01 janeiro 2024

Fiesta (the sun also rises) - Henry king (1957)

Com Tyrone Power, Ava Garner, Errol Flynn, Mel Ferrer
Duração: 130 min

Acredito que, quando eram mais novos, todos leram os livros do E. Hemingway - "O velho e o mar", "O adeus às armas", "Por quem os sinos dobram". Eu sou um adepto. Li tudo. Escrita apelativa, só aparentemente simples e com matrizes ficcionais muito sólidas. Merecidamente Prémio Nobel da Literatura (1954).

"O sol nasce para sempre" é o segundo romance que ele escreveu (1926) e onde mostra todo o seu fascínio por Espanha e a sua cultura máscula - touros, toureiros e touradas - obviamente na perspectiva do americano sem restrições, bon vivant e com sentido de aventura, de que ele foi um exemplo superlativo.

Nos anos 20, na Europa em reconstrução da tragédia da guerra de 1914-18, Paris era o vértice e o vórtice da vida intelectual e artística do mundo. Escritores, pintores, jornalistas, actores, músicos . Picasso, Sartre, Stravinsky, Ravel, Gide, Diaghilev, etc. etc. (poderia enunciar uma lista de nomes de referência com quilómetros de extensão).Toda a gente fluía para lá, todos procuravam o seu quinhão de glória. Qualquer jovem americano ou inglês com pretensões culturais, zarpava no primeiro navio para lá chegar. Com poucos dólares ou libras no bolso tinham a aventura da vida à espera. E, muitas vezes, a decepção.

É nesse contexto febril que Hemingway criou a sua ficção.

Um grupo de expatriados, instalados em Paris ou a circular pela Europa, vive a vida a cem à hora. O hedonismo é uma forma de estar, a boémia a normalidade. Era a geração perdida dos roaring twenties, da jazz age...Ilusões perdidas, falência moral, dissolução espiritual, amores frustrados.

Existencialismo avant la lettre.

História de amor impossível entre Barnes, um jornalista americano (Tyrone Power) e Lady Brett Ashley, uma mulher aventureira à deriva, devoradora de homens (Ava Gardner). Impossível o amor (sexual) porque ele, aviador na guerra, foi ferido pelos alemães e ficou impotente (uns tempos antes não se poderia referenciar isso no cinema americano por restrições do código de Hays)... Resta-lhes a amizade e a cumplicidade na aventura da vida.

De Paris, dos seus bistrots e restaurantes, dos clubes de Bal-Musette, para Espanha. Pamplona e as Festas de San Fermin. A rota do prazer continua em crescendo. Agora é a hispanidade na sua exuberância. O álcool e a música. Os touros e os toureiros. A ritualização dos movimentos e das multidões em festa e os encontros/desencontros amorosos. Paixões não correspondidas e desajustamentos culturais e vivenciais.
No fim, pouco resta. Acabada a festa, cada um faz o seu balanço. Os touros e as multidões desapareceram e os amigos abandonam a cidade. Uns regressam a Paris, outros vão para casa na América ou em Inglaterra. Lady Brett procura um pouco de protecção no ombro do seu amigo, até à próxima aventura amorosa falhada. A vida é assim.

Mais de trinta anos passaram entre a saída do livro e a sua versão cinematográfica. Nos corredores dos estúdios de Hollywood o projecto andou de mão em mão e acredito que um dos factores de bloqueamento terão sido as restrições da censura dos costumes. Apesar do Hemingway ter torcido o nariz à adaptação, toda a gente considera que ele não tinha razão. A essência da ficção cinematográfica não traiu o livro. Por razões atmosféricas a Pamplona de Espanha foi filmada no México, mas Paris foi filmada em Paris. Já não foi mau.

Incongruência maior foi a idade dos actores. Era pressuposto serem jovens a despontar nos seus vinte e tal e apanhamos com "jovens" de quarenta e tal. Todos grandes vedetas. O Errol Flynn, a cair da tripeça (muitos anos depois de ter sido o Robin dos Bosques do nosso imaginário adolescente), mas faz uma personagem notável, um gentleman bêbado e às vezes rufião, que, na verdade, era a sua natural condição na fase final da sua vida.

Claro que é impossível passar ao lado da magnífica e magnética Ava Gardner sem admiração e, já agora, não ignorem a jovem e bonita Juliette Gréco, anos mais tarde a diva da noite parisiense, a voz do fundo do coração e a deusa do existencialismo sartriano.

Uma curiosidade. A personagem do jovem toureiro Pedro Romero foi interpretada pelo já não muito jovem americano Robert Evans que nem sequer era actor. O nome nada diz aos não especialistas, mas passados uns anos, tornou-se uma das personalidades mais importantes de Hollywood. Primeiro como produtor executivo na Paramount depois como produtor independente. A ele se devem filmes tão importantes como A semente do diabo, Serpico, O Padrinho, O grande Gatsby, Chinatown, O homem da maratona, Cotton Club... Nesses anos - 60 e 70 - Hollywood acordou dos mortos com a genialidade de Coppola, Scorsese, Friedkin, Bogdanovich, Schrader, Polanski e mais alguns com a parceria activa do Robert Evans. Nome incontornável da história do cinema contemporâneo americano.

Já agora, o realizador. Henry King era um dos bons. No filme está toda a essência do cinema clássico americano, ainda para mais em CinemaScope, uma inovação recente naqueles maravilhosos anos 50 de Hollywood.

Mais para a frente voltaremos a Hemingway.

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