01 janeiro 2024

Quem tramou Roger Rabbit? - Robert Zemeckis (1988)

Com Bob Hoskins, Christopher Lloyd
Duração: 104 min

Hollywood 1947. O coelho Roger Rabbit, actor de cinema célebre, vedeta da Hollywood de desenhos animados, desconfia que a sua mulher, Jessica, uma bela e sensual cantora, o engana. Em grande choque, decidido a descobrir a verdade, contrata o detetive humano Eddie Valliant (emulação de Philip Marlowe, criação suprema de Raymond Chandler) para investigar. Tudo aponta para a traição, mas... as coisas nem sempre são o que parecem, como na vida real. O alucinado Roger Rabbit (cujo sentido da vida é fazer rir) acaba acusado de homicídio, mas consegue fugir. Aí aparece o perverso juiz Doom, um homem (se calhar, não; fica lá mais para o fim desvendar o mistério ... a surpresa faz parte da essência da ficção) implacável, protegido por uma pandilha de fuinhas (tão violentos como estúpidos), tem como fim eliminar todos os desenhos animados e destruir o estúdio por perversas razões - construir uma grande auto-estrada com múltiplos negócios acoplados. Etc, etc. Nunca mais saíamos daqui se contássemos tudo. Felizmente acaba em bem, a justiça será feita. A bicharada fará um grande final, cantando e dançando. THAT'S ALL FOLKS.

Ufh... Fiquemos por aqui e preparemo-nos para mergulhar de cabeça na mais alucinante e verosímil ficção com os mais inverosímeis actores - toons, os personagens que vivem em Toonstown, e que se cruzaram connosco há muitos anos, antes dos filmes de fundo da nossa adolescência ou na televisão. São tantos e a um ritmo tão apressado que nem damos por todos, mas apanhamos com a criação do Walt Disney, da Warner Bros. e mais uns quantos de outras produtoras menores: Pato Donald, Mickey, Bugs Bunny, Dumbo, Betty Boop, Bip Bip, (Goofy) Pateta. E mais não digo, para deixar a cada um a surpresa de reencontros com a sua infância/adolescência.

Fantasia delirante em forma de policial (as referências são estimáveis - Dashiell Hammett e Raymond Chandler - na construção da matriz ficcional e na configuração do detetive particular), tecido híbrido utilizando técnicas de live-action, criaturas de animação com actores de carne e osso. A fusão é perfeita. Naqueles tempos em que tudo era feito à mão, isto é, sem computadores, o filme resultou um verdadeiro milagre. Nada é forçado, tudo funciona como se fora um monumental relógio com todas as peças, rodas, rodinhas e alavancas funcionando com rigor, na perfeição. O prazer é estimulante.

A criancice dos desenhos animados cola bem com os comportamentos adultos (as sugestões sexuais são diversas e divertidas), uma certa poesia da violência, como escrevia o Chandler, perpassa por toda a história qual hard boiled fiction, incorporando os arquétipos, a iconografia e a atmosfera que ele e o Hammett criaram nas suas histórias policiais nos anos 30 e 40.

O nosso detetive (real) é uma personagem à deriva, alcoolizado, falido, estouvado e em dor pelo assassínio, uns anos antes, por um toon nunca identificado, do seu irmão e sócio. A resolução do caso do estúdio será também a resolução do seu caso pessoal e provavelmente marcará a sua redenção da adição alcoólica.

Já a Jessica Rabbit é uma personagem de cartoon. Uma deusa do palco. Uma voz rouca murmurante e um corpo exuberante. Até o nosso amigo detective se sente enfeitiçado. Cheia de jogo de cintura, mas, no fundo, boa rapariga. Como ela diz: "Eu não sou má. Apenas me desenharam assim..." A voz da Jessica é fornecida pela Kathleen Turner, símbolo sexual de Hollywood dos anos 80. "Noites Escaldantes", com o William Hurt, é uma referência incontornável. O "boneco" da Jessica é muito parecido com o perfil da actriz.

Três pais (não sei se houve mães) do filme: o realizador Robert Zemeckis que coseu de forma brilhante os dois universos. Steven Spielberg que (em subcontratação da Walt Disney) uniu todos os fios humanos e logísticos para criar aquela trama tão requintada. Richard Williams, o director de animação que criou (com muitos desenhadores) todo aquele universo delirante de personagens e situações. Esta obra de pura filigrana durou dois anos e meio a fazer. Mas valeu a pena. Obteve 4 Oscares: Som, montagem, efeitos visuais e efeitos sonoros.

Querer mais é querer ir até ao fim do mundo. Fiquemo-nos por Linda-a-Velha e fruamos cada segundo da ficção com o prazer de crianças crescidas e a liberdade de espatifar tudo. Mentalmente, claro.

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