Com Russell Crowe, Christian Bale, Ben Foster,
Peter Fonda.
Duração: 1h02m
Há uma semana e tal, aquando da
última greve dos ferroviários (uma irresponsabilidade), numa reportagem
para o telejornal, ouviu-se mais ou menos isto (uma voz feminina indignada) -
"isto é uma cobóiada". É uma expressão que ganhou, obviamente uma
conotação negativa, a partir dos referenciais do western no
contexto da cultura popular.
Mas isso das cobóiadas tem muito
que se lhe diga. O western é "o mais puramente
cinematográfico de todos os géneros, o único que nada tem a ver com a Europa
(...), nada tem a ver com a História e tem tudo a ver com o mito"
(Cinemateca Portuguesa "Western 1939/1964"). Desde o início da história
do cinema, e particularmente de Hollywood, as aventuras e os heróis do oeste
americano alimentaram, em contínuo e em massa, o imaginário dos espectadores -
no cinema mudo e no cinema sonoro - pelo menos até meados dos anos 60.
Na verdade, o cinema, através do
género western, foi durante décadas um veículo privilegiado da
configuração mental da América, dos seus valores e da sua identidade, através
de histórias muitas vezes ao lado ou contra a História. Factos reais
invertidos ou desfigurados; personagens negativos (bandidos, ladrões,
assassinos) convertidos em heróis; os nativos americanos (os índios)
identificados com o mal, portanto a eliminar. Pura mitologia.
A história da "conquista do
Oeste" está pejada de casos e personagens "fake". O general
Custer, cujo exército foi literalmente esmagado pelos índios em Little Big
Horn, passou para a história como herói; Jesse James e o irmão Frank James,
foras-da-lei, assassinos, tornados lendas da cultura popular do Oeste, adorados
em pagelas, glorificados na literatura de cordel; Billy The Kid, um puto
desbragado, assassino, facínora, herói da subcultura pop; Butch Kassidy e
Sundance Kid, dois assassinos e ladrões "tornados" uma referência
romântica, via cinema, em filme de 1969, na pele de dois grandes actores - Paul
Newman e Robert Redford. E o duelo em O.K Corral, tão mitificado, tão
recontado em múltiplos filmes? Etc, etc...
Hollywood criou durante décadas
uma quantidade espantosa de filmes do género western, muitos dos
quais passaram para a história do cinema como obras-primas. Quase todos os
grandes realizadores das décadas de ouro fizeram westerns. Só
alguns nomes. Raoul Walsh, King Vidor, William Wellman, Howard Hawks, Henry
Hathaway, Allan Dwan, Henry King, Nicholas Ray ("Johnny Guitar"),
John Huston, Fritz Lang (a refinada cultura com c grande da mitteleuropa a
cavalgar pelo piso rastejante das pradarias americanas) e John Ford, o
mestre absoluto do género. É célebre a sua afirmação - "My name is John Ford and I make
westerns." Na verdade, para além de westerns deixou
mais uma mão cheia, pelo menos, de outros filmes de topo.
Da extensa colheita de 1957 - os
estúdios de Hollywood estavam ainda em ampla produtividade e debitavam
diversificada produção - saiu "O Comboio das 3h10", de Delmer Daves
(1904-1977). A passagem do tempo deu-lhe cartas de alforria e é normalmente uma
referência das programações das cinematecas.
Delmer Daves, não faz parte da
galeria de topo dos realizadores, mas teve uma obra interessante. Alguns
"filmes negros" e westerns deram-lhe estatuto.
"Flecha Quebrada" (1950), por exemplo, é um western onde
os índios são (se não pela primeira vez, quase) tratados com respeito e
decência.
Foi o realizador típico de
Hollywood dos tempos heróicos. Começou no cinema mudo, foi consultor técnico e
actor. Com a aprendizagem acumulada começou a fazer filmes na década de 40.
"O Comboio das 3h10"
foi realizado a partir de uma short story publicada num "pulp
magazine" por um candidato a escritor. Elmore Leonard (1925-2013),
profissional de publicidade, ia escrevendo e publicando histórias
de cowboys para arredondar o salário mensal. Mas a sua
imaginação compensou-o substancialmente e a partir de um livro seu, Martin Ritt
realizou o filme "Um Homen", com Paul Newman.
Depois disso, Leonard dedicou-se
só a escrever. Uma produção prolífera (cerca de 40 romances) e certamente
benéfica para ele, pois uma parte substancial dos livros que escreveu deu
origem a guiões cinematográficos e a filmes.
A grande diversidade da sua obra
tinha como matriz básica o romance policial, o thriller, com um
toque acentuado de violência, diálogos certeiros e um forte sentido satírico
("diálogo crepitante e humor negro" como escreveu um especialista).
Há um bom lote dos seus livros traduzidos para português. "Jackie
Brown", um dos filmes de referência de Quentin Tarantino, teve como base
de argumento um dos seus romances.
Rodemos a fita em velocidade
acelerada. Em 2007, o argumento de Elmore Leonard foi revisitado e um novo
filme se fez. As ficções esgotam-se. Os modelos permanecem. As ficções
refazem-se. Tay Garnett, um dos grandes realizadores da primeira fase da história
de Hollywood, dizia: "Thalberg's theory was that pictures are not made,
they are remade." Thalberg, recordem-se, já aqui falámos dele. Foi um
dos grandes produtores da história inicial de Hollywood, que criou as marcas
estruturais da "organização fabril" dos estúdios.
James Mangold, um realizador da
nossa geração. Com uma obra algo diversificada mas com coisas muito
interessantes. Já lá vamos.
A matriz básica é a do argumento
original de Elmore Leonard, com mais de 50 anos.
Dan Evans (Christian Bale), um
pobre fazendeiro, homem decente, passou pela guerra civil americana
(1861-1865), ficou aleijado, procura sobreviver o melhor possível num contexto
adverso. Está em vias de perder o rancho, por dívidas. O seu filho adolescente
não lhe tem grande respeito.
Ben Wade (Russell Crowe) um
fora-da-lei, um bandido, um vilão da pior espécie, o terror do Arizona,
lendário lá nos confins do Oeste. No seguimento de mais um assalto é capturado
de modo acidental depois de uma noite romântica.
O objectivo das autoridades é
entregá-lo à justiça para julgamento. Para isso terão de levá-lo até à cidade
de Contention, de onde seguirá de comboio até Yuma (Colorado) onde será
julgado. Até Contention são três dias a cavalo, escoltado por um grupo de
cidadãos locais, enquadrados por um agente da Pinkerton, um dos quais é Dan
Evans que vê no prémio (200 dólares) a forma de resolver as dívidas.
A viagem de três dias, tensa,
árdua, atribulada, é uma espécie de jogo do gato e o rato.O jogo dos
contrários. A dialéctica. Diversas situações conflituais. Mortos e feridos.
Gradualmente os dois personagens vão-se conhecendo, vão-se revelando. A fronteira
entre eles vai-se diluindo. Admiração mútua. O bandido tem valores,
sensibilidade, uma ética cristã (a Bíblia serve-lhe de suporte). O rancheiro
procura provar a si próprio a coragem. Resistiu ao aliciamento para libertar o
bandido. O jovem filho do rancheiro fascinado por Ben Wade.
O conflito entre o bem e o mal,
como foi escrito "uma jornada para a redenção, a justiça e a
auto-descoberta."
Do lado mau está não só Ben Wade,
mas os do seu bando, pistoleiros à solta, que tudo farão para o libertar da
forca, seu destino previsível. A última sequência (exagerada nos tiroteios - os
produtores querem adrenalina, excitação, sangue - para atrair a malta nova)
resolve a equação.
O bandido segue para a prisão no
comboio, depois de ter executado todos os seus parceiros. O rancheiro é
barbaramente assassinado. O filho reconquista o respeito pelo pai.
É um conto moral. A salvação. O
resgate. A redenção. Ben Wade, o assassino impiedoso, o ladrão encartado,
provavelmente será enforcado, mas resolveu a sua relação com Deus
James Mangold. Um cineasta do
nosso tempo. "A Complete Unknown" sobre Bob Dylan (a pequena revolução
que despoletou com a electrificação do som da sua guitarra, em 1965, no
Festival de Newport, espaço sagrado da folk music) ainda andará por
aí a circular pelas salas. Antes já tinha abordado outro grande criador da
música country - Johnny Cash interpretado por Joaquin Phoenix - em "Walk
the Line". Steven Spielberg e George Lucas passaram-lhe para as mãos a
realização do último Indiana Jones. Portanto estamos bem entregues. Quando os
dois papéis principais são desempenhados por Christian Bale e Russell
Crowe, ainda melhor.