Quentin Tarantino opus dois.
Depois de Cães Danados, Pulp Fiction. A mesma matriz composicional da ficção
anterior - tragicomédia quanto baste, um quadro de marginalidade, pastiche,
violência gráfica, uns excessos gore, sexualidade à flor da pele, sadismo,
escatologia, racismo e muito paleio rasca (como falam tanto os personagens de
extração tarantinesca). Mas, tal como em Cães Danados, há uma matriz ética
forte. Há valores de lealdade e respeito. Não há maus puros.
Argumento de grande qualidade
(Oscar de Hollywood) constrói-se numa narrativa fragmentada, articulando de
forma brilhante três histórias em circularidade. Quando pensamos termo-nos
despedido de um personagem a meio da ficção (exuberantemente morto por uma
rajada de metralhadora) vamos reencontrá-lo mais à frente na continuação da
história que vem lá de trás. Baralhados? Basta entrar na ficção e tudo é
simples. Porque simples (e simplistas) eram as ficções onde o Tarantino colheu
muito do seu imaginário - as pulp fiction eram revistas baratas de banda
desenhada, muito populares nos EUA na primeira metade do século passado, com
histórias violentas, mais ou menos bizarras e cheias de inverosimilhança. Mas
fortemente apelativas.
E depois há as citações e
piscadelas de olho à história do cinema e da música. Num bizarro bar
cruzamo-nos com Marilyn Monroe (várias versões), os nossos personagens bebem um
cocktail (Dean) Martin & (Jerry) Lewis e há um stake Douglas Sirk. Quem é? Pergunta
a maior parte da nossa confraria cinéfila... Foi o autor de alguns dos mais
belos melodramas da história do cinema. Fugiu à besta nazi (chamava-se Hans
Detlef Sierck) e deu muito prazer lacrimejante nos anos 50 e 60. O grande e
alucinado Fassbinder tinha-o como uma referência e a geração cinéfila dos
nossos dias tem estado a recuperá-lo para o patamar superior da história do
cinema. Se calhar, um dia destes, vamos fazer um ciclo Sirk para puxar as
lágrimas ao canto do olho.
Neste diversificado universo da
cultura pop, deixem-se envolver pela bela seleção musical que é a banda sonora.
Já agora...no meio da carrada de grandes actores a que o Tarantino recorreu
encontramos a Maria de Medeiros, a filha do maestro António Vitorino de
Almeida, que estava a tentar o salto para Hollywood, mas faltou-lhe o balanço.
O cinema europeu agradeceu.
Vamos alinhar com o John Travolta (ressuscitado com o filme), Samuel L. Jackson (que grande papel) e mais não sei quantos grandes actores neste pot pourri que, não por acaso, ganhou naquele ano a Palma de Ouro em Cannes? Só temos a ganhar com isso.
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