01 janeiro 2024

Depois do ódio - Marc Foster (2001)

Com Halle Berry, Billy Bob Thornton, Heath Ledger
Duração: 112 min

EUA. Geórgia. O sul profundo. O racismo no seu meio privilegiado. Uma mulher negra e o marido, condenado à morte, executado. O filho que lhe morre num acidente. Um guarda prisional branco, ultra conservador, que perde o filho (também guarda prisional) por suicídio. Odeia os negros e, se calhar, a ele próprio. Trabalha no corredor da morte. O encontro acidental entre duas almas penadas nas extremidades mais afastadas daquela sociedade, contra a lógica e as convenções. Atração física? Amor? Quem perde? Quem ganha? Ou perdem ambos? Ganham os dois?

Grande equação que é a da vida e dos afectos. Ali no deep south as restrições são maiores e mais variadas. O ódio racial é a essência daquela sociedade. Tem a idade da independência americana e alimenta-se diariamente da história. O Ku klux klan está sempre a espreitar por detrás das suas máscaras horríveis e nos últimos anos tem mostrado as garras cada vez mais afiadas e pestilentas. Por mais processos judiciais que o deus deles, o Trump, perca, mais poder ganha. A sociedade americana é um grande enigma. Cada vez maior.

Mas voltemos à ficção.

Halle Berry faz aqui um papel comovente. Frágil, desorientada, à procura de um pouco de segurança num futuro de desespero. E com isso teve o Oscar para a melhor actriz da Academia de Hollywood. A primeira actriz negra (african-american actress, como é politicamente correcto dizer) a ganhá-lo.

Billy Bob Thornton, o sulista, que segue o passado do pai, num processo sem afectos nem sonhos. Depois dos encontros e desencontros contra-natura com a mulher negra, só as estrelas do céu dirão no fim o que vai acontecer. Se calhar, mais um falhanço.

O filho suicida é representado por Heath Ledger, um notável jovem actor australiano que lamentavelmente se extinguiu à velocidade de um cometa. Overdose. Tão talentoso como estúpido. Paz à sua alma.  Já morto e enterrado foi contemplado com o Oscar de melhor actor secundário pelo seu papel em "O Cavaleiro das Trevas", filme sobre o Batman do Christopher Nolan (que é agora candidato a um pacote de Oscares com o enorme "Oppenheimer". Ainda estão a tempo de ver).

Marc Foster, o realizador. É suíço, mas a carreira é americana. Há pouco tempo passou dele "Um homem chamado Otto", com o Tom Hanks, muito interessante sobre a terceira idade. Mas também passou pelo 007 - "Quantum of Solace".

 Já agora, porque o timing o justifica. Mera coincidência. Está aí em exibição o último filme do mesmo realizador, Marc Foster - "Pássaro Branco - Uma História Extraordinária". Uma matriz ficcional fortíssima, muito bem contada, de uma jovem judia francesa apanhada no meio da perseguição nazi. Conseguiu fugir aos campos de concentração e à morte provável através de um jovem francês handicapé e tornou-se uma artista plástica de dimensão internacional. Mais um de milhentos casos em que a solidariedade fez milagres que não fizeram esquecer o aterrador balanço da barbárie nazi.

Mas... passadas décadas é no mínimo estranho o que se passa em Israel e como essa herança heróica se esfuma pelas brumas da violência judaica - nazis a extinguir judeus, antes, judeus a extinguir palestinanos, agora. Raios. Nunca mais aprendemos.

É um filme de uma grande sensibilidade muito bem construído. Um bom pretexto para saírem de casa.

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