01 janeiro 2024

Dueto da corda - John Landis (1980)

Com John Belushi, Dan Aykroyd
Duração: 133 min

Slapstick. Tipo de comédia física que envolve acções exageradas, energéticas, muitas vezes violentas, sempre com elevado sentido de humor, que excedem os limiares do senso comum. A suada criação é praticamente da idade do cinema. Charles Chaplin, Mack Sennett, Harold Lloyd, os irmãos Marx e o nosso "recém descoberto" Buster Keaton foram, cada um à sua maneira, grandes protagonistas.

Já no nosso tempo, o Stephen Spielberg fez em 1979 um grande filme, uma homenagem à loucura sadia daqueles velhos tempos, "1941", com uma dupla louca - John Belushi e Dan Aykroyd. Um grande programa de slapstick, retorno de 50 anos no imaginário do cinema. Já o passámos aqui há uns tempos.

Agora, na mesma linha programática, temos "O Dueto da Corda" . Título em português, pífio para um muito mais significativo e directo - "The Blues Brothers" . E, se calhar não por acaso, com a mesma pandilha alucinada de "1941" - o Belushi e o Aykroyd.

Dois irmãos, músicos fanáticos do Rythm & Blues. Tiveram uma antiga banda, desagregada pela prisão de um dos irmãos. Quando retorna à liberdade, os irmãos assumem como epifania, a reconstituição da banda, com uma missão divina - reunir 5 mil dólares para pagar ao fisco uma dívida da Igreja Católica que os criou enquanto jovens sem família. O propósito divino que os mobiliza move montanhas. A redenção das suas penas leva tudo à frente.

O processo iniciático da procura e convencimento dos músicos a retornar é o mergulho na loucura. Perseguições automóveis, fugas à polícia, confrontos com normalidade trumpiana (a música country, a boçalidade dos clubes), confrontos com o partido nazi (aquela cena da morte do chefe nazi é de um requinte humorístico inestimável).

A parte final é uma lição suprema daquele excesso. Uma exegese. Uma longa perseguição policial com dezenas de carros da polícia a espatifarem-se, as forças armadas (polícias, militares, força aérea) mobilizadas como se para enfrentar um exército, a verossimilhança forçada pela lógica simples do humor e do ridículo (as habilidades incríveis do velho carro que é a imagem de marca dos irmãos).

A perseguição implacável da noiva traída que ataca o noivo traidor, qual Arnold Schwarzenegger feminino, à metralhadora, à bazucada e a lança-chamas. Os dois irmãos, nos seus fatinhos pretos, de gravatinha, chapéu e óculos escuros, saem sempre dos escombros intocados, quais heróis de desenhos animados, sempre em pé e nem sequer farruscados. O último encontro com a assassina falhada é um bom exemplo da gestão do timing no humor.

E, por último, a música. "The Blues Brothers" tem a estrutura de um filme musical, essa essência de Hollywood nos heróicos anos 30, 40 e 50. Uma história que vai progredindo em circuito fechado entre a prisão e... a prisão. Naquele percurso alegremente destrutivo vamo-nos cruzando com um conjunto de personalidades de excelência da música negra americana: James Brown, Aretha Franklin, Ray Charles, John Lee Hooker, Cab Calloway... Números musicais extraordinários. Ritmo, dança e coreografia a puxar pelo nosso corpo e reconhecimento.

Só um exemplo: Cab Calloway, uma das maiores estrelas da música negra dos anos 30 e 40. Rei do Harlem e senhor do Cotton Club aqui a interpretar brilhantemente, com o swing todo de um corpo já não jovem "Minnie The Moocher", um sucesso imparável de 1931. Um milagre de mise-en-scéne... com o tempo a recuar umas décadas. Pro memória - o F. F. Coppola recriou esse número no filme "Cotton Club" que já aqui vimos também.

Obviamente que os nossos amigos pequenos delinquentes acabam por pagar às finanças a dívida da Igreja Católica a um funcionário manga-de-alpaca que é nem mais nem menos que o Steven Spielberg. Devia estar no estúdio por qualquer razão profissional e o John Landis abarbatou-o para fazer uma perninha. Recebeu a massa para o Ministério das Finanças mas os nossos amigos foram diretamente para a prisão. Com os prejuízos públicos e privados (lá atrás tinham destruído um centro comercial) que provocaram é de admitir que tenham ficado lá em prisão perpétua. Óptimo para os presos que passaram a ter música ao vivo de qualidade superior.

"The Blues Brothers" é já um filme clássico de culto. Com reconhecimento institucional, pois foi selecionado para preservação no "National Film Registry" pela Library of Congresso por ser, e cito, "cultural, histórica e esteticamente significativo." Está dito. Que cada um entre na ficção com as suas defesas em baixo e se deixe envolver saudavelmente pela loucura surrealista que dela se vai libertando. No fim é cá um alívio!...

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