Com Michael Caine, Brendan Fraser, Hai Yen
Graham Greene, o escritor. Já nos
cruzámos com ele no filme "Santa Joana", do Otto Preminger. Foi o
argumentista desse filme a partir da peça de teatro homónima de George Bernard
Shaw. Como sabem, Graham Greene (1904-1991) foi um dos grandes escritores do século
XX. Jornalista, dramaturgo, argumentista e romancista. Alguns dos grandes
livros do nosso tempo foram da sua autoria.
O Prémio Nobel não lhe foi
atribuído, um dos grandes falhanços da instituição norueguesa (há mais... nos
últimos anos, António Lobo Antunes e Philip Roth, pelo menos). Personagem
complexa, atípica, nem sempre fácil de posicionar nos quadrantes do pensamento
do seu tempo. Foi do Partido Comunista inglês e foi assumidamente católico
(ele, de um país orgulhosamente protestante). E foi também, durante a guerra,
um homem dos serviços secretos ingleses. Foi o responsável pelo sector ibérico
(Portuguese Desk) do MI6, contra espionagem. Além disso foi amigo do célebre
espião inglês, o traidor Kim Philby, agente duplo, que, no auge da guerra fria,
se passou para os soviéticos com grande escândalo em 1963. Graham Greene
visitou-o várias vezes em Moscovo, amigos amigos, política e ética à parte.
Graham Greene foi uma espécie de
recolector na sua vivência de escritor. Na circulação pelo mundo ia buscando
factos e personagens que transfigurava em ficções. America Latina - México
("0 Poder e a Glória"), Cuba (antes de Fidel e Che), Haiti ("Os
farsantes"), Argentina ("O cônsul honorário"). Também criou
ficções em África em torno das colónias inglesas.
"O Americano Tranquilo"
passa-se no sudoeste asiático. O livro foi publicado em 1955 e a acção decorre
em 1952, no Vietname, ou antes Indochina. Recuemos mais de um século. O Império
Colonial Francês na sua extensão a leste. Desde 1887 que os franceses se
apoderaram de um extenso território englobando três identidades nacionais -
Vietname, Laos e Cambodja.
Chamavam-lhe Indochina.
Da muita riqueza de que se
apropriaram a mais significativa foi a borracha. A colonização a ferro e fogo
servia os grandes interesses da burguesia de Paris. As fortunas acumulavam-se
desmesuradamente. Quando a borracha deixou de ser essencial para os mercados
(sucedâneos químicos mais baratos e funcionais) foi a debandada. No fim dos
anos 40, princípio de 50, os processos de independência ocorreram com alguma
naturalidade, mas pressionada e pervertida pela resistência política. Os
franceses sofreram uma humilhante derrota militar (Batalha de Dien Bien Phu) em
1954 e puseram-se a andar com o rabo entre as pernas.
Depois é o caos. Ainda mais caos.
A guerrilha comunista, bem organizada, a conquistar o poder, nacionalismos
exacerbados, lutas fratricidas, atentados bombistas, jogo sujo, uma terra de
ninguém mergulhada em sangue. Em pano de fundo era a guerra fria em elevada
propulsão. A América, que se tinha enterrado na Guerra da Coreia em 1950, tinha
começado a apoiar a França, com armas e munições e conselheiros
militares. Era a estratégia da contenção do comunismo. Passados uns anos, os
EUA estavam atolados no pesadelo do Vietname (1965-1973) e não saíram de lá
vivos.
É neste contexto histórico e
geográfico que decorre a acção. Saigão. Thomas Fowler (Michael Caine)
correspondente do "Times" de Londres, jornalista sénior, já viu
muito, já escreveu muito. Conhece aquele mundo como as palmas das suas mãos. Na
verdade, já é o seu mundo. Londres está muito longe. Alden Pyle (Brendan
Fraser), americano, jovem, técnico oftalmológico falso, na verdade um agente da
CIA, altamente preparado (até falando vietnamita).
Phuong (Hai Hien), uma jovem
vietnamita, bela, exótica e misteriosa, a fazer pela vida. Oscilante entre o
amor e a protecção do jornalista inglês Fowler e o amor e um futuro aconchegado
(casada) na América com Pyle.
No vaivém dos afectos, a dureza
do estado de guerra civil. Um grande atentado bombista, que mata muitos
cidadãos, orquestrado pelos americanos para ser atribuído aos comunistas revela
a essência das coisas. Naquele mundo de loucura a traição e o crime são a
normalidade. A duplicidade é alimentada pelas sombras (o pacato, gentil e
profissional secretário de Fowler é um assassino quando a sua causa o
justifica). Nada é o que parece.
O jovem americano da CIA é
assassinado, o jornalista sénior continua a cobrir o conflito no futuro e a
jovem vietnamita volta ao amor antigo. Se calhar, quando vamos vendo as
primeiras páginas dos artigos escritos por Fowler - mostrando a evolução monstruosa
do conflito nos anos seguintes - já ela não fará parte da história.
Phillip Noyce é um australiano
que não resistiu ao fascínio de Hollywood e por lá tem feito alguns filmes
interessantes. Pegou na ficção de Graham Greene, mas em segunda via. Já em 1958
Joseph L. Mankiewicz, realizador , argumentista e produtor ("Júlio
César", "Eva", "Condessa Descalça") tinha feito uma
primeira adaptação ao cinema, com a qualidade do grande mestre que ele era, mas
com o argumento enviesado pró-americano (Graham Greene ficou furioso com a
omissão da mensagem anti-guerra do livro), muito menos neutro do que a proposta
do escritor que se pode sintetizar no que ele escreveu: "A natureza humana
não é preto e branco mas preto e cinzento."
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