1975. Tempos áureos da nossa vida. O 25
de Abril tinha libertado os desejos e as fúrias. Toda a gente tinha razão. Cada
um tinha a sua verdade. Os sonhos e os desejos estavam ali ao virar da esquina.
Na verdade, olhando em feedback, Portugal era naqueles tempos
gloriosos um Júlio de Matos em que a loucura e a insanidade andavam a par e
passo com a afirmação de um outro país possível. Mas demorou uns bons
anos.
Pois nesse ano apareceu este filme que
fez a diferença, longe de se conformar com os modelos aceitáveis e normalizados
da produção tipo de Hollywood. Um hospital psiquiátrico lá nos confins do
Oregon, princípio dos anos 60, em funcionamento normal, estereotipado.
Disciplina bem empacotada e diluída na medicamentação alienante e amorfizante.
Rigor a disfarçar crueldade e sadismo. Controle sociopata pela
enfermeira-chefe da instituição (Louise Fletcher). Personagens (na verdade,
autênticos bonecos inarticulados, sem alma) paranóicos, violentos, epilépticos
e com outras anomalias de saúde mental, domesticados e amestrados.
Até chegar um novo membro (Jack
Nicholson). Por esperteza, ele, um marginal, delinquente com um bom currículo
de prisões, consegue safar-se de trabalhos forçados fingindo loucura e entrando
no hospital psiquiátrico. A sua impertinência, petulância e rebeldia vão
gradualmente "acordando" muitos daqueles personagens vegetais. O caos
torna-se a normalidade. O sentido da ordem vai-se invertendo. A normalidade
contida torna-se aventura sem limites. A rotina é esfrangalhada. O poder
inverte-se.
Obviamente tudo vai acabar mal. Tem de
acabar mal. As instituições têm as suas armas e defesas. A lobotomia foi a
solução radical (o nosso Egas Moniz foi prémio Nobel da Medicina com o
desenvolvimento científico desta técnica médica, controversa como se sabe). A
normalidade foi aparentemente reposta Resta a esperança que o doente que fugiu
encontre uma outra normalidade lá fora
"Voando Sobre um Ninho de
Cucos" foi galardoado com os Óscares mais significativos - filme,
realizador, argumento, actor e actriz principais. Só uns anos depois
aconteceria o mesmo com "O Silêncio dos Inocentes". Agora, à
distância de umas décadas, pode questionar-se a validade das escolhas. Jack
Nicholson fez aquilo com uma perna às costas, os trejeitos faciais e aquele
lado meio louco apareceram em carradas de personagens ao longo da sua carreira.
A Louise Fletcher faz uma personagem quase um robot, também nada de especial. E
nem o Milos Forman fez um grande filme. Mas é a história do cinema a impor-se.
E se passado este tempo o filme não me tocou tanto como naqueles tempos
heróicos do pós 25 de Abril, não quer dizer que não me tenha dado imenso
prazer, sempre pontuado por uma dor de alma que atravessa toda a ficção.
O filme foi feito a partir de um romance
escrito por Ken Kesey, um autor da contracultura americana dos anos 50 e 60
(beat generation e hippies) a partir de uma experiência pessoal como
funcionário num hospício em S. Francisco. Foi um dos companheiros de route dos
"Grateful Dead", do Jerry Garcia, essa grande instituição americana
do rock and roll, muito associados às grandes live performances psicadélicas
bem turbinadas com LSD e outros ácidos pouco recomendáveis.
Ah. O filme foi produzido pelo Michael
Douglas a partir dos direitos que o seu pai (Kirk Douglas) tinha do livro e
sobre o qual ele tinha tentado fazer um filme, nos anos 50, mas sem êxito.
E assim fechamos o ano. Que o prazer
cinéfilo vos tenha entusiasmado e incentivado a continuar este percurso de
(re)descoberta do cinema e da sua linguagem.
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