01 janeiro 2024

Voando sobre um ninho de cucos - Milos Forman (1975)

Com Jack Nicholson, Louise Fletcher, Danny de Vito, Christopher Lloyd
Duração: 133 min

1975. Tempos áureos da nossa vida. O 25 de Abril tinha libertado os desejos e as fúrias. Toda a gente tinha razão. Cada um tinha a sua verdade. Os sonhos e os desejos estavam ali ao virar da esquina. Na verdade, olhando em feedback, Portugal era naqueles tempos gloriosos um Júlio de Matos em que a loucura e a insanidade andavam a par e passo com a afirmação de um outro país possível. Mas demorou uns bons anos. 

Pois nesse ano apareceu este filme que fez a diferença, longe de se conformar com os modelos aceitáveis e normalizados da produção tipo de Hollywood. Um hospital psiquiátrico lá nos confins do Oregon, princípio dos anos 60, em funcionamento normal, estereotipado. Disciplina bem empacotada e diluída na medicamentação alienante e amorfizante. Rigor a disfarçar  crueldade e sadismo. Controle sociopata pela enfermeira-chefe da instituição (Louise Fletcher). Personagens (na verdade, autênticos bonecos inarticulados, sem alma) paranóicos, violentos, epilépticos e com outras anomalias de saúde mental, domesticados e amestrados. 

Até chegar um novo membro (Jack Nicholson). Por esperteza, ele, um marginal, delinquente com um bom currículo de prisões, consegue safar-se de trabalhos forçados fingindo loucura e entrando no hospital psiquiátrico. A sua impertinência,  petulância e rebeldia vão gradualmente "acordando" muitos daqueles personagens vegetais. O caos torna-se a normalidade. O sentido da ordem vai-se invertendo. A normalidade contida torna-se aventura sem limites. A rotina é esfrangalhada. O poder inverte-se.

Obviamente tudo vai acabar mal. Tem de acabar mal. As instituições têm as suas armas e defesas. A lobotomia foi a solução radical (o nosso Egas Moniz foi prémio Nobel da Medicina com o desenvolvimento científico desta técnica médica, controversa como se sabe). A normalidade foi aparentemente reposta Resta a esperança que o doente que fugiu encontre uma outra normalidade lá fora 

"Voando Sobre um Ninho de Cucos" foi galardoado com os Óscares mais significativos - filme, realizador, argumento, actor e actriz principais. Só uns anos depois aconteceria o mesmo com "O Silêncio dos Inocentes". Agora, à distância de umas décadas, pode questionar-se a validade das escolhas. Jack Nicholson fez aquilo com uma perna às costas, os trejeitos faciais e aquele lado meio louco apareceram em carradas de personagens ao longo da sua carreira. A Louise Fletcher faz uma personagem quase um robot, também nada de especial. E nem o Milos Forman fez um grande filme. Mas é a história do cinema a impor-se. E se passado este tempo o filme não me tocou tanto como naqueles tempos heróicos do pós 25 de Abril, não quer dizer que não me tenha dado imenso prazer, sempre pontuado por uma dor de alma que atravessa toda a ficção.

O filme foi feito a partir de um romance escrito por Ken Kesey, um autor da contracultura americana dos anos 50 e 60 (beat generation e hippies) a partir de uma experiência pessoal como funcionário num hospício em S. Francisco. Foi um dos companheiros de route dos "Grateful Dead", do Jerry Garcia, essa grande instituição americana do rock and roll, muito associados às grandes live performances psicadélicas bem turbinadas com LSD e outros ácidos pouco recomendáveis.

Ah. O filme foi produzido pelo Michael Douglas a partir dos direitos que o seu pai (Kirk Douglas) tinha do livro e sobre o qual ele tinha tentado fazer um filme, nos anos 50, mas sem êxito.

E assim fechamos o ano. Que o prazer cinéfilo vos tenha entusiasmado e incentivado a continuar este percurso de (re)descoberta do cinema e da sua linguagem.

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