Com Sarah Miles, Robert Mitchum, Trevor Howard, John Mills
O esplendor do melodrama num
quadro histórico real, dramático, decisivo para o futuro da Irlanda.
Irlanda, 1916, parte do Império
Britânico de continuidade atlântica em polvorosa e a ferro-e-fogo. Ao fim de
mais de 700 anos de domínio inglês o nacionalismo irlandês quer pegar nas
próprias mãos o seu país e libertar-se do jugo colonial, colocando os ingleses
entre a espada e a parede.
Nesta segunda década do século XX
os ingleses estavam a defrontar os alemães em França e os irlandeses em casa.
Quadro de guerra civil. Sectarismo, terrorismo, violência. De um lado e do
outro. Muitas mortes, muitas execuções primárias, muito ódio. Tudo mais
extremado pela religião. Católicos irlandeses versus protestantes ingleses.
Como, infelizmente, acontece nos nossos dias, embora noutro contexto.
A designada Irlanda do Sul
conseguiu obter a independência do Reino Unido em 1937 (mas desde 1921 foi
governada com o estatuto transitório de autonomia) mas a Irlanda do Norte
continua a ser inglesa. E, como todos sabemos, o quadro está longe de estar resolvido.
Nos últimos anos estabilizou, mas nunca se sabe quando entra em polvorosa. É
como os vulcões.
O enquadramento da história está feito, vamos
à estória.
Irlanda, a sudoeste. O mar
omnipresente e omnipotente. E a chuva. E o vento. As falésias (Cliffs of Moher)
são impressionantes. Aquilo é um espaço difícil. O padre católico (Collins)
domina a aldeia e o pub é a sala de visitas. Uma jovem bonita (Rosy) , cheia de
sonhos e desejos, romântica até à ponta das unhas. Sem o exprimir, o que ela
quer é sair para o mundo. Filha de Ryan, o dono do pub. À falta de melhor, ou
porque estava a jeito, casou com o professor primário, viúvo e muito mais velho
(Robert Mitchum). Um tipo decente, com o sentido do outro. A vida a dois após o
casamento é assim para o cinzento baço.
Naquele universo rude, alegre e
folião onde a música impera e a cerveja e o whisky escorrem pelas gargantas,
sente-se a negação da colonização. Toda a gente é contra os ingleses. De uma
forma explícita e, por vezes, desafiante. O pai da Rosy não se coíbe de exibir
por detrás do balcão uma fotografia dele com um dos líderes militares
irlandeses, em fuga, condenado à pena de morte. Os soldados ingleses são
recebidos no pub com o desprezo de quem está a mais.
E então, o impensável acontece.
Chega o major Randolph, novo chefe militar do quartel das tropas inglesas, a
recuperar de ferimentos na guerra com os alemães. O encontro ocasional entre a
mulher e o homem tem a intensidade de um relâmpago e a fulgurância de uma onda
daquele mar indomável. Dupla traição. Adultério. Tudo acontece num quadro de
proibição de duas ordens: uma jovem casada numa sociedade católica repressiva;
uma jovem irlandesa apaixonada pelo inimigo inglês.
Acontece o óbvio. O amor solta-se
apaixonado nos recantos das praias ou na erva macia dos pântanos. Nada mais
será igual. As restrições são radicais. Não é possível. Tudo aponta para um fim
triste, dramático.
Pelo meio a evidência
político-militar a cruzar-se com os personagens. Um descarregamento de armas e
munições (oferecidas pelo Império Alemão - inimigo do meu inimigo, meu amigo é)
para a resistência irlandesa é mal sucedido, com ecos de traição do pai de
Rosy, por todos considerado um herói da resistência.
Aquele casal desigual em tudo (o
traído e a traidora), será repelido daquele lugar. O oficial inglês suicida-se
por nada mais lhe restar. E a aldeia ficará lá naquele sítio no fim do mundo,
orgulhosa das suas profundas raízes irlandesas que se perdem no tempo
imaginário dos elfos, das bruxas e outras manigâncias celtas.
Do princípio ao fim acompanhamos
os personagens atrás do bobo, o mudo, o maluquinho da aldeia, simultaneamente
desprezado e acarinhado, uma espécie de acólito do padre. No seu vaivém vai
deixando pistas sobre os outros - os encontros e desencontros, os pecados e as
derivas. Grande papel (pantomima trágica) de John Mills, justamente premiado
com o Oscar para melhor actor secundário.
E o padre? Imagem metafórica do
domínio da igreja católica na Irlanda do Sul. Tudo passa por ele, tudo ele
conserta, entre a bonomia e a intransigência. E sabe perdoar. Grande papel de
Trevor Howard que tínhamos visto (em Outubro do ano passado) noutro filme do
David Lean - "Breve Encontro" - 25 anos antes.
Um clássico inquestionável.
Mas... quando saiu, o filme foi muito maltratado pela crítica. Acusado de
falsamente épico, de desajustamento entre o contexto (a exuberância das
paisagens - Oscar da melhor fotografia) e o conteúdo (uma história de amor,
mais uma). Em contrapartida, nesse ano era o "Love Story" que
recolhia todas as parangonas, citações e prémios. Felizmente que a passagem do
tempo repôs a verdade dos factos: "A Filha de Ryan" é um clássico
entre os clássicos. Mas o David Lean foi esmagado pela situação - só conseguiu
fazer mais um filme, magnífico, aliás -"Passagem para a Índia" - 14
anos depois.
Que todos tenham o mesmo prazer que lá em casa tivemos em revê-lo. Quem estiver habituado a lanchar traga uns snacks. É que a jornada vai ser longa. Três horas e um quarto. Tenham isso em conta na programação da vossa tarde.
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