Duração: 117 min
"We are back", aproprio-me de um dos finais de filme mais conhecidos do grande público - "I'll be back", dizia o Arnold Schwarzenegger no fim de "Terminator", já há uns bons anos.
Tempos da grande depressão nos EUA. Mais concretamente, 1931. No universo da marginalidade organizada, das famílias de gangsters - quase todas de origem italiana ou irlandesa - o tráfico de bebidas alcoólicas e a exploração da prostituição eram as grandes áreas de poder. A idiotice política americana tinha criado a Lei Seca que perdurou por 13 anos desde 1920. Ajustes de contas, mortandades e assassinatos encomendados eram o dia a dia da América naqueles tempos. Al Capone, Frank Nitti, Dillinger ou Bonnie e Clyde eram tão temidos pela polícia como incensados pela população.
Nesse contexto complexo e violento decorre esta história de afectos. Um líder mafioso irlandês, o seu filho mal amado e o seu protegido bem amado. Relações pai/filho. Filho adoptado versus filho biológico. Os assassinos também têm alma. Entre a honra e a redenção seguiremos o percurso de um assassino procurando recuperar o passado irrecuperável. Limpando o mundo do mal que ele foi criando ao longo da vida. Com a consciência de que não há salvação.
Mais uma ficção sobre a América profunda onde a normalidade social (os rituais religiosos, as festas familiares) vai a passo com a alucinação e a violência. E nesse sentido não faltam preciosidades na realização. O ajuste de contas entre o "filho" e o "pai" é absolutamente genial ou o assassinato do "irmão" fora de campo. E não só. Uma fotografia espantosa (teve o Oscar) mostra uma América desolada e desencantada. A realização é verdadeiramente brilhante. Sam Mendes deixa fluir o tempo e trata o espaço de uma forma eficaz - a câmara vai de uma forma subtil e leve acompanhando os personagens, em movimentos elegantes e requintados.
Claro que estamos perante um filme superior. Tom Hanks, verdadeiramente brilhante numa personagem complexa. Todo o filme é o seu caminho de redenção, pedindo desculpa ao filho no último momento de vida.
Paul Newman. O "tio" tão afectivo para as crianças como
amoralmente radical para os adultos. Grande sabedoria de representação numa das
suas últimas aparições no ecrã.
E o miúdo que conta a história (Michael), provavelmente o único a
salvar- se daquele universo demente? É difícil não sentirmos a angústia dele
nos seus olhos inquisidores. Jovem actor brilhante que se perdeu nas curvas da
vida.
Já agora refira-se que o actor que faz de filho do chefe mafioso em
volta de quem se articula a ficção é Daniel Craig, o James Bond de última
extracção. O Sam Mendes também fez um dos últimos 007 - "Skyfall"
(2012).
A base da história foi uma graphic novel, uma banda desenhada, onde se misturam referências de ficção com outras reais e o filme tem o dedo do Steven Spielberg que foi o produtor (DreamWorks).
Mas quem deu a consistência artística a tudo foi o Sam Mendes.
Realizador e encenador inglês, de ascendência portuguesa, que 3 anos antes
tinha surpreendido o meio cinematográfico com "American Beauty", uma
belíssima ficção com uma grande interpretação do Kevin Spacey que,
lamentavelmente, nos últimos anos saiu da órbita da representação por razões
politicamente correctas. #Metoo a fazer estragos. É a vida.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.