Duração: 116 min
Comecemos pelos prolegómenos. Não há maior redundância, mas como vamos mergulhar num grande happening surrealista, permitam-nos trocar as voltas ao rigor da linguagem.
A guerra na Coreia (1950-1953). Nas contingências da divisão do mundo, o exército americano meteu-se lá e foi muito mal tratado, com muitas baixas. Os EUA não tiveram emenda, uns anos depois afundaram-se ali próximo no Vietname (1967-1975).
Um hospital de campanha Mobile Army Surgical Hospital (MASH é o acrónimo), na retaguarda, com médicos, enfermeiros e enfermeiras e a loucura à solta - álcool, sexo, irreverência e irresponsabilidade. Quem tenha feito a guerra colonial em Angola, Moçambique e Guiné terá vivido certamente este tipo de vida, entre o medo e a insanidade.
Toda a ficção se cozinha no dia a dia daqueles militares, não profissionais, médicos e enfermeiras. Tudo se articula em torno de três médicos cirurgiões tão bons profissionais como alienados naquela loucura, a muitos milhares de quilómetros das suas origens - é uma questão de sobrevivência.
E o inverosímil torna-se verosímil. A crueldade da guerra (sempre adivinhada à distância de um hospital de campanha, mas com muito sangue e vísceras pelo meio) é enfrentada pela alienação dos comportamentos, num quadro gradualmente subversivo, hilariante e absurdo.
A distância entre a sobrevivência e a morte é o comprimento de um fósforo. Então há que dar fogo à peça. As brincadeiras de mau gosto, a sexualidade à solta, a misoginia desbragada e o grand finale (só mesmo os americanos) - um jogo de baseball, que não tem nada que ver com o soccer.
Sim, na confusão e perigo da guerra realiza-se um desafio de futebol americano - uma instituição nacional cujas regras quase exigem um curso universitário - com as equipas todas artilhadas e reforçadas com antigos profissionais. É o suprassumo da americanidade.
Como se fosse uma opera buffa tudo termina de forma risível. Uns risos de escárnio e outros de alívio. Mas o efeito de distanciamento está lá.
No fim, o genérico do filme com os nomes dos actores e das equipas artística e técnica é anunciado pelos altifalantes do hospital que, ao longo da ficção, vão fornecendo as mais díspares informações, solicitações e ordens àquela comunidade muito especial. Se aquilo fosse levado a sério seria tudo muito dramático.
O argumento do filme (teve o Oscar) foi elaborado a partir de um livro escrito por um médico cirurgião que bateu com os costados na Coreia, baseado nas suas vivências pessoais. MASH teve mais quatro nomeações e foi Palma de Ouro em Cannes.
O filme foi feito em 1970 quando os americanos já estavam afundados no pântano do Vietname e obviamente uma parte do sucesso que obteve deveu-se à leitura crítica do filme sobre a guerra, uma espécie de subtexto - era a Coreia, agora é o Vietname.
O realizador foi Robert Altman que teve uma carreira rica e diversificada nas três últimas décadas do século passado. "Nashville" , "Short Cuts", "Kansas City" , "Gosford Park" dirão alguma coisa a muitos de vós.
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