01 janeiro 2024

Julius Caesar - Joseph L. Mankiewicz (1953)

Com Marlon Brando, James Mason, John Gielgud
Duração: 157 min

Shakespeare e Hollywood. A priori não miscíveis. Mesmo naqueles tempos áureos do cinema americano - anos 50 - era difícil conciliar a riqueza, a profundidade e a complexidade de uma peça de teatro de Shakespeare, com os valores de mercado subjacentes ao negócio do cinema de Hollywood. Mas há sempre alguém que luta contra o sistema e, se tiver talento e créditos, e um bocadinho de sorte, consegue furar. Foi o caso de Joseph Mankiewicz (argumentista e realizador), irmão de Herman Mankiewicz, grande argumentista de Hollywood com uma história menos convencional (alcoólico, iconoclasta e provocador) que foi o argumentista de "Citizen Kane/"O mundo a seus pés" do Orson Welles). Os dois irmãos tiveram Oscares.

Júlio César, um dos grandes imperadores romanos. Viveu no período que precedeu a vida de Jesus Cristo e foi assassinado (44 ac). Shakespeare baseou-se nos clássicos, nomeadamente em Plutarco para escrever (e representar, provavelmente) uma das suas magistrais peças de teatro. Lembremos que ele escreveu mais duas peças "romanas": "Coriolano" e "António e Cleópatra".

Senhor absoluto de Roma e do Império, Júlio Cesar (Louis Calhern) foi assassinado em pleno Senado por um grupo chefiado por Cássio (John Gielgud), general, e por Marco Bruto (James Mason), seu filho adoptivo, com o apoio e conivência da aristocracia romana, que há muito conspirava para o eliminar. Ao cair sob as punhaladas traiçoeiras extinguia-se com ele um dos períodos mais gloriosos da história de Roma.

Após o assassinato - dois discursos notáveis perante a multidão, um de Marco Bruto, um dos assassinos, e outro de Marco Antonio (Marlon Brando), jovem amigo do Imperador - Marco Antonio assumiu a luta contra os assassinos sublevados, que derrotou dois anos depois na batalha de Filipos na Macedónia.

Com este material, com centenas de anos de exibições pelos palcos, , Mankiewicz construiu uma obra notável, com uma dinâmica própria do cinema mas sem perder a sua essência teatral, suportada por um leque de actores brilhantes.

Na essência, a luta pelo poder, a demagogia e a retórica como factores determinantes do jogo político, a tirania como arma funcional de sustentação do poder. Eurípides ou Sófocles na Grécia antiga, ainda mais para trás, já tratavam disso, como nos nossos dias Bertolt Brecht ou Harold Pinter. O tempo muda e o homem (na essência) é o mesmo.

Uma história intemporal. O jogo político como centro entrópico. A manipulação de massas. Para manter coerência com a teatralidade original (a "prisão" do texto), Mankiewicz optou por décors estilizados onde a função do espaço é mais importante que a verosimilhança arquitectónica, e com isso conquistou o Óscar.

Naturalmente que um filme com um texto tão rico só poderia funcionar com um leque privilegiado de actores.

John Gielgud, um actor inglês com grandes interpretações de Shakespeare nos palcos e de muitos outros grandes dramaturgos, teve uma carreira longuíssima, entre o teatro e o cinema.

James Mason, enorme actor com tantos realizadores de referência, de Hitchcock a Kubrick, passando por George Cukor, Carol Reed, Sam Peckinpah...

Marlon Brando dispensa comentários: a sua personagem só emerge a meio do filme, mas é espantosa. Naquela fase (passagem dos 20 para os 30) fez ainda alguns filmes de referência de Elia Kazan: "Um eléctrico chamado desejo", "Há lodo no cais" e "Viva Zapata".

Mankiewicz é um dos nomes incontornáveis da história do cinema. E até nem fez muitos filmes, mas quase todos bons. Por exemplo, "Eva", "A condessa descalça", "Bruscamente no verão passado", "Cleópatra", "Sleuth: Autópsia de um crime", "O americano tranquilo". Além de realizador foi também argumentista de muitos e diversos filmes.

Que Shakespeare, através de Mankiewicz, nos traga um bom ano.

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