Com Tyrone Power, Ava Garner, Errol Flynn, Mel Ferrer
Duração: 130 min
Acredito que, quando eram mais novos, todos leram os livros do E. Hemingway - "O
velho e o mar", "O adeus às armas", "Por quem os sinos
dobram". Eu sou um adepto. Li tudo. Escrita apelativa, só aparentemente
simples e com matrizes ficcionais muito sólidas. Merecidamente Prémio Nobel da
Literatura (1954).
"O sol
nasce para sempre" é o segundo romance que ele escreveu (1926) e onde
mostra todo o seu fascínio por Espanha e a sua cultura máscula - touros,
toureiros e touradas - obviamente na perspectiva do americano sem restrições,
bon vivant e com sentido de aventura, de que ele foi um exemplo superlativo.
Nos anos 20, na
Europa em reconstrução da tragédia da guerra de 1914-18, Paris era o vértice e
o vórtice da vida intelectual e artística do mundo. Escritores, pintores,
jornalistas, actores, músicos . Picasso, Sartre, Stravinsky, Ravel, Gide,
Diaghilev, etc. etc. (poderia enunciar uma lista de nomes de referência com
quilómetros de extensão).Toda a gente fluía para lá, todos procuravam o seu
quinhão de glória. Qualquer jovem americano ou inglês com pretensões culturais,
zarpava no primeiro navio para lá chegar. Com poucos dólares ou libras no bolso
tinham a aventura da vida à espera. E, muitas vezes, a decepção.
É nesse
contexto febril que Hemingway criou a sua ficção.
Um grupo de
expatriados, instalados em Paris ou a circular pela Europa, vive a vida a cem à
hora. O hedonismo é uma forma de estar, a boémia a normalidade. Era a geração
perdida dos roaring twenties, da jazz age...Ilusões perdidas, falência moral,
dissolução espiritual, amores frustrados.
Existencialismo
avant la lettre.
História de
amor impossível entre Barnes, um jornalista americano (Tyrone Power) e Lady
Brett Ashley, uma mulher aventureira à deriva, devoradora de homens (Ava
Gardner). Impossível o amor (sexual) porque ele, aviador na guerra, foi ferido
pelos alemães e ficou impotente (uns tempos antes não se poderia referenciar
isso no cinema americano por restrições do código de Hays)... Resta-lhes a
amizade e a cumplicidade na aventura da vida.
De Paris, dos
seus bistrots e restaurantes, dos clubes de Bal-Musette, para Espanha. Pamplona
e as Festas de San Fermin. A rota do prazer continua em crescendo. Agora é a
hispanidade na sua exuberância. O álcool e a música. Os touros e os toureiros.
A ritualização dos movimentos e das multidões em festa e os
encontros/desencontros amorosos. Paixões não correspondidas e desajustamentos
culturais e vivenciais.
No fim, pouco resta. Acabada a festa, cada um faz o seu balanço. Os touros e as
multidões desapareceram e os amigos abandonam a cidade. Uns regressam a Paris,
outros vão para casa na América ou em Inglaterra. Lady Brett procura um pouco
de protecção no ombro do seu amigo, até à próxima aventura amorosa falhada. A
vida é assim.
Mais de trinta
anos passaram entre a saída do livro e a sua versão cinematográfica. Nos
corredores dos estúdios de Hollywood o projecto andou de mão em mão e acredito
que um dos factores de bloqueamento terão sido as restrições da censura dos
costumes. Apesar do Hemingway ter torcido o nariz à adaptação, toda a gente
considera que ele não tinha razão. A essência da ficção cinematográfica não
traiu o livro. Por razões atmosféricas a Pamplona de Espanha foi filmada no
México, mas Paris foi filmada em Paris. Já não foi mau.
Incongruência
maior foi a idade dos actores. Era pressuposto serem jovens a despontar nos
seus vinte e tal e apanhamos com "jovens" de quarenta e tal. Todos
grandes vedetas. O Errol Flynn, a cair da tripeça (muitos anos depois de ter
sido o Robin dos Bosques do nosso imaginário adolescente), mas faz uma
personagem notável, um gentleman bêbado e às vezes rufião, que, na verdade, era
a sua natural condição na fase final da sua vida.
Claro que é
impossível passar ao lado da magnífica e magnética Ava Gardner sem admiração e,
já agora, não ignorem a jovem e bonita Juliette Gréco, anos mais tarde a diva
da noite parisiense, a voz do fundo do coração e a deusa do existencialismo
sartriano.
Uma
curiosidade. A personagem do jovem toureiro Pedro Romero foi interpretada pelo
já não muito jovem americano Robert Evans que nem sequer era actor. O nome nada
diz aos não especialistas, mas passados uns anos, tornou-se uma das
personalidades mais importantes de Hollywood. Primeiro como produtor executivo
na Paramount depois como produtor independente. A ele se devem filmes tão
importantes como A semente do diabo, Serpico, O Padrinho, O grande Gatsby,
Chinatown, O homem da maratona, Cotton Club... Nesses anos - 60 e 70 -
Hollywood acordou dos mortos com a genialidade de Coppola, Scorsese, Friedkin,
Bogdanovich, Schrader, Polanski e mais alguns com a parceria activa do Robert
Evans. Nome incontornável da história do cinema contemporâneo americano.
Já agora, o
realizador. Henry King era um dos bons. No filme está toda a essência do cinema
clássico americano, ainda para mais em CinemaScope, uma inovação recente
naqueles maravilhosos anos 50 de Hollywood.
Mais para a frente voltaremos a Hemingway.
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