Hoje é dois em um. Pacote especial com lacinho. Como uma prenda de Natal. Dois filmes mudos, um criador total, enorme, intemporal... mas se calhar desconhecido para muita gente. Buster Keaton. Quem foi? Pamplinas. Ah... Pois! Pelo menos o nome (inventado para os mercados português e espanhol) dirá alguma coisa.
Em certo
sentido Buster Keaton foi sugado pelo poder omnívoro de Chaplin, seu
contemporâneo, tendo ficado sepultado por umas décadas num esquecimento mais ou
menos envergonhado após a eclosão do sonoro. Felizmente foi recuperado para o
nosso imaginário e é cada vez mais incensado.
Há até exegetas que o consideram superior ao Chaplin. Irrelevantes as comparações entre dois geniais criadores. O melhor é fruí-los a ambos.
Estes dois
filmes são, em certo sentido, a prova disso. Duas pequenas pedras preciosas de
humor.
Recorramos aos
especialistas: "A personalidade cinematográfica de Keaton, os seus modos e
estilo eram muito bem definidos. Tipicamente ele retratava um jovem
respeitável, mas notavelmente contido cuja impávida e inexpressiva cara de
pedra revelava frustração ou espanto somente através de leves contracções
musculares.
Uma máscara
fixa, uma sobrancelha erguida, o perfil de um olhar severo."
"The Filme Enciclopédia" - Ephraim Katz
Pois o Buster Keaton passou para a história do cinema, através daquela personagem impassível, solene, estóico como 'o homem que nunca ri.'
Mas o seu
corpo, com aquela fácies de mármore, era modelado por uma espantosa mobilidade,
como se fosse de borracha - quedas aparatosas, funambulismo, acrobacias
circenses. O risco físico era enorme e muitas vezes ele ficou aleijado. Mas
voltava sempre, à procura da melhor ideia para imprimir na tela mais um gag,
mais uma situação burlesca. Nós só temos que agradecer.
Duas palavras sobre cada filme.
"Sherlock Jr." Um jovem empregado num cinema. Simultaneamente projeccionista e empregado de limpeza. Sonha vir a ser detective, émulo de Sherlock Holmes. Uma namorada, um vilão. Um roubo. O nosso amigo aldrabado pelo vilão vai repor a verdade através da cartilha sherlockiana. O que é espantoso é que tudo acontece pelo lado da magia, do sonho. O personagem entra dentro do filme que está a projectar (o filme dentro do filme). Ideia brilhante (o Woody Allen fez isso aqui há uns anos) tanto mais quanto o cinema naqueles tempos estava a criar técnicas, métodos e linguagens. Efeitos ópticos e trucagens de câmara e grande eficácia de significados.
O nosso amigo
recupera a namorada, mas previsivelmente aquilo não vai dar nada. Os afectos
são em segunda via... copiados tintim por tintim do filme que está a ser
projetado lá em baixo no ecrã.
"Marinheiro de Água Doce". Dois barcos a vapor em concorrência num rio. Um velho outro novo. Dois donos casmurros. A chegada de dois jovens (obviamente ele e ela) filhos de cada um dos donos em luta. Conflitos entre os dois barcos e a natureza a impor as suas leis implacáveis. Um grande ciclone põe tudo de pernas para o ar. No fim todos se salvam, como é óbvio. Mas não parece haver futuro para o jovem par. Os finais felizes para o Keaton eram como os do Chaplin. Apenas hipóteses longínquas. Para o personagem do Keaton a sobrevivência era mais importante, ele um lingrinhas pouco dotado.
Só para referência, a sequência do ciclone é um must. A longa "encenação" da destruição pelo vento e chuva tem coisas incríveis que naqueles tempos eram filmadas sem efeitos especiais. Dizem os livros que foi gasta uma pequena fortuna a fazer (desfazer) aquilo. Só vendo e ficamos de boca aberta.
Que estes dois enormes objetos de prazer amenizem as loucuras que nos rodeiam na Ucrânia, em Israel e outros locais por aí.
Relembro. É importante as pessoas virem às sessões. Tem que haver uma certa militância. E, já agora, lerem estes escritos. Não é por nada, modéstia à parte, mas ajudam a "ler" os filmes e os autores, penso que com valor acrescentado.
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