Com Ralph Fiennes, Juliette Binoche, Kristin Scott Thomas, William Dafoe
Nove Óscares da Academia em 1997.
É obra!...
Sabemos que essa história dos
Óscares nem sempre é muito nobre, muito menos justa. Poderes e contra-poderes
entre os pares de Hollywood. Injustiças de bradar aos céus. Os interesses do
dinheiro a suplantar muitas vezes os méritos artísticos e a criatividade. Mas
essa não é a nossa história.
Depois do genérico que passa
sobre a elaboração de um desenho de um corpo, cópia de uma pintura rupestre
(para o meio do filme perceberemos), um avião a sobrevoar o deserto, um piloto
e outra personagem que se divisa mal - homem, mulher? No desenvolvimento da
ficção vamos atar todos os cordelinhos.
Segunda Guerra Mundial. No norte
de África os nazis com o poder militar dos tanques do Africa Korps de Rommel (A
Raposa do Deserto, assim lhe chamaram) e a alucinação assassina no máximo.
Aquele pequeno avião civil é abatido pela artilharia nazi sobre o deserto. Um
corpo queimado, moribundo, com o rosto irreconhecível, salvo pelos nómadas do
deserto é entregue ao exército aliado. Como se fora uma múmia transportada
sobre um dromedário. Perdeu a identidade, tem reminiscências ocasionais do seu
passado. Rastos de memória que, a pouco e pouco, vão libertando a história da
sua vivência e do seu amor. E que amor!
Em flashback (todo o quadro
ficcional é construído num contínuo movimento deambulatório entre o passado e o
presente) vamos descobrindo a identidade daquele homem que vai morrer. Na
ausência de documentos, a burocracia militar regista-o como "o paciente
inglês" mas trata-se do conde Almasy, húngaro. Arqueólogo, estudioso do
passado (cita, com profundo conhecimento, Heródoto, historiador e geógrafo
grego do século V a.c.) anda pelo deserto egípcio à procura da história antiga
e, se calhar, de si próprio. Lembremo-nos que, 20 anos antes, também andou por
lá um célebre coronel inglês chamado Lawrence Thomas, que ficou para a história
como Lawrence da Arábia. Histórias da História do Império Colonial Inglês.
Nas derivas daquela vida
aventureira conhece um piloto inglês acompanhado pela mulher (anormal, naquele
tempo as mulheres ficavam em Inglaterra não iam para o Cairo e, muito menos,
para o deserto). Aparentemente uma história amorosa bem-sucedida - casamento
recente de um par que se conhecia desde crianças.
Mas os deuses estão sempre à
espreita, para desviarem o rumo normal das coisas dos homens, mesmo nas areias
do deserto. Uma violenta tempestade de areia foi o ponto sem retorno. A
aproximação de dois corpos, o intróito aos prazeres proibidos. Os toques de
conforto mútuo no refúgio do veículo na tempestade de areia, no deserto,
transforma-se em lubricidade torrencial num quarto do Cairo. Não há
racionalidade, só desejo. E tudo começa com a mulher (Katharine) a quebrar as
regras. Qual arroubo sádico, agride o homem, gesto contraditório, como para
quebrar toda a normalidade que tinha ocorrido até aí.
No quadro anómalo e irracional da
guerra, o ferido acaba por ser transportado para o norte de Itália, onde fica
num mosteiro abandonado, ao cuidado, cada vez mais envolvente e cúmplice, da
enfermeira canadiana Hana (Juliette Binoche). Vai evocando o que lhe aconteceu
e vamos percebendo, pouco a pouco, a sua história extraordinária. Um amor louco
que Katharine tenta reprimir, sem sucesso (a educação burguesa inglesa e o
reconhecimento implícito de que o marido era um bom parceiro afetivo); a
traição por amor, de Almasy (vendeu mapas do deserto africano aos nazis em
troca da possibilidade de encontrar a sua amada - tarde de mais); o
aparecimento de Caravaggio (que nome!), um personagem marginal, auto designado
ladrão, e escorregadio, perverso (William Dafoe) que procura vingar-se das
torturas que os alemães lhe infligiram e de que culpa o arqueólogo, sem razão;
os encontros e desencontros amorosos entre a enfermeira e Kip, um militar de
origem indiana (só possíveis naquela terra de ninguém, com a morte à esquina).
No fim, numa lógica de
circularidade, vamos reencontrar o pequeno avião pilotado pelo infeliz conde
levando consigo o corpo morto da sua amada.
Só podia ficar no deserto, onde
as restrições sociais não existem e o infinito está ali à mão.
Ficção bela, poderosa e
comovente. Melodrama digno dos melhores da história do cinema. Romantismo em
estado puro. Encontros e desencontros. Desajustamentos e rupturas. E a música a
constituir um elemento dramático importante, puxando pelas emoções, redundante,
com direito a Óscar. Um olhar fantasmagórico sobre esta coisa tão complexa que
é a vida.
Michael Ondaatje foi o escritor
desta bela história. Canadiano nascido no Sri Lanka (Ceilão) as suas raízes
étnicas são indianas. Não escreveu muitos romances (é também poeta e ensaísta),
mas com "O Paciente Inglês" (1992) atingiu o zénite ao ganhar o
Booker Prize.
Anthony Minghella foi o
realizador. Inglês de origem italiana, foi argumentista, produtor e realizador.
Infelizmente morreu cedo, com uma obra relativamente curta. Mas, além deste
filme, o seu suprassumo, deixou pelo menos mais duas obras interessantes -
"O Talentoso Mr. Ripley", o escabroso personagem da Patricia
Highsmith num filme muito bem articulado com um naipe de atores de topo (vamos
vê -lo na retomada após o Natal) e "Cold Mountain”, uma história da
América profunda no tempo da Guerra Civil, também bem interessante e igualmente
recheado de grandes atores.
Aviso aos distraídos (leiam esta
informação com atenção): Quase não se dá por isso, tão interessante é a
história que nos absorve, mas são quase três horas de filme.
Preparem-se, que vale a pena.
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