, estouvado e em dor pelo assassínio,
uns anos antes, por um toon nunca identificado, do seu irmão e sócio. A
resolução do caso do estúdio será também a resolução do seu caso pessoal e
provavelmente marcará a sua redenção da adição alcoólica.
Já a Jessica Rabbit é uma
personagem de cartoon. Uma deusa do palco. Uma voz rouca murmurante e um corpo
exuberante. Até o nosso amigo detective se sente enfeitiçado. Cheia de jogo de cintura,
mas, no fundo, boa rapariga. Como ela diz: "Eu não sou má. Apenas me
desenharam assim..." A voz da Jessica é fornecida pela Kathleen Turner,
símbolo sexual de Hollywood dos anos 80. "Noites Escaldantes", com o
William Hurt, é uma referência incontornável. O "boneco" da Jessica é
muito parecido com o perfil da actriz.
Três pais (não sei se houve mães)
do filme: o realizador Robert Zemeckis que coseu de forma brilhante os dois
universos. Steven Spielberg que (em subcontratação da Walt Disney) uniu todos
os fios humanos e logísticos para criar aquela trama tão requintada. Richard
Williams, o director de animação que criou (com muitos desenhadores) todo
aquele universo delirante de personagens e situações. Esta obra de pura
filigrana durou dois anos e meio a fazer. Mas valeu a pena. Obteve 4 Oscares:
Som, montagem, efeitos visuais e efeitos sonoros.
Querer mais é querer ir até ao fim do mundo. Fiquemo-nos por Linda-a-Velha e fruamos cada segundo da ficção com o prazer de crianças crescidas e a liberdade de espatifar tudo. Mentalmente, claro.
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