01 janeiro 2024

O medo devora a alma - Rainer Werner Fassbinder (1973)

Com El Hedi ben Salem, Brigitte Mirra
Duração: 93 min

Flash back nas nossas memórias cinéfilas recentes. No dia 8 de Março vimos "O medo devora a alma" do Douglas Sirk. O Rock Hudson jardineiro, lembrem-se .. Vão reler o textozinho que escrevi para se enquadrarem nesta ficção (um bocadinho de trabalho de casa não faz mal a ninguém). 

O Fassbinder, quando descobriu e se apaixonou pelos filmes americanos do seu conterrâneo, encontrou a via privilegiada para os seus futuros filmes. Aqui é o take one desse trajecto (que lamentavelmente iria durar só alguns anos, mas com maravilhas que iremos ver). 

Este é um filme de homenagem ao mestre. Fassbinder pega na ossatura da ficção do Sirk e transfere a sua história para a Alemanha do início dos anos 70. "O medo devora a alma" assim se chama. Sob o milagre alemão do pós guerra, o lado invisível da exploração do trabalho migrante, a vivência cinzenta dos cidadãos ainda não recuperados da barbárie, cumplicidade envergonhada e admiração escondida pelo Hitler e o nazismo. 

Encontro amoroso entre um emigrante marroquino e uma viúva alemã. Origens, idade, raça e cultura - tudo entre eles faz a diferença, mas o coração (ou a solidão) podem fazer milagres. 

Fassbinder vai-nos revelando pouco a pouco o pequeno mundo em que eles circulam em Munique (metaforicamente é o país inteiro que ele retrata).

Discriminação, intolerância, xenofobia e racismo. Aquela ligação entre Emmi e Ali vai gradualmente deixar o espectador em dúvida sobre o futuro. Os couscus podem fazer a diferença, mas a rejeição familiar e social mais ou menos generalizada da situação é um facto inegável. Como diz o personagem masculino num alemão titubeante "Árabes não humano." ou "Penso muito, choro muito." 

Os preconceitos  e os tabus são terríveis.

O último acto de homenagem do Fassbinder ao Sirk é o final feliz. Falso na evidência das coisas... mas deixemos para os deuses wagnerianos as decisões sobre o futuro. Nunca se sabe. 

Passados estes anos todos verificamos que o filme continua com uma pujança lúdica espantosa e uma força visual inegável.

E... lamentavelmente a história continua tão actual como se fosse filmada agora. Os homens não aprendem. Tentemos nós ser solidários com aquele casal e fruirmos os pequenos prazeres do cinema do Fassbinder. Ah. E ele entra como actor, como em muitos dos seus filmes. 

Quem tem medo de Virginia Woolf? - Mike Nichols

Com Elizabeth Taylor, Richard Burton, Sandy Dennis, George Segall
Duração: 126 min

Imaginem um apresentador com ar rasca, cigarro ao canto da boca. Microfone acoplado ao punho, como os vendedores de panelas das feiras. Voz cavernosa. Boa tarde senhoras e senhores. Vamos assistir, em directo, ao grande combate de boxe, ao nível dos campeões Cassius Clay e Mike Tyson. Sem regras. Golpes baixos, patadas imprevisíveis, ataques de surpresa, socos nos rins. Vale tudo menos tirar olhos, como dizíamos quando éramos putos. Vai haver sangue. Luta até à morte, como os gladiadores nos tempos áureos do Império Romano. É um falso combate desigual entre homem e mulher (a mulher tem potentes uppercuts). Certamente vão haver pontos para cada lado. Duelo infatigável, tudo serve como instrumento de agressão - as palavras, os punhos, os actos, as omissões. O espectáculo será maravilhosamente horripilante, mas é isso que todos nós esperamos num ringue. Uma boa guerra. Que o combate comece. Soa o gongo. Aqui vamos nós...

Duas horas da manhã. Um casal - George e Martha - atravessa um campus universitário. Estiveram numa festa na casa do reitor. Vêm bêbados (vamos percebendo que é o estado normal deles). Entram em casa e entre mais uns copos e uns insultos mútuos (um perverso jogo afectivo que eles cultivam) ficam à espera de um jovem professor recém chegado à universidade e sua mulher, convidados na festa que tinham deixado. Aquela noite, provavelmente similar a muitas noites daquele casal, alimentada a whisky e brandy, vai ser uma longa sessão de striptease emocional. Nada ficará incólume. Vão até à medula dos ossos e ao fundo das almas.

George (Richard Burton ) é professor de História, alcoólico, percebe-se que medíocre (e ele tem consciência disso) e Martha (Elizabeth Taylor), a sua mulher, também alcoólica, filha do reitor. Vivem uma vida de contínua desavença, tempestuosa, de crueldade mútua, amargos duelos de palavras, humilhação. Falam sem comunicar. Claustrofobia a dois. Histeria. Comédia negra.

Naquela noite, azar dos deuses, o excesso de álcool deu-lhes para convidar (àquela hora despropositada) o jovem professor (George Segal) e a sua mulher (Sandy Dennis) recém chegados à universidade. Uma visita de cortesia transforma-se gradualmente na participação, não totalmente neutra ou isenta,  num jogo sado-masoquista que revela o inominável (os fantasmas associados ao filho que nunca existiu) e desencadeia a traição sexual da mulher, mas sempre em negação. George e Martha (se calhar não se odeiam, toleram-se) criaram como que uma identidade de negação do real, sad, sad, sad, como ela diz, total alienação da vida, jogo perigoso. Estão todos loucos. Cada situação é, citando George one more game.

Quando a manhã chega, perante os destroços de uma noite muito intensa, disruptiva, voltamos à metáfora pugilística. Quem ganhou? Quem perdeu? Combate suicidário. Cada um matou e  morreu. E assim será provavelmente até ao fim dos seu dias. E o jovem casal de aprendizes da vida? Safar-se-ão? Se calhar...Fica ao critério do imaginário de cada um de vocês.

"Quem tem medo de Virgínia Woolf?". Com regularidade ouvimos o casal mais velho numa cantilena com esta frase. Que título bizarro para esta ficção. Tanto quanto sabemos a Virginia Woolf (coitada, suicidou-se) não metia medo a ninguém, ainda que a sua obra literária não seja propriamente muito fácil de digerir. A coisa é mais fácil. Nos anos 60, era muito generalizada nos meios académicos americanos, aquela cantilena com o sentido figurado de lobo (wolf) mau. Quem tem medo do lobo mau? Pois Edward Albee, jovem dramaturgo americano, apropriou-se dela para titular a sua peça de teatro, estreada em Nova York em 1962. Depois disso nunca mais saiu dos referenciais da dramaturgia contemporânea, sendo encenada por todo o lado. Por cá também. Da Broadway foi "transferida" para Hollywood, umas boas horas de avião, e deu este filme.

Edward Albee foi um grande escritor americano de teatro (referência incontrolável da dramaturgia do século XX) que nos deixou uma mão cheia de obras-primas, algumas das quais têm tido encenações por cá, e com edições traduzidas disponíveis nas livrarias.

Do teatro para o cinema. O caminho nem sempre é fácil. Muitas vezes o que funciona com as convenções do teatro falha na transferência para o ecrã. Aqui, Mike Nichols acertou. Com o know how da encenação na Broadway (com vários anos de teatro em Nova York) Mike Nichols fez aqui o seu primeiro filme de uma carreira cinematográfica muito interessante e fez poucas alterações - umas saídas para o relvado, uma curta viagem de automóvel...Mas não deixa de ser uma bela obra cinematográfica, com o jogo de corpo dos actores a funcionar numa coreografia perigosa.

Cinco Óscares. Melhor actriz (Elizabeth Taylor) e melhor actriz secundária (Sandy Dennis), melhor fotografia (Haskel Wexler).

Elizabeth Taylor e Richard Burton. Referências do nosso imaginário juvenil. O que eles representaram, de forma brilhante, neste filme, viveram-no certamente na pele, em situações pesadas a que a imprensa ia dando eco desde 1963, quando fizeram "Cleópatra" e começaram o duo/duelo amoroso. Se calhar lá em casa ou no hotel era assim quando acabavam as filmagens. Sempre treinavam. Casamentos, divórcios, separações, com excessos de toda a ordem pelo meio. Fizeram uma época.

E o Mike Nichols, também já andou por aqui ("A Difícil Arte de Amar", Jack Nicholson e Meryl Streep). Só para nos situarmos lembro que fez "A Primeira Noite" e "Artigo 22" (este, com o Orson Welles, também já passou).

Os dados estão lançados. O gongo está a soar. Coloquem-se nos vossos lugares. Evitem levar com um murro em cheio. Mesmo metafórico, dói.

O desconhecido do Norte Expresso - Alfred Hitchcock (1951)

Com Farley Granger, Robert Walker, Patricia Hitchcock
Duração: 101 min

O comboio para numa estação. Entradas e saídas. Movimento normal. Um personagem baixote, redondo, anafado, carregando um contrabaixo (ou violoncelo? Certamente um violoncelo. Contrabaixo era coisa de pretos lá do Harlem, do jazz, o Charles Mingus ou o Ron Carter), sobe para a carruagem. É ele. É Alfred Hitchcock (1899-1980) himself. Uma espécie de intermezzo. O comboio põe-se em movimento e nós voltamos ao fio narrativo da ficção. É o cameo privado do mestre (cameo é uma pequena participação de um ator ou celebridade numa peça ou num filme, a little joke). Já antes tinha acontecido e continuou a acontecer. Os cameo tornaram-se uma superstição. Segundo os registos dos especialistas, Hitchcock terá feito 36 aparições fugazes nos seus filmes. Tornou-se uma espécie de selo de identidade, de imagem de marca. "Strangers on a train" assim se chamou o filme, assim se chamava o livro que lhe deu origem.

Voltemos ao comboio, onde tudo começa. Guy, um jovem tenista campeão (Farley Granger) vai ter com a mulher, que lhe foi infiel. Ele quer o divórcio para poder casar novamente, com a filha de um senador. Vai apreensivo, na expectativa de obter a liberdade. Aren't you Guy Haynes?

Quem pergunta é outro jovem. Bruno (Robert Walker), com pergaminhos aristocráticos e uma relação odiosa com pai. Encontro acidental (se calhar, não). Conversa elegante. Bruno conhece toda a história pessoal do tenista - informação dos jornais e das colunas sociais das revistas. Gradualmente uma conversa descontraída, para passar o tempo, transforma-se num difuso compromisso: cada um deles assassinaria o 'obstáculo' do outro. Bruno, a mulher de Guy, e este o pai de Bruno. Tudo muito difuso, sim. Guy - um rapaz decente, normal, candidato a uma convencional carreira política, saiu do comboio um bocado perturbado com aquele encontro, mas sem ligar muito. Como se costuma dizer, há malucos em todo o lado...

Mas Bruno estava noutro registo. Aquela é a sua verdade. Psicopata, diabólico, maníaco. Louco. Mata a mulher do outro e quer o pagamento/recompensa - que o outro mate o seu pai.

Estamos no universo privilegiado de Hitchcock. Equívocos comportamentais, difusa fronteira entre o bem e o mal, mudança de identidades, amoralidade, culpa.

Obviamente no fim é reposta a normalidade, mas até lá nós vamos andar manuseados (no bom sentido) pela mestria hitchcockiana, com falsas resoluções de conflitos, com a prestidigitação sobre os espaços e tempos cinematográficos, com o rigor do argumento que dá consistência ao que parece inverosímil. Os jogos de montagem com sentido dramático -  toda a sequência inicial dos sapatos. Há que seguir muito atentamente o vaivém entre o tenista e o aristocrata (na verdade é como se fosse um jogo de ténis - bola vai, bola vem -  ou como o carrossel desgovernado no parque de diversões) com os índices dramáticos em subida crescente.

Tudo esclarecido, o jovem retoma a normalidade. Ou não?  'Aren't you Guy Haynes?' pergunta-lhe um padre, também no comboio. Efeito circular. É melhor fugir...

Alfred Hitchcock era um cineasta que não gostava de surpresas no estúdio. Surpresas só para o espectador. Tudo no seu cinema era pensado ao pormenor. O rigor do argumento era condição sine qua non para a criação dos seus filmes. A crítica contemporânea dizia que quando começava a filmar tinha já o filme todo na cabeça.

Como escreveu um especialista (Paul Duncan): "A força de Hitchcock como realizador reside na capacidade de visualizar os seus medos e desejos subconscientes e de transformá-los em pesadelos insones no ecrã. Muitos espectadores partilham os seus medos e desejos subconscientes, e é exatamente por isso que Hitchcock permanecerá na consciência do público".

Os exegetas escrevem que, com este filme, Hitchcock fez um comeback depois de alguns filmes que foram flops. Pelo contrário, este teve grande aceitação e foi o início de uma "década prodigiosa", podemos dizer assim, roubando o título de um filme do Claude Chabrol (tão esquecido que ele está), que, por acaso, até fez um filme a partir de um livro da mesma escritora. Só alguns exemplos:  "Chamada para a morte", "A janela indiscreta", "O homem que sabia demais", "A mulher que viveu duas vezes", "Intriga internacional ", "Psico"...

Uma parte substancial do sucesso do filme deveu-se obviamente ao argumento. Hitchcock "cheirou" a qualidade de um livro de uma desconhecida editado um ano antes. O primeiro romance de Patricia Highsmith (1921-1995) uma jovem escritora americana (até aí só tinha publicado short stories em revistas de referência -"Harper's Bazaar", "Vogue", "The New Yorker"...). Hitchcock, cultor requintado dos prazeres da comida e da bebida (dizia-se que tinha uma garrafeira esplendorosa), era noutros domínios um unhas de fome e comprou os direitos do livro por uma tuta e meia. Mal menor para a jovem escritora que, com a edição do livro e com o sucesso do filme logo a seguir, se tornou numa estrela no panorama intelectual americano.

Com este livro ela iniciou um longo caminho de consagração consolidado em vinte e tal romances fora as muitas centenas de short stories que foi escrevendo e publicando. Com variantes, o universo das suas ficções focava-se nas perversões da alma, com questionamento da identidade e da moralidade.

A opus magna da sua literatura centrou-se na personagem Tom Ripley (cinco livros). Era um homem que ambicionava sucesso, dinheiro e aspirava a uma vida em grande. Homem elegante, a sua amoralidade permitia-lhe tudo. Matava com a maior naturalidade...porque sim! E safava-se sempre. Horrivelmente atrativo.

Patricia Highsmith teve muitos livros transformados em filmes, a maior parte adaptações fracas. Alguns adaptaram as ficções sobre Tom Ripley.

Viveu uma parte substancial da sua vida fora dos EUA, numa espécie de exílio interior, primeiro em Inglaterra, depois em França e acabou os seus dias na Suíça.

Personagem controversa, homossexual, depressiva, antissemita, racista e misantropa. Perdoemos-lhe citando uma vez mais Billy Wilder: Nobody is perfect.

Gore Vidal, escritor americano de referência (outro exilado europeu) escreveu sobre ela: "Por alguma razão obscura, uma das nossas maiores escritoras modernas - Patricia Highsmith - é vista no seu próprio país apenas como uma autora de thrillers (...). Mas é certamente uma das escritoras mais interessantes deste sombrio século. Praticamente toda a sua obra está disponível em português.

O grande magnata - Elia Kazan (1976)

Com Robert de Niro, Jack Nicholson, Tony Curtis, Jeanne Moreau, Robert Mitchum, Theresa Russell
Duração: 122 min

Elia Kazan a emparceirar com F. Scott Fitzgerald. Um dos cineastas mais reconhecidos da história do cinema - lá iremos - e um dos escritores americanos mais conhecidos do grande público, ainda que a sua obra não tenha sido muito ampla. Mas quem não leu ou não conhece "O Grande Gatsby"? E "Terna é a Noite"? Ou " Este Lado do Paraíso"? Os bons velhos tempos da jazz age. Escreveu bastantes contos (para sobreviver), e andou por Hollywood a escrever para o cinema e a embebedar-se, que era uma sua especialidade não literária. O mundo do cinema, e as suas personagens, deram-lhe inspiração para alguma da sua ficção, nomeadamente para o último romance que não acabou - morreu com quarenta e tal anos - " The Love of the Last Tycoon" mas que foi completado por Edmund Wilson, amigo escritor, a partir de notas e apontamentos deixados.

Teve uma vida complicada. Decadentismo, excentricidades, alcoolismo, a mulher Zelda (também escritora) com graves problemas psiquiátricos (esquizofrenia) e uma certa errância. Muito do material dramático usado nas suas ficções era apropriado da sua vivência tumultuosa e instável com a mulher.

O tycoon (magnata, rico, poderoso, quero, posso e mando) da ficção vestia a pele de um personagem real de Hollywood daqueles tempos heróicos, que deixou escrita para a história do cinema páginas inapagáveis: Irving Thalberg (senhor todo-poderoso da MGM, mas começou na Universal). Produtor entre 1921 e 1936 (fez a ponte complicada do mudo para o sonoro), morreu de tuberculose com 37 anos, mas deixou uma marca profunda em todo o sistema de produção de Hollywood. Era chamado o 'wonder boy ' de Hollywood. Pois o Fitzgerald, que certamente se cruzou muitas vezes com ele nos estúdios, palcos, bares e mansões opulentas de Hollywood, tomou-o como modelo do seu personagem Monroe Stahr.

Elia Kazan. Basta três ou quatro títulos para o identificar, mesmo fora do mundo da cinefilia: 'Um Eléctrico Chamado Desejo', 'Há Lodo no Cais', 'A Leste do Paraíso ', 'Esplendor na Relva'. Nós próprios já nos cruzámos com ele aqui.

O Kazan (que, já em pré-reforma, se tornou romancista) terminou a sua carreira cinematográfica com este filme (antes do cinema tinha sido um notável encenador teatral em Nova Iorque). Hollywood foi a sua casa durante décadas, conhecia como poucos o seu glamour e a sua podridão, os seus heróis e a sua miséria. Ele próprio não se saiu bem do episódio mais degradante da história do cinema americano - denunciou colegas na purga Mccarthista dos anos 50. Nobody is perfect, como dizia o personagem do filme do Billy Wilder, mas o Kazan foi demasiado imperfeito.

Nada no livro lhe era desconhecido, trunfo adicional para a conceção do filme. Apesar de meio retirado, o seu nome ainda era respeitável no sistema. Conseguiu reunir um grupo alargado de atores notável. Um elenco de luxo. Uns vindos lá de trás, dos bons velhos tempos (Ray Milland, Tony Curtis, Robert Mitchum), outros já na liderança dos novos tempos de Coppola,  Scorsese e  Spielberg (Robert de Niro, Jack Nicholson). E até a francesa Jeanne Moreau aterrou em Hollywood para servi-lo.

Mas antes disso ainda contou com o Harold Pinter para lhe escrever o argumento a partir do livro. Que luxo. Dramaturgo excelentíssimo no teatro inglês, com sucesso nas grandes capitais mundiais e também com traquejo de argumentista a partir de outros escritores ("A amante do Tenente Francês", por exemplo). Mais tarde (2005) Harold Pinter foi Prémio Nobel da Literatura e, por esses tempos, um pacifista politicamente controverso, com posições nem sempre compreensíveis.

Anos 30. Hollywood. Estúdio de cinema. Sequência a preto-e-branco. Filme de gangsters. Um assassinato em grande estilo. São as rushes (material filmado em bruto) das filmagens daquele dia. O grande produtor Monroe Stahr vai tomar decisões, o que cortar, o que refilmar, o que alterar no guião. Era o senhor absoluto. A ele tudo chegava, tudo ele decidia. Mas era um homem solitário. Vivia no vazio. A mulher tinha sido uma grande estrela do cinema, mas morreu jovem. Vivia da memória dela, fascínio mais criado no seu imaginário do que alimentado pelo que tinha sido a vida em comum.

Um encontro acidental no estúdio com uma jovem desconhecida desperta-lhe o passado. A sósia da mulher morta, torna-se fixação. Jogo perigoso e dúbio de aproximação/afastamento. A jovem misteriosa vai e vem numa indecisão gerada pelo medo. A vida dele é o estúdio, ela percebeu. Acaba por sair em segurança, casando com um terceiro.

No fim, o grande produtor, o rei e senhor daquele mundo de sonhos embalados em celulóide, onde as idiossincrasias pessoais são inchadas, arrasta-se pelos estúdios delirante: "não te quero perder". Engolido pelo silêncio escuro do estúdio, o seu poder omnipotente transmutou-se no vazio.

A sua vida é como a sua casa em construção. Falta o telhado.

Saída do mundo do cinema em grande de um enorme criador. Prazer para nós com esta história que é também uma belíssima ilustração do cinema naqueles anos de construção de Hollywood (década de 30). É o star system em formação, a bipolarização New York (dólares) / Los Angeles (filmes), os produtores deus ex-machina, a organização industrial da produção nos estúdios, os sonhos feitos e desfeitos de milhares de jovens candidatos a estrelas.

Tempos Modernos - Charlie Chaplin (1936)

Com Charlie Chaplin, Paulette Godard. 1936. 83 min 

O cinema mudo já era. O sonoro ocupa o  espaço todo, com uma frincha de resistência protagonizada por um grande de Hollywood e do imaginário cinematográfico ainda em construção. Charlie Chaplin fez o filme contra a corrente. Manteve o seu personagem vagabundo sem voz (com a excepção de uma canção - pela primeira vez ouvimos a voz do actor, mas subvertendo os códigos da linguagem, pois canta uma misturada de palavras sem sentido), mas criou uma banda sonora expressionista, de grande eficácia dramática. A música quase como personagem. E lá encontramos o "Smile" essa melodia belíssima que ainda hoje, sob a forma de direitos de autor, deve valer muito dinheiro aos herdeiros do Chaplin.

O filme é uma pedra preciosa do cinema. Uma personagem à deriva num quadro social de forte perturbação, a depressão dos anos 30 na América . Acontecem-lhe mil coisas de que se vai safando com a agilidade e elegância do Charlot. Conflitos. Polícia, manicómio, orfanato, prisão. O habitual, se nos lembrarmos dos filmes mudos que víamos na televisão quando éramos menos velhos.

E a fábrica. O vagabundo nas reentrâncias mais profundas do capitalismo. A fábrica como metáfora social. "1984" do George Orwell avant la lettre. O modo de produção industrial como um sistema totalitário. O Big Brother vigia o sistema de produção em cadeia com ecrãs e controla rigorosamente todos os movimentos. Excepto um, obviamente. Chaplin criou algumas das sequências mais espantosas na história do cinema. O personagem a ser engolido pelas engrenagens industriais. Os automatismos industriais das chaves-inglesas a serem transmitidos ao corpo do vagabundo. O caos em polifonia. O nonsense à solta.

Paralelamente a história romântica. O vagabundo e a jovem. Paulette Godard um belo rosto, que fez uma óptima carreia em Hollywood nas décadas seguintes. Encontros e desencontros e...no fim uma hipótese de felicidade. Se calhar não passará de um sonho a dois.

Franz Kafka, o grande escritor das  angústias do Século XX, escreveu sobre Charlie Chaplin: "Como todo o autêntico humorista, tem a dentição de uma fera. É com ela que se lança contra o mundo."

Na verdade, sofreu durante décadas a amargura da perseguição política pelo FBI, acusado de comunista, ele que apenas tinha um elevado respeito pelos homens e um sentido de justiça social.

Para quem nunca viu será uma experiência de vida. Quem viu, vê outra vez com o mesmo prazer de iniciação às coisas sagradas da vida. Foi o meu caso.

Breve encontro - David Lean (1945)

Com Celia Johnson, Trevor Howard. 1945. 86 min

A ponte do Rio Kway" (1957), "Lawrence da Arábia" (1962), " Doutor Jivago" (1965) , "A filha de Ryan" (1970) e "Passagem para a Índia" (1984).

Cinco filmes da nossa memória, pelo menos da maioria de nós. Cinco filmes que entraram no nosso imaginário. Todos foram obra do cineasta inglês David Lean. Obviamente figura maior da história do cinema.

Mas a sua obra vem lá mais de trás. Do tempo da guerra. E em boa companhia. Nesses tempos horríveis ele colaborou com Noel Coward, um dos mais brilhantes artistas ingleses do século XX - dramaturgo, actor, encenador e realizador. Assim, em 1945 (ainda a Europa estava em guerra) conseguiu fazer o seu primeiro filme como realizador, a partir de uma peça de teatro do seu mestre Noel Coward - "Still Life" (1936).

Num quadro de comportamentos repetitivos - de casa para o comboio, do trabalho para o comboio e vice-versa - um homem (médico) e uma mulher (dona de casa) encontram-se numa estação de comboios, conhecem-se, conversam e amam-se. Mas cada um deles é casado, tem filhos e uma vida estabilizada. Aparentemente a vida da mulher até é muito normal e decente.

Casamento versus paixão. Amor e adultério. O desejo e a censura social. Em última instância, a impossibilidade do amor. A melancolia apodera-se dos personagens. A efemeridade é  assunção mútua. Cada um irá para o seu lado. Ela (Laura) retornará para o marido, os filhos e a casa que, na verdade, nunca abandonou (só foi mentindo cada vez mais, com maior risco). Ele (Alec) sairá da história da forma mais britânica que se pode imaginar - vai (foge ao destino) para uma colónia africana do Império Colonial Inglês. Leva a mulher e os filhos e vão certamente beber muitos gins, jogar cricket e contribuir ativamente para o status quo do Império. Só iria durar mais vinte anos, como sabemos.

Muito bem articulada a matriz da ficção. Umas sequências iniciais (que correspondem ao encontro final entre os dois amorosos) e longos flashback numa espécie de diálogo interior da mulher como se contasse ao marido o caso. E o círculo fecha-se em repetição. Para sempre. A normalidade volta à vida. A fantasia e o sonho não eram possíveis na Inglaterra daqueles tempos.

Ao longo dos encontros na estação a história vai sendo pontuada com uma espécie de intermezzos entre a dona do bar e um ferroviário (uma história de amor pouco clara) que funciona como um contraponto jocoso à densificação crescente da relação entre Laura e Alec.

Melodrama na sua essência. A não celebração do amor intenso pelas mais diversas e, às vezes, incríveis razões.

A história do cinema reserva o seu lugar cativo a este filme. Com razão.

As noites loucas do Dr. Jerryl - Jerry Lewis (1963)

Com Jerry Lewis, Stella Stevens. 1963. 107 min

Comecemos com uma citação de um autor (Leon Martin) que escreveu um livro sobre os grandes cómicos do cinema americano: "A maioria dos especialistas considera" As Noites loucas do Dr. Jerryl" a obra-prima de Lewis (...) Jerry desempenha o papel de um professor desajeitado, feioso (cara de esquilo), Julius Kelp, que inadvertidamente prepara uma poção que o transforma num galã arrogante chamado Buddy Love que tem tudo o que falta a Kelp - autoconfiança, sex appeal e segurança." - "The Great Movies Comedians".

A linha matricial da ficção ancora no grande clássico da literatura inglesa do século XIX - "O médico  e o monstro" (1886) de Robert Louis Stevenson (que a maioria de nós certamente leu e que deu óptima versão cinematográfica - grande sucesso do início do sonoro de um cineasta europeu em Hollywood, mais um, Rouben Mamoulian). O eu e o outro no mesmo corpo. O bem e o mal, duas naturezas, duas substâncias, dois princípios. A duplicidade e a transfiguração.

Na ficção, dois Jerry Lewis nos antípodas um do outro:

  • O normal, Julius Kelp, arquétipo consolidado no imaginário do espectador de filme para filme de Jerry Lewis, tímido, feio (aqueles dentinhos a espreitar pelos lábios)  e desajeitado ("Sou dado a acidentes", diz ele com candura), com as suas meias brancas. Tem problemas com o seu corpo, que muitas vezes não lhe obedece ou se molda em formas anormais no espaço.
  • O outro, o galã arrogante, postura de engatatão, narcísico até ao tutano. O Buddy Love que derrete os corações femininos, canta canções românticas e exibe a sua masculinidade mesmo em excesso.

E a ficção vai e vem de um universo para o seu contrário, por impulso químico. Até que as expectativas falham. É a débacle. Em pleno palco, rodeado por uma grande orquestra, o galã cantor começa a reverter imprevistamente para o pobre professor de química. Mas é também o milagre do amor. A jovem aluna (a bonita Stella Stevens a puxar para a Marilyn Monroe) que nos vai orientando na história entre os dois universos, fica com o professor para ela. Para o que der e vier leva uns frasquinhos da poção mágica. Nunca se sabe...

 Jerry Lewis fixa os limites da ficção entre a tradição e a modernidade. O filme termina como uma peça de teatro. Os actores apresentam-se ao público espectador. E, não certamente por acaso, o último plano remete para a essência do cinema. Se existe pela câmera, atropele-se a câmera. Até ao próximo filme. O distanciamento do Bertolt Brecht em apropriação cómica. Agora cabe ao nosso amigo fruir dos prazeres da vida com a bela e apaixonada menina. Coitada. Se calhar vai ter problemas.

A essência do cinema de Lewis tem raízes profundas nas décadas anteriores da comédia americana - Charlie Chaplin, Buster Keaton, Irmãos Marx, Abbott & Costello só para recordar os maiores - o slapstick, o cartoon, o burlesco, o despoletar de gags, às vezes primários, onde o inverosímil ganha consistência. Atente-se, por exemplo, no exuberantemente sonoro relógio  do professor ou no pássaro falante de nome Jennifer, seu parceiro de laboratório.

Jerry Lewis fez entre 1949 e 1956, 16 filmes com Dean Martin que, na verdade, se chamava Dino Crocetti. Americano italiano como é óbvio. Era a lógica de Hollywood levada ao extremo. Uma produtividade infernal. A fórmula galã cantor versus trapalhão simpático, naif e clownesco rendeu muito à Paramount. Mas a separação  (conflitual) foi para sempre.

Aí começava outra história para Jerry Lewis. Gradualmente tornou-se Realizador/Actor/Produtor. Isto é, cada filme era ele e só ele. E o seu mundo às vezes complexo. É o caso deste filme. Como gostavam de dizer os franceses, Lewis tornou-se um autor (como Hitchcock ou Ford). Só que com decrescente aceitação na América e enorme admiração em Paris. Estes franceses...

A propósito de Dean Martin, e das feridas que ficaram para sempre, cito mais uma vez Leonard Martin: "Muitas pessoas acreditaram que o personagem  Buddy Love era baseado em Dean Martin e o filme era um exorcismo das suas mágoas em relação ao seu ex-parceiro. Numa entrevista Lewis argumentou 'Eu não retratei o papel de qualquer pessoa. Na verdade, eu tomei cinco ou seis pessoas como referência. É interessante que (e os meus amigos foram os primeiros a assinalá-lo) as pessoas pensassem que eu estava a tomar como referência o Dean. Tão ridículo. É claro que quando fiz o filme estava ainda muito próximo da nossa ruptura, pelo menos mais próximo do que agora...Obviamente que estava lá uma pequena porção da arrogância do Dean - subconsciente, naturalmente, eu não tinha consciência disso.' "

Com Lewis entremos nos dois mundos de fantasia que criou e deixemo-nos impregnar pelos pequenos e grandes pormenores do seu humor - entre a mais primitiva e irritante carantonha e o mais sofisticado gag.

O comboio das 3 e 10 - James Mangold (2007)

Com Russell Crowe, Christian Bale, Ben Foster, Peter Fonda.
Duração: 1h02m

Há uma semana e tal, aquando da última greve dos ferroviários (uma irresponsabilidade),  numa reportagem para o telejornal, ouviu-se mais ou menos isto (uma voz feminina indignada) - "isto é uma cobóiada". É uma expressão que ganhou, obviamente uma conotação negativa, a partir dos referenciais do western no contexto da cultura popular. 

Mas isso das cobóiadas tem muito que se lhe diga. O western é "o mais puramente cinematográfico de todos os géneros, o único que nada tem a ver com a Europa (...), nada tem a ver com a História e tem tudo a ver com o mito" (Cinemateca Portuguesa "Western 1939/1964"). Desde o início da história do cinema, e particularmente de Hollywood, as aventuras e os heróis do oeste americano alimentaram, em contínuo e em massa, o imaginário dos espectadores - no cinema mudo e no cinema sonoro - pelo menos até meados dos anos 60. 

Na verdade, o cinema, através do género western, foi durante décadas um veículo privilegiado da configuração mental da América, dos seus valores e da sua identidade, através de histórias muitas vezes  ao lado ou contra a História. Factos reais invertidos ou desfigurados; personagens negativos (bandidos, ladrões, assassinos) convertidos em heróis; os nativos americanos (os índios) identificados com o mal, portanto a eliminar. Pura mitologia.

A história da "conquista do Oeste" está pejada de casos e personagens "fake". O general Custer, cujo exército foi literalmente esmagado pelos índios em Little Big Horn, passou para a história como herói; Jesse James e o irmão Frank James, foras-da-lei, assassinos, tornados lendas da cultura popular do Oeste, adorados em pagelas, glorificados na literatura de cordel; Billy The Kid, um puto desbragado, assassino, facínora, herói da subcultura pop; Butch Kassidy e Sundance Kid, dois assassinos e ladrões "tornados" uma referência romântica, via cinema, em filme de 1969, na pele de dois grandes actores - Paul Newman e Robert Redford. E o duelo em O.K Corral, tão mitificado, tão  recontado em múltiplos filmes? Etc, etc...

Hollywood criou durante décadas uma quantidade espantosa de filmes do género western, muitos dos quais passaram para a história do cinema como obras-primas. Quase todos os grandes realizadores das décadas de ouro fizeram westerns. Só alguns nomes. Raoul Walsh, King Vidor, William Wellman, Howard Hawks, Henry Hathaway, Allan Dwan, Henry King, Nicholas Ray ("Johnny Guitar"), John Huston, Fritz Lang (a refinada cultura com c grande da mitteleuropa a cavalgar pelo piso rastejante das pradarias americanas) e John Ford, o mestre  absoluto do género. É célebre a sua afirmação - "My name is John Ford and I make westerns." Na verdade, para além de westerns deixou mais uma mão cheia, pelo menos, de outros filmes de topo.

Da extensa colheita de 1957 - os estúdios de Hollywood estavam ainda em ampla produtividade e debitavam diversificada produção - saiu "O Comboio das 3h10", de Delmer Daves (1904-1977). A passagem do tempo deu-lhe cartas de alforria e é normalmente uma referência das programações das cinematecas. 

Delmer Daves, não faz parte da galeria de topo dos realizadores, mas teve uma obra interessante. Alguns "filmes negros" e westerns deram-lhe estatuto. "Flecha Quebrada" (1950), por exemplo, é um western onde os índios são (se não pela primeira vez, quase) tratados com respeito e decência.

Foi o realizador típico de Hollywood dos tempos heróicos. Começou no cinema mudo, foi consultor técnico e actor. Com a aprendizagem acumulada começou a fazer filmes na década de 40.

"O Comboio das 3h10" foi realizado a partir de uma short story publicada num "pulp magazine" por um candidato a escritor. Elmore Leonard (1925-2013), profissional de publicidade, ia escrevendo e publicando histórias  de cowboys para arredondar o salário mensal. Mas a sua imaginação compensou-o substancialmente e a partir de um livro seu, Martin Ritt realizou o filme "Um Homen", com Paul Newman.

Depois disso, Leonard dedicou-se só a escrever. Uma produção prolífera (cerca de 40 romances) e certamente benéfica para ele, pois uma parte substancial dos livros que escreveu deu origem a guiões cinematográficos e a filmes.

A grande diversidade da sua obra tinha como matriz básica o romance policial, o thriller, com um toque acentuado de violência, diálogos certeiros e um forte sentido satírico ("diálogo crepitante e humor negro" como escreveu um especialista). Há um bom lote dos seus livros traduzidos para português. "Jackie Brown", um dos filmes de referência de Quentin Tarantino, teve como base de argumento um dos seus romances. 

Rodemos a fita em velocidade acelerada. Em 2007, o argumento de Elmore Leonard foi revisitado e um novo filme se fez. As ficções esgotam-se. Os modelos permanecem. As ficções refazem-se. Tay Garnett, um dos grandes realizadores da primeira fase da história de Hollywood, dizia: "Thalberg's theory was that pictures are not made, they are remade." Thalberg, recordem-se, já aqui falámos dele. Foi um dos grandes produtores da história inicial de Hollywood, que criou as marcas estruturais da "organização fabril" dos estúdios.

James Mangold, um realizador da nossa geração. Com uma obra algo diversificada mas com coisas muito interessantes. Já lá vamos.

A matriz básica é a do argumento original de Elmore Leonard, com mais de 50 anos.

Dan Evans (Christian Bale), um pobre fazendeiro, homem decente, passou pela guerra civil americana (1861-1865), ficou aleijado, procura sobreviver o melhor possível num contexto adverso. Está em vias de perder o rancho, por dívidas. O seu filho adolescente não lhe tem grande respeito.

Ben Wade (Russell Crowe) um fora-da-lei, um bandido, um vilão da pior espécie, o terror do Arizona, lendário lá nos confins do Oeste. No seguimento de mais um assalto é capturado de modo acidental depois de uma noite romântica.

O objectivo das autoridades é entregá-lo à justiça para julgamento. Para isso terão de levá-lo até à cidade de Contention, de onde seguirá de comboio até Yuma (Colorado) onde será julgado. Até  Contention são três dias a cavalo, escoltado por um grupo de cidadãos locais, enquadrados por um agente da Pinkerton, um dos quais é Dan Evans que vê no prémio (200 dólares) a forma de resolver as dívidas.

A viagem de três dias, tensa, árdua, atribulada, é uma espécie de jogo do gato e o rato.O jogo dos contrários. A dialéctica. Diversas situações conflituais. Mortos e feridos. Gradualmente os dois personagens vão-se conhecendo, vão-se revelando. A fronteira entre eles vai-se diluindo. Admiração mútua. O bandido tem valores, sensibilidade, uma ética cristã (a Bíblia serve-lhe de suporte). O rancheiro procura provar a si próprio a coragem. Resistiu ao aliciamento para libertar o bandido. O jovem filho do rancheiro fascinado por Ben Wade. 

O conflito entre o bem e o mal, como foi escrito "uma jornada para a redenção, a justiça e a auto-descoberta."

Do lado mau está não só Ben Wade, mas os do seu bando, pistoleiros à solta, que tudo farão para o libertar da forca, seu destino previsível. A última sequência (exagerada nos tiroteios - os produtores querem adrenalina, excitação, sangue - para atrair a malta nova) resolve a equação.

O bandido segue para a prisão no comboio, depois de ter executado todos os seus parceiros. O rancheiro é barbaramente assassinado. O filho reconquista o respeito pelo pai. 

É um conto moral. A salvação. O resgate. A redenção. Ben Wade, o assassino impiedoso, o ladrão encartado, provavelmente será enforcado, mas resolveu a sua relação com Deus 

James Mangold. Um cineasta do nosso tempo. "A Complete Unknown" sobre Bob Dylan (a pequena revolução que despoletou com a electrificação do som da sua guitarra, em 1965, no Festival de Newport, espaço sagrado da folk music) ainda andará por aí a circular pelas salas. Antes já tinha abordado outro grande criador da música country - Johnny Cash interpretado por Joaquin Phoenix - em "Walk the Line". Steven Spielberg e George Lucas passaram-lhe para as mãos a realização do último Indiana Jones. Portanto estamos bem entregues. Quando os dois papéis  principais são desempenhados por Christian Bale e Russell Crowe, ainda melhor.

O homem que sabia demais - Alfred Hitchcock (1956)

Com James Stewart, Doris Day
Duração: 2h00m

Não passarmos Hitchcock ao fim destes filmes todos seriam uma espécie de crime cinéfilo. Assim sendo, aqui vai. Todo o sistema Hitchcock está difundido neste filme - o medo, a manipulação dos sentidos, a ironia, a perversidade, o suspense, o gozo e o humor. Numa entrevista daqueles tempos, o grande cineasta inglês afirmou que - O meu herói é sempre um homem comum a quem acontecem coisas extraordinárias, e não o contrário. Aqui está a essência do filme. Um casal burguês fora da América - primeiro em Marrocos (Marraquech não muito diferente dos nossos dias) e depois na Inglaterra - envolvido acidentalmente numa conspiração para assassinar um político. Impossível encontrar corpos mais apropriados do que o enorme James Stewart e a cantora/actriz Doris Day , banais americanos enrodilhados num complicado processo de decisão para salvar o jovem filho raptado. A arte absoluta do mestre está bem condensada numa sequência chave no Albert Hall em Londres e a voz canora da Doris Day delicia-nos com...não digo. Venham ver ou rever  o filme. É sempre um prazer sentirmo-nos manipulados pelo talento genial do Hitch.

O americano tranquilo - Phillip Noyce (2002)

Com Michael Caine, Brendan Fraser, Hai Yen
Duração: 1h36m

Graham Greene, o escritor. Já nos cruzámos com ele no filme "Santa Joana", do Otto Preminger. Foi o argumentista desse filme a partir da peça de teatro homónima de George Bernard Shaw. Como sabem, Graham Greene (1904-1991) foi um dos grandes escritores do século XX. Jornalista, dramaturgo, argumentista e romancista. Alguns dos grandes livros do nosso tempo foram da sua autoria. 

O Prémio Nobel não lhe foi atribuído, um dos grandes falhanços da instituição norueguesa (há mais... nos últimos anos, António Lobo Antunes e Philip Roth, pelo menos). Personagem complexa, atípica, nem sempre fácil de posicionar nos quadrantes do pensamento do seu tempo. Foi do Partido Comunista inglês e foi assumidamente católico (ele, de um país orgulhosamente protestante). E foi também, durante a guerra, um homem dos serviços secretos ingleses. Foi o responsável pelo sector ibérico (Portuguese Desk) do MI6, contra espionagem. Além disso foi amigo do célebre espião inglês, o traidor Kim Philby, agente duplo, que, no auge da guerra fria, se passou para os soviéticos com grande escândalo em 1963. Graham Greene visitou-o várias vezes em Moscovo, amigos amigos, política e ética à parte.

Graham Greene foi uma espécie de recolector na sua vivência de escritor. Na circulação pelo mundo ia buscando factos e personagens que transfigurava em ficções. America Latina - México ("0 Poder e a Glória"), Cuba (antes de Fidel e Che), Haiti ("Os farsantes"), Argentina ("O cônsul honorário"). Também criou ficções em África em torno das colónias inglesas.

"O Americano Tranquilo" passa-se no sudoeste asiático. O livro foi publicado em 1955 e a acção decorre em 1952, no Vietname, ou antes Indochina. Recuemos mais de um século. O Império Colonial Francês na sua extensão a leste. Desde 1887 que os franceses se apoderaram de um extenso território englobando três identidades nacionais - Vietname, Laos e Cambodja. 

Chamavam-lhe Indochina. 

Da muita riqueza de que se apropriaram a mais significativa foi a borracha. A colonização a ferro e fogo servia os grandes interesses da burguesia de Paris. As fortunas acumulavam-se desmesuradamente. Quando a borracha deixou de ser essencial para os mercados (sucedâneos químicos mais baratos e funcionais) foi a debandada. No fim dos anos 40, princípio de 50, os processos de independência ocorreram com alguma naturalidade, mas pressionada e pervertida pela resistência política. Os franceses sofreram uma humilhante derrota militar (Batalha de Dien Bien Phu) em 1954 e puseram-se a andar com o rabo entre as pernas.

Depois é o caos. Ainda mais caos. A guerrilha comunista, bem organizada, a conquistar o poder, nacionalismos exacerbados, lutas fratricidas, atentados bombistas, jogo sujo, uma terra de ninguém mergulhada em sangue. Em pano de fundo era a guerra fria em elevada propulsão. A América, que se tinha enterrado na Guerra da Coreia em 1950, tinha começado a apoiar a França, com armas e munições  e conselheiros militares. Era a estratégia da contenção do comunismo. Passados uns anos, os EUA estavam atolados no pesadelo do Vietname (1965-1973) e não saíram de lá vivos.

É neste contexto histórico e geográfico que decorre a acção. Saigão. Thomas Fowler (Michael Caine) correspondente do "Times" de Londres, jornalista sénior, já viu muito, já escreveu muito. Conhece aquele mundo como as palmas das suas mãos. Na verdade, já é o seu mundo. Londres está muito longe. Alden Pyle (Brendan Fraser), americano, jovem, técnico oftalmológico falso, na verdade um agente da CIA, altamente preparado (até falando vietnamita).

Phuong (Hai Hien), uma jovem vietnamita, bela, exótica e misteriosa, a fazer pela vida. Oscilante entre o amor e a protecção do jornalista inglês Fowler e o amor e um futuro aconchegado (casada) na América com Pyle.

No vaivém dos afectos, a dureza do estado de guerra civil. Um grande atentado bombista, que mata muitos cidadãos, orquestrado pelos americanos para ser atribuído aos comunistas revela a essência das coisas. Naquele mundo de loucura a traição e o crime são a normalidade. A duplicidade é alimentada pelas sombras (o pacato, gentil e profissional secretário de Fowler é um assassino quando a sua causa o justifica). Nada é o que parece. 

O jovem americano da CIA é assassinado, o jornalista sénior continua a cobrir o conflito no futuro e a jovem vietnamita volta ao amor antigo. Se calhar, quando vamos vendo as primeiras páginas dos artigos escritos por Fowler - mostrando a evolução monstruosa do conflito nos anos seguintes - já ela não fará parte da história. 

Phillip Noyce é um australiano que não resistiu ao fascínio de Hollywood e por lá tem feito alguns filmes interessantes. Pegou na ficção de Graham Greene, mas em segunda via. Já em 1958 Joseph L. Mankiewicz, realizador , argumentista e produtor ("Júlio César", "Eva", "Condessa Descalça") tinha feito uma primeira adaptação ao cinema, com a qualidade do grande mestre que ele era, mas com o argumento enviesado pró-americano (Graham Greene ficou furioso com a omissão da mensagem anti-guerra do livro), muito menos neutro do que a proposta do escritor que se pode sintetizar no que ele escreveu: "A natureza humana não é preto e branco mas preto e cinzento."

Esta versão é muito mais fiel ao texto original. Aquela sensação escorregadia que se apropria dos corpos e das coisas, o calor, a chuva, a humidade do ar. O sentido negativo da história que aprendemos na ligação desequilibrada daquele trio como que aponta para o futuro que Francis Ford Coppola iria encenar umas décadas depois em "Apocalipse Now". O horror. Nada tem sentido. Mas isso é outra história.

Por quem os sinos dobram - Sam Wood (1943)

Com Ingrid Bergman, Gary Cooper, Karina Paxinou, Akim Tamiroff.
Duração: 1h30m

Hemingway (1898-1961) e Espanha. Relação amorosa continuada, alimentada até ao último suspiro. O livro derradeiro do grande escritor, antes de se despedir voluntariamente da vida - enfiou com um balázio na cabeça - foi "O verão perigoso". Touros, toureiros e touradas. Trabalho jornalístico de fôlego para a revista americana "Life". Vários meses acompanhando o "duelo" nas trincheiras entre Luis Miguel Dominguin e Antonio Ordoñez, dois toureiros rivais, dos maiores da história da tauromaquia espanhola. O fascínio do embate do homem com a besta,  a linha difusa entre a vida e a morte. A coragem e  solidão do toureiro nas praças de touros plenas da efervescência e fanatismo das multidões.

Vindo lá da América profunda (Illinois),  Hemingway tornou-se, no entanto, um homem do mundo, fascinado pela Europa. Jovem aprendiz das letras, tinha andado pela I Grande Guerra como motorista de ambulâncias da Cruz Vermelha (Itália). Passados uns anos voltou à frente de batalha na Guerra Civil de Espanha (1936-39), como correspondente de guerra. Pelo meio tinha vivido a década prodigiosa dos anos 20, em Paris, onde culturalmente tudo acontecia. Lá estavam (ou por lá passavam) muitos jovens que marcaram a escrita do século XX - os americanos Ezra Pound, Scott Fitzgeral e Gertrude Stein foram alguns desses.

O fascínio das touradas e de Espanha já tinha apropriado a escrita do Hemingway com "Fiesta" (1926). Mas a experiência vivida no confronto, na loucura fratricida da guerra civil, foi de outra dimensão. O resultado, em termos ficcionais, foi "Por quem os sinos dobram". Grande sucesso e aclamação. Todos os referenciais da escrita de Hemingway lá estão explanados. Economia de linguagem, palavra depurada, ausência de artificialismos, procura de pureza de valores, decência  e ética de comportamentos.

Peço emprestada uma opinião a Amos Oz (esse grande escritor israelita que, se ainda fosse vivo, estaria envergonhado e amargurado, com o que Israel está a fazer aos palestinianos). Em "Uma história de amor e trevas", livro de memórias, recorda: "Naquela época li quatro ou cinco vezes 'Por quem os sinos dobram', de Ernest Hemingway, um romance cheio de mulheres fatais e homens taciturnos, sem esperança, que escondiam uma alma de poeta atrás de uma aparência dura."

Robert Jordan (Gary Cooper), um americano já maduro de idade, é um especialista em explosivos. É pressuposto pertencer às Brigadas Internacionais ("Por vuestra libertad y la nuestra" era o seu grito de guerra), força paramilitar que agregou os voluntários estrangeiros que lutaram do lado dos republicanos na guerra civil (1936-38), cerca de quarenta mil, muitos dos quais não sairam vivos daquele inferno.

Maria (Ingrid Bergman) jovem espanhola violada pelos nacionalistas, que lhe assassinaram os pais e miraculosamente sobrevivente. Vive com um grupo de refugiados algures na montanha longe das frentes de guerra. O casal Pablo e Pilar (uma mulher de armas) vão dirimindo as tensões entre si e entre os membros do grupo. Os valores e as intenções daquela gente não são claros. Republicanos ou franquistas? Destruir a ponte ou não? A coragem, o medo e a cobardia vão aflorando. Foram apanhados na curva da vida. A sobrevivência é o que importa. A traição espreita.

A chegada do Inglês (era assim para os espanhóis, embora ele fosse americano) criou tensões. Tem um desígnio, uma missão - estourar com uma ponte ferroviária de grande importância estratégica para os republicanos.

O inevitável acontece. O americano apaixona-se por Maria e vice-versa.

Ele, tem a consciência de que a sobrevivência é uma hipótese ínfima. Ela, agarra-se desesperadamente ao sonho. A América, a paz, a fuga àquele universo tresloucado. O amor com carácter de urgência, como escreveu o poeta Daniel Filipe em "A invenção do amor". Tiveram o prazer efémero da vida no prazer escondido daqueles poucos dias. Melhor que nada.

Hemingway cita em epígrafe John Donne (poeta inglês do século XVII): "A morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti." 

Na verdade, dobraram por Jordan e pelos milhares e milhares de mortos naquela guerra tão bárbara, selvagem e absurda, mesmo aqui ao lado.

Emílio Mola, general relevante dos nacionalistas (aparentemente eliminado por Franco, para evitar a concorrência ao poder), escreveu: "É necessário espalhar o terror eliminando sem escrúpulos ou hesitação todos aqueles que não pensam como nós." 

Mas do outro lado a atitude era similar e ainda mais complexa. Padres e freiras desapareciam aos milhares em execuções sumárias e os ajustes de contas entre grupos ideologicamente diferentes (v.g. comunistas versus anarquistas) na frente republicana eram mato. Uma loucura!...

Hollywood pegou nesta ficção e deu-lhe identidade fílmica. Tinha todos os ingredientes para resultar - uma história dramática na Espanha sanguínea, uma trama amorosa apelativa, um escritor já com um enorme prestígio mundial. A isso juntou um factor determinante, os actores. As estrelas. Ingrid Bergman e  Gary Cooper. E a coisa resultou em cheio. Sucesso de mercado.

Um filme com todos os contornos clássicos, campo/contra-campo, a gramática do cinema funcional, filmado a cores e com óptimas sequências. E o rosto belo da jovem sueca, múltiplas vezes deliberadamente privilegiado pela câmara - a beleza de um rosto juvenil na loucura suicidária dos espanhóis.

O realizador foi Sam Wood, um tarefeiro de Hollywood, que fez a maior parte dos filmes (e foram muitos) para o caixote do lixo da história, com excepção de poucos. Este é um deles e, já agora, "Uma noite na ópera" e "Um dia nas corridas", ambos com os Irmãos Marx.

Contradição das contradições. Sam Wood era politicamente um hiper conservador, um radical. Um falcão, na gíria da política de Washington. Em 1947 deu com a boca no trombone denunciando colegas de Hollywood como infiltrados comunistas. 

Como fez este filme, quatro anos antes, a partir de um livro de Hemingway, anti fascista, vigiado pelo FBI como comunista? E não traiu a essência do livro. Só os deuses poderão responder. Certamente um milagre do cinema, sem efeitos especiais, e de longa duração. Saliento que são duas horas e meia. Organizem as vossas vidas na quarta-feira. O prazer recompensa.

L.A. Confidential - Curtis Hanson (1997)

Com Kevin Spacey, Russell Crowe, Guy Pearce, Kim Basinger, Danny DeVito
Duração: 137m

James Ellroy escritor de policiais. Ou só mesmo escritor. Um grande escritor. Uma forte identidade literária. Na melhor tradição do Raymond Chandler e do Dashiell Hammett, umas décadas depois apareceu com um conjunto de livros que marcaram o imaginário americano dos anos 80 e 90. A matriz policial (o romance negro) marca a ficção. Los Angeles e a Califórnia são o espaço privilegiado e os anos 50 é o tempo. O estilo da narrativa é directo, bruto. Poliédrico. Frases curtas, impactantes. Personagens a dançar perigosamente, sobre o fio navalha, nos limites da lei. Gente dura, gente dúbia, mesmo quando do lado bom.

Quer pelo estilo, quer pelos valores e posições, não me custa nada associar Ellroy com Céline ("Viagem ao fim da noite", "Morte a crédito"). O americano será certamente acólito de Trump e o francês foi anti-semita e colaborou com os nazis. Escritores malditos ambos, mas com uma escrita avassaladora.

James Ellroy teve uma vivência que lhe alimenta as ficções e o estilo. Durante muito tempo viveu fora da normalidade social. Marginal, sem abrigo, drogado, alcoólico. Conseguiu safar-se (às vezes acontece) e com talento deu a volta por cima. Escreveu o primeiro livro em 1981 e passada meia dúzia de anos conquistou um lugar de consagração com "A Dália Negra". Um grande romance policial a partir de uma experiência pessoal dramática.

Em 1958,  a mãe do escritor foi assassinada quando ele tinha 10 anos e a polícia nunca  conseguiu resolver o caso. A partir de memórias difusas, de ecos familiares e de muita  investigação, Ellroy criou uma ficção que é também um mergulho de busca interior.

A sua obra, densa, tem a matriz ficcional do romance policial, mas vai para além. É um descrente do homem, um escritor cínico, acredita pouco na regeneração.

Livros como o citado, ou outros como os que têm tradução em Portugal, são exemplos desse mundo sujo, perverso, corrompido e mórbido. Vale a pena conhecer o universo do James Ellroy e livros como "Sangue vadio", "No escuro da noite", "A colina dos suicídios", "White Jazz" ou "O meu quarto escuro". Quase todos editados pela Presença.

"L.A. Confidential" faz parte desse universo literário. Publicado em 1990, foi um sucesso, confirmando o percurso ascendente do escritor.

Los Angeles nos anos 50. Hollywood, o polo do imaginário de muitos milhões de pessoas em todo o mundo. O maravilhoso do cinema e do star system. O glamour, as festas fabulosas, o exibicionismo social e a agitação nocturna encobrem um outro universo, um submundo dominado pelo crime organizado, a corrupção, o tráfico de drogas, a violência crua e os negócios do sexo.

Os magazines (trash tabloids) serviam--se dessa matéria-prima e alimentavam os sonhos de muita gente. "Hush-Hush" é a publicação que vai enquadrando/orientando a ficção. Tudo o que cheire a escândalo sairá lá. Se for preciso criam-se os factos. Força -se a realidade. Inventa-se. Paga-se por fora. É neste universo que tudo vai acontecer.

Um homicídio em massa num bar - Night Owk -  desencadeia um processo investigatório. Três polícias envolvem -se numa teia perigosa, dúctil, da qual poderão não sair vivos. Um pesadelo. A lealdade, os princípios e a coragem são testados até ao limite. Ninguém sai incólume. Os valores, a ética e os métodos dos agentes da polícia, diferentes personalidades, diferentes passados, confrontam-se. A máquina policial não é neutra, é sujeita a influências, poderes, subornos. Racismo. Corrupção. Uma pequena metáfora da sociedade americana.

A surpresa acontece. A podridão estava no fundo da instituição. Pelo meio, ajustes de contas, feridos e mortos. A mitificação de Hollywood por todo o lado. Los Angeles, City of Angels. As vedetas femininas do cinema copiadas em versões de consumo sexual. Veronica Lake (star da época), em cópia, misteriosa femme fatale, aquela mulher lindíssima, prostituta requintada, que só queria amealhar dinheiro para regressar à sua cidadezinha do Arizona (há-de conseguir, levando consigo um dos polícias, todo partido, mas vivo). Jogos de parecer. E jogos de ser - "Ela é a Lana Turner", e era mesmo. E os filmes. Com um sentido deliberado, realidade e ficção entrelaçam-se. Nas ruas os cartazes do filme em exibição "Cativo do mal" (uma história sobre filmes e actores) do Vincente Minnelli, precisamente com a Lana Turner e o Kirk Douglas. Já o vimos aqui.

A justiça foi feita, mas o sistema venceu. Umas histórias açucaradas, forjadas pelo poder político e institucional para os jornais e os polícias continuam a ser os bons, a lutar contra os maus. Os jornais escrevem e acredita-se. Como escreveu Giuseppe Tomasi di Lampedusa em "O Leopardo", é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. O Visconti fez um grande filme nos anos 60 a partir do livro e agora está disponível na Netflix uma bela série. Vale a pena.

Quem deu corpo fílmico ao livro de James Ellroy foi Curtis Hanson (1945-2016). Realizador e argumentista com uma história interessante. Versátil, proficiente e eficaz em diferentes géneros e estilos.

Antes do sucesso com este filme, fez outros que merecem algum destaque, nomeadamente "A mão que embala o berço", um thriller muito interessante, "O Rio selvagem", com Meryl Streep, "Wonder Boys" com Michael Douglas.

No tempo em que o filme saiu, muitos especialistas o consideraram, juntamente com "Chinatown" (1974) do Roman Polanski, o melhor filme negro daqueles tempos. Naquela altura, um dos críticos americanos de referência escreveu: "L.A. Confidential é sedutor e belo, cínico e perverso, um dos melhores filmes do ano."

É certamente um filme a destacar na história mais recente do cinema. E foi candidato a 9 Óscares. Ganhou dois. Kim Basinger teve o de melhor actriz secundária (bela prestação) e o realizador, Curtis Hanson, teve o de argumentista (adaptação). Trabalhou muito para criar uma linha dramaticamente consistente numa história com muitos desvios e vaivéns próprios da densidade da escrita de James Ellroy. Este aprovou.

A nós compete o prazer de entrar gradualmente naquela rede de cumplicidades, mentiras e muita hipocrisia. Ah...os actores. Um prazer redobrado acompanhar o Kevin Spacey, o Russell Crowe, o Danny DeVito e a Kim Basinger, travestida de Veronica Lake.

Rebecca - Alfred Hitchcock (1940)

Com Laurence Olivier, Joan Fontaine, Judith Anderson
Duração: 130m

Alfred Hitchcock e Daphne Du Maurier. O cinema e a escrita. 

Cruzaram-se por três vezes. O último filme que ele realizou em Inglaterra, "A Pousada da Jamaica" (1939) - um filme fraquinho - foi feito a partir do romance da escritora com o título homónimo. No ano seguinte, o primeiro que fez nos EUA foi "Rebecca", a partir de outro romance dela, acabado de publicar. Muitos anos depois, em 1963, outro clássico, "Os Pássaros",  foi desenvolvido a partir de uma short story dela.

Daphne Du Maurier, uma escritora inglesa, contemporânea de Graham Greene. E obviamente de Hitchcock (1899-1980). Nas primeiras décadas do século XX teve os seus créditos de mercado. Escritora de best-sellers românticos, com um toque de mistério e às vezes de macabro, romântico gótico, teve fama e fez fortuna, casou com um Montague Browning, família do círculo dos reizinhos ingleses. Portanto fazia parte dos próceres do Império, acabando contemplada com os louros institucionais de Dama do Império Britânico.  

"Rebecca" foi publicado em 1938 e criou de imediato apetência no universo do cinema. Foi o grande David O. Selznick que acabou por comprar os direitos sobre o livro, ainda que nessa altura estivesse enfiado até ao pescoço na longa e turbulenta produção de "E Tudo o Vento Levou". Selznick, com elevado sentido de negócio (complementado pelo superior sentido artístico, como poucos produtores tiveram na longa história de Hollywood) percebeu que havia no livro matéria-prima suculenta para um filme.

Ninguém mais adequado do que Hitchcock, que Selznick tinha aliciado para sair de Inglaterra e ir para Hollywood. Acabado o último filme nos estúdios ingleses ("A Pousada da Jamaica"), aquele mudou-se de armas e bagagens para a América, ao mesmo tempo que os nazis começavam a pôr a Europa em convulsão dramática. Selznick pô-lo a dirigir o processo enquanto ele afinava a versão final da sua obra máxima "E tudo o vento levou".

Com dois artistas tão afirmativos, a coisa não foi fácil (Selznick escreveu sobre Hitchcock: "Não é má pessoa... embora não seja exactamente o companheiro adequado para ir acampar." Provavelmente Hitchcock pensava o mesmo ou pior do Selznick. Egos...). Depois de vários argumentistas ao barulho, de versões mais distantes ou mais fiéis ao livro, de guerras de argumentação entre os dois, por choques de personalidade (ficaram célebres na história do cinema os "Memorandos" que Selznick escrevia para os colaboradores dos seus filmes com indicações precisas, sugestões pertinentes, propostas técnicas, escolhas de actores, tudo e mais alguma coisa que tivesse que ver com a produção)  Hitchcock conseguiu arrancar com as filmagens, ele ainda em aprendizagem de Hollywood, dos seus usos e costumes, das suas individualidades, dos seus truques, dos seus rituais e da especificidade do star system.

Era uma história à medida de Hitchcock, cheia de mistério e emoção, ele já com uma identidade, uma imagem de marca, um currículo e fama, ganhos nos estúdios londrinos.

Uma jovem de origem humilde (Joan Fontaine), dama de companhia de uma velha rica exasperante, casa-se com um aristocrata viúvo, Maxim (Laurence Olivier). Em Manderley, mansão  na Cornualha, o ambiente que gradualmente se lhe revela é hostil, agressivo, perturbador, personificado na hedionda governanta, a sra. Danvers (Judith Anderson), que constantemente lhe recorda quão maravilhosa, bela e sofisticada era Rebecca, a antiga esposa de Maxim, morta por afogamento. Toda a ficção funciona no sentido da opressão. Uma complexa teia psicológica, o peso e a presença invisível da outra, vai enredando a jovem levando-a ao desejo do suicídio. No fim, a inversão de tudo. A quebra da imagem construída, a revelação, a verdade - Rebecca  (permanentemente citada, sempre presente) era pérfida, cruel e adúltera.

Hitchcock sabia muito de cinema e de actores. Fez as escolhas acertadas. Laurence Olivier, o grande actor, encenador e realizador shakespeariano ("Henrique V", "Hamlet" e "Ricardo III"), dá densidade e requinte aristocrático a um personagem em que o fingimento é a forma de estar. Nada na vida amorosa dele tinha sido como contado pela sra. Danvers. Tudo era uma farsa, uma convenção socialmente concertada. A aristocracia tem os seus códigos. A porcaria escondida/embrulhada num manto de organza. A cheirar bem.

Joan Fontaine - voltaria a fazer outro filme com o mestre, na companhia de Cary Grant, "Suspeita" (1942) onde ganhou o Oscar de melhor actriz - foi a jovem esposa ideal. Era a irmã mais nova de Olivia d'Havilland, actriz que brilhou em "E tudo o vento levou" que  Selznick estava naquela altura a acabar. Duas irmãs, duas estrelas máximas de Hollywood, que tinham uma relação familiar quase nula. As más línguas dizem que se odiavam. Coisas da vida. 

Olivia d'Havilland ganhou nos anos 40 o Oscar por duas vezes.

Judith Anderson, a governanta, a má da fita. Tão perversa, horrivel. Teve a morte que merecia, no incêndio emblemático que destruiu para sempre Manderley. Obviamente acredito que esta era a personagem preferida do mestre. Deve-lhe ter dado um gozo suplementar criar aquela identidade diabólica. Aquele olhar esmagava qualquer pessoa decente.

Dez nomeações para os Oscares teve "Rebecca" e foi contemplado com dois - melhor filme e melhor fotografia. Hitchcock fez com "Rebecca" coisas brilhantes em termos de significação. A câmara orientava os sentidos num jogo dinâmico virtuoso, definia os significados e, em certo sentido, criava o quadro ético onde se movimentavam as personagens. Note-se o último plano. Quando tudo arde, num quadro apocalíptico, a câmara entra pelo quarto proíbido e detém-se numa almofada da cama, num pormenor, uma letra - R. De Rebecca. 

Será que a memória de Rebecca desaparecerá para sempre, com o passado consumido pelo fogo? Ou continuará a assombrar o casal que, após o pesadelo, procurará  uma segunda oportunidade?

Se fosse Hitchcock a decidir, seria certamente o segundo quadro. O Arturo Pérez-Reverte, no último livro, "O Problema Final" tem uma frase com que concordo e que se enquadra perfeitamente com o filme: "Uma história perfeita para o gordalhufo libidinoso do Hitchcock, que adorava maltratar mulheres bonitas no ecrã."

Sem qualquer dúvida. A nós cabe-nos fruir com prazer esta ficção requintada num mundo que não é o nosso mundo.

O talentoso Mr. Ripley - Anthony Minghella (1999)

Com Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Cate Blanchett
Duração: 133m

Há uns tempos vimos aqui, via  Hitchcock, o primeiro livro de Patricia Highsmith (1921-1995) travestido em filme - "O desconhecido do Norte Expresso" (1951). Que belo e requintado filme onde duas almas gémeas juntaram os seus talentos artísticos - da literatura e do cinema.

Passados uns anos, com mais uns livros editados, a escritora já tinha ganho um estatuto de  segurança e visibilidade no quadro editorial americano e inglês.

Depois de um processo complexo de arranca e pára, retrocesso e recomeço (que lhe era intrínseco na escrita dos seus romances e contos), engrena numa história forte sustentada num personagem especial: Tom Ripley. Um anti-herói. Um rapaz americano, encantador, simpático, humilde, fascinante, mas, no fundo, um assassino. Mata com a facilidade com que ri. Audacioso. Observador arguto e sistemático. Rejeita a realidade e acredita num mundo imaginário que vai criando de forma inteligente para seu próprio benefício. Personagem perverso, psicopata, ambíguo mesmo na vertente sexual - assexualidade claramente inclinada para o lado masculino.

Perversa e fascinante era também a autora, Patricia Highsmith. Quem tenha lido os diários que ela foi escrevendo ao longo da sua vida - "Diários e Cadernos", tijolo de mil e tal páginas, publicado pela Relógio D'Água, conclui facilmente isso. Muito inconstante, saltando de parcerias amorosas (homossexuais) com a facilidade de quem dá um passo em frente (não sendo coxo). Tendências alcoólicas fortes (os gins e os martinis eram a sua especialidade, mas também tinha boa boca para a cerveja e o vinho) e  solidão militante, mas sempre à procura de companhia. Uma alma atormentada.

É desse livro que respigo algumas coisas que ela registou (1954) quando estava a escrever o que viria a ser "O Talentoso Mr. Ripley". "As frases entravam no papel como pregos. Foi o livro mais fácil de escrever. Tive muitas vezes a sensação de que era Ripley quem escrevia, enquanto eu me limitava a passar à máquina".

Patrícia descreve o seu (anti)-herói como um seu alter ego. Tom Ripley é um rapaz americano encantador, humilde, mas...

Escreveu um analista literário referindo-se a Patricia Highsmith que "acima de tudo, são os que têm problemas mentais e inclinações criminosas que mais a fascinam, inspirando as suas melhores personagens." As ficções com o Tom Ripley são paradigmáticas dessa asserção.

O sucesso editorial do livro foi tão grande e a incidência das críticas sobre o personagem Tom Ripley foi tão rica e variada (com recensões nas áreas da medicina e da psicologia) que Patricia Highsmith acabou por criar até ao fim da sua vida mais quatro ficções com ele. Qualquer delas muito boa. As traduções estão aí à mão no mercado editorial português.

Pois foi a partir da primeira aventura do Tom Ripley que Anthony Minghella fez o filme do nosso contentamento de hoje.

Anthony Minghella, recordem-se, o autor de "O paciente inglês". Mas não o único, nem será certamente o último a pegar no personagem. O primeiro Tom Ripley até era fake. Uma ficção americana num filme francês. Alain Delon, o jovem actor que na altura fascinava muitas meninas, como Tom Ripley. "À luz do sol" (1960) uma boa realização de René Clement e o primeiro papel importante de Delon. Outros filmes com o personagem Tom Ripley são também de cineastas europeus. "O amigo americano" (1977) do Wim Wenders, com o Dennis Hopper, e "O jogo de Mr. Ripley " (2002) de Liliana Cavani, com o John Malkovich.

A partir do primeiro livro a Netflix fez recentemente uma série chamada "Ripley". Vale a pena.

Vamos à história. Complexa como a alma do Tom, um jovem em Nova York que faz pela vida com esquemas, pequenas aldrabices e fraudes. Foi abordado por um magnata da construção naval para ir a Itália persuadir o filho, que lá vivia à grande, beneficiando da fortuna familiar, a regressar aos EUA para assumir os negócios da família. Tom aceita o recado, bem pago, obviamente.

Na Europa insinua-se junto de Dickie, o filho, e da namorada, Marge, pretendente a escritora, e com eles passa a beneficiar de uma boa e luxuosa vida. Dickie, inconstante e  imaturo, introdu-lo nos meios do prazer. Restaurantes, festas, etc. E o jazz. Dickie, um saxofonista amador, circula pelas jam sessions dos clubes locais. A vida como divertimento.

Quando começa a perceber que o seu tempo de prazer e requinte junto do jovem casal vai acabar, não tem pruridos e assassina o jovem, assume a sua identidade e muda de aparência. Falsifica cheques, forja documentos. Mata outra vez. Anda por San Remo, Veneza, Roma. O enredo é complexo. Fiquemos por aqui para aumentar o frisson. Cabe a cada um de nós acompanhar os seus requintes perversos e a sua habilidade inata para ludibriar as polícias e quem mais for preciso, com sorte quanto baste. Um jogo de mimetismo. No fim, a caminho da Grécia, mais um assassínio. Peter, um músico fortemente atraído por ele, tem que ser eliminado. Se continuasse a  viver perceberia que ele era o outro.

Se há um trunfo indiscutível neste filme, para além da matéria-prima ficcional original, são os actores, supra-sumo da oferta de talento de há vinte anos atrás - Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Cate Blanchet e Philip Seymour Hoffman. Matt Damon faz de Tom Ripley e Philip Seymour Hoffman, actor espantoso, infelizmente já desaparecido, faz de Freddie, horrorosamente assassinado.

O filme foi nomeado para 5 Óscares. Não ganhou nenhum, mas a qualidade da ficção é inquestionável. Acompanhemos a sinuosidade de Tom Ripley com a sua duplicidade, falsidades, mentiras e assassínios. É um habilidoso. Temos que ter medo. Um conhecido crítico americano de cinema fez uma óptima síntese  do personagem: "Ele é um monstro, mas nós queremos que se safe."

Às vezes os equivalentes de Tom Ripley do nosso quotidiano estão mais perto de nós do que imaginamos. Que nunca sejamos por eles interpelados. Seria, no mínimo, perigoso. Disfarçada por um sorriso, uma faca afiada. Vade retro, Satanás!

O carteiro toca sempre duas vezes - Bob Rafelson (1981)

Com Jack Nicholson, Jessica Lange, Angelica Huston
Duração: 116m

Knock, knock. Quem é? É o carteiro. Até há uma cantiga portuguesa do Conjunto António Mafra (bons velhos tempos, só no sentido revivalista) - "Chegou o carteiro das nove p'ras dez, a vizinha do lado de roupão enfiado"...etc. e tal.

Isto agora é quase uma ficção. Há cada vez menos cartas. Há cada vez menos carteiros. Em Portugal, desde que osj CTT foram oferecidos praticamente de borla a um grupo privado (grande negócio), a relação de proximidade com as pessoas é quase uma ficção.

Ficção, sem equívocos, é este filme. Carteiro nem vê-lo, nem ouvi-lo. Mas já lá vamos. Cada a coisa a seu tempo. Primeiro a escrita e o escritor.

James M. Cain (1892-1977) passou para a história da literatura pelos livros que escreveu nos anos 30 e 40. Três títulos são referências incontornáveis da literatura americana daquele tempo: "The postman allways rings twice" (1934"), "Double Indemnity" (1936) e "Mildred Pierce" (1941). E todos eles deram origem a óptimos filmes. Do primeiro vamos falar. O segundo deu "Pagos a dobrar" feito pelo grande Billy Wilder. O último deu "Alma em suplício", com a Joan Crawford, feito pelo Michel Curtiz que dois anos antes tinha feito "Casablanca". Há uma adaptação recente disponível na HBO. Vê -se muito bem.

Juntamente com Dashiell Hammett e Raymond Chandler, James M. Cain foi, cito, "progenitor of the hardboiled school of American crime fiction."

Histórias dramáticas, violentas, com personagens amorais, sado-masoquistas e erotismo à flor da pele. Em síntese: luxúria, avidez e desejo. 

Mas foram grandes sucessos de mercado. Venderam-se milhões de livros nos EUA. Obviamente que o autor teve que enfrentar o pior da sociedade americana. Foi censurado e atacado pelas ligas conservadoras, da idade da pedra, os trumpistas daqueles tempos.

Perfil tipo do intelectual americano da primeira metade do século XX: combateu em França na I Guerra Mundial, jornalista em Nova York, argumentista (falhado) em Hollywood e escritor.

Noite profunda. Escuro. Vazio. Um carro na estrada. Pára numa bomba de gasolina. Dois homens entram e um deles,  Frank Chambers (Jack Nicholson) fica. Vai continuar lá, a trabalhar para o casal que explora o sítio. Mais tarde sabemos que tinha sido libertado da prisão, andava em vagabundagem, e que o seu currículo pessoal era socialmente pesado. 

"The food is delicious", diz ele para a mulher, Cora Papadakis (Jessica Lange), olhando-a lubricamente. Na verdade, ele quis dizer outra coisa. 

Pois aconteceu como era previsível. O triângulo passional. Uma bela jovem casada com um emigrante grego, um bocado bronco, mas simpático, com idade para ser seu pai. Da chegada do forasteiro à traição da mulher foi um fósforo. As chamas foram despoletadas e, a partir daí, tudo andou ao ritmo do desejo mútuo. O pobre do grego (provavelmente chegado no início do século XX, mas sem nunca se desligar das suas raízes e costumes, isto é, nunca devia ter saído da Grécia) tem que desaparecer. Duas tentativas de assassínio e a morte. 

Cumplicidade entre o casal amoral, mas indícios de que as coisas podiam não resultar. Frank trai Cora com uma artista de circo (Angelica Huston) e Cora quase acredita que as coisas com o marido podiam resultar. 

Mas o impulso irracional proporcionado pelo combustível sexual, encaminhará a acção para um fim dramático.

Tendo-se safado da prisão por mera sorte (morte  do gato lá de casa transformado em argumento de defesa) ou por meios ilegais (trafulhice jurídica), não se safaram do descontrolo de Frank ao volante. Acidente. Morte de Cora. Vinham do casamento, as expectativas positivas alimentadas para o futuro (ela estava grávida) não passaram disso. E agora? Mais cedo ou mais tarde Frank irá parar com os costados à prisão por mais um roubo ou outra ilegalidade. É a sua normalidade. É o seu destino.

O livro é de 1934 e o filme de 1981. Mas até lá as coisas foram mais complexas. 

Em 1946, Hollywood fez a partir do livro um filme que é considerado um dos bons policiais da década - "O destino bate à porta" de Tay Garnett que, segundo as crónicas do tempo, elevou Lana Turner à categoria das divas do star system. Obviamente que o argumento foi burilado dos "excessos" eróticos e violentos para passar pelo código Hays.

Mas, surpresa, na Europa o grande Luchino Visconti em 1943 tinha feito "Obsessão", o seu primeiro filme, a partir do livro, obviamente com ajustamentos a Itália e com ressonâncias neo-realistas.

Bob Rafelson (1933-2022) foi o autor desta nova adaptação cinematográfica. Teve o apoio brilhante de David Mamet, um dos melhores dramaturgos americanos do nosso tempo, como argumentista.  Também realizou alguns filmes interessantes e várias das suas peças têm sido encenadas por cá com regularidade.

Rafelson é um realizador muito associado ao Jack Nicholson. Quando eram novos fizeram vários filmes juntos, nomeadamente "Destinos Opostos",  mais conhecido pelo título original "Five Easy Pieces" (1970).

"A viúva negra" (1987) também é uma óptima ficção. Foi ele que criou num programa televisivo (1966-1968) o fenómeno musical "The Monkies" uma banda pop que não existia na realidade. Acredito que muitos de vós ainda sabem trautear alguma das melodias. 

E agora o título. Segundo James M. Cain, naqueles anos os telegramas eram caros e normalmente portadores de más notícias. Um carteiro batendo à porta ou tocando à campainha duas vezes significava que os problemas estavam a caminho. Era um título metafórico. A justiça adiada. Para segunda via. O autor fez finca-pé e conseguiu impor o título para o livro. Como escreveu..."era um disparate", mas resultou. 

Para nós será certamente um grande momento de cinema. Sem disparates.

O Deserto dos Tártaros - Valerio Zurlini (1976)

C/ Jacques Perrin, Max Von Sidow, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Francesco Rabal. 141m. Princípio do século passado. Um jovem ten...