01 janeiro 2024

Pulp fiction - Quentin Tarantino (1994)

Com John Travolta, Samuel L. Jackson, Bruce Willis, Maria de Medeiros
Duração: 154 min

Quentin Tarantino opus dois. Depois de Cães Danados, Pulp Fiction. A mesma matriz composicional da ficção anterior - tragicomédia quanto baste, um quadro de marginalidade, pastiche, violência gráfica, uns excessos gore, sexualidade à flor da pele, sadismo, escatologia, racismo e muito paleio rasca (como falam tanto os personagens de extração tarantinesca). Mas, tal como em Cães Danados, há uma matriz ética forte. Há valores de lealdade e respeito. Não há maus puros.

Argumento de grande qualidade (Oscar de Hollywood) constrói-se numa narrativa fragmentada, articulando de forma brilhante três histórias em circularidade. Quando pensamos termo-nos despedido de um personagem a meio da ficção (exuberantemente morto por uma rajada de metralhadora) vamos reencontrá-lo mais à frente na continuação da história que vem lá de trás. Baralhados? Basta entrar na ficção e tudo é simples. Porque simples (e simplistas) eram as ficções onde o Tarantino colheu muito do seu imaginário - as pulp fiction eram revistas baratas de banda desenhada, muito populares nos EUA na primeira metade do século passado, com histórias violentas, mais ou menos bizarras e cheias de inverosimilhança. Mas fortemente apelativas.

E depois há as citações e piscadelas de olho à história do cinema e da música. Num bizarro bar cruzamo-nos com Marilyn Monroe (várias versões), os nossos personagens bebem um cocktail (Dean) Martin & (Jerry) Lewis e há um stake Douglas Sirk. Quem é? Pergunta a maior parte da nossa confraria cinéfila... Foi o autor de alguns dos mais belos melodramas da história do cinema. Fugiu à besta nazi (chamava-se Hans Detlef Sierck) e deu muito prazer lacrimejante nos anos 50 e 60. O grande e alucinado Fassbinder tinha-o como uma referência e a geração cinéfila dos nossos dias tem estado a recuperá-lo para o patamar superior da história do cinema. Se calhar, um dia destes, vamos fazer um ciclo Sirk para puxar as lágrimas ao canto do olho.

Neste diversificado universo da cultura pop, deixem-se envolver pela bela seleção musical que é a banda sonora.
Já agora...no meio da carrada de grandes actores a que o Tarantino recorreu encontramos a Maria de Medeiros, a filha do maestro António Vitorino de Almeida, que estava a tentar o salto para Hollywood, mas faltou-lhe o balanço. O cinema europeu agradeceu.

Vamos alinhar com o John Travolta (ressuscitado com o filme), Samuel L. Jackson (que grande papel) e mais não sei quantos grandes actores neste pot pourri que, não por acaso, ganhou naquele ano a Palma de Ouro em Cannes? Só temos a ganhar com isso.

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