01 janeiro 2024

Sentimento - Luchino Visconti (1954)

Com Farley Granger, Allida Valli

Duração: 122 min

Exuberante technicolor, a Itália do Risorgimiento, da guerra da independência e das lutas para a unificação, dos heróis populares como Garibaldi - que, como Che Guevara cem anos depois, andou pelo mundo (Brasil e Uruguai) a espalhar a revolução. A Áustria ocupa Veneza e o seu exército delicia-se com os prazeres italianos. A música, a ópera. 'O Trovador' de Verdi está no começo de tudo.

 

1866. Veneza, a condessa Lívia, infeliz no amor e militante ativa da causa republicana italiana. Neurótica, é de emoções à flor da pele.

Franz Mahler, oficial do exército da ocupação, arrojado, garboso no seu uniforme, conquistador bem sucedido e com tendência para desaparecer para não assumir responsabilidades.

 

Num quadro de guerra formal e de guerrilha dos grupos organizados pelo Garibaldi, acontece o melodrama. O amor proibido entre a italiana e o ocupante. O impossível. A união dos extremos. Atualmente dir-se-ia politicamente incorreto. A insanidade apodera-se da mulher. A paixão tudo arrasta e arrasa. A luxúria, as emoções descontroladas. A tragédia final, como não poderia deixar de ser. O militar desertor a ser executado por vingança da mulher enganada e esta condenada à loucura. Fim.

 

É um melodrama puro e duro, emoções à flor da pele, uma história de amor auto-destrutiva, na opulência e esplendor barroco dos palácios aristocráticos, meio degradados.

Toda a história é contada em voz off pela condessa, uma espécie de queixa por tudo o que lhe aconteceu. O amor puro de uma mulher e o oportunismo de sobrevivência de um homem.

 

O registo é operático, as cores luminosas e os quadros sociais e os movimentos militares são de grandeza e opulência. Toda a sabedoria do Visconti está exposta nessa exuberância, ele que, para além do cinema era, em paralelo, um mestre da encenação teatral e operática. Muito do que de melhor foi feito nos palcos da Europa nos anos 40, 50 e 60 teve Visconti como encenador.

 

'Sentimento' foi o primeiro filme a cores deste realizador. Visconti não tem uma obra cinematográfica muito extensa, mas fez filmes tão marcantes para a nossa geração como: 'Rocco e seus irmãos', 'O leopardo', 'Os malditos' e ' Morte em Veneza'.

Os valores de mercado estavam assegurados pelos actores. Allida Valli, uma bela estrela italiana, aqui a representar a carnalidade da paixão feminina funesta. Para o lado masculino os produtores fizeram o que nesses anos era normal. Foram a Hollywood alugar um galã, Farley Granger que até tinha o crédito suplementar de ter sido a estrela de dois filmes do Hitchcock - 'A corda.'  e  'O desconhecido do Norte Expresso'. Aqui faz um papel másculo, embora pouco cavalheiro, mas na sua vida fora do ecrã era para o lado de lá que ele se inclinava. Visconti também. O cinema está cheio de casos destes.

Irrelevante, porque o que conta é que Visconti fez um dos grandes melodramas da história do cinema europeu. Aqui está para nosso prazer. Mergulhemos nele despertados pelos acordes românticos da música do Verdi, ele, na verdade, um grande impulsionador do movimento de unificação da Itália.

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