01 janeiro 2024

A filha de Ryan - David Lean (1970)

Com Sarah Miles, Robert Mitchum, Trevor Howard, John Mills
Duração: 3h 15m

O esplendor do melodrama num quadro histórico real, dramático, decisivo para o futuro da Irlanda.

Irlanda, 1916, parte do Império Britânico de continuidade atlântica em polvorosa e a ferro-e-fogo. Ao fim de mais de 700 anos de domínio inglês o nacionalismo irlandês quer pegar nas próprias mãos o seu país e libertar-se do jugo colonial, colocando os ingleses entre a espada e a parede.

Nesta segunda década do século XX os ingleses estavam a defrontar os alemães em França e os irlandeses em casa. Quadro de guerra civil. Sectarismo, terrorismo, violência. De um lado e do outro. Muitas mortes, muitas execuções primárias, muito ódio. Tudo mais extremado pela religião. Católicos irlandeses versus protestantes ingleses. Como, infelizmente, acontece nos nossos dias, embora noutro contexto.

A designada Irlanda do Sul conseguiu obter a independência do Reino Unido em 1937 (mas desde 1921 foi governada com o estatuto transitório de autonomia) mas a Irlanda do Norte continua a ser inglesa. E, como todos sabemos, o quadro está longe de estar resolvido. Nos últimos anos estabilizou, mas nunca se sabe quando entra em polvorosa. É como os vulcões.

 O enquadramento da história está feito, vamos à estória.

Irlanda, a sudoeste. O mar omnipresente e omnipotente. E a chuva. E o vento. As falésias (Cliffs of Moher) são impressionantes. Aquilo é um espaço difícil. O padre católico (Collins) domina a aldeia e o pub é a sala de visitas. Uma jovem bonita (Rosy) , cheia de sonhos e desejos, romântica até à ponta das unhas. Sem o exprimir, o que ela quer é sair para o mundo. Filha de Ryan, o dono do pub. À falta de melhor, ou porque estava a jeito, casou com o professor primário, viúvo e muito mais velho (Robert Mitchum). Um tipo decente, com o sentido do outro. A vida a dois após o casamento é assim para o cinzento baço.

Naquele universo rude, alegre e folião onde a música impera e a cerveja e o whisky escorrem pelas gargantas, sente-se a negação da colonização. Toda a gente é contra os ingleses. De uma forma explícita e, por vezes, desafiante. O pai da Rosy não se coíbe de exibir por detrás do balcão uma fotografia dele com um dos líderes militares irlandeses, em fuga, condenado à pena de morte. Os soldados ingleses são recebidos no pub com o desprezo de quem está a mais.

E então, o impensável acontece. Chega o major Randolph, novo chefe militar do quartel das tropas inglesas, a recuperar de ferimentos na guerra com os alemães. O encontro ocasional entre a mulher e o homem tem a intensidade de um relâmpago e a fulgurância de uma onda daquele mar indomável. Dupla traição. Adultério. Tudo acontece num quadro de proibição de duas ordens: uma jovem casada numa sociedade católica repressiva; uma jovem irlandesa apaixonada pelo inimigo inglês.

 

Acontece o óbvio. O amor solta-se apaixonado nos recantos das praias ou na erva macia dos pântanos. Nada mais será igual. As restrições são radicais. Não é possível. Tudo aponta para um fim triste, dramático.

Pelo meio a evidência político-militar a cruzar-se com os personagens. Um descarregamento de armas e munições (oferecidas pelo Império Alemão - inimigo do meu inimigo, meu amigo é) para a resistência irlandesa é mal sucedido, com ecos de traição do pai de Rosy, por todos considerado um herói da resistência.

Aquele casal desigual em tudo (o traído e a traidora), será repelido daquele lugar. O oficial inglês suicida-se por nada mais lhe restar. E a aldeia ficará lá naquele sítio no fim do mundo, orgulhosa das suas profundas raízes irlandesas que se perdem no tempo imaginário dos elfos, das bruxas e outras manigâncias celtas.

Do princípio ao fim acompanhamos os personagens atrás do bobo, o mudo, o maluquinho da aldeia, simultaneamente desprezado e acarinhado, uma espécie de acólito do padre. No seu vaivém vai deixando pistas sobre os outros - os encontros e desencontros, os pecados e as derivas. Grande papel (pantomima trágica) de John Mills, justamente premiado com o Oscar para melhor actor secundário.

E o padre? Imagem metafórica do domínio da igreja católica na Irlanda do Sul. Tudo passa por ele, tudo ele conserta, entre a bonomia e a intransigência. E sabe perdoar. Grande papel de Trevor Howard que tínhamos visto (em Outubro do ano passado) noutro filme do David Lean - "Breve Encontro" - 25 anos antes.

Um clássico inquestionável. Mas... quando saiu, o filme foi muito maltratado pela crítica. Acusado de falsamente épico, de desajustamento entre o contexto (a exuberância das paisagens - Oscar da melhor fotografia) e o conteúdo (uma história de amor, mais uma). Em contrapartida, nesse ano era o "Love Story" que recolhia todas as parangonas, citações e prémios. Felizmente que a passagem do tempo repôs a verdade dos factos: "A Filha de Ryan" é um clássico entre os clássicos. Mas o David Lean foi esmagado pela situação - só conseguiu fazer mais um filme, magnífico, aliás -"Passagem para a Índia" - 14 anos depois.

Que todos tenham o mesmo prazer que lá em casa tivemos em revê-lo. Quem estiver habituado a lanchar traga uns snacks. É que a jornada vai ser longa. Três horas e um quarto. Tenham isso em conta na programação da vossa tarde.

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