15 fevereiro 2023

Django libertado - Quentin Tarantino (2012)

Com Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio
Duração: 159 min

América antes da Guerra Civil. Um caçador de recompensas, alemão, dentista; um escravo negro à procura da mulher entre as fazendas de algodão; um fazendeiro cruel, de maldades requintadas; um escravo negro racista (no sentido normal do sul). Está engatilhada uma história cheia de histórias. Tragicomédia. Entre o dramatismo e o hilariante. A beleza e o excesso gore (grande cena de sangue e tripas lá para a frente). O requinte dos serões sulistas a arremedar a Europa e a rasquice daquela gente esclavagista.

Oscar de melhor argumento em Hollywood para Tarantino. Está lá toda a parafernália de sinais identitários do seu universo. A verossimilhança a roçar pelo seu oposto (Samuel J. Jackson envelhecido a fazer de escravo anti-escravo. Grande interpretação). Os flashback recorrentes para nos irmos reposicionando no desenvolvimento da ficção. A risibilidade das citações da cultura centro europeia e dos pândegos do Ku Klux Klan. O desajustamento entre personagens e a sua envolvente (o caçador de recompensas, exímio pistoleiro sem escrúpulos de qualquer ordem, é um requintado conhecedor da mitologia germânica que alimentou tematicamente as obras de Wagner, cheio de escolástica e dialética). Christoph Waltz brilhante. Podia utilizar-se para este filme uma citação do grande e rotundo Hitchcock: "A lógica é aborrecida." 

Mais uma vez o Tarantino pediu emprestados contributos à sua memória cinéfila e às suas pancadas e fixações. Sergio Corbucci foi um de muitos realizadores italianos que nos anos 60 e 70 fizeram ali em Espanha carradas de filmes de 'cóbois', os western spaghetty como passaram para a história. Pois o Tarantino tomou-se de amores pelos seus filmes e internalizou algumas ideias. "Django" é o título de um desses filmes do Corbucci, de 1966, onde ele foi beber. Franco Nero, um dos actores italianos de referência na altura era o Django. Pois o nosso amigo homenageia-o, convidando-o para fazer uma perninha no seu filme.

Já agora diga-se que ele, Tarantino, também lá aparece a fazer um papel como mauzinho, mas resolve fazer justiça (o tal lado ético de que falámos nos filmes anteriores) e acabar consigo num grande arraial pirotécnico. Digno de ver-se. Depois disso, finalmente, o casal negro reencontrado pode fugir. Do ecrã foge, mas para onde? São escravos e negros, lembrem-se.

A ficção fica sempre em défice face à realidade. Mas é a vida. Criemos prazer com o que temos. Hoje e agora é só um filme. Um grande filme. 

01 fevereiro 2023

Sublime expiação - Douglas Sirk (1954)


Com Rock Hudson, Jane Wyman
Duração: 103min

Pode dizer-se que os filmes são como as cerejas, puxa-se por um e vêm outros atrás. Recordem. Em Pulp Fiction, do Tarantino, havia um "steak" Douglas Sirk. Bom pretexto para agarrarmos a oportunidade e viajar no tempo até ao ponto fronteira do início das nossas vidas. Sirk foi a essência do melodrama em Hollywood da década de 50. Depois de, fugido ao Hitler, ter feito variados filmes de variados géneros (era o quadro normal de Hollywood nesses tempos a que nem os melhores fugiam) Sirk encontrou a parceria privilegiada com um produtor dos estúdios Universal, Ross Hunter de seu nome.

Sirk, sofisticado, profundo conhecedor do teatro e da música nos palcos do centro europeu. Hunter, o americano típico com o sentido do negócio. Filmes para mulheres era a sua especialidade. E assim foi. Desse tandem resultou um conjunto de obras-primas que só anos mais tarde iriam ser redescobertas e incensadas. Mas lá iremos. Agora só estamos em Sublime Expiação.

História de aceitação/rejeição, culpa/expiação. Começa com um acidente marítimo e termina num "milagre" médico. Entre estes dois momentos determinantes passam anos, afastamentos e aproximações, equívocos e delírios. É a história da ceguinha que dança sempre com os olhos fechados ao jeito da literatura popular e das "soap operas".

Tudo se passa num mundo sofisticado, belo, com um toque "kitsch", com a inverosimilhança a roçar perigosamente pela matriz das situações. Mas quem se importa, se o que vemos tem uma espécie de sentido religioso? Sim, há um anjo da guarda, um pintor que vai religando as partes quando parece terem-se separado para sempre. Na verdade, ele é o demiurgo da ficção.

Muito azul,  cores excessivas, numa narrativa desvairada num mundo etéreo, assumidamente antinaturalista. As cores exuberantes conjugam admiravelmente com a música - assim uma espécie de pechisbeque romântico. E as coisas resultam. Se nos descuidarmos um bocadinho, ficamos com uma lagrimazita no canto do olho.

Uma boa síntese feita num texto da Cinematexa Portuguesa: "Eros triunfa de Thanatos no contexto da mais óbvia manipulação das emoções dos espectadores, na total inverosimilhanca de uma narrativa onírica e impossível.

Rock Hudson com este filme passou de mais um actor pau para toda a obra para vedeta de Hollywood (e naquele tempo as coisas funcionavam em grande). Curiosidade: a Jane Wyman, uma das grandes estrelas do firmamento cinematógrafo americano (já tinha tido um Óscar), era nesta altura casada com um dos grandes canastrões de Hollywood que, muito mais tarde, andou por  aventuras mais sérias - Ronald Reagan.

Falar de Douglas Sirk é automaticamente falar de melodrama. Para nosso apoio, para hoje e as próximas semanas, eis o que ele uma vez disse: "Creio que o melodrama deve produzir sobretudo emoções e não ações. Mas a emoção é uma espécie de ação. É uma ação no interior de uma pessoa."

Vamos alinhar no jogo proposto. Libertem as emoções. Podem trazer uns lenços de papel. Para o que der e vier. Sem vergonha.

25 janeiro 2023

Cães danados - Quentin Tarantino (1992)

Com Harvey Keitel, Tim Roth, Steve Buscemi
Duração: 95 min

Tarantino chegou ao cinema pela cinefilia pura. Não a dos cineastas europeus da nouvelle vague francesa (Goddard, Truffaut, Rhomer, Rivette, etc.) e todas as adjacências nacionais - italianos, espanhóis, portugueses...para quem a Cinemateca de Paris era, nos anos 60 e 70, um templo sagrado com 3 ou quatro sessões "religiosas" por dia. Tarantino é um filho espiritual do Scorsese, que devorava na sua juventude e em doses cavalares todo o cinema de Hollywood desde as suas origens profundas. Tarantino começou esse prazer quando ainda não tinha idade para isso, na companhia da mãe de extracção hippie da Califórnia. É ele que o conta num livro acabado de sair, "Cinema Speculation" que (por acaso) estou a ler.

Mas vamos ao filme. Com milhares de filmes na cabeça, sem critérios específicos de visão, com jeito para escrever, conseguiu vender argumentos para Hollywood que até deram filmes de sucesso. A partir daí, com apoios de alguns mais velhos (Harvey Keitel e Monte Hellman), conseguiu dinheiro para ele fazer um filme como realizador. Um assalto para roubar diamantes. Um grupo de marginais mutuamente desconhecidos trabalhando para um big boss. Mr. Pink, Mr. Blue, Mr. Orange, e por aí fora. O Tarantino é um dos do bando que vemos morrer a meio. Obviamente as coisas deram para o torto. Nunca vemos o assalto. Só o antes e o depois. É nesta articulação em flashbacks que se desenvolve toda a ficção. Tudo correu mal porque houve traição. Um deles é um infiltrado da polícia.Grande exercício de estilo. O sadismo a par da ética (sim, aquele pessoal tem ética). Uma estilização refinada, com grande elegância da câmera, é compatível com um imaginário gore (sangue é o que não falta). Mas o exibicionismo tem os seus limites. Numa das sequências violentas em que um polícia está a ser violentado por um dos maus há um efeito perverso no bom sentido: quando esperamos o pior, a câmara desvia-se, suspende-se e só apanhamos o horrível resultado já no fim. Isto é cinema ao seu mais alto nível. E o imaginário da época em grande. A música com êxitos da altura e a Madona (Like a Virgin, True Blue) como polo de conversa e discussão. E a cinefilia do nosso amigo Tarantino - Steve McQueen em "A grande evasão" do John Sturges, Lee Marvin (muitos papéis de mau ele fez com grande requinte de sadismo), Charles Bronson (aquela personagem dos anos 70/80, parafascista que ele fez em vários filmes do Michael Winner) e Pam Grier (actriz negra, grande estrela dos filmes negros dos anos 70, designados blackexploitation dos quais o mais conhecido foi "Shaft`). A Pam Grier foi "ressuscitada" pelo Tarantino em 1997 com "Jackie Brown". Grande lição de cinema, ainda que tenha sido a estreia do Tarantino como realizador.

A seguir veremos "Pulp Fiction" e "Django Libertado". A essência do Tarantino. Um cinema exibicionista marcado por uma estética de violência gráfica e sempre com uns argumentos muito fortes. O Tarantino escreve muito bem.

É um desafio. Quem alinha? Estamos cá para descodificar esta abordagem de cinema provocador. Não podemos esperar sempre pela papa feita.

18 janeiro 2023

Despertares - Penny Marshall (1990)

Com Robert de Niro e Robin Williams
Duração: 121 min

Milagre. Tirem-lhe o sentido religioso e fiquemos pelos contornos médicos. E mesmo assim só se atingirá uma falsa esperança. Uma instituição psiquiátrica da grande New York, no Bronx, onde a maioria dos doentes com elevados distúrbios neurológicos, vegeta em estado catatónico - aparentemente uma encefalite letárgica (doença do sono) ocorrida nos anos 20 - admite um jovem médico psiquiatra com ideias e métodos pouco ortodoxos. Gradualmente consegue entrar naquele universo de prostração e apatia, conseguindo convencer o estado maior do hospital a aplicar uma droga a partir de L-Dopa, um medicamento usado para a Doença de Parkinson. Dá-se o "milagre", primeiro com um doente (espantoso Robert de Niro) e depois com outros. Revolução. Transfiguração. Metamorfose. Alguns doentes estavam parados ainda no tempo da lei seca. As estátuas-vivas recuperam a sua vontade. De destroços humanos tornam-se seres com vida e sentido do prazer. Eles que já não esperavam nada. Como diz um deles "I am back". E outro: "A fucking miracle".

Mas o milagre foi apenas transitório, pontual. Pouco a pouco cada um daqueles seres volta ao recolhimento vegetativo. A cura falhou. Os despertares foram curtos, mas certamente valeram para cada um deles uma vida.

Isto não foi ficção. Com os desvios próprios do cinema de Hollywood aconteceu e quem o viveu e contou foi Oliver Saks, um neurologista, psiquiatra e escritor. Este caso está contado em "O tempo de despertar" (1973), tradução portuguesa. Outros livros ele escreveu (alguns traduzidos para português) sobre as suas experiências e vida, nomeadamente o que é mais conhecido - "O homem que confundiu a sua mulher com um chapéu".

Oliver Saks, judeu nascido em Inglaterra, mas desde 1965 a viver em N. York, tal como figurado no filme, era tímido, solitário, reservado, mas... homossexual. Procurava o bem dos seus doentes, mas não conseguiu viver de bem consigo. Como dizia o personagem de "Quanto mais quente melhor": "Nobody is perfect".

11 janeiro 2023

Um dia de cão - Sidney Lumet (1975)

Com Al Pacino, John Cazale
Duração: 125 min

New York. Brooklyn. Verão de 1972. Encadeiam-se planos de ruas e becos. Lixo, dejectos, restos. Porcaria. Muita sujidade. Metáfora da história que vai seguir-se? Provavelmente. História real e muito próxima do filme, feito 3 anos depois dos acontecimentos. A partir do material de imprensa coligido - artigos de jornais, reportagens televisivas, filmagens - e de entrevistas a muitos dos "actores" envolvidos, Sidney Lumet, um dos grandes realizadores americanos dos anos 60, 70 e 80, criou uma ficção forte, vigorosa, cheia de adrenalina. A matriz base é linear: dois zé-ninguém (a princípio três) assaltam um banco. As coisas correm mal. Ficam retidos com reféns (os funcionários - o gerente e algumas mulheres). Processo de negociação com a polícia, posteriormente com o FBI. Depois... Suspense. No fim saberemos. Toda a ficção, uma tragicomédia para não lhe chamar mesmo "opera buffa", vai oscilar entre o dentro e o fora da agência bancária.

Dentro, dois pobres diabos a tentar perceber porque correu tudo mal, os funcionários entre o medo e a excitação, os assaltantes em diálogo de surdos entre a exuberância de um e a quase apatia de outro (coitado, o seu universo de vida não ultrapassava as fronteiras do bairro).

Fora, um aparato policial e militar como se de uma guerra se tratasse. O circo das reportagens das televisões, o público (como se fosse um espectáculo). A excitação como um bónus para a vida vazia do quotidiano. Todo o filme se articula no vaivém entre dentro e fora. Negociação. Partilha de expectativas e desilusões.

A pulsação afectiva ganha expressão. A razão para o assalto foi muito objectiva num quadro de grande confusão vivencial. A personagem encarnada por Al Pacino - casada e com filhos - assaltou o banco por uma boa causa: arranjar dinheiro para pagar a mudança de sexo do/a namorado/a - transexual. Citação da personagem real: "Ninguém faria o que eu fiz. Ninguém roubaria um banco para poder cortar o pénis da namorada."

As coisas não correram bem, como é óbvio.

Al Pacino, na pujança dos seus trinta e tal anos, oferece uma interpretação espantosa, na pele de um homem enredado nas armadilhas bizarras do amor. Patético no seu amadorismo. Mau da fita sem, na verdade, o ser. Um pobre coitado. Com o fantasma do Vietname às costas, sonhando com a Argélia, sabe-se lá porquê.

Sidney Lumet o realizador. Um forte sentido social no seu cinema. Sobre o fenómeno da televisão (central neste filme) e do seu poder cada vez mais determinante nos comportamentos individuais, lembro que ele fez em 1976 "Network", em português "Escândalo na TV" com a Faye Dunaway, o Peter Finch e o William Holden. Um grande filme sobre esse fenómeno cada vez mais presente nas nossas vidas que é a comunicação e suas pornografias sociais de que o Correio da Manhã é um exemplo. Temos que nos proteger. Um apelo à decência.

Venham todos ver esta grande ficção da história do cinema "in loco".

Partilhar o espaço é também sentirmo-nos activos.

04 janeiro 2023

Lilith e o seu destino - Robert Rossen (1964)

Com Warren Beatty, Jean Seberg, Peter Fonda
Duração: 109 min

Nos anos 60 estava já em curso acelerado o processo de implosão dos códigos de censura que, desde os anos 30 cerceava acções, temas, gestos e falas de Hollywood. Obviamente que os comportamentos desviantes, anormais, psiquiatricamente perturbadores não faziam parte das admissões do Código Hays. Esta história não era politicamente correcta nesses tempos. Mas agora estava-se nos alvores dos novos tempos - o fenómeno hippie estava a chegar, o Vietname ia agitar estruturalmente a sociedade americana - e o cinema dos estúdios já conseguia abordar uma história como a de Lilith. Uma clínica psiquiátrica de luxo, para "malucos" ricos. Um jovem terapeuta retornado da guerra da Coreia (Warren Beatty). A atraçcão por uma jovem internada (Jean Seberg). O jogo a três com outro doente (Peter Fonda). Está criado o quadro ficcional explosivo. Entre a norma e a diferença, a sanidade e a esquizofrenia, a realidade e a fantasia.

Um jovem saído de um quadro anormal como é a guerra poderia, aparentemente, recuperar a sua identidade e colar os bocados em que estava partida a sua vida naquele universo de fragilidades afectivas e inconsequências comportamentais. Redondo engano. A esperança quebra-se, o dramatismo acentua-se - o jovem pretendente (Peter Fonda) suicida-se, a bela doente passa definitivamente para o lado de lá - e ao jovem resta-lhe implorar aos médicos do Solar dos Choupos (é assim que se chama a instituição):."Help me"!!!

Lilith é a personagem em torno da qual todo o drama ocorre. Nome e símbolo. Lilith vem lá do fundo da história e faz parte do Antigo Testamento. Das muitas figurações permito-me citar: "Lilith uma deusa muito adorada na Mesopotânia, comparada à lua negra, à sombra do inconsciente, ao mistério, ao poder, ao silêncio, à sedução, à tempestade, à escuridão e à morte." A Lilith da ficção é tudo isso. A beleza e a morte anunciada. Na cultura judaica Lilith é o demónio.

Rossen construiu um belo filme num estilo clássico, mas já com uns pozinhos diferentes - a música com sonoridades de jazz, por exemplo. Foi um grande argumentista da Hollywood clássica, mas conseguiu fazer alguns filmes como realizador. Este foi o último (morreu muito novo), mas o mais conhecido é "A vida é um jogo", um dos melhores filmes do Paul Newman, sobre o mundo do jogo (bilhar). Um quarto de século depois o nosso amigo Scorsese fez uma espécie de continuação com "A cor do dinheiro".

Voltando ao filme do Robert Rossen, recordo que o tempo acelerou muito naqueles tempos. Passados dez anos Hollywood fez "Voando sobre um ninho de cucos", um óptimo e premiado filme do Milos Forman (fugido há pouco tempo do "manicómio" político da Checoslováquia) com uma interpretação notável do Jack Nicholson. O mesmo tema... numa Hollywood totalmente diferente.

19 dezembro 2022

Cotton club - Francis Ford Coppola (1984)

Com Richard Gere, Diane Lane, Gregory Hines
Duração: 124 min

Enquanto digeria o "suicídio" do Zoetrope e a falência associada (ainda que com alguma descontração - não era a primeira vez), Coppola ia aceitando encomendas, como foi o caso do filme da semana passada, mas depois conseguia subverter as coisas à sua maneira - de um filme fez dois. Robert Evans, um produtor de estúdio, integrado no sistema de Hollywood, com dezenas de anos de tarimba, que deu as mãos à geração do Coppola, do George Lucas, do Scorsese, do Brian de Palma, do Bogdanovich, etc. os chamados "movie brats", acabou por colocar o Coppola na senda deste projeto que tinha sido escrito pelo Mario Puzzo (autor de "O Padrinho", lembrem-se). No contrato original cabia a Coppola reescrever o argumento, mas acabou por assumir a realização. Consta dos livros a sua habilidade inata para convencer. Muito paleio e sangue italiano... Ainda bem, para nosso prazer.

Cotton Club (1923-1940) era um clube noturno em pleno Harlem, o reino dos negros em NY. Artistas negros, clientes brancos entenda-se. Aparente absurdo. O suprasumo da música negra. O Armstrong e o Ellington, a Lena Horne e a Bessie Smith, nunca mais acabaria a elencagem de quem lá atuou. Pretos. Do outro lado do palco o suprasumo da clientela - os ricos e os famosos. Brancos. Os capitalistas da Wall Street e as estrelas refulgentes de Hollywood. Mas também os gangsters que nessa altura (era a Lei Seca) ganhavam notoriedade e poder - as 5 famílias italianas, fora os irlandeses. Na matriz ficcional que decora o filme, a essência é feita de personagens reais. Owen Madden, o dono, era um gangster e "bootlegger" , que conhecia bem a penitenciária Sing Sing. Dutch Schultz, um facínora impiedoso, executado a mando de Lucky Luciano que também aparece (ajuste de contas lá entre eles). Cab Calloway um dos maiores artistas negros - músico, cantor, bailarino.

Naquele tempo e universo tudo era possível acontecer no Cotton Club. Grande "speakeasy" não intervencionado pela polícia pelas razões óbvias - oleava os bolsos dos magistrados e polícias para não ser chateado. A partir de um livro sobre a história e as estórias do Cotton Club ("whites-only establishment") fez Coppola um belíssimo quadro, com momentos cinematograficamente preciosos. As duas sequências de montagem paralela em que a dança (tap) vai contrapondo a violência são lições de cinema. As homenagens ao cinema daqules anos. Charlie Chaplin (estejam atentos), James Cagney que fez de gangster (mau como as cobras) em alguns dos mais referenciados filmes de Hollywood da década de 30, Gloria Swanson, estrela refulgente do mudo que não aguentou a revolução do som, mas foi recuperada uns largos anos mais tarde para "O Crepúsculo dos Deuses" do Billy Wilder.

Nunca mais acabaria se continuasse aqui a enunciar pormenores preciosos.

E os actores? Richard Gere a fazer de músico, perdido naquele mundo de pecado, tornado vedeta de Hollywood pelos cordelinhos tecidos no Harlem. E a Diane Lane, agora mais crescida, a fazer de adulta para sobreviver protegida pelo Schultz mas, no fundo, boa alma. Vai safar-se. Provavelmente por pouco tempo, mas...

Por aqui ficamos. O apetite está lançado. Venham ver "in loco" e partilhar o prazer em parceria.

Um bom Natal e melhores entradas no próximo ano. Se possível em tap dancing, com a elegância do Gregory Hines, na sala aí de casa.

16 novembro 2022

Do Fundo do Coração - Francis Ford Coppola (1982)

Com Frederic Forrest, Teri Garr, Nastassia Kinski. 1982. 95 min

A década de 70 foi prodigiosa para F. F. Coppola:  "O Padrinho" I e II e "Apocalipse Now", são três filmes que  fazem parte da história do cinema e referência inquestionável no quadro vivencial e cultural do pessoal daquela geração (na verdade somos nós). Com o prestígio (e os milhões ganhos) Coppola sonhou alto. Concebeu um quadro de produção radicalmente alternativo a Hollywood. Chamou-lhe Zoetrope. Um estúdio baseado nas novas tecnologias que no início dos 80 estavam a dar os primeiros passos (o cinema electrónico), aberto a jovens talentosos e com ideias brilhantes. São Francisco foi o centro daquele mundo.

Mas vai sempre uma longa distância entre o sonho e a realidade. Foi lá que ele fez este filme. Integralmente produzido em estúdio. E espantosamente, num quadro projectado para o futuro - mais 20 anos e se calhar as coisas teriam sido diferentes - Coppola vai fazer o seu primeiro filme no seu espaço autónomo sem interferências dos "big bosses" de Hollywood, recuperando um dos géneros clássicos do cinema americano, o filme musical. História mais do que simples. O beábá. - um homem, uma mulher. A crise do casal. A aparente separação. A traição mútua. E...finalmente o reencontro amoroso (provavelmente até à próxima crise, que já não faz parte do filme). Recuo na história do cinema de uns 40 anos. Mas isto é apenas o pretexto para um exercício (chamemos-lhe assim por respeito e admiração por Coppola) de prestidigitação. A exuberância das cores e das luzes, o artificialismo e o maravilhoso no universo aberrante e desértico de Las Vegas. A mobilidade da câmara em sequências deliciosas, como se aquilo fosse um circo e a magia estivesse ao virar da esquina. É um grande sonho, um devaneio, um desejo de fuga para um distante Pacífico (Bora Bora) ou para Paris ou Roma. Mas como um dos personagens diz, é tarde de mais.

O filme é um brinquedo maravilhoso de tal modo estupidamente caro que o nosso amigo Coppola se afundou com ele. Bancarrota. Dizem as crónicas que foram 27 milhões de U$D derretidos com a megalomania do Francis. A  comunidade de realizadores e argumentistas que ele sonhava para animarem a Zoetrope não passou de uma miragem.

Felizmente que ele ultrapassou a crise (mais uma) e continuou a fazer pequenas obras-primas e, acima de tudo, criou na sua propriedade em Napa Valley algum dos melhores vinhos do mundo. Brindemos a ele.

Já agora,  em casa também podem beber um copo enquanto ouvem o Tom Waits acompanhado pela Crystal  Gayle em toda a banda sonora do filme. Se não tiverem, basta qualquer álbum  do Tom Waits, grande trovador do nosso tempo. Não o conhecem? Ainda estão a tempo.

Tchim tchim...

09 novembro 2022

O cabo do medo - Martin Scorsese (1991)

Com Robert de Niro, Nick Nolte, Jessica Lange
Duração: 128 min

Scorsese e Spielberg. Do outro lado o estúdio Universal. "O Cabo do Medo" estava atribuído a Spielberg e "A Lista de Schindler" a Scorsese. Mas o mundo de Hollywood tem muitas atribulações e tudo acabou da melhor forma possível para os amantes do cinema. E de que maneira!... Neste caso mais um grande projecto para o De Niro numa história terrível, densa e arrepiante. Um psicopata, abjecto e exibicionista liberto da prisão onde passou 14 anos procura o advogado que o defendeu mal (ocultação de provas) e procura a vingança. Ninguém escapa à sua acção psicótica, à sua verdade, à sua justiça. O personagem carrega com ele todo um programa sob a forma de tatuagens. O seu corpo é a sua mensagem. Tal como no início as paredes da sua cela indiciam o que vem aí. Tentem ver atentamente... A verdade e a justiça que ele procura - e também a redenção - estão gravados na sua pele. E a Bíblia como aval. A forma da ficção, como se fosse um thriller clássico dos anos 40 ou 50, é a matriz da enunciação de uma história que cava mais fundo, indo até à essência do ser humano, dos seus medos e fantasmas. Como diz o Cady (De Niro): "Ninguém escapa aos seus demónios" . Na luta final num barco à deriva, a loucura atinge o seu auge e vemos Cady na água entoando uma lengalenga numa língua estranha. Será que dialoga com os seus demónios e eles o acolherão, a ele que diz que vai para a terra prometida? Ou sobreviveu e anda por cá a atormentar-nos?

A intensidade dramática é espantosa. A duplicidade de sentidos e significados vai baralhando as leituras. Os limites  das fronteiras entre o bem e o mal vão-se baralhando. Os limiares da ética são difusos.

Apesar de Scorsese ter apontado algumas resistências para aceitar fazer o filme, acredito que lhe terá dado um prazer especial porque é um "remake" de um filme de 1962 de um género de que ele, como cinéfilo, adora. A versão original foi feita por um cineasta de referência em Hollywood, J. Lee Thompson, que fez por exemplo "Os Canhões de Navarone" e "As Minas de Salomão". Scorsese homenageou a primeira versão do filme convidando para pequenos papéis os dois actores principais, Robert Mitchum e Gregory Peck.

Há que estar atentos a todos os pormenores. Scorsese não  nos deixa descansar. Temos que estar em alerta contínuo porque o medo impregna-se. Resistamos-lhe, mas sejamos cúmplices com o jogo dramático que o Scorsese manipula como um mestre.

02 novembro 2022

O touro enraivecido - Martin Scorsese (1980)

Com Robert de Niro, Joe Pesci, Cathy Moriarty
Duração: 123 min

Martin Scorsese no seu melhor. Uma história real de um personagem vivo. O universo italiano importado há duas ou três gerações para a América. O catolicismo em todas as referências mesmo que só à superfície. O pugilismo como modo de afirmação e poder nas franjas do proletariado da grande New York (Bronx).

Mas quem puxou pela carroça foi o De Niro. Fascinado pelo livro de memórias do pugilista Jake La Motta, o actor conseguiu convencer o amigo a entrar no projecto. Uns anos antes tinham atingido os píncaros com "Taxi Driver" e no ano anterior tinham-se espalhado ao comprido com "New York, New York" (injustamente devo dizer, e a história acredito me dará razão). O Scorsese, com o desgosto e com excesso de cocaína, barbitúricos e outros produtos não recomendáveis, tinha ido parar ao hospital. Mas lá se conseguiu safar e meteu-se até ao tutano no projecto. Mas com dúvidas existenciais. É ele que o escreve: A ideia era fazer um filme o mais sincero possível, sem nenhum compromisso com o "box-office" ou o público. Disse para mim: acabou. A minha carreira terminou. Acabou. É o último". Felizmente não foi assim. O Scorsese continua ainda e sempre a surpreender-nos, para nosso íntimo e intelectual prazer. O resultado foi absolutamente ímpar. A ascensão e queda de um pugilista e do homem que ele era. Um processo de auto-destruição aterrador. Um homem obcecado, orgulhoso, machista, ciumento. Um personagem que se torna patético. Atingiu o sonho americano e destruiu tudo o que conquistou. Termina como  "entertainer" em clubes e cabarés contando umas anedotas porcas e apalpando umas meninas patetas. Tudo isto é contado com imagens espantosas:  as sequências de boxe nos ringues (a linguagem está nos corpos, diz o Scorsese), o interlúdio colorido (Scorsese filmou a preto e branco) de passagem do tempo, casamentos, filhos, como se fossem uns filmezinhos caseiros,  as sequências dos cabarets.... É um não mais acabar. Há que ver com atenção todos os requintes. A montagem, por exemplo. Thelma Schoonmaker, apenas um nome. Mas importante. Ela é a outra parte da parceria criativa com o Scorsese. Há 50 anos que monta os filmes dele. Ganhou três Oscares e o primeiro foi precisamente com O Touro Enraivecido.

E os actores? Robert De Niro ganhou o Oscar, está tudo dito. Mas Joe Pesci não merecia também?

Neste filme, onde a iconografia do corpo é a matriz essencial, em última instância o que se procura é a redenção, o combate com os demónios. Será surpreendente que a ficção termine com uma citação dos Evangelhos? Jake la Motta. Paz à sua alma. Apesar de tantos murros recebidos - reais e figurados - acabou por ter uma vida muito longa.

30 outubro 2022

O aviador - Martin Scorsese (2004)

Com Leonardo Di Caprio, Cate Blanchett, Alan Alda. 2004. 169 min

Scorsese dixit - "A história atraía-me porque contava coisas sobre Howard Hughes que eu desconhecia. Tinha todo o dinheiro do mundo e podia, por isso, fazer o que bem entendesse. Visionário, obcecado pela velocidade, era um homem com uma maldição trágica que acabou por o devorar... Eu queria recriar a excitação de Hollywood dos anos vinte, trinta e quarenta. Adoro os velhos filmes americanos e alimentava o desejo de fazer alguma coisa que mostrasse como eram feitos os filmes e que falasse dos reis de Hollywood daquele tempo."

O resultado esplendoroso foi este" O Aviador". Howard Hughes um personagem maior do que o mundo, a viver numa época em que tudo era possível, num país em que o carrossel da vida rapidamente passa das alturas vertiginosas do sucesso para o chão raso da miséria e desolação. Hughes não está assim tão longe de nós. Morreu em 1976 e a sua vida está nublada de situações pouco claras mas de feitos espantosos. Maluquinho dos aviões no tempo em que tudo estava a acontecer em termos tecnológicos e de mercado. A ele se devem alguns feitos heróicos na aviação, o desenvolvimento industrial da aviação e a concepção do negócio da aviação comercial (TWA). Fascinado pelo imaginário de Hollywood - fez dois filmes que ficaran na história do cinema, por razões diferentes - vivia a vida como se fosse um filme do George Cuckor ou do Howard Hawks. O seu sucesso pessoal (suportado pela riqueza herdada do pai) era factor de atração das estrelas femininas. Catharine Hepburn, Ava Gardner, Ginger Rogers, Bette Davis, Lana Turner, Jane Russell, etc, etc. (um pacote de "who is the who" das estrelas femininas de Hollywood andaram envolvidas com ele.)

 Mas... Havia alguma coisa na cabeça dele que não funcionava bem. A fobia aos germes (atenção à primeira sequência). A pouco e pouco revela-se um maníaco obsessivo, cada vez mais excêntrico e errático. Um "freak". A história do Scorsese termina em quarenta e tal, mas ele viveu ainda trinta anos num processo desequilibrado de esgotamentos nervosos, recidivas e alienação por drogas e medicamentos.

A partir desta matéria-prima real  Scorsese  criou mais um um filme incrível. Sequências espantosas (só um exemplo: a sala de montagem e o movimento alucinado que nela acontece), a utilização dramática das cores, os universos exuberantes dos clubes e cabarets, a montagem incrível de algumas sequências (com os aviões) - a nossa conhecida T. Schoomaker ganhou mais um Oscar. Não mais sairíamos daqui se fossemos aos detalhes.

Entre o sussurro da mãe logo no início "Não estás em segurança" e o desvario compulsivo e repetitivo de H. Hughes no final - "The way of the future" - chaves de leitura da sua bizarra personalidade, preparemo-nos para esta jornada incrível de cinema.

Atenção: A viagem é longa. Apertem os cintos, respirem fundo e deixem-se apanhar pela magia do voo cinematográfico.

19 outubro 2022

O colosso de Rodes - Sergio Leone (1961)

Com Rory Calhoun, Lea Massari
Duração: 118 min

Os últimos dias de Pompeia terminou com a erupção do vulcão. O Colosso de Rodes termina com um grande terramoto. Verdades históricas, servidas com matrizes ficcionais muito convincentes. Mais convincente é a essência cinematográfica destas catástrofes naturais. A Cinnecitá tinha meios e práticas muito elaborados e, passados estes anos todos, bem podemos dizer que aquele terramoto é bem conseguido como o tinha sido a erupção do Vesúvio. O profissionalismo dos estúdios era conciliável com a espectacularidade procurada. Aliás nesta altura estava em curso um processo de deslocalização de Hollywood para Roma. Quo Vadis, Helena de Troia e Ben Hur, grandes produções americanas, foram filmados na Cinnecita nestes anos. Gente para encher o ecrã como nos dois filmes que estamos a analisar era o que não faltava - uma escolha ilimitada a preços baratos. Eram os italianos do sul a subirem para Roma e Milão à procura de uma vida melhor no capitalismo industrial.

Em o Colosso de Rodes temos uma ficção aventureira-amorosa mais uma vez suportada pela verdade factual. Em Rodes, no Mediterrâneo oriental, há uma situação política de ditadura. As populações são escravizadas. Há corrupção e tortura e um grupo de resistência. Um general ateniense, em férias, é o sujeito da mudança. Ora dentro ora fora. Quando tudo termina com a queda do Colosso, para ele é o princípio. Não retorna a Atenas e fica com a mulher bonita que até ali praticamente nao se tinha cruzado com ele. Mas isso é o lado fascinante da ficção. Visualmente há coisas brilhantes no filme. Algumas sequências dentro e fora do Colosso. Belíssimas imagens em exteriores rochosos de grande impacto visual. Pelo meio há uns duelos quase risíveis na sua encenação. Mas recuem uma dezenas de anos e imaginem-se crianças a ver aquilo...

Colosso de Rodes. Não é imaginação. Existiu mesmo. De 288 A.C. até 226 A. C. Estrabão e Plínio, o Velho referem-se a ele nas suas crónicas que chegaram até nós. Erigido em honra do deus Hélios, era uma grande estátua em bronze, cerca de 33 metros de altura. Até ficou para a história o nome do arquiteto: Carés de Lindos. A localização é que não é consentânea. Os restos da estátua ficaram depositados no fundo do mar até ao ano 653 quando Rodes foi conquistada por uma força árabe que recuperou todo o metal e o vendeu a... adivinhem: um mercador judeu.

O gozo é enorme e é espantoso o engenho com que foram filmadas as sequências no colosso - dentro e fora. Umas dezenas de anos depois, o Spielberg não faria melhor. Só mais sofisticado porque os instrumentos cinematográficos atuais são de uma dimensão tecnológica incomparável.

02 outubro 2022

Os últimos dias de Pompeia - Sergio Leone (1959)

Com Steve Reeves, Fernando Rey
Duração: 94 min

Sergio Leone é um cineasta desvalorizado. E, no entanto, fez três filmes que gravaram o seu nome nos anais da história do cinema -" Por um punhado de dólares", "Por mais alguns dólares" e "O bom, o mau e o vilão".

Com a personagem que criou, o Clint Eastwood reentrou pela porta grande em Hollywood e certamente aprendeu muito, se nos lembrarmos da obra dele como realizador. Mas depois ainda houve "Era uma vez no Oeste" e "Era uma vez na América" , para mim um dos mais espantosos filmes do nosso tempo.

Mas... há um antes. Sergio Leone quase nasceu na Cinnecita - os grandes estúdios de cinema italianos. O pai e a mãe trabalhavam lá. Desde muito novo foi assistente de realização de muitos filmes. Vitorio de Sica, Luigi Commencini, etc. foram mestres dele.

E é aí que começa tudo. Um realizador medíocre que ficou enterrado na história do cinema (Mario Bonnard) ficou doente e o jovem tomou o seu lugar. Uma história encaixada na História. A erupção do Vesúvio, a destruição de Pompeia (ano 79 DC). A perseguição dos cristãos pelo Império Romano. Uma ficção amorosa bem engendrada, os decors credivelmente elaborados. O álcool e as orgias. O exotismo do Império Romano no seu auge. Ecos do Oriente, a Palestina e a Judeia. Ahh. E os actores. Naqueles tempos a Cinnecita era polo de atração de actores europeus e americanos. Não havia problema com a língua. E assim temos o Steve Reeves a fazer de Glaucus, um centurião, falando italiano de gema.

Naqueles anos o modo de produção do cinema italiano era bizarro - os diálogos e o som eram feitos em pós produção. O Felinni dizia aos actores para irem contando... 1,2,3. Quem era este personagem? Fraquinho actor americano cujos atributos eram físicos. Tinha sido Mr. América e Mr. Universo. Em Itália fez de Golias, Hércules, Sandokan... Mas, para compensar temos o Fernando Rey, esse grande actor espanhol que iria ser nossa visita habitual (às vezes na companhia da Catherine Deneuve) uns anos mais tarde nos filmes do Bunuel. Mas há tantas pequenas pérolas espalhadas pelo filme. A música exoticamente adequada, a exuberância do vestuário, a montagem extremamente económica e rigorosa (não há devaneios), a eficácia narrativa nas sequências da erupção do vulcão, com alguns planos incrivelmente belos, provavelmente filmados por acidente... veja-se o menino louro perdido naquela confusão de cartão... O naif fazia parceria com o sofisticado, mesmo  contra a História - aquele coro dos prisioneiros cristãos com música religiosa para aí do século XVII ou XVIII...

O prazer visual associado ao prazer da memória. Os manuais do cinema chamam a este tipo/género "sword and sandal film". Eu, na inocência da minha idade chamava-lhes os filmes dos romanos. Que grande gozo.

06 junho 2022

Decameron - Pier Paolo Pasolini (1971)

Com Franco Citti, Silvana Mangano
Duração: 107 min

Pasolini e Boccacio. Seiscentos e tal anos, mas o mesmo sentido. Os podres, as misérias da sociedade. As alienações e a devassidão dos comportamentos. Mas com um apurado sentido estético. Como alguém defendeu, o cinema de Pasolini era o cinema de poesia. Num texto de Pasolini de 1962 está bem expresso o sentido clássico da produção pasoliniana. Vejamos: "O meu gosto cinematográfico não é de origem cinematográfica, mas sim pictórico. As imagens, os campos visuais que eu tenho na cabeça são os frescos de Masaccio, de Giotto - os pintores que eu mais amo, com certos maneirismos (como, por exemplo, Pontormo). Não consigo conceber as imagens, as paisagens, as composições das figuras fora da minha paixão fundamental por esta pintura do Trecento". Das cem histórias do grande clássico da literatura da Idade Média - Decameron - Pasolini escolheu nove e com elas criou um diversificado painel analítico dos comportamentos humanos entre o trágico e o erótico - luxúria, prazer, ascetismo, corrupção, intolerância... A partir de histórias de um tempo antigo Pasolini construiu um pequeno quadro rendado onde mostra que os comportamentos humanos não se vão alterando muito com a passagem dos séculos. Lamentavelmente, diremos nós. As rupturas vão acontecendo, felizmente. Mas, na essência, é sempre o homem enredado na complexidade da sua alma.

Ficamos por aqui. Que o próximo ano lectivo seja, para todos, melhor que este.

28 maio 2022

O Evangelho Segundo São Mateus - Pier Paolo Pasolini (1964)

Com Enrique Irazaqui e Margherita Caruso
Duração: 131 min

Parece impossível que eu não sendo crente, sendo marxista, possa contar a história do filho de Deus, com a fidelidade, que designarei de prosódica, ao Evangelho Segundo São Mateus...Eu instaurei um diálogo entre mim e os crentes. É essa a razão prática por que eu rodei o Evangelho.

Esta citação do autor numa entrevista aos Cahiers du Cinema (a Bíblia francesa do cinema nos anos 60 e 70) é bem clara quanto ao seu objectivo. Um intelectual engagé, com forte presença nos meios de comunicação italianos e sempre disposto a alimentar polémicas sobre todos os problemas sociais italianos e não só . Poeta, romancista, argumentista e cineasta. Muito mais próximo do Antonioni do que de Fellini, só para nos dar uma referência. Fez poucos filmes, sem uma identidade estilística ou conceptual. Os primeiros filmes têm um húmus neorrealista, outros a densidade formal/ritual das comédias gregas e outros - a Trilogia da Vida (Decameron, Contos de Canterbury e Mil e Uma Noites) - a beleza e as cores da pintura europeia dos séculos XIII e XIV. Mas lá iremos nas próximas semanas. Em "O Evangelho..." vemos a interpretação da palavra de Mateus numa perspectiva dessacralizada. Os locais são desolados, as pessoas são concebidas grosseiramente e o personagem de Cristo como se fosse um de nós. Há um lado hierático que marca a ficção. Os rostos tão duros e de uma beleza intemporal. Há uma simplicidade rough de arte povere (em paralelismo com o que estava a acontecer nas artes plásticas) que nos cativa. Apesar de Pasolini ter uma imagem pública pouco consentânea com os bons costumes burgueses e religiosos - marxista, ateu e homossexual (sim, já naquela altura tinha sido condenado por actos obscenos e corrupção de menores e, obviamente, expulso do PCI) o filme foi fortemente acolhido pela hierarquia de Vaticano e objecto de vários prémios de organizações católicas. Ah... O Pasolini dedicou o filme ao Papa João XXIII.

Contradições? Dialética, direi eu. Quem nunca tenha visto e tenha convicções católicas tem aqui uma bela reflexão sobre os fundamentos da nossa identidade religiosa.

18 maio 2022

Shine - Simplesmente Genial - Robert Scott Hicks (1996)

Com Geoffrey Rush, John Gielgud
Duração: 120 min

A genialidade e a loucura. Ou vice-versa. A história é bem real e é nossa contemporânea. Um pianista australiano de setenta e tal anos que, segundo a Internet, está atualmente a fazer uma digressão de fim de carreira por alguns países da Europa. Parece normal, mas não é. A genialidade foi aprisionada pela loucura e não há saída. Nunca se sabe o que esperar. O filme bem o enuncia. É a história de David Helfgott, menino-prodígio do piano a quem a vida correu mal (a Mozart, com o mesmo percurso inicial, as coisas correram bem, para nosso incomensurável prazer). Quando tudo indiciava que a geração de 60 iria ter um génio pianista como o Glenn Gould foi a debacle. Rotundo breakdown. Transtorno esquizoafectivo dizem os tratados de medicina psiquiátrica. Antipsicóticos e eletrochoques para cima do pobre. E depois, ao fim de muitos anos de tratamentos e reclusão, imprevisivelmente, ressuscita. Começa a tocar num bar e a ganhar fama. Até casa em 1984 e, aparentemente, o apoio da mulher deu-lhe o equilíbrio suficiente para renascer. Até agora. Mas, pelos dados recolhidos na ficção deve ser uma relação muito agitada, imprevisível e marxista (calma, refiro-me ao caos dos Irmãos Marx, lembrem-se) para não exagerar.

Ao som de Rachmaninoff, concerto número 3 (considerado pelos exegetas uma das peças de piano mais difíceis da história da música) vamos acompanhando o crescimento e evolução do pequeno e excêntrico prodígio musical (controlado por um pai ambicioso e ditatorial, marcado pelo trauma do campo de concentração a que conseguiu sobreviver) até que tudo se precipitou dramaticamente. Há um antes e um depois. Como há dois atores para o personagem. Quando adulto aterra no corpo de Geoffrey Rush e é para nós espectadores o prazer absoluto (o cinema permite isto: um enorme prazer a assistir à dor mais profunda e inconcebível). Um ator australiano vindo lá do fundo do deserto, que Hollywood e adjacências não mais deixaram escapar. Não são parvos. Para nosso bem. Deram-lhe logo o Óscar. Com justiça.

Só por associação de ideias cinéfilas... nos anos de consolidação do imaginário cinematográfico, Tod Browning, um cineasta enorme das primícias da história de Hollywood fez um conjunto de filmes sobre este universo de alienados mentais, dos quais se destaca o enorme Freaks, uma espécie de bizarro circo de atracções, mas onde o amor acontece. Como aqui. Entrem em cena e deixem-se possuir pela impetuosidade rachmaninoffiana do nosso pianista e pela sua quase angélica postura.

04 maio 2022

Frida - Julie Taymor (2002)

Com Selma Hayek, Alfred Molina
Duração: 118 min

Vamos recomeçar. México. Primeiras décadas do século XX. Grande agitação política e cultural. Grandes artistas. Fotógrafos (Alvarez Bravo e Tina Modotti). Pintores. Os muralistas - Orozco, Siqueiros e Diego Rivera. Num intervalo desta euforia desregrada mas controlada quanto baste pela vizinha América, emerge Frida Khalo. Associada para o bem e o mal a Diego Rivera (foram casados duas vezes) a sua vida é uma história de dor física e de excelência vivencial. Se quisermos, dor e paixão. Ícone feminista quanto baste, porque não conhecia fronteiras comportamentais. Pintora de excelência? O exotismo, o fantástico, o absurdo ou o simbólico da sua pintura (basicamente autorretratos) estão claramente sobrevalorizados no universo da definição dos valores culturais. Surrealista? As categorias vivenciais dela eram menos intelectuais e mais viscerais. Na essência era uma pintora naif. Mas o seu papel num cantinho da história do século passado está garantido. Foi amante do Trotsky (o nosso recém visto Geoffrey Rush) que viveu na casa dela e nesse contexto foi assassinado por um militante comunista espanhol a mando do Staline. O seu universo pessoal e do Rivera (a Casa Azul) felizmente manteve-se e é visitável com prazer na cidade do México.

Nesta história em que acompanhamos o percurso da Frida até à sua morte é recriado com brilho o imaginário da burguesia esclarecida no México, que sonhava revoluções, mas se dava muito bem com a riqueza do capitalismo americano, como foi o célebre caso do Mural no Rockfeller Center - revisitado no filme. Belíssima fotografia, óptima música e melhores performances de Selma Hayek como Frida e Alfred Molina como Diego Rivera. Passagem meteórica de Antonio Banderas. Vale a pena.

O pequeno grande homem - Arthur Penn (1970)

Com Dustin Hoffman, Faye Dunnaway
Duração: 34m

Shane, pura ficção. Vício de Matar, a verdade histórica mais ou menos... O Pequeno Grande Homem, meio ficção meio mito.

A verdade do Oeste contada pelo último sobrevivente do confronto entre o general Custer e os Cheyennes (uma das poucas vitórias reconhecidas historicamente dos índios sobre os brancos), com 121 anos. Aqui está, logo em termos conceptuais, o distanciamento sobre a verdade histórica. É difícil alguém chegar a esta idade e muito menos com cabeça para recordar corretamente o passado. Assim este épico é passado entre a verdade e a mentira. Entre o sério e o risível. Numa farândula contínua de encontros e desencontros do personagem Crabb (o grande pequeno Dustin Hoffman) - índio, religioso, feirante, pistoleiro, comerciante, batedor, carroceiro e muito mais. Este índio (não índio) ajuda-nos a situar-nos naquele universo do Oeste americano em que tudo mudava à velocidade... pelo menos dos cavalos. Na trepidação da história americana do Oeste tudo avançava numa espécie de circularidade. O personagem ia encontrando e reencontrando outras personagens - os índios, a irmã, a antiga protetora, o aldrabão feirante (este sempre com menos um bocado de corpo), o célebre Wild Bill Hickok (mitificado pela história, mas morto na trafulhice de um jogo de poker) - num rodopio de sobrevivência.

Neste jogo divertido e absurdo vão passando verdades dolorosas para a América. Os índios ("Ganhámos hoje. Não ganhamos amanhã), os heróis fake (General Custer)... É caso para dizer que "Todos morreram Calçados" o título português do filme do Raul Walsh (1941) sobre o Custer e a batalha de Little Big Horn, com o grande, mas desvairado Errol Flinn.

Para um filme de 1970 (Hollywood estava em crise de criatividade), aqui está uma história muito bem esgalhada, comédia amarga, irónica e... muito divertida.

27 abril 2022

Vício de matar, de Arthur Penn (1958)

Com Paul Newman, John Dehner
Duração: 102 min

"Billy the Kid, foi assim que passou para a história americana o jovem William Bonney. 1859-1881foi o tempo de vida que os deuses lhe atribuíram. Pistoleiro e ladrão de gado. Matou quatro pessoas (chegaram a atribuir-lhe 21 mortes) e foi morto pelo xerife Pat Garrett - outro nome incontornável da história do Oeste americano da segunda metade do século XIX. Qualquer deles, juntos ou separados, alimentaram umas dezenas de argumentos de ficção em Hollywood. Esta é mais uma, mas... No fim dos anos 50 alguns argumentistas e realizadores começaram a questionar algumas coisas da história americana do oeste tal como ela se tinha consolidado no imaginário coletivo. É esse o caso deste filme. A matriz ficcional obedece à verdade histórica. Aquelas personagens existiram, os dados foram (mais ou menos) respeitados e as situações igualmente. Mérito para o Gore Vidal (esse grande escritor) que investigou e escreveu a matriz factual de base. Mérito igualmente para o realizador Arthur Penn que, vindo do universo da televisão (então em consolidação no imaginário e nos hábitos) conseguiu fazer com esse material o seu primeiro filme em Hollywood. Penn, que era um intelectual fascinado pelo cinema europeu, fez uns anos depois (1967) Bonnye & Clyde e a abordagem é similar. Personagens reais da história americana. Jovens (just kids) desenquadrados, socialmente à deriva na América profunda. Marginais fascinados com o eco das suas façanhas junto do público através de notícias ampliadas e romanceadas por jornalistas pouco escrupulosos - o Billy diz para si que é uma figura de glória.

A forma com o Penn põe o Newman a representar o pequeno bandido dá essa dimensão de uma certa inocência, o desejo de brincar, fruir a vida. Há uma clara ampliação do perfil psicológico do jovem, apanhado nas armadilhas da vida, com uma falsa história contada e editada. Não tinha futuro. Penn filmou claramente num registo fluído, prático e barato - os decors eram naturais. Obviamente que a sua margem de liberdade era restrita. Um miúdo que foi morto com 22 anos era representado pelo Paul Newman que já ia nos 38 anos. Mal menor ou, se quisermos, uma prenda especial para nosso prazer cinéfilo.

20 abril 2022

Shane - George Steven (1952)

Com Alan Ladd, Jean Arthur, Van Heflin
Duração: 113 min

Dois planos sequência - um no princípio e outro no fim. O personagem solitário que chega e que parte. No meio fica a história. Similar a tantas outras que alimentaram o nosso imaginário juvenil. E tudo se joga nos pormenores. O olhar dos personagens campo. A matriz ficcional ancorada na história do oeste americano. O jogo desigual entre um latifundiário e meia dúzia de famílias de colonos (do norte da Europa, percebe-se pelos nomes). A paisagem deslumbrante recentemente colonizada - os índios já estavam mortos ou empacotados em reservas. O sulista claramente deslocado (certamente fugido ao ajustamento de contas pós guerra civil) aceite mas desprezado/gozado pelos outros. A família feliz mas claramente perturbada pela chegada do estranho (o outro que foge completamente aos padrões de normalidade na sobrevivência pela terra). Shane - o outro - vai gradualmente entrando na comunidade e o desejo acontece (não é preciso muitas palavras. A mulher do colono procura nos seus braços a proteção para não pecar) . E as lutas. Violência está sempre associada com o western. Grande pancadaria no saloon, luta entre os dois amigos para "escolher" quem vai lutar com o pistoleiro contratado pelo outro lado e, finalmente, o duelo final para repor a justiça. Shane, vindo de um passado sombrio só adivinhável por pequenos indícios, repõe a normalidade, mas não pode ficar. Marcado pelo passado não pode ficar no céu reconquistado. Sangrando afasta-se definitivamente. Se calhar vai lavar a alma numa praia do Pacífico ou eventualmente cairá na próxima esquia morto à traição por um qualquer pistoleiro. Who cares?

Sendo muito mais denso do que parece, Shane é um daqueles filmes que, de uma forma brilhante, encenou o mito do western e agora cito o Manuel Cintra Ferreira um dos bons malucos da Cinemateca (infelizmente já desaparecido)... trata-se da única mitologia criada pelo cinema, como representação imaginária de uma sociedade primitiva, ao longo dos territórios virgens abertos à colonização....

Estejam atentos. Para lá da trama ficcional repetitiva há outros sentidos a descobrir. Já agora, e mais uma vez, a música quase como um personagem a obrigar-nos a ir para onde o realizador George Stevens queria. A manipular-nos. Mas nós gostamos.

30 março 2022

A cortina rasgada - Alfred Hitchcock (1966)


Com Paul Newman, Julie Andrews, Lila Kedrova. 1966. 123m

Então a coisa é assim. Quando deserta para a Alemanha de Leste, o cientista nuclear americano Michael Armstrong (Paul Newman) é seguido pela noiva, Sarah Sherman (Julie Andrews), que não sabe que ele finge ser um desertor. A sua verdadeira missão é roubar uma fórmula química secreta e, em seguida, voltar para a América. Cumprida a missão, a fuga é complicada pela presença de Sarah e pela perseguição dos agentes da STASI (muito pior que a PIDE com sabem). Após fuga de autocarro desde Leipzig até Berlim (sequência deliciosa sobre o medo) conseguem safar-se para a Suécia. Pelo meio há pequenas joias (cinematograficamente, claro). A morte do agente da STASI, um longo tour de force dramático. O encontro com a condessa polaca, personagem felliniana, patética no seu desespero de conquistar uma passagem para a América. A sequência quase final do espectáculo de ballet, a remeter para uma das obras-primas do mestre - O Homem que Sabia Demais. Claro que este filme não está no top do ranking hitchcockiano. Já estamos na fase final da sua criatividade. Só iria fazer mais 3 filmes, de volta a Inglaterra, sem nunca abandonar Hollywood. Mas não é de desprezar. Pelo contrário. Além disso tinha o Newman e a Andrews que não faziam parte do clã do Hitchcock (aparentemente não gostou nada deles) mas são incontornáveis na história do cinema. Passados estes anos todos quando pensávamos que aquele quadro geopolítico estava afogado definitivamente no tempo, afinal tudo está a regressar. A Guerra Fria. A Cortina de Ferro. O Muro (já não é de Berlim, mas...). Neste contexto divirtamo-nos com as tropelias dramáticas do mestre e sejamos solidários com quem sofre. Viva a Ucrânia!

23 março 2022

A Mulher que Viveu Duas Vezes - Alfred Hitchcock (1958)

Com James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes
Duração: 124 min

A semana passada saímos com o James Stewart coxo das duas pernas e entramos com ele acrófobo, com vertigens, medo das alturas. S. Francisco no esplendor das suas avenidas a subir e a descer, com Alcatraz lá ao fundo e a ponte avó da nossa aqui de Lisboa. Duas mulheres que é só uma mulher e um pobre detetive reformado com medo das alturas e com problemas de consciência que se apaixona por ela(s). Complicado? Com Hitchcock as coisas nunca eram simplistas. Há que seguir a(s) história(s) com toda a atenção. E os detalhes. A câmara vai-nos dando informação privilegiada (exemplos: os caracóis do cabelo da mulher, o ramo de flores). A meio nós sabemos o que aconteceu, mas a mulher não. A partir daí é todo um processo de aproximação ao topo (em sentido real - é na torre de um convento que tudo acontece duas vezes). A morte como categoria epistemológica atravessa toda a ficção. Ao libertar-se daquela mulher...O homem liberta-se também da acrofobia. Ou não? O último plano é subjetivo como muitas situações ao longo do filme. Tudo aponta para que o personagem não vá ter uma vida boa. Ah... Ironia das ironias. Quem acabou por matar (em sentido figurado, claro) a mulher foi uma freira. Vingança sob a forma de justiça divina. O velho Hitchcock sabia-a toda. Sonho e pesadelo. Uns pozinhos de psicanálise e a inverosimilhança a pairar sem nunca resvalar. Esta era a mestria do Hitchcock que, mais uma vez, aparece a atravessar o ecrã com um saco (uma arma? Um instrumento musical?). E a música? Componente dramática por excelência desde a primeira sequência. Sem darmos por isso somos completamente manipulados pelos sons. Bernard Hermann fez a banda sonora para 9 filmes do Hitch, incluindo obviamente o Psico. Mais tarde foi recuperado pelo Scorsese e fez Taxi Driver. Já agora, o genérico. Prestem atenção. Toda a essência da ficção está já no minuto inicial. Saul Brass foi o mestre. Grande designer gráfico. A ele deve o cinema muitas pequenas obras-primas - Otto Preminger, Hitchcock, Robert Aldrich, Billy Wilder foram alguns dos cineastas que contaram com a sua criatividade. Mais tarde Scorsese (mais uma vez ele) foi buscar o velhinho para vários filmes, nomeadamente para Casino. Em 2012 um inquérito especializado do British Film Institute com a colaboração da revista Sight and Sound considerou este filme o melhor da história. Anteriormente tinha sido o Citizen Kane. As coisas são o que são. Sempre relativas. Lembremo-nos da ficção que vamos ver.

16 março 2022

A Janela Indiscreta - Alfred Hitchcock (1954)

Com James Stewart, Grace Kelly, Raymond Burr
Duração: 115 min 

Operação Hitchcock. Capítulo 1. Aqui estamos nós agarrados à ficção acompanhando o voyeur Stewart. Fotógrafo profissional, com muito mundo nas pernas e na cabeça. Mas imobilizado com uma perna partida. A curiosidade profissional é substituída pela curiosidade lúdica - o mundo não está à mão (ao pé…) vai-se a ele através de binóculos. O mundo fica metamorfoseado no microcosmos da sua vizinhança. Múltiplas histórias, diversos comportamentos, usos e costumes. A imaginação à solta. Até que… Deixemos a história de lado. O suspense vai progredindo até às sequências finais. O universo Hitchcockiano vai-se adensado até ao vórtice final.

Pelo meio temos mais uma das grandes interpretações de James Stewart, um dos maiores atores da história do cinema. Há a sofisticada Grace Kelly antes de ir para o Mónaco representar uma personagem da realeza local. Notem o perfil ficcional da atriz. Limpíssima, elegantíssima. Intocável. O Hitchcock sabia-a toda. Na vida real a rapariga tinha uma vidinha amorosa pouco recomendável. Muitos livros o provam.

Notem que o nosso ponto de vista como espectador é sempre ditatorialmente imposto pelos binóculos do personagem. Nós vemos o que ele quer... em última instância o que o Hitchcock quer. Como imaginam é um dos filmes incontornáveis da história do cinema. Olhar e Ver. Nem sempre é a mesma coisa. É essa a tese do filme, como uns anos depois voltaria a ser a de Blow-up do Antonioni.

François Truffaut, que era um grande admirador do Hitchcock (com ele fez um grande livro-entrevista) escreveu: Não são horrores que James Stewart avista da sua janela, mas o espetáculo das fraquezas humanas. Nada mais certo. Para nosso prazer... cinéfilo.

09 março 2022

A Sede do Mal - Orson Welles (1958)

Com Orson Welles, Charlton Weston, Janeth Leigh
Duração: 95m

Orson Welles capítulo 3. De vez em quando O. W. conseguia abrir umas brechas na fachada de Hollywood. Agora (1958) até conseguiu um ator do star system - Charlton Heston. Mais um filme enquadrável na categoria do género policial.

Mas na essência um filme de reflexão existencialista - o bem e o mal, os homens e os valores, a ética… A fronteira entre os USA e o México. Dois polícias - um americano e um mexicano. Um assassinato e a história daí decorrente. Já naquela altura, a droga como pano de fundo. Depois uma ficção que seguimos, que nos leva a descobrir que o americano (O. W. claro) tem para trás uma história pouco edificante. Deixemos os pormenores ficcionais. Os primeiros minutos são um dos momentos mais espantosos da construção ficcional no cinema. Um plano sequência (não há cortes) de alguns minutos em que o espectador acompanha o casal num vaivém que nos permite perceber onde estamos e o que vai acontecer. Deslumbrante. Igualmente espantoso é a personagem de O. Welles, um detetive corrupto, cabotino, rasca..., mas tão humano (e frágil) na sua procura dos restos do seu passado. Não recuperáveis. Quem o diz é a sua antiga parceira amorosa, uma espécie de alma penada aquele mundo bizarro - Marlene Dietrich. Não tens futuro. Gastaste o teu futuro. Naquela terra de ninguém o sentido ético perde-se nos resíduos da vida. A justiça será feita, como é óbvio. A sequência final é absolutamente espantosa, tal como a cena dos espelhos do último filme que dele vimos. O personagem de O. W. mergulha literalmente na merda (mea culpa), afunda-se na porcaria que foi criando ao longo da sua vida. Como diz a Dietrich - He was some kind of a Man. Ah... Prestem atenção ao assassinato do lider da droga por Quinlan (o personagem de O. W.). Apreendam o sentido dramático ampliado pela música, que foi criada por... Henry Manciny. A pantera cor-de-rosa. Lembram-se? Já agora. A Janeth Leigh que faz de mulher do Charlton Heston viria a ser dois anos depois a mulher de Psico do Hitchcock... com a célebre sequência do assassinato. Para terminar. Charlton Heston. O grande ator das ficções bíblicas. Nesta altura era uma referência de Hollywood nas grandes lutas cívicas americanas - direitos civis dos negros, anti macCarthismo... terminou a vida no lado oposto. Se tivesse vivido mais uns anos era um trumpista miserável. Shit happens.

23 fevereiro 2022

A Dama de Xangai - Orson Welles (1948)

Com Orson Welles, Rita Hayworth, Everett Sloane
Duração: 84 min

Orson Welles opus dois. Sem a luz verde do estúdio do primeiro filme, apesar dos bloqueios e resistências do sistema, construiu mais uma história como só ele conseguia. Drama de intriga e crime, mais complexo do que parece à primeira vista. Filme negro. Uma mulher fatal, enigmática, com um passado pouco claro. A China é uma referência. Um encontro para a morte. O personagem de O. W., aventureiro mas com sentido ético não resiste à beleza da Rita Hayworth, magnificamente exposta nas imagens do filme.

Nada do que parece é, como aliás é mostrado metaforicamente na maravilhosa sequência final - os personagens frente a um jogo de espelhos numa feira abandonada. A distorção das imagens põe em dúvida o sentido do real. Num jogo de personagens qual delas a mais intrigante, a morte é imperial como na história dos tubarões que O. W. conta duas vezes. Uma espécie de interlúdio amoral na vida daquela personagem que tenta viver decentemente sem medo, ele que já correu mundo - Guerra Civil de Espanha, China, Brasil... Já agora, o universo da ficção também anda por espaços estranhos - México, Chinatown (S. Francisco) - como O. W. fez noutros filmes. Rita Hayworth que tinha sido casada com O. W. e era uma das estrelas rutilantes de Hollywood, apareceu no filme com um look totalmente diferente da sua imagem tipo. Foi um verdadeiro terramoto que Welles alimentava com a sua voz poderosa nos meios de comunicação social. Mesmo assim, o filme não foi na altura um sucesso. Felizmente foi recuperado pela história para nosso prazer. Prestem atenção à voz off de O. W. que vai contando o filme.

Deixem-se envolver por aquela cadência mágica e acompanhar o pesadelo que o mergulha no medo e na morte. O seu personagem safou-se e ele afasta-se à procura da normalidade. A nós compete-nos fruir do prazer da ficção.

Perfume de Mulher - Martin Brest (1992)

Com Al Pacino, Chris O'Donnell, Philip Seymour Hoffman Duração: 2h37m Dino Risi. E vão três. Entendamo-nos. Três filmes. Ainda que gost...