01 janeiro 2024

O paciente inglês - Anthony Minghella (1996)

Com Ralph Fiennes, Juliette Binoche, Kristin Scott Thomas, William Dafoe
Duração: 162 min

Nove Óscares da Academia em 1997. É obra!...

Sabemos que essa história dos Óscares nem sempre é muito nobre, muito menos justa. Poderes e contra-poderes entre os pares de Hollywood. Injustiças de bradar aos céus. Os interesses do dinheiro a suplantar muitas vezes os méritos artísticos e a criatividade. Mas essa não é a nossa história.

Depois do genérico que passa sobre a elaboração de um desenho de um corpo, cópia de uma pintura rupestre (para o meio do filme perceberemos), um avião a sobrevoar o deserto, um piloto e outra personagem que se divisa mal - homem, mulher? No desenvolvimento da ficção vamos atar todos os cordelinhos.

Segunda Guerra Mundial. No norte de África os nazis com o poder militar dos tanques do Africa Korps de Rommel (A Raposa do Deserto, assim lhe chamaram) e a alucinação assassina no máximo. Aquele pequeno avião civil é abatido pela artilharia nazi sobre o deserto. Um corpo queimado, moribundo, com o rosto irreconhecível, salvo pelos nómadas do deserto é entregue ao exército aliado. Como se fora uma múmia transportada sobre um dromedário. Perdeu a identidade, tem reminiscências ocasionais do seu passado. Rastos de memória que, a pouco e pouco, vão libertando a história da sua vivência e do seu amor. E que amor!

Em flashback (todo o quadro ficcional é construído num contínuo movimento deambulatório entre o passado e o presente) vamos descobrindo a identidade daquele homem que vai morrer. Na ausência de documentos, a burocracia militar regista-o como "o paciente inglês" mas trata-se do conde Almasy, húngaro. Arqueólogo, estudioso do passado (cita, com profundo conhecimento, Heródoto, historiador e geógrafo grego do século V a.c.) anda pelo deserto egípcio à procura da história antiga e, se calhar, de si próprio. Lembremo-nos que, 20 anos antes, também andou por lá um célebre coronel inglês chamado Lawrence Thomas, que ficou para a história como Lawrence da Arábia. Histórias da História do Império Colonial Inglês.

Nas derivas daquela vida aventureira conhece um piloto inglês acompanhado pela mulher (anormal, naquele tempo as mulheres ficavam em Inglaterra não iam para o Cairo e, muito menos, para o deserto). Aparentemente uma história amorosa bem-sucedida - casamento recente de um par que se conhecia desde crianças.

Mas os deuses estão sempre à espreita, para desviarem o rumo normal das coisas dos homens, mesmo nas areias do deserto. Uma violenta tempestade de areia foi o ponto sem retorno. A aproximação de dois corpos, o intróito aos prazeres proibidos. Os toques de conforto mútuo no refúgio do veículo na tempestade de areia, no deserto, transforma-se em lubricidade torrencial num quarto do Cairo. Não há racionalidade, só desejo. E tudo começa com a mulher (Katharine) a quebrar as regras. Qual arroubo sádico, agride o homem, gesto contraditório, como para quebrar toda a normalidade que tinha ocorrido até aí.

No quadro anómalo e irracional da guerra, o ferido acaba por ser transportado para o norte de Itália, onde fica num mosteiro abandonado, ao cuidado, cada vez mais envolvente e cúmplice, da enfermeira canadiana Hana (Juliette Binoche). Vai evocando o que lhe aconteceu e vamos percebendo, pouco a pouco, a sua história extraordinária. Um amor louco que Katharine tenta reprimir, sem sucesso (a educação burguesa inglesa e o reconhecimento implícito de que o marido era um bom parceiro afetivo); a traição por amor, de Almasy (vendeu mapas do deserto africano aos nazis em troca da possibilidade de encontrar a sua amada - tarde de mais); o aparecimento de Caravaggio (que nome!), um personagem marginal, auto designado ladrão, e escorregadio, perverso (William Dafoe) que procura vingar-se das torturas que os alemães lhe infligiram e de que culpa o arqueólogo, sem razão; os encontros e desencontros amorosos entre a enfermeira e Kip, um militar de origem indiana (só possíveis naquela terra de ninguém, com a morte à esquina).

No fim, numa lógica de circularidade, vamos reencontrar o pequeno avião pilotado pelo infeliz conde levando consigo o corpo morto da sua amada.

Só podia ficar no deserto, onde as restrições sociais não existem e o infinito está ali à mão.

Ficção bela, poderosa e comovente. Melodrama digno dos melhores da história do cinema. Romantismo em estado puro. Encontros e desencontros. Desajustamentos e rupturas. E a música a constituir um elemento dramático importante, puxando pelas emoções, redundante, com direito a Óscar. Um olhar fantasmagórico sobre esta coisa tão complexa que é a vida.

Michael Ondaatje foi o escritor desta bela história. Canadiano nascido no Sri Lanka (Ceilão) as suas raízes étnicas são indianas. Não escreveu muitos romances (é também poeta e ensaísta), mas com "O Paciente Inglês" (1992) atingiu o zénite ao ganhar o Booker Prize.

Anthony Minghella foi o realizador. Inglês de origem italiana, foi argumentista, produtor e realizador. Infelizmente morreu cedo, com uma obra relativamente curta. Mas, além deste filme, o seu suprassumo, deixou pelo menos mais duas obras interessantes - "O Talentoso Mr. Ripley", o escabroso personagem da Patricia Highsmith num filme muito bem articulado com um naipe de atores de topo (vamos vê -lo na retomada após o Natal) e "Cold Mountain”, uma história da América profunda no tempo da Guerra Civil, também bem interessante e igualmente recheado de grandes atores.

Aviso aos distraídos (leiam esta informação com atenção): Quase não se dá por isso, tão interessante é a história que nos absorve, mas são quase três horas de filme.

Preparem-se, que vale a pena.

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