01 janeiro 2024

O paciente inglês - Anthony Minghella (1996)

Com Ralph Fiennes, Juliette Binoche, Kristin Scott Thomas, William Dafoe
Duração: 162 min

Nove Óscares da Academia em 1997. É obra!...

Sabemos que essa história dos Óscares nem sempre é muito nobre, muito menos justa. Poderes e contra-poderes entre os pares de Hollywood. Injustiças de bradar aos céus. Os interesses do dinheiro a suplantar muitas vezes os méritos artísticos e a criatividade. Mas essa não é a nossa história.

Depois do genérico que passa sobre a elaboração de um desenho de um corpo, cópia de uma pintura rupestre (para o meio do filme perceberemos), um avião a sobrevoar o deserto, um piloto e outra personagem que se divisa mal - homem, mulher? No desenvolvimento da ficção vamos atar todos os cordelinhos.

Segunda Guerra Mundial. No norte de África os nazis com o poder militar dos tanques do Africa Korps de Rommel (A Raposa do Deserto, assim lhe chamaram) e a alucinação assassina no máximo. Aquele pequeno avião civil é abatido pela artilharia nazi sobre o deserto. Um corpo queimado, moribundo, com o rosto irreconhecível, salvo pelos nómadas do deserto é entregue ao exército aliado. Como se fora uma múmia transportada sobre um dromedário. Perdeu a identidade, tem reminiscências ocasionais do seu passado. Rastos de memória que, a pouco e pouco, vão libertando a história da sua vivência e do seu amor. E que amor!

Em flashback (todo o quadro ficcional é construído num contínuo movimento deambulatório entre o passado e o presente) vamos descobrindo a identidade daquele homem que vai morrer. Na ausência de documentos, a burocracia militar regista-o como "o paciente inglês" mas trata-se do conde Almasy, húngaro. Arqueólogo, estudioso do passado (cita, com profundo conhecimento, Heródoto, historiador e geógrafo grego do século V a.c.) anda pelo deserto egípcio à procura da história antiga e, se calhar, de si próprio. Lembremo-nos que, 20 anos antes, também andou por lá um célebre coronel inglês chamado Lawrence Thomas, que ficou para a história como Lawrence da Arábia. Histórias da História do Império Colonial Inglês.

Nas derivas daquela vida aventureira conhece um piloto inglês acompanhado pela mulher (anormal, naquele tempo as mulheres ficavam em Inglaterra não iam para o Cairo e, muito menos, para o deserto). Aparentemente uma história amorosa bem-sucedida - casamento recente de um par que se conhecia desde crianças.

Mas os deuses estão sempre à espreita, para desviarem o rumo normal das coisas dos homens, mesmo nas areias do deserto. Uma violenta tempestade de areia foi o ponto sem retorno. A aproximação de dois corpos, o intróito aos prazeres proibidos. Os toques de conforto mútuo no refúgio do veículo na tempestade de areia, no deserto, transforma-se em lubricidade torrencial num quarto do Cairo. Não há racionalidade, só desejo. E tudo começa com a mulher (Katharine) a quebrar as regras. Qual arroubo sádico, agride o homem, gesto contraditório, como para quebrar toda a normalidade que tinha ocorrido até aí.

No quadro anómalo e irracional da guerra, o ferido acaba por ser transportado para o norte de Itália, onde fica num mosteiro abandonado, ao cuidado, cada vez mais envolvente e cúmplice, da enfermeira canadiana Hana (Juliette Binoche). Vai evocando o que lhe aconteceu e vamos percebendo, pouco a pouco, a sua história extraordinária. Um amor louco que Katharine tenta reprimir, sem sucesso (a educação burguesa inglesa e o reconhecimento implícito de que o marido era um bom parceiro afetivo); a traição por amor, de Almasy (vendeu mapas do deserto africano aos nazis em troca da possibilidade de encontrar a sua amada - tarde de mais); o aparecimento de Caravaggio (que nome!), um personagem marginal, auto designado ladrão, e escorregadio, perverso (William Dafoe) que procura vingar-se das torturas que os alemães lhe infligiram e de que culpa o arqueólogo, sem razão; os encontros e desencontros amorosos entre a enfermeira e Kip, um militar de origem indiana (só possíveis naquela terra de ninguém, com a morte à esquina).

No fim, numa lógica de circularidade, vamos reencontrar o pequeno avião pilotado pelo infeliz conde levando consigo o corpo morto da sua amada.

Só podia ficar no deserto, onde as restrições sociais não existem e o infinito está ali à mão.

Ficção bela, poderosa e comovente. Melodrama digno dos melhores da história do cinema. Romantismo em estado puro. Encontros e desencontros. Desajustamentos e rupturas. E a música a constituir um elemento dramático importante, puxando pelas emoções, redundante, com direito a Óscar. Um olhar fantasmagórico sobre esta coisa tão complexa que é a vida.

Michael Ondaatje foi o escritor desta bela história. Canadiano nascido no Sri Lanka (Ceilão) as suas raízes étnicas são indianas. Não escreveu muitos romances (é também poeta e ensaísta), mas com "O Paciente Inglês" (1992) atingiu o zénite ao ganhar o Booker Prize.

Anthony Minghella foi o realizador. Inglês de origem italiana, foi argumentista, produtor e realizador. Infelizmente morreu cedo, com uma obra relativamente curta. Mas, além deste filme, o seu suprassumo, deixou pelo menos mais duas obras interessantes - "O Talentoso Mr. Ripley", o escabroso personagem da Patricia Highsmith num filme muito bem articulado com um naipe de atores de topo (vamos vê -lo na retomada após o Natal) e "Cold Mountain”, uma história da América profunda no tempo da Guerra Civil, também bem interessante e igualmente recheado de grandes atores.

Aviso aos distraídos (leiam esta informação com atenção): Quase não se dá por isso, tão interessante é a história que nos absorve, mas são quase três horas de filme.

Preparem-se, que vale a pena.

1941 - Steven Spielberg (1979)

Com John Belushi, Dan Akroyd, Robert Stack
Duração: 115m

1917 em cartaz, com a expectativa dos Óscares. Pois nós andamos mais uns anos e vamos até 1941. Guerra(s) é o traço de união. Mas o resto é tudo diferente. Spielberg - esse realizador espantoso que nos tem acompanhado com o seu talento desde há umas décadas - ainda com vinte e tal anos mergulha-nos numa ficção desabrida e louca. Depois do ataque japonês a Pearl Harbor, com a América virada de pernas para o ar, em autêntica alucinação colectiva, um submarino nipónico a rondar Los Angeles quer mandar um míssil para Hollywood. A partir de uma situação histórica tão terrível como foi a Segunda Guerra Mundial, Spielberg constrói uma comédia delirante, anárquica e demencial. O nonsense tem contornos de slapstick - vale tudo nesta farsa épica, extravaganza  extrema, comédia física onde tudo pode acontecer mesmo até ao último minuto. Se calhar não por acaso cruzamo-nos outra vez (pelo menos alguns de nós) com o Slim Pickens a fazer um papel do americano profundo, lá das berças - o que vota Trump -  tal como tinha feito uns anos antes na comédia Dr. Estranho Amor, do Stanley Kubrick, que vimos há uns tempos.

A vida de Pi - Ang Lee (2013)

Com Gérard Depardieu, Adil Hussain, Irrfan Khan,  Suraj Sharma
Duração: 118m

Aqui está uma aventura marítima absolutamente maravilhosa em todos os sentidos - a beleza natural (animais, mar...), um certo realismo mágico entre a realidade e outra coisa inexplicável e, acima de tudo, a beleza cinematográfica onde a exuberância se entrelaça com a fúria dos elementos. Além disso uma grande história sobre o sentido da vida e essa grande interrogação que é Deus. Um jovem,  salvo de um naufrágio reparte o salva-vidas com um orangotango, uma hiena, uma zebra e um tigre de Bengala. Ao fim de uma luta de afirmação de identidades e delimitação de espaços o jovem e o tigre conseguem chegar a terra. Mas como foi complexo o processo de co-habitação. Do ponto de vista cinematográfico é verdadeiramente espantoso o trabalho de efeitos especiais 3D de pós-produção. Resta a história real - o que se passou na verdade? Como no filme do John Ford a história que nós vemos é de longe melhor do que a que jovem tem que contar às autoridades para ser credível. O cinema também pode ser sonho e alienação e, se tiver esta qualidade, pode ganhar Óscares. Foi na verdade o que aconteceu. Como, aliás, já tinha acontecido anteriormente com Brokeback Mountain.

Ang Lee é dos melhores. Vale a pena.

Grand Budapest Hotel - Wes Anderson (2014)

Com Ralph Fiennes, Adrien Body. Williem Dafoe
Duração: 100m

Anos 30 no centro do Império Austro-Húngaro em desagregação. Um hotel por onde circula a alta burguesia e a aristocracia decadente e onde o concierge é a figura de relevo - para resolver as pequenas coisas do dia-a-dia e as coisas do amor às senhoras seniores....- acompanhado por um jovem paquete. Uma história tipo Agatha Christie e um ritmo imparável com performances superiores dos actores (para aí uma equipa de futebol de actores top).  É uma história dentro de uma história dentro de uma história - três níveis narrativos, mas a que nunca perdemos o sentido. Elaborado sentido estético (vejam o interior do hotel) com uma realização sempre pró-activa - vejam os movimentos belíssimos da câmara, observem com atenção as simetrias das imagens, a elegância dos planos e o gosto refinado dos décors. A excentricidade é a normalidade neste quadro ficcional num mundo a morrer e nem era previsível nesta altura  a loucura nazi. No essencial a história foi construída a partir de Stephen Zweig, esse grande escritor do centro da Europa que esteve adormecido e agora está a ser recuperado )felizmente). Mas aquele mundo em desagregação também está muito bem retratado nos livros de um outro  escritor. Joseph Roth que também começa a entrar no mercado português. Mais palavras para quê? Juntemo-nos ao Ralph Fiennes e deixemo-nos ir atrás dele com todo o requinte  e pedantice da personagem.

A lancheira - Ritesh Batra (2013)

Com Irrfan Khan, Nimrat Kaur, Nawazuddin Siddiqui
Duração: 110m

Muitas vezes as coisas acontecem por automatismos mais ou menos aleatórios. Em A Vida de Pi tudo se desenrola em volta das memórias do homem que em jovem, etc...Esse actor - Irrfan Khan - fez outro filme belíssimo chamado A Lancheira. Cinema indiano? Bah! dirão alguns de vós. Mas este é diferente. Uma melancólica história da relação (à distância) entre um homem em vias de reforma e uma jovem perita cozinheira, tudo desencadeado por um erro no usualmente eficaz serviço de entrega de lancheiras (as «Dabawallahs») nos locais de trabalho em Bombaim. Através das lancheiras começam a trocar mensagens e a expor os vazios das suas vidas, os seus desejos e sonhos. Cada um dos personagens quer fugir da solidão das suas vidas - Butão é uma hipótese levantada e alimentada. mas as coisas são sempre mais difíceis do que se imagina. Nunca se encontram, na verdade, por pruridos de bom senso dele (chamado Fernandes! Não se esqueçam que nós andámos por lá desde o século XVI). Ele irá viver o resto da sua vida como desde há muito, só. Ela irá continuar a sonhar (e a cozinhar certamente) para um marido que a despreza e trai - e isto é ainda mais pesado porque estamos na Índia. Filme de uma serenidade, melancolia e afectividade que vale a pena partilhar. Sobre o cinema indiano, Bollyhood, falaremos um pouco na sessão.

O véu pintado - John Curran (2006)

Com Naomi Watts e Edward Norton
Duração: 119m

Os filmes são como as cerejas - puxa-se um e vem outro atrás. Depois de O Amante da Duras eis O Véu Pintado. Anos 20, extremo oriente, ocidentais à procura de si num mundo diferente. Este belíssimo filme foi filmado algures na China com paisagens absolutamente maravilhosas. E a história é forte. Um casamento errado, a vivência na periferia do mundo (Xangai), a traição afectiva,  a vingança, um quadro depressivo (epidemia) e...o despertar espiritual. Depois do que aconteceu nada será como dantes. Quem escreveu a história foi Sommerset Maugham, esse grande escritor inglês (dramaturgo e romancista) referência  da literatura colonial (melhor dizendo imperial) que os ingleses produziram - lembre-se Kippling - mas os portugueses não (Henrique Galvão? Bah...). Cá no burgo só pós-colonial - Lobo Antunes, Carlos Ferraz...

Um filme lindíssimo com uma música de referência - venceu os Globos de Ouro - e dois grandes actores. Vale a pena.

O amante - Jean Jacques Annaud (1991)

Com Jeanne Moreau, Jane March, Tony Ka Fai Leung, Frédérique Meininger
Duração: 111m

Marguerite Duras era incontornável na cultura ocidental de extração francesa. Mesmo cá no burgo se publicou muito, antes e depois de Abril.

E até se tornou uma superstar cinematográfica com os seus filmes – uma grande estopada (sejamos politicamente correctos, mistificação) tipo Andy Wharol, como falaremos na apresentação do filme.

Mas com «O Amante», já na fase final da sua vida, atingiu o topo. Milhões de volumes vendidos. Uma história envolvente, picante, exótica (passa-se na Indochina, vulgo Vietname umas décadas depois) e, aparentemente, auto-biográfica.

A senhora Duras alimentava muito elegantemente a fluidez da sua vida, mas parece que na essência as coisas foram como ela as escreveu, segundo biografia disponível no mercado português, embora haja alguém que escreveu dela que aquilo que está nos seus livres é mais verdadeiro do que aquilo que viveu. Foi a partir daí que o J.J Annaud - cineasta francês, mas com uma estética e um programa de interesses muito mais próximo de Hollywood.- construiu o seu filme, lá no extremo do império francês no fim dos anos 20 entre o amor e o desejo, a normalidade europeia e o exotismo oriental. E o fim do império. Um belo e envolvente retrato de um tempo e um lugar que já lá vão. Só restam memórias... muito bem reconstituídas no filme.

Adeus, Lenine! - Wolfgang Becker (2003)

Com Katrin Saß, Maria Simon, Daniel Brühl
Duração: 123m

O tempo, essa máquina imparável. E a memória que se vai desvanecendo ou deturpando.

Já lá vão 20 anos. 9 de Novembro de 1989.

A queda do Muro de Berlim. O antes e o depois. Como gerir os afectos num quadro de mudança radical?

Ontem eram comunistas e hoje são capitalistas. Uma história comovente de uma encenação por amor de um filho para fazer crer à mãe camarada que o Lenine e o Estaline e seus próceres continuam a marchar radiosamente  para o futuro quando tudo ficou já soterrado nas memórias da história (e o muro é já só ruínas) e  o oriente já é ocidente outra vez.

Um filme de afectos no quadro da história da Europa que mudou muito, mas passado este tempo está à deriva. Mas isso já é outra história. Fiquemo-nos por esta, acompanhando a exemplar camarada Christiane na sua vida pós coma em processo de alienação pré-fabricado. Divertidamente comovente.

Deliverance - fim de semana alucinante - John Boorman (1972)

Com John Voight, Burt Reynolds
Duração: 105m

Hoje vamos pela música, puxados pela banda sonora da última semana. De Scott Joplin para o som do banjo da música de algumas zonas profundas (no pior sentido) dos EUA - a música dos patêgos e saloios (hillbillie) que são uma das bases de sustentação do cretino do Trump. A primeira sequência diz logo ao que vamos: quatro personagens citadinos (Houston) à aventura de fim de semana numa zona desconhecida - vão descer em canoa um rio em vias de ser profundamente alterado pela construção de uma barragem. Prova de masculinidade, afirmação e machismo bem representado na personagem de Burt Reynolds. Acompanhando os quatro amigos rio abaixo vamos mergulhando com eles noutro mundo. O pesadelo vai-se instalando à medida que eles se cruzam com outros personagens fora da história (na verdade passadas dezenas de anos esse mundo continua a existir nos EUA). De um momento para o outro eles ficam fora de jogo. Naquela terra de ninguém (na verdade, água de ninguém) a sobrevivência começa a ser o sentido máximo da vida deles. Quem sou eu? O que é o bem? Qual o sentido da vida? A angústia e o medo apossam-se dos personagens. Ninguém sai de lá como entrou. Um deles ficou para sempre enterrado nas águas do rio. Se quisermos seguir o percurso de medo dos personagens, fixemo-nos no rosto de John Voight. Por ele passam todas as nuances de um cidadão comum gradualmente envolvido, sem querer, num pesadelo. Que grande interpretação. Em 2008 este filme foi escolhido para figurar preservado para o futuro no National Film Registry pela Library of Congresso dos EUA... Por ser cultural, histórica e esteticamente significativo. Eu não poderei estar mais de acordo.

Mash - Robert Altman (1970)

Com Donald Sutherland, Elliot Golda, Robert Duvall
Duração: 116 min

Comecemos pelos prolegómenos. Não há maior redundância, mas como vamos mergulhar num grande happening surrealista, permitam-nos trocar as voltas ao rigor da linguagem.

A guerra na Coreia (1950-1953). Nas contingências da divisão do mundo, o exército americano meteu-se lá e foi muito mal tratado, com muitas baixas. Os EUA não tiveram emenda, uns anos depois afundaram-se ali próximo no Vietname (1967-1975).

Um hospital de campanha Mobile Army Surgical Hospital (MASH é o acrónimo), na retaguarda, com médicos, enfermeiros e enfermeiras e a loucura à solta - álcool, sexo, irreverência e irresponsabilidade. Quem tenha feito a guerra colonial em Angola, Moçambique e Guiné terá vivido certamente este tipo de vida, entre o medo e a insanidade.

Toda a ficção se cozinha no dia a dia daqueles militares, não profissionais, médicos e enfermeiras. Tudo se articula em torno de três médicos cirurgiões tão bons profissionais como alienados naquela loucura, a muitos milhares de quilómetros das suas origens - é uma questão de sobrevivência.

E o inverosímil torna-se verosímil. A crueldade da guerra (sempre adivinhada à distância de um hospital de campanha, mas com muito sangue e vísceras pelo meio) é enfrentada pela alienação dos comportamentos, num quadro gradualmente subversivo, hilariante e absurdo.

A distância entre a sobrevivência e a morte é o comprimento de um fósforo. Então há que dar fogo à peça. As brincadeiras de mau gosto, a sexualidade à solta, a misoginia desbragada e o grand finale (só mesmo os americanos) - um jogo de baseball, que não tem nada que ver com o soccer.

Sim, na confusão e perigo da guerra realiza-se um desafio de futebol americano - uma instituição nacional cujas regras quase exigem um curso universitário - com as equipas todas artilhadas e reforçadas com antigos profissionais. É o suprassumo da americanidade.

Como se fosse uma opera buffa tudo termina de forma risível. Uns risos de escárnio e outros de alívio. Mas o efeito de distanciamento está lá.

No fim, o genérico do filme com os nomes dos actores e das equipas artística e técnica é anunciado pelos altifalantes do hospital que, ao longo da ficção, vão fornecendo as mais díspares informações, solicitações e ordens àquela comunidade muito especial. Se aquilo fosse levado a sério seria tudo muito dramático.

O argumento do filme (teve o Oscar) foi elaborado a partir de um livro escrito por um médico cirurgião que bateu com os costados na Coreia, baseado nas suas vivências pessoais. MASH teve mais quatro nomeações e foi Palma de Ouro em Cannes.

O filme foi feito em 1970 quando os americanos já estavam afundados no pântano do Vietname e obviamente uma parte do sucesso que obteve deveu-se à leitura crítica do filme sobre a guerra, uma espécie de subtexto - era a Coreia, agora é o Vietname.

O realizador foi Robert Altman que teve uma carreira rica e diversificada nas três últimas décadas do século passado. "Nashville" , "Short Cuts", "Kansas City" , "Gosford Park" dirão alguma coisa a muitos de vós.

Para vermos MASH com o prazer total temos que escancarar as nossas defesas de bom senso e abrirmo-nos à mais hilariante e desopilante irreverência desta comédia dramática. Rir faz bem.

Sentimento - Luchino Visconti (1954)

Com Farley Granger, Allida Valli

Duração: 122 min

Exuberante technicolor, a Itália do Risorgimiento, da guerra da independência e das lutas para a unificação, dos heróis populares como Garibaldi - que, como Che Guevara cem anos depois, andou pelo mundo (Brasil e Uruguai) a espalhar a revolução. A Áustria ocupa Veneza e o seu exército delicia-se com os prazeres italianos. A música, a ópera. 'O Trovador' de Verdi está no começo de tudo.

 

1866. Veneza, a condessa Lívia, infeliz no amor e militante ativa da causa republicana italiana. Neurótica, é de emoções à flor da pele.

Franz Mahler, oficial do exército da ocupação, arrojado, garboso no seu uniforme, conquistador bem sucedido e com tendência para desaparecer para não assumir responsabilidades.

 

Num quadro de guerra formal e de guerrilha dos grupos organizados pelo Garibaldi, acontece o melodrama. O amor proibido entre a italiana e o ocupante. O impossível. A união dos extremos. Atualmente dir-se-ia politicamente incorreto. A insanidade apodera-se da mulher. A paixão tudo arrasta e arrasa. A luxúria, as emoções descontroladas. A tragédia final, como não poderia deixar de ser. O militar desertor a ser executado por vingança da mulher enganada e esta condenada à loucura. Fim.

 

É um melodrama puro e duro, emoções à flor da pele, uma história de amor auto-destrutiva, na opulência e esplendor barroco dos palácios aristocráticos, meio degradados.

Toda a história é contada em voz off pela condessa, uma espécie de queixa por tudo o que lhe aconteceu. O amor puro de uma mulher e o oportunismo de sobrevivência de um homem.

 

O registo é operático, as cores luminosas e os quadros sociais e os movimentos militares são de grandeza e opulência. Toda a sabedoria do Visconti está exposta nessa exuberância, ele que, para além do cinema era, em paralelo, um mestre da encenação teatral e operática. Muito do que de melhor foi feito nos palcos da Europa nos anos 40, 50 e 60 teve Visconti como encenador.

 

'Sentimento' foi o primeiro filme a cores deste realizador. Visconti não tem uma obra cinematográfica muito extensa, mas fez filmes tão marcantes para a nossa geração como: 'Rocco e seus irmãos', 'O leopardo', 'Os malditos' e ' Morte em Veneza'.

Os valores de mercado estavam assegurados pelos actores. Allida Valli, uma bela estrela italiana, aqui a representar a carnalidade da paixão feminina funesta. Para o lado masculino os produtores fizeram o que nesses anos era normal. Foram a Hollywood alugar um galã, Farley Granger que até tinha o crédito suplementar de ter sido a estrela de dois filmes do Hitchcock - 'A corda.'  e  'O desconhecido do Norte Expresso'. Aqui faz um papel másculo, embora pouco cavalheiro, mas na sua vida fora do ecrã era para o lado de lá que ele se inclinava. Visconti também. O cinema está cheio de casos destes.

Irrelevante, porque o que conta é que Visconti fez um dos grandes melodramas da história do cinema europeu. Aqui está para nosso prazer. Mergulhemos nele despertados pelos acordes românticos da música do Verdi, ele, na verdade, um grande impulsionador do movimento de unificação da Itália.

Sherlock Jr. (1924) e Marinheiro de Água Doce (1928) - Buster Keaton

Com Buster Keaton
Duração: Sherlock Jr. - 45 m | Marinheiro de Água Doce - 67 min

Hoje é dois em um. Pacote especial com lacinho. Como uma prenda de Natal. Dois filmes mudos, um criador total, enorme, intemporal... mas se calhar desconhecido para muita gente. Buster Keaton. Quem foi? Pamplinas. Ah... Pois! Pelo menos o nome (inventado para os mercados português e espanhol) dirá alguma coisa.

Em certo sentido Buster Keaton foi sugado pelo poder omnívoro de Chaplin, seu contemporâneo, tendo ficado sepultado por umas décadas num esquecimento mais ou menos envergonhado após a eclosão do sonoro. Felizmente foi recuperado para o nosso imaginário e é cada vez mais incensado.

Há até exegetas que o consideram superior ao Chaplin. Irrelevantes as comparações entre dois geniais criadores. O melhor é fruí-los a ambos. 

Estes dois filmes são, em certo sentido, a prova disso. Duas pequenas pedras preciosas de humor. 

Como Chaplin, Keaton criou uma identidade, uma personagem, que o acompanhava de aventura em aventura. 

Recorramos aos especialistas: "A personalidade cinematográfica de Keaton, os seus modos e estilo eram muito bem definidos. Tipicamente ele retratava um jovem respeitável, mas notavelmente contido cuja impávida e inexpressiva cara de pedra revelava frustração ou espanto somente através de leves contracções musculares.

Uma máscara fixa, uma sobrancelha erguida, o perfil de um olhar severo."

"The Filme Enciclopédia" - Ephraim Katz

Pois o Buster Keaton passou para a história do cinema, através  daquela personagem impassível, solene, estóico como 'o homem que nunca ri.'

Mas o seu corpo, com aquela fácies de mármore, era modelado por uma espantosa mobilidade, como se fosse de borracha - quedas aparatosas, funambulismo, acrobacias circenses. O risco físico era enorme e muitas vezes ele ficou aleijado. Mas voltava sempre, à procura da melhor ideia para imprimir na tela mais um gag, mais uma situação burlesca. Nós só temos que agradecer. 

Duas palavras sobre cada filme. 

"Sherlock Jr." Um jovem empregado num cinema. Simultaneamente projeccionista e empregado de limpeza. Sonha vir a ser detective, émulo de Sherlock Holmes. Uma namorada, um vilão. Um roubo. O nosso amigo aldrabado pelo vilão vai repor a verdade através da cartilha sherlockiana. O que é espantoso é que tudo acontece pelo lado da magia, do sonho. O personagem entra dentro do filme que está a projectar (o filme dentro do filme). Ideia brilhante (o Woody Allen fez isso aqui há uns anos) tanto mais quanto o cinema naqueles tempos estava a criar técnicas, métodos e linguagens. Efeitos ópticos e trucagens de câmara e grande eficácia de significados. 

O nosso amigo recupera a namorada, mas previsivelmente aquilo não vai dar nada. Os afectos são em segunda via... copiados tintim por tintim do filme que está a ser projetado lá em baixo no ecrã. 

"Marinheiro de Água Doce". Dois barcos a vapor em concorrência num rio. Um velho outro novo. Dois donos casmurros. A chegada de dois jovens (obviamente ele e ela) filhos de cada um dos donos em luta. Conflitos entre os dois barcos e a natureza a impor as suas leis implacáveis. Um grande ciclone põe tudo de pernas para o ar. No fim todos se salvam, como é óbvio. Mas não parece haver futuro para o jovem par. Os finais felizes para o Keaton eram como os do Chaplin. Apenas hipóteses longínquas. Para o personagem do Keaton a sobrevivência era mais importante, ele um lingrinhas pouco dotado. 

Só para referência, a sequência do ciclone é um must. A longa "encenação" da destruição pelo vento e chuva tem coisas incríveis que naqueles tempos eram filmadas sem efeitos especiais. Dizem os livros que foi gasta uma pequena fortuna a fazer (desfazer) aquilo. Só vendo e ficamos de boca aberta.

Que estes dois enormes objetos de prazer amenizem as loucuras que nos rodeiam na Ucrânia, em Israel e outros locais por aí. 

Relembro. É importante as pessoas virem às sessões. Tem que haver uma certa militância. E, já agora, lerem estes escritos. Não é por nada, modéstia à parte, mas ajudam a "ler" os filmes e os autores, penso que com valor acrescentado.

Pulp fiction - Quentin Tarantino (1994)

Com John Travolta, Samuel L. Jackson, Bruce Willis, Maria de Medeiros
Duração: 154 min

Quentin Tarantino opus dois. Depois de Cães Danados, Pulp Fiction. A mesma matriz composicional da ficção anterior - tragicomédia quanto baste, um quadro de marginalidade, pastiche, violência gráfica, uns excessos gore, sexualidade à flor da pele, sadismo, escatologia, racismo e muito paleio rasca (como falam tanto os personagens de extração tarantinesca). Mas, tal como em Cães Danados, há uma matriz ética forte. Há valores de lealdade e respeito. Não há maus puros.

Argumento de grande qualidade (Oscar de Hollywood) constrói-se numa narrativa fragmentada, articulando de forma brilhante três histórias em circularidade. Quando pensamos termo-nos despedido de um personagem a meio da ficção (exuberantemente morto por uma rajada de metralhadora) vamos reencontrá-lo mais à frente na continuação da história que vem lá de trás. Baralhados? Basta entrar na ficção e tudo é simples. Porque simples (e simplistas) eram as ficções onde o Tarantino colheu muito do seu imaginário - as pulp fiction eram revistas baratas de banda desenhada, muito populares nos EUA na primeira metade do século passado, com histórias violentas, mais ou menos bizarras e cheias de inverosimilhança. Mas fortemente apelativas.

E depois há as citações e piscadelas de olho à história do cinema e da música. Num bizarro bar cruzamo-nos com Marilyn Monroe (várias versões), os nossos personagens bebem um cocktail (Dean) Martin & (Jerry) Lewis e há um stake Douglas Sirk. Quem é? Pergunta a maior parte da nossa confraria cinéfila... Foi o autor de alguns dos mais belos melodramas da história do cinema. Fugiu à besta nazi (chamava-se Hans Detlef Sierck) e deu muito prazer lacrimejante nos anos 50 e 60. O grande e alucinado Fassbinder tinha-o como uma referência e a geração cinéfila dos nossos dias tem estado a recuperá-lo para o patamar superior da história do cinema. Se calhar, um dia destes, vamos fazer um ciclo Sirk para puxar as lágrimas ao canto do olho.

Neste diversificado universo da cultura pop, deixem-se envolver pela bela seleção musical que é a banda sonora.
Já agora...no meio da carrada de grandes actores a que o Tarantino recorreu encontramos a Maria de Medeiros, a filha do maestro António Vitorino de Almeida, que estava a tentar o salto para Hollywood, mas faltou-lhe o balanço. O cinema europeu agradeceu.

Vamos alinhar com o John Travolta (ressuscitado com o filme), Samuel L. Jackson (que grande papel) e mais não sei quantos grandes actores neste pot pourri que, não por acaso, ganhou naquele ano a Palma de Ouro em Cannes? Só temos a ganhar com isso.

Quem tramou Roger Rabbit? - Robert Zemeckis (1988)

Com Bob Hoskins, Christopher Lloyd
Duração: 104 min

Hollywood 1947. O coelho Roger Rabbit, actor de cinema célebre, vedeta da Hollywood de desenhos animados, desconfia que a sua mulher, Jessica, uma bela e sensual cantora, o engana. Em grande choque, decidido a descobrir a verdade, contrata o detetive humano Eddie Valliant (emulação de Philip Marlowe, criação suprema de Raymond Chandler) para investigar. Tudo aponta para a traição, mas... as coisas nem sempre são o que parecem, como na vida real. O alucinado Roger Rabbit (cujo sentido da vida é fazer rir) acaba acusado de homicídio, mas consegue fugir. Aí aparece o perverso juiz Doom, um homem (se calhar, não; fica lá mais para o fim desvendar o mistério ... a surpresa faz parte da essência da ficção) implacável, protegido por uma pandilha de fuinhas (tão violentos como estúpidos), tem como fim eliminar todos os desenhos animados e destruir o estúdio por perversas razões - construir uma grande auto-estrada com múltiplos negócios acoplados. Etc, etc. Nunca mais saíamos daqui se contássemos tudo. Felizmente acaba em bem, a justiça será feita. A bicharada fará um grande final, cantando e dançando. THAT'S ALL FOLKS.

Ufh... Fiquemos por aqui e preparemo-nos para mergulhar de cabeça na mais alucinante e verosímil ficção com os mais inverosímeis actores - toons, os personagens que vivem em Toonstown, e que se cruzaram connosco há muitos anos, antes dos filmes de fundo da nossa adolescência ou na televisão. São tantos e a um ritmo tão apressado que nem damos por todos, mas apanhamos com a criação do Walt Disney, da Warner Bros. e mais uns quantos de outras produtoras menores: Pato Donald, Mickey, Bugs Bunny, Dumbo, Betty Boop, Bip Bip, (Goofy) Pateta. E mais não digo, para deixar a cada um a surpresa de reencontros com a sua infância/adolescência.

Fantasia delirante em forma de policial (as referências são estimáveis - Dashiell Hammett e Raymond Chandler - na construção da matriz ficcional e na configuração do detetive particular), tecido híbrido utilizando técnicas de live-action, criaturas de animação com actores de carne e osso. A fusão é perfeita. Naqueles tempos em que tudo era feito à mão, isto é, sem computadores, o filme resultou um verdadeiro milagre. Nada é forçado, tudo funciona como se fora um monumental relógio com todas as peças, rodas, rodinhas e alavancas funcionando com rigor, na perfeição. O prazer é estimulante.

A criancice dos desenhos animados cola bem com os comportamentos adultos (as sugestões sexuais são diversas e divertidas), uma certa poesia da violência, como escrevia o Chandler, perpassa por toda a história qual hard boiled fiction, incorporando os arquétipos, a iconografia e a atmosfera que ele e o Hammett criaram nas suas histórias policiais nos anos 30 e 40.

O nosso detetive (real) é uma personagem à deriva, alcoolizado, falido, estouvado e em dor pelo assassínio, uns anos antes, por um toon nunca identificado, do seu irmão e sócio. A resolução do caso do estúdio será também a resolução do seu caso pessoal e provavelmente marcará a sua redenção da adição alcoólica.

Já a Jessica Rabbit é uma personagem de cartoon. Uma deusa do palco. Uma voz rouca murmurante e um corpo exuberante. Até o nosso amigo detective se sente enfeitiçado. Cheia de jogo de cintura, mas, no fundo, boa rapariga. Como ela diz: "Eu não sou má. Apenas me desenharam assim..." A voz da Jessica é fornecida pela Kathleen Turner, símbolo sexual de Hollywood dos anos 80. "Noites Escaldantes", com o William Hurt, é uma referência incontornável. O "boneco" da Jessica é muito parecido com o perfil da actriz.

Três pais (não sei se houve mães) do filme: o realizador Robert Zemeckis que coseu de forma brilhante os dois universos. Steven Spielberg que (em subcontratação da Walt Disney) uniu todos os fios humanos e logísticos para criar aquela trama tão requintada. Richard Williams, o director de animação que criou (com muitos desenhadores) todo aquele universo delirante de personagens e situações. Esta obra de pura filigrana durou dois anos e meio a fazer. Mas valeu a pena. Obteve 4 Oscares: Som, montagem, efeitos visuais e efeitos sonoros.

Querer mais é querer ir até ao fim do mundo. Fiquemo-nos por Linda-a-Velha e fruamos cada segundo da ficção com o prazer de crianças crescidas e a liberdade de espatifar tudo. Mentalmente, claro.

Fiesta (the sun also rises) - Henry king (1957)

Com Tyrone Power, Ava Garner, Errol Flynn, Mel Ferrer
Duração: 130 min

Acredito que, quando eram mais novos, todos leram os livros do E. Hemingway - "O velho e o mar", "O adeus às armas", "Por quem os sinos dobram". Eu sou um adepto. Li tudo. Escrita apelativa, só aparentemente simples e com matrizes ficcionais muito sólidas. Merecidamente Prémio Nobel da Literatura (1954).

"O sol nasce para sempre" é o segundo romance que ele escreveu (1926) e onde mostra todo o seu fascínio por Espanha e a sua cultura máscula - touros, toureiros e touradas - obviamente na perspectiva do americano sem restrições, bon vivant e com sentido de aventura, de que ele foi um exemplo superlativo.

Nos anos 20, na Europa em reconstrução da tragédia da guerra de 1914-18, Paris era o vértice e o vórtice da vida intelectual e artística do mundo. Escritores, pintores, jornalistas, actores, músicos . Picasso, Sartre, Stravinsky, Ravel, Gide, Diaghilev, etc. etc. (poderia enunciar uma lista de nomes de referência com quilómetros de extensão).Toda a gente fluía para lá, todos procuravam o seu quinhão de glória. Qualquer jovem americano ou inglês com pretensões culturais, zarpava no primeiro navio para lá chegar. Com poucos dólares ou libras no bolso tinham a aventura da vida à espera. E, muitas vezes, a decepção.

É nesse contexto febril que Hemingway criou a sua ficção.

Um grupo de expatriados, instalados em Paris ou a circular pela Europa, vive a vida a cem à hora. O hedonismo é uma forma de estar, a boémia a normalidade. Era a geração perdida dos roaring twenties, da jazz age...Ilusões perdidas, falência moral, dissolução espiritual, amores frustrados.

Existencialismo avant la lettre.

História de amor impossível entre Barnes, um jornalista americano (Tyrone Power) e Lady Brett Ashley, uma mulher aventureira à deriva, devoradora de homens (Ava Gardner). Impossível o amor (sexual) porque ele, aviador na guerra, foi ferido pelos alemães e ficou impotente (uns tempos antes não se poderia referenciar isso no cinema americano por restrições do código de Hays)... Resta-lhes a amizade e a cumplicidade na aventura da vida.

De Paris, dos seus bistrots e restaurantes, dos clubes de Bal-Musette, para Espanha. Pamplona e as Festas de San Fermin. A rota do prazer continua em crescendo. Agora é a hispanidade na sua exuberância. O álcool e a música. Os touros e os toureiros. A ritualização dos movimentos e das multidões em festa e os encontros/desencontros amorosos. Paixões não correspondidas e desajustamentos culturais e vivenciais.
No fim, pouco resta. Acabada a festa, cada um faz o seu balanço. Os touros e as multidões desapareceram e os amigos abandonam a cidade. Uns regressam a Paris, outros vão para casa na América ou em Inglaterra. Lady Brett procura um pouco de protecção no ombro do seu amigo, até à próxima aventura amorosa falhada. A vida é assim.

Mais de trinta anos passaram entre a saída do livro e a sua versão cinematográfica. Nos corredores dos estúdios de Hollywood o projecto andou de mão em mão e acredito que um dos factores de bloqueamento terão sido as restrições da censura dos costumes. Apesar do Hemingway ter torcido o nariz à adaptação, toda a gente considera que ele não tinha razão. A essência da ficção cinematográfica não traiu o livro. Por razões atmosféricas a Pamplona de Espanha foi filmada no México, mas Paris foi filmada em Paris. Já não foi mau.

Incongruência maior foi a idade dos actores. Era pressuposto serem jovens a despontar nos seus vinte e tal e apanhamos com "jovens" de quarenta e tal. Todos grandes vedetas. O Errol Flynn, a cair da tripeça (muitos anos depois de ter sido o Robin dos Bosques do nosso imaginário adolescente), mas faz uma personagem notável, um gentleman bêbado e às vezes rufião, que, na verdade, era a sua natural condição na fase final da sua vida.

Claro que é impossível passar ao lado da magnífica e magnética Ava Gardner sem admiração e, já agora, não ignorem a jovem e bonita Juliette Gréco, anos mais tarde a diva da noite parisiense, a voz do fundo do coração e a deusa do existencialismo sartriano.

Uma curiosidade. A personagem do jovem toureiro Pedro Romero foi interpretada pelo já não muito jovem americano Robert Evans que nem sequer era actor. O nome nada diz aos não especialistas, mas passados uns anos, tornou-se uma das personalidades mais importantes de Hollywood. Primeiro como produtor executivo na Paramount depois como produtor independente. A ele se devem filmes tão importantes como A semente do diabo, Serpico, O Padrinho, O grande Gatsby, Chinatown, O homem da maratona, Cotton Club... Nesses anos - 60 e 70 - Hollywood acordou dos mortos com a genialidade de Coppola, Scorsese, Friedkin, Bogdanovich, Schrader, Polanski e mais alguns com a parceria activa do Robert Evans. Nome incontornável da história do cinema contemporâneo americano.

Já agora, o realizador. Henry King era um dos bons. No filme está toda a essência do cinema clássico americano, ainda para mais em CinemaScope, uma inovação recente naqueles maravilhosos anos 50 de Hollywood.

Mais para a frente voltaremos a Hemingway.

Julius Caesar - Joseph L. Mankiewicz (1953)

Com Marlon Brando, James Mason, John Gielgud
Duração: 157 min

Shakespeare e Hollywood. A priori não miscíveis. Mesmo naqueles tempos áureos do cinema americano - anos 50 - era difícil conciliar a riqueza, a profundidade e a complexidade de uma peça de teatro de Shakespeare, com os valores de mercado subjacentes ao negócio do cinema de Hollywood. Mas há sempre alguém que luta contra o sistema e, se tiver talento e créditos, e um bocadinho de sorte, consegue furar. Foi o caso de Joseph Mankiewicz (argumentista e realizador), irmão de Herman Mankiewicz, grande argumentista de Hollywood com uma história menos convencional (alcoólico, iconoclasta e provocador) que foi o argumentista de "Citizen Kane/"O mundo a seus pés" do Orson Welles). Os dois irmãos tiveram Oscares.

Júlio César, um dos grandes imperadores romanos. Viveu no período que precedeu a vida de Jesus Cristo e foi assassinado (44 ac). Shakespeare baseou-se nos clássicos, nomeadamente em Plutarco para escrever (e representar, provavelmente) uma das suas magistrais peças de teatro. Lembremos que ele escreveu mais duas peças "romanas": "Coriolano" e "António e Cleópatra".

Senhor absoluto de Roma e do Império, Júlio Cesar (Louis Calhern) foi assassinado em pleno Senado por um grupo chefiado por Cássio (John Gielgud), general, e por Marco Bruto (James Mason), seu filho adoptivo, com o apoio e conivência da aristocracia romana, que há muito conspirava para o eliminar. Ao cair sob as punhaladas traiçoeiras extinguia-se com ele um dos períodos mais gloriosos da história de Roma.

Após o assassinato - dois discursos notáveis perante a multidão, um de Marco Bruto, um dos assassinos, e outro de Marco Antonio (Marlon Brando), jovem amigo do Imperador - Marco Antonio assumiu a luta contra os assassinos sublevados, que derrotou dois anos depois na batalha de Filipos na Macedónia.

Com este material, com centenas de anos de exibições pelos palcos, , Mankiewicz construiu uma obra notável, com uma dinâmica própria do cinema mas sem perder a sua essência teatral, suportada por um leque de actores brilhantes.

Na essência, a luta pelo poder, a demagogia e a retórica como factores determinantes do jogo político, a tirania como arma funcional de sustentação do poder. Eurípides ou Sófocles na Grécia antiga, ainda mais para trás, já tratavam disso, como nos nossos dias Bertolt Brecht ou Harold Pinter. O tempo muda e o homem (na essência) é o mesmo.

Uma história intemporal. O jogo político como centro entrópico. A manipulação de massas. Para manter coerência com a teatralidade original (a "prisão" do texto), Mankiewicz optou por décors estilizados onde a função do espaço é mais importante que a verosimilhança arquitectónica, e com isso conquistou o Óscar.

Naturalmente que um filme com um texto tão rico só poderia funcionar com um leque privilegiado de actores.

John Gielgud, um actor inglês com grandes interpretações de Shakespeare nos palcos e de muitos outros grandes dramaturgos, teve uma carreira longuíssima, entre o teatro e o cinema.

James Mason, enorme actor com tantos realizadores de referência, de Hitchcock a Kubrick, passando por George Cukor, Carol Reed, Sam Peckinpah...

Marlon Brando dispensa comentários: a sua personagem só emerge a meio do filme, mas é espantosa. Naquela fase (passagem dos 20 para os 30) fez ainda alguns filmes de referência de Elia Kazan: "Um eléctrico chamado desejo", "Há lodo no cais" e "Viva Zapata".

Mankiewicz é um dos nomes incontornáveis da história do cinema. E até nem fez muitos filmes, mas quase todos bons. Por exemplo, "Eva", "A condessa descalça", "Bruscamente no verão passado", "Cleópatra", "Sleuth: Autópsia de um crime", "O americano tranquilo". Além de realizador foi também argumentista de muitos e diversos filmes.

Que Shakespeare, através de Mankiewicz, nos traga um bom ano.

Voando sobre um ninho de cucos - Milos Forman (1975)

Com Jack Nicholson, Louise Fletcher, Danny de Vito, Christopher Lloyd
Duração: 133 min

1975. Tempos áureos da nossa vida. O 25 de Abril tinha libertado os desejos e as fúrias. Toda a gente tinha razão. Cada um tinha a sua verdade. Os sonhos e os desejos estavam ali ao virar da esquina. Na verdade, olhando em feedback, Portugal era naqueles tempos gloriosos um Júlio de Matos em que a loucura e a insanidade andavam a par e passo com a afirmação de um outro país possível. Mas demorou uns bons anos. 

Pois nesse ano apareceu este filme que fez a diferença, longe de se conformar com os modelos aceitáveis e normalizados da produção tipo de Hollywood. Um hospital psiquiátrico lá nos confins do Oregon, princípio dos anos 60, em funcionamento normal, estereotipado. Disciplina bem empacotada e diluída na medicamentação alienante e amorfizante. Rigor a disfarçar  crueldade e sadismo. Controle sociopata pela enfermeira-chefe da instituição (Louise Fletcher). Personagens (na verdade, autênticos bonecos inarticulados, sem alma) paranóicos, violentos, epilépticos e com outras anomalias de saúde mental, domesticados e amestrados. 

Até chegar um novo membro (Jack Nicholson). Por esperteza, ele, um marginal, delinquente com um bom currículo de prisões, consegue safar-se de trabalhos forçados fingindo loucura e entrando no hospital psiquiátrico. A sua impertinência,  petulância e rebeldia vão gradualmente "acordando" muitos daqueles personagens vegetais. O caos torna-se a normalidade. O sentido da ordem vai-se invertendo. A normalidade contida torna-se aventura sem limites. A rotina é esfrangalhada. O poder inverte-se.

Obviamente tudo vai acabar mal. Tem de acabar mal. As instituições têm as suas armas e defesas. A lobotomia foi a solução radical (o nosso Egas Moniz foi prémio Nobel da Medicina com o desenvolvimento científico desta técnica médica, controversa como se sabe). A normalidade foi aparentemente reposta Resta a esperança que o doente que fugiu encontre uma outra normalidade lá fora 

"Voando Sobre um Ninho de Cucos" foi galardoado com os Óscares mais significativos - filme, realizador, argumento, actor e actriz principais. Só uns anos depois aconteceria o mesmo com "O Silêncio dos Inocentes". Agora, à distância de umas décadas, pode questionar-se a validade das escolhas. Jack Nicholson fez aquilo com uma perna às costas, os trejeitos faciais e aquele lado meio louco apareceram em carradas de personagens ao longo da sua carreira. A Louise Fletcher faz uma personagem quase um robot, também nada de especial. E nem o Milos Forman fez um grande filme. Mas é a história do cinema a impor-se. E se passado este tempo o filme não me tocou tanto como naqueles tempos heróicos do pós 25 de Abril, não quer dizer que não me tenha dado imenso prazer, sempre pontuado por uma dor de alma que atravessa toda a ficção.

O filme foi feito a partir de um romance escrito por Ken Kesey, um autor da contracultura americana dos anos 50 e 60 (beat generation e hippies) a partir de uma experiência pessoal como funcionário num hospício em S. Francisco. Foi um dos companheiros de route dos "Grateful Dead", do Jerry Garcia, essa grande instituição americana do rock and roll, muito associados às grandes live performances psicadélicas bem turbinadas com LSD e outros ácidos pouco recomendáveis.

Ah. O filme foi produzido pelo Michael Douglas a partir dos direitos que o seu pai (Kirk Douglas) tinha do livro e sobre o qual ele tinha tentado fazer um filme, nos anos 50, mas sem êxito.

E assim fechamos o ano. Que o prazer cinéfilo vos tenha entusiasmado e incentivado a continuar este percurso de (re)descoberta do cinema e da sua linguagem.

Caminho para perdição - Sam Mendes (2002)

Com Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law, Daniel Craig
Duração: 117 min

"We are back", aproprio-me de um dos finais de filme mais conhecidos do grande público - "I'll be back", dizia o Arnold Schwarzenegger no fim de "Terminator", já há uns bons anos.

Tempos da grande depressão nos EUA. Mais concretamente, 1931. No universo da marginalidade organizada, das famílias de gangsters - quase todas de origem italiana ou irlandesa - o tráfico de bebidas alcoólicas e a exploração da prostituição eram as grandes áreas de poder. A idiotice política americana tinha criado a Lei Seca que perdurou por 13 anos desde 1920. Ajustes de contas, mortandades e assassinatos encomendados eram o dia a dia da América naqueles tempos. Al Capone, Frank Nitti, Dillinger ou Bonnie e Clyde eram tão temidos pela polícia como incensados pela população. 

Nesse contexto complexo e violento decorre esta história de afectos. Um líder mafioso irlandês, o seu filho mal amado e o seu protegido bem amado. Relações pai/filho. Filho adoptado versus filho biológico. Os assassinos também têm alma. Entre a honra e a redenção seguiremos o percurso de um assassino procurando recuperar o passado irrecuperável. Limpando o mundo do mal que ele foi criando ao longo da vida. Com a consciência de que não há salvação.

Mais uma ficção sobre a América profunda onde a normalidade social (os rituais religiosos, as festas familiares) vai a passo com a alucinação e a violência. E nesse sentido não faltam preciosidades na realização. O ajuste de contas entre o "filho" e o "pai" é absolutamente genial ou o assassinato do "irmão" fora de campo. E não só. Uma fotografia espantosa (teve o Oscar) mostra uma América desolada e desencantada. A realização é verdadeiramente brilhante. Sam Mendes deixa fluir o tempo e trata o espaço de uma forma eficaz - a câmara vai de uma forma subtil e leve acompanhando os personagens, em movimentos elegantes e requintados. 

Claro que estamos perante um filme superior. Tom Hanks, verdadeiramente brilhante numa personagem complexa. Todo o filme é o seu caminho de redenção, pedindo desculpa ao filho no último momento de vida.

Paul Newman. O "tio" tão afectivo para as crianças como amoralmente radical para os adultos. Grande sabedoria de representação numa das suas últimas aparições no ecrã.

E o miúdo que conta a história (Michael), provavelmente o único a salvar- se daquele universo demente? É difícil não sentirmos a angústia dele nos seus olhos inquisidores. Jovem actor brilhante que se perdeu nas curvas da vida.

Já agora refira-se que o actor que faz de filho do chefe mafioso em volta de quem se articula a ficção é Daniel Craig, o James Bond de última extracção. O Sam Mendes também fez um dos últimos 007 - "Skyfall" (2012).

A base da história foi uma graphic novel, uma banda desenhada, onde se misturam referências de ficção com outras reais e o filme tem o dedo do Steven Spielberg que foi o produtor (DreamWorks).

Mas quem deu a consistência artística a tudo foi o Sam Mendes. Realizador e encenador inglês, de ascendência portuguesa, que 3 anos antes tinha surpreendido o meio cinematográfico com "American Beauty", uma belíssima ficção com uma grande interpretação do Kevin Spacey que, lamentavelmente, nos últimos anos saiu da órbita da representação por razões politicamente correctas. #Metoo a fazer estragos. É a vida.

 Ah... Perdição é uma localidade onde tudo termina. Começa eventualmente para o jovem Michael.

 A não perder!

Depois do ódio - Marc Foster (2001)

Com Halle Berry, Billy Bob Thornton, Heath Ledger
Duração: 112 min

EUA. Geórgia. O sul profundo. O racismo no seu meio privilegiado. Uma mulher negra e o marido, condenado à morte, executado. O filho que lhe morre num acidente. Um guarda prisional branco, ultra conservador, que perde o filho (também guarda prisional) por suicídio. Odeia os negros e, se calhar, a ele próprio. Trabalha no corredor da morte. O encontro acidental entre duas almas penadas nas extremidades mais afastadas daquela sociedade, contra a lógica e as convenções. Atração física? Amor? Quem perde? Quem ganha? Ou perdem ambos? Ganham os dois?

Grande equação que é a da vida e dos afectos. Ali no deep south as restrições são maiores e mais variadas. O ódio racial é a essência daquela sociedade. Tem a idade da independência americana e alimenta-se diariamente da história. O Ku klux klan está sempre a espreitar por detrás das suas máscaras horríveis e nos últimos anos tem mostrado as garras cada vez mais afiadas e pestilentas. Por mais processos judiciais que o deus deles, o Trump, perca, mais poder ganha. A sociedade americana é um grande enigma. Cada vez maior.

Mas voltemos à ficção.

Halle Berry faz aqui um papel comovente. Frágil, desorientada, à procura de um pouco de segurança num futuro de desespero. E com isso teve o Oscar para a melhor actriz da Academia de Hollywood. A primeira actriz negra (african-american actress, como é politicamente correcto dizer) a ganhá-lo.

Billy Bob Thornton, o sulista, que segue o passado do pai, num processo sem afectos nem sonhos. Depois dos encontros e desencontros contra-natura com a mulher negra, só as estrelas do céu dirão no fim o que vai acontecer. Se calhar, mais um falhanço.

O filho suicida é representado por Heath Ledger, um notável jovem actor australiano que lamentavelmente se extinguiu à velocidade de um cometa. Overdose. Tão talentoso como estúpido. Paz à sua alma.  Já morto e enterrado foi contemplado com o Oscar de melhor actor secundário pelo seu papel em "O Cavaleiro das Trevas", filme sobre o Batman do Christopher Nolan (que é agora candidato a um pacote de Oscares com o enorme "Oppenheimer". Ainda estão a tempo de ver).

Marc Foster, o realizador. É suíço, mas a carreira é americana. Há pouco tempo passou dele "Um homem chamado Otto", com o Tom Hanks, muito interessante sobre a terceira idade. Mas também passou pelo 007 - "Quantum of Solace".

 Já agora, porque o timing o justifica. Mera coincidência. Está aí em exibição o último filme do mesmo realizador, Marc Foster - "Pássaro Branco - Uma História Extraordinária". Uma matriz ficcional fortíssima, muito bem contada, de uma jovem judia francesa apanhada no meio da perseguição nazi. Conseguiu fugir aos campos de concentração e à morte provável através de um jovem francês handicapé e tornou-se uma artista plástica de dimensão internacional. Mais um de milhentos casos em que a solidariedade fez milagres que não fizeram esquecer o aterrador balanço da barbárie nazi.

Mas... passadas décadas é no mínimo estranho o que se passa em Israel e como essa herança heróica se esfuma pelas brumas da violência judaica - nazis a extinguir judeus, antes, judeus a extinguir palestinanos, agora. Raios. Nunca mais aprendemos.

É um filme de uma grande sensibilidade muito bem construído. Um bom pretexto para saírem de casa.

Dueto da corda - John Landis (1980)

Com John Belushi, Dan Aykroyd
Duração: 133 min

Slapstick. Tipo de comédia física que envolve acções exageradas, energéticas, muitas vezes violentas, sempre com elevado sentido de humor, que excedem os limiares do senso comum. A suada criação é praticamente da idade do cinema. Charles Chaplin, Mack Sennett, Harold Lloyd, os irmãos Marx e o nosso "recém descoberto" Buster Keaton foram, cada um à sua maneira, grandes protagonistas.

Já no nosso tempo, o Stephen Spielberg fez em 1979 um grande filme, uma homenagem à loucura sadia daqueles velhos tempos, "1941", com uma dupla louca - John Belushi e Dan Aykroyd. Um grande programa de slapstick, retorno de 50 anos no imaginário do cinema. Já o passámos aqui há uns tempos.

Agora, na mesma linha programática, temos "O Dueto da Corda" . Título em português, pífio para um muito mais significativo e directo - "The Blues Brothers" . E, se calhar não por acaso, com a mesma pandilha alucinada de "1941" - o Belushi e o Aykroyd.

Dois irmãos, músicos fanáticos do Rythm & Blues. Tiveram uma antiga banda, desagregada pela prisão de um dos irmãos. Quando retorna à liberdade, os irmãos assumem como epifania, a reconstituição da banda, com uma missão divina - reunir 5 mil dólares para pagar ao fisco uma dívida da Igreja Católica que os criou enquanto jovens sem família. O propósito divino que os mobiliza move montanhas. A redenção das suas penas leva tudo à frente.

O processo iniciático da procura e convencimento dos músicos a retornar é o mergulho na loucura. Perseguições automóveis, fugas à polícia, confrontos com normalidade trumpiana (a música country, a boçalidade dos clubes), confrontos com o partido nazi (aquela cena da morte do chefe nazi é de um requinte humorístico inestimável).

A parte final é uma lição suprema daquele excesso. Uma exegese. Uma longa perseguição policial com dezenas de carros da polícia a espatifarem-se, as forças armadas (polícias, militares, força aérea) mobilizadas como se para enfrentar um exército, a verossimilhança forçada pela lógica simples do humor e do ridículo (as habilidades incríveis do velho carro que é a imagem de marca dos irmãos).

A perseguição implacável da noiva traída que ataca o noivo traidor, qual Arnold Schwarzenegger feminino, à metralhadora, à bazucada e a lança-chamas. Os dois irmãos, nos seus fatinhos pretos, de gravatinha, chapéu e óculos escuros, saem sempre dos escombros intocados, quais heróis de desenhos animados, sempre em pé e nem sequer farruscados. O último encontro com a assassina falhada é um bom exemplo da gestão do timing no humor.

E, por último, a música. "The Blues Brothers" tem a estrutura de um filme musical, essa essência de Hollywood nos heróicos anos 30, 40 e 50. Uma história que vai progredindo em circuito fechado entre a prisão e... a prisão. Naquele percurso alegremente destrutivo vamo-nos cruzando com um conjunto de personalidades de excelência da música negra americana: James Brown, Aretha Franklin, Ray Charles, John Lee Hooker, Cab Calloway... Números musicais extraordinários. Ritmo, dança e coreografia a puxar pelo nosso corpo e reconhecimento.

Só um exemplo: Cab Calloway, uma das maiores estrelas da música negra dos anos 30 e 40. Rei do Harlem e senhor do Cotton Club aqui a interpretar brilhantemente, com o swing todo de um corpo já não jovem "Minnie The Moocher", um sucesso imparável de 1931. Um milagre de mise-en-scéne... com o tempo a recuar umas décadas. Pro memória - o F. F. Coppola recriou esse número no filme "Cotton Club" que já aqui vimos também.

Obviamente que os nossos amigos pequenos delinquentes acabam por pagar às finanças a dívida da Igreja Católica a um funcionário manga-de-alpaca que é nem mais nem menos que o Steven Spielberg. Devia estar no estúdio por qualquer razão profissional e o John Landis abarbatou-o para fazer uma perninha. Recebeu a massa para o Ministério das Finanças mas os nossos amigos foram diretamente para a prisão. Com os prejuízos públicos e privados (lá atrás tinham destruído um centro comercial) que provocaram é de admitir que tenham ficado lá em prisão perpétua. Óptimo para os presos que passaram a ter música ao vivo de qualidade superior.

"The Blues Brothers" é já um filme clássico de culto. Com reconhecimento institucional, pois foi selecionado para preservação no "National Film Registry" pela Library of Congresso por ser, e cito, "cultural, histórica e esteticamente significativo." Está dito. Que cada um entre na ficção com as suas defesas em baixo e se deixe envolver saudavelmente pela loucura surrealista que dela se vai libertando. No fim é cá um alívio!...

A filha de Ryan - David Lean (1970)

Com Sarah Miles, Robert Mitchum, Trevor Howard, John Mills
Duração: 3h 15m

O esplendor do melodrama num quadro histórico real, dramático, decisivo para o futuro da Irlanda.

Irlanda, 1916, parte do Império Britânico de continuidade atlântica em polvorosa e a ferro-e-fogo. Ao fim de mais de 700 anos de domínio inglês o nacionalismo irlandês quer pegar nas próprias mãos o seu país e libertar-se do jugo colonial, colocando os ingleses entre a espada e a parede.

Nesta segunda década do século XX os ingleses estavam a defrontar os alemães em França e os irlandeses em casa. Quadro de guerra civil. Sectarismo, terrorismo, violência. De um lado e do outro. Muitas mortes, muitas execuções primárias, muito ódio. Tudo mais extremado pela religião. Católicos irlandeses versus protestantes ingleses. Como, infelizmente, acontece nos nossos dias, embora noutro contexto.

A designada Irlanda do Sul conseguiu obter a independência do Reino Unido em 1937 (mas desde 1921 foi governada com o estatuto transitório de autonomia) mas a Irlanda do Norte continua a ser inglesa. E, como todos sabemos, o quadro está longe de estar resolvido. Nos últimos anos estabilizou, mas nunca se sabe quando entra em polvorosa. É como os vulcões.

 O enquadramento da história está feito, vamos à estória.

Irlanda, a sudoeste. O mar omnipresente e omnipotente. E a chuva. E o vento. As falésias (Cliffs of Moher) são impressionantes. Aquilo é um espaço difícil. O padre católico (Collins) domina a aldeia e o pub é a sala de visitas. Uma jovem bonita (Rosy) , cheia de sonhos e desejos, romântica até à ponta das unhas. Sem o exprimir, o que ela quer é sair para o mundo. Filha de Ryan, o dono do pub. À falta de melhor, ou porque estava a jeito, casou com o professor primário, viúvo e muito mais velho (Robert Mitchum). Um tipo decente, com o sentido do outro. A vida a dois após o casamento é assim para o cinzento baço.

Naquele universo rude, alegre e folião onde a música impera e a cerveja e o whisky escorrem pelas gargantas, sente-se a negação da colonização. Toda a gente é contra os ingleses. De uma forma explícita e, por vezes, desafiante. O pai da Rosy não se coíbe de exibir por detrás do balcão uma fotografia dele com um dos líderes militares irlandeses, em fuga, condenado à pena de morte. Os soldados ingleses são recebidos no pub com o desprezo de quem está a mais.

E então, o impensável acontece. Chega o major Randolph, novo chefe militar do quartel das tropas inglesas, a recuperar de ferimentos na guerra com os alemães. O encontro ocasional entre a mulher e o homem tem a intensidade de um relâmpago e a fulgurância de uma onda daquele mar indomável. Dupla traição. Adultério. Tudo acontece num quadro de proibição de duas ordens: uma jovem casada numa sociedade católica repressiva; uma jovem irlandesa apaixonada pelo inimigo inglês.

 

Acontece o óbvio. O amor solta-se apaixonado nos recantos das praias ou na erva macia dos pântanos. Nada mais será igual. As restrições são radicais. Não é possível. Tudo aponta para um fim triste, dramático.

Pelo meio a evidência político-militar a cruzar-se com os personagens. Um descarregamento de armas e munições (oferecidas pelo Império Alemão - inimigo do meu inimigo, meu amigo é) para a resistência irlandesa é mal sucedido, com ecos de traição do pai de Rosy, por todos considerado um herói da resistência.

Aquele casal desigual em tudo (o traído e a traidora), será repelido daquele lugar. O oficial inglês suicida-se por nada mais lhe restar. E a aldeia ficará lá naquele sítio no fim do mundo, orgulhosa das suas profundas raízes irlandesas que se perdem no tempo imaginário dos elfos, das bruxas e outras manigâncias celtas.

Do princípio ao fim acompanhamos os personagens atrás do bobo, o mudo, o maluquinho da aldeia, simultaneamente desprezado e acarinhado, uma espécie de acólito do padre. No seu vaivém vai deixando pistas sobre os outros - os encontros e desencontros, os pecados e as derivas. Grande papel (pantomima trágica) de John Mills, justamente premiado com o Oscar para melhor actor secundário.

E o padre? Imagem metafórica do domínio da igreja católica na Irlanda do Sul. Tudo passa por ele, tudo ele conserta, entre a bonomia e a intransigência. E sabe perdoar. Grande papel de Trevor Howard que tínhamos visto (em Outubro do ano passado) noutro filme do David Lean - "Breve Encontro" - 25 anos antes.

Um clássico inquestionável. Mas... quando saiu, o filme foi muito maltratado pela crítica. Acusado de falsamente épico, de desajustamento entre o contexto (a exuberância das paisagens - Oscar da melhor fotografia) e o conteúdo (uma história de amor, mais uma). Em contrapartida, nesse ano era o "Love Story" que recolhia todas as parangonas, citações e prémios. Felizmente que a passagem do tempo repôs a verdade dos factos: "A Filha de Ryan" é um clássico entre os clássicos. Mas o David Lean foi esmagado pela situação - só conseguiu fazer mais um filme, magnífico, aliás -"Passagem para a Índia" - 14 anos depois.

Que todos tenham o mesmo prazer que lá em casa tivemos em revê-lo. Quem estiver habituado a lanchar traga uns snacks. É que a jornada vai ser longa. Três horas e um quarto. Tenham isso em conta na programação da vossa tarde.

Olhos grandes - Tim Burton (2014)

Com Amy Adams, Christoph Waltz
Duração: 101 min

A pedido de várias famílias, bah, bah, bah. Não. Foi uma boa sugestão da Midá. No Museu da Marioneta está uma exposição sobre o Mundo Animado de Tim Burton, que é um dos mais produtivos e geniais cineastas do nosso tempo...apesar de ser assim para o marado. Entre o génio e a loucura muitas vezes há apenas a distância de um hífen. É o caso. Quem fez Eduardo mãos de tesoura, Sweeney Todd, Alice no país das maravilhas, Marte ataca, Ed Wood... e Dumbo (estreado há uns meses) tem alguma coisa de criador. O seu universo é barroco, gótico, excêntrico e, às vezes, um pouco perverso. Mas cada história dele é muito bem contada e ilustrada musicalmente. E como podem ver na exposição que aí está, é também um belíssimo cineasta de animação onde todos esses aspectos da sua personalidade são inquestionáveis - O estranho mundo de Jack, A noiva cadáver, Frankenwee.

Olhos grandes é um bom exemplo (não necessariamente o mais ilustrativo) do estranho mundo do Tim Burton. A partir de uma história real de um falso pintor que atinge a fama e o proveito financeiro com os quadros pintados pela mulher.(com um repetitivo estilo kitsch) cria um belo retrato de como funcionam as relações de poder no interior da família e como os mercados da arte podem ser completamente minados pelos efeitos da aderência dos poderosos - há uma multiplicidade de figuras top  (intelectuais, financeiros, artistas) dos anos 60 que comprou quadros deste(a) pintor(a). Só quando o processo se tornou insustentável a pintora fez o corte com a situação, em parceria com a jovem filha, mas com elevado custo pessoal. O marido, que aparentemente nunca tinha pintado, continuou até ao fim da vida a acreditar no mundo artificial que foi criando ao longo dos anos em parceria com a mulher, com crescente violência psicológica imposta pela força da masculinidade (são os anos 50 e 60, não se esqueçam). Com os olhos abertos venham até ao mundo onírico e excêntrico do Tim Burton.

A golpada - George Roy Hill (1973)

Com Paul Newman, Robert Redford, Robert Shaw
Duração: 124 min

No espírito do Carnaval, que já lá vai, hoje temos A Golpada. Assim um filme leve, uma comédia à maneira, com dois grandes actores das nossas vidas - Paul Newman (grande actor) e Robert Redford (actor quanto baste, melhor realizador...mas sex symbol daqueles tempos. Felizmente ainda está entre nós). Chicago nos infernais anos trinta da América em que as grandes cidades eram controladas pela mafia. E Chicago era das mais loucas cidades, com grupos de gangsters a eliminar-se uns aos outros. Pois neste cenário vamos encontrar-nos com dois grandes trafulhas, burlões altamente refinados. O ritmo é infernal numa cidade reconstituída à maneira e com um guarda-roupa requintado. É a essência de uma grande produção de Hollywood dos velhos tempos, naqueles anos em que começava a cair aos bocados. Foi bem recompensada pelo sistema: Sete Óscares incluindo o de melhor realizador para o George Roy Hill que era um realizador de  segunda classe. Mas as coisas são assim em Hollywood tal como no Prémio Nobel - Quantos escritores nobelizados foram enterrados pela história? Mas se há um dado que não podemos retirar da biografia do filme é a música. Espantosamente a produção foi desenterrar do passado (fim do século XIX) a música de Scott Joplin, um negro lá do sul profundo que inventou um estilo de música assim uma mistura estranha entre a música europeia dos Chopins e companhia e a música dos escravos da sua origem familiar. é o rag - uma música belíssima, apelativa e altamente melódica. Só por isso vale a pena ver o filme. Mas (particularmente as colegas cinéfilas) não se esqueçam dos olhos do Newman e do charme (de aldrabão) do Redford.

Perfume de Mulher - Martin Brest (1992)

Com Al Pacino, Chris O'Donnell, Philip Seymour Hoffman Duração: 2h37m Dino Risi. E vão três. Entendamo-nos. Três filmes. Ainda que gost...