Com Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Cate Blanchett
Há uns tempos vimos aqui,
via Hitchcock, o primeiro livro de
Patricia Highsmith (1921-1995) travestido em filme - "O desconhecido do
Norte Expresso" (1951). Que belo e requintado filme onde duas almas gémeas
juntaram os seus talentos artísticos - da literatura e do cinema.
Passados uns anos, com mais uns
livros editados, a escritora já tinha ganho um estatuto de segurança e visibilidade no quadro editorial
americano e inglês.
Depois de um processo complexo de
arranca e pára, retrocesso e recomeço (que lhe era intrínseco na escrita dos
seus romances e contos), engrena numa história forte sustentada num personagem
especial: Tom Ripley. Um anti-herói. Um rapaz americano, encantador, simpático,
humilde, fascinante, mas, no fundo, um assassino. Mata com a facilidade com que
ri. Audacioso. Observador arguto e sistemático. Rejeita a realidade e acredita
num mundo imaginário que vai criando de forma inteligente para seu próprio benefício.
Personagem perverso, psicopata, ambíguo mesmo na vertente sexual -
assexualidade claramente inclinada para o lado masculino.
Perversa e fascinante era também
a autora, Patricia Highsmith. Quem tenha lido os diários que ela foi escrevendo
ao longo da sua vida - "Diários e Cadernos", tijolo de mil e tal
páginas, publicado pela Relógio D'Água, conclui facilmente isso. Muito
inconstante, saltando de parcerias amorosas (homossexuais) com a facilidade de
quem dá um passo em frente (não sendo coxo). Tendências alcoólicas fortes (os
gins e os martinis eram a sua especialidade, mas também tinha boa boca para a
cerveja e o vinho) e solidão militante,
mas sempre à procura de companhia. Uma alma atormentada.
É desse livro que respigo algumas
coisas que ela registou (1954) quando estava a escrever o que viria a ser
"O Talentoso Mr. Ripley". "As frases entravam no papel como
pregos. Foi o livro mais fácil de escrever. Tive muitas vezes a sensação de que
era Ripley quem escrevia, enquanto eu me limitava a passar à máquina".
Patrícia descreve o seu
(anti)-herói como um seu alter ego. Tom Ripley é um rapaz americano encantador,
humilde, mas...
Escreveu um analista literário
referindo-se a Patricia Highsmith que "acima de tudo, são os que têm
problemas mentais e inclinações criminosas que mais a fascinam, inspirando as
suas melhores personagens." As ficções com o Tom Ripley são paradigmáticas
dessa asserção.
O sucesso editorial do livro foi
tão grande e a incidência das críticas sobre o personagem Tom Ripley foi tão
rica e variada (com recensões nas áreas da medicina e da psicologia) que
Patricia Highsmith acabou por criar até ao fim da sua vida mais quatro ficções
com ele. Qualquer delas muito boa. As traduções estão aí à mão no mercado
editorial português.
Pois foi a partir da primeira
aventura do Tom Ripley que Anthony Minghella fez o filme do nosso contentamento
de hoje.
Anthony Minghella, recordem-se, o
autor de "O paciente inglês". Mas não o único, nem será certamente o
último a pegar no personagem. O primeiro Tom Ripley até era fake. Uma ficção
americana num filme francês. Alain Delon, o jovem actor que na altura fascinava
muitas meninas, como Tom Ripley. "À luz do sol" (1960) uma boa
realização de René Clement e o primeiro papel importante de Delon. Outros
filmes com o personagem Tom Ripley são também de cineastas europeus. "O
amigo americano" (1977) do Wim Wenders, com o Dennis Hopper, e "O
jogo de Mr. Ripley " (2002) de Liliana Cavani, com o John Malkovich.
A partir do primeiro livro a
Netflix fez recentemente uma série chamada "Ripley". Vale a pena.
Vamos à história. Complexa como a
alma do Tom, um jovem em Nova York que faz pela vida com esquemas, pequenas
aldrabices e fraudes. Foi abordado por um magnata da construção naval para ir a
Itália persuadir o filho, que lá vivia à grande, beneficiando da fortuna
familiar, a regressar aos EUA para assumir os negócios da família. Tom aceita o
recado, bem pago, obviamente.
Na Europa insinua-se junto de
Dickie, o filho, e da namorada, Marge, pretendente a escritora, e com eles
passa a beneficiar de uma boa e luxuosa vida. Dickie, inconstante e imaturo, introdu-lo nos meios do prazer. Restaurantes,
festas, etc. E o jazz. Dickie, um saxofonista amador, circula pelas jam
sessions dos clubes locais. A vida como divertimento.
Quando começa a perceber que o
seu tempo de prazer e requinte junto do jovem casal vai acabar, não tem
pruridos e assassina o jovem, assume a sua identidade e muda de aparência.
Falsifica cheques, forja documentos. Mata outra vez. Anda por San Remo, Veneza,
Roma. O enredo é complexo. Fiquemos por aqui para aumentar o frisson. Cabe a
cada um de nós acompanhar os seus requintes perversos e a sua habilidade inata
para ludibriar as polícias e quem mais for preciso, com sorte quanto baste. Um
jogo de mimetismo. No fim, a caminho da Grécia, mais um assassínio. Peter, um
músico fortemente atraído por ele, tem que ser eliminado. Se continuasse a viver perceberia que ele era o outro.
Se há um trunfo indiscutível
neste filme, para além da matéria-prima ficcional original, são os actores,
supra-sumo da oferta de talento de há vinte anos atrás - Matt Damon, Gwyneth
Paltrow, Jude Law, Cate Blanchet e Philip Seymour Hoffman. Matt Damon faz de
Tom Ripley e Philip Seymour Hoffman, actor espantoso, infelizmente já
desaparecido, faz de Freddie, horrorosamente assassinado.
O filme foi nomeado para 5
Óscares. Não ganhou nenhum, mas a qualidade da ficção é inquestionável.
Acompanhemos a sinuosidade de Tom Ripley com a sua duplicidade, falsidades,
mentiras e assassínios. É um habilidoso. Temos que ter medo. Um conhecido crítico
americano de cinema fez uma óptima síntese
do personagem: "Ele é um monstro, mas nós queremos que se
safe."
Às vezes os equivalentes de Tom
Ripley do nosso quotidiano estão mais perto de nós do que imaginamos. Que nunca
sejamos por eles interpelados. Seria, no mínimo, perigoso. Disfarçada por um
sorriso, uma faca afiada. Vade retro, Satanás!
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