01 janeiro 2024

O talentoso Mr. Ripley - Anthony Minghella (1999)

Com Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Cate Blanchett
Duração: 133m

Há uns tempos vimos aqui, via  Hitchcock, o primeiro livro de Patricia Highsmith (1921-1995) travestido em filme - "O desconhecido do Norte Expresso" (1951). Que belo e requintado filme onde duas almas gémeas juntaram os seus talentos artísticos - da literatura e do cinema.

Passados uns anos, com mais uns livros editados, a escritora já tinha ganho um estatuto de  segurança e visibilidade no quadro editorial americano e inglês.

Depois de um processo complexo de arranca e pára, retrocesso e recomeço (que lhe era intrínseco na escrita dos seus romances e contos), engrena numa história forte sustentada num personagem especial: Tom Ripley. Um anti-herói. Um rapaz americano, encantador, simpático, humilde, fascinante, mas, no fundo, um assassino. Mata com a facilidade com que ri. Audacioso. Observador arguto e sistemático. Rejeita a realidade e acredita num mundo imaginário que vai criando de forma inteligente para seu próprio benefício. Personagem perverso, psicopata, ambíguo mesmo na vertente sexual - assexualidade claramente inclinada para o lado masculino.

Perversa e fascinante era também a autora, Patricia Highsmith. Quem tenha lido os diários que ela foi escrevendo ao longo da sua vida - "Diários e Cadernos", tijolo de mil e tal páginas, publicado pela Relógio D'Água, conclui facilmente isso. Muito inconstante, saltando de parcerias amorosas (homossexuais) com a facilidade de quem dá um passo em frente (não sendo coxo). Tendências alcoólicas fortes (os gins e os martinis eram a sua especialidade, mas também tinha boa boca para a cerveja e o vinho) e  solidão militante, mas sempre à procura de companhia. Uma alma atormentada.

É desse livro que respigo algumas coisas que ela registou (1954) quando estava a escrever o que viria a ser "O Talentoso Mr. Ripley". "As frases entravam no papel como pregos. Foi o livro mais fácil de escrever. Tive muitas vezes a sensação de que era Ripley quem escrevia, enquanto eu me limitava a passar à máquina".

Patrícia descreve o seu (anti)-herói como um seu alter ego. Tom Ripley é um rapaz americano encantador, humilde, mas...

Escreveu um analista literário referindo-se a Patricia Highsmith que "acima de tudo, são os que têm problemas mentais e inclinações criminosas que mais a fascinam, inspirando as suas melhores personagens." As ficções com o Tom Ripley são paradigmáticas dessa asserção.

O sucesso editorial do livro foi tão grande e a incidência das críticas sobre o personagem Tom Ripley foi tão rica e variada (com recensões nas áreas da medicina e da psicologia) que Patricia Highsmith acabou por criar até ao fim da sua vida mais quatro ficções com ele. Qualquer delas muito boa. As traduções estão aí à mão no mercado editorial português.

Pois foi a partir da primeira aventura do Tom Ripley que Anthony Minghella fez o filme do nosso contentamento de hoje.

Anthony Minghella, recordem-se, o autor de "O paciente inglês". Mas não o único, nem será certamente o último a pegar no personagem. O primeiro Tom Ripley até era fake. Uma ficção americana num filme francês. Alain Delon, o jovem actor que na altura fascinava muitas meninas, como Tom Ripley. "À luz do sol" (1960) uma boa realização de René Clement e o primeiro papel importante de Delon. Outros filmes com o personagem Tom Ripley são também de cineastas europeus. "O amigo americano" (1977) do Wim Wenders, com o Dennis Hopper, e "O jogo de Mr. Ripley " (2002) de Liliana Cavani, com o John Malkovich.

A partir do primeiro livro a Netflix fez recentemente uma série chamada "Ripley". Vale a pena.

Vamos à história. Complexa como a alma do Tom, um jovem em Nova York que faz pela vida com esquemas, pequenas aldrabices e fraudes. Foi abordado por um magnata da construção naval para ir a Itália persuadir o filho, que lá vivia à grande, beneficiando da fortuna familiar, a regressar aos EUA para assumir os negócios da família. Tom aceita o recado, bem pago, obviamente.

Na Europa insinua-se junto de Dickie, o filho, e da namorada, Marge, pretendente a escritora, e com eles passa a beneficiar de uma boa e luxuosa vida. Dickie, inconstante e  imaturo, introdu-lo nos meios do prazer. Restaurantes, festas, etc. E o jazz. Dickie, um saxofonista amador, circula pelas jam sessions dos clubes locais. A vida como divertimento.

Quando começa a perceber que o seu tempo de prazer e requinte junto do jovem casal vai acabar, não tem pruridos e assassina o jovem, assume a sua identidade e muda de aparência. Falsifica cheques, forja documentos. Mata outra vez. Anda por San Remo, Veneza, Roma. O enredo é complexo. Fiquemos por aqui para aumentar o frisson. Cabe a cada um de nós acompanhar os seus requintes perversos e a sua habilidade inata para ludibriar as polícias e quem mais for preciso, com sorte quanto baste. Um jogo de mimetismo. No fim, a caminho da Grécia, mais um assassínio. Peter, um músico fortemente atraído por ele, tem que ser eliminado. Se continuasse a  viver perceberia que ele era o outro.

Se há um trunfo indiscutível neste filme, para além da matéria-prima ficcional original, são os actores, supra-sumo da oferta de talento de há vinte anos atrás - Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Cate Blanchet e Philip Seymour Hoffman. Matt Damon faz de Tom Ripley e Philip Seymour Hoffman, actor espantoso, infelizmente já desaparecido, faz de Freddie, horrorosamente assassinado.

O filme foi nomeado para 5 Óscares. Não ganhou nenhum, mas a qualidade da ficção é inquestionável. Acompanhemos a sinuosidade de Tom Ripley com a sua duplicidade, falsidades, mentiras e assassínios. É um habilidoso. Temos que ter medo. Um conhecido crítico americano de cinema fez uma óptima síntese  do personagem: "Ele é um monstro, mas nós queremos que se safe."

Às vezes os equivalentes de Tom Ripley do nosso quotidiano estão mais perto de nós do que imaginamos. Que nunca sejamos por eles interpelados. Seria, no mínimo, perigoso. Disfarçada por um sorriso, uma faca afiada. Vade retro, Satanás!

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