01 janeiro 2024

Lady Chatterley - Pascale Ferran (2006)

Com Marina Hands, Jean Louis Coulloc'h, Hyppolyte Girardot
Duração: 158m

D. H. Lawrence (1895-1930). Escritor inglês. Obra prolífica. Romancista, poeta, dramaturgo, escritor de viagens e crítico literário. Intelectual controverso no seu tempo. A temática dos seus livros acompanhava a dinâmica da sua vivência - a modernidade, a industrialização, a alienação social e a sexualidade. 

"O Arco-íris", "Mulheres Apaixonadas", "O Amante de Lady Chatterley", "A Serpente Emplumada". Pelo menos este livros li-os a partir da Biblioteca da Gulbenkian, passados para as minhas mãos com a cumplicidade do bibliotecário. Naquele tempo de iniciação à vida havia um factor adicional de atracção - a sexualidade, a linguagem "forte", explícita, as descrições bem "apimentadas" daqueles livros.

O escritor não teve vida fácil na sociedade inglesa, onde a hipocrisia é cultivada quase como um valor (naqueles tempos e agora). D. H. Lawrence foi acusado de pornografia e obscenidade. Foi perseguido judicialmente no quadro do "Obscene Publications Act" e acabou por sair de Inglaterra. Com uma reputação controversa, optou pelo exílio voluntário. Teve uma vida relativamente curta (morreu de tuberculose aos 40 anos) e andou um pouco à deriva. Viveu na Alemanha e na França, antes da I Grande Guerra. Depois, na Austrália, nos EUA, no México e no Sri Lanka, em peregrinação exemplar como lhe chamou.

Era um personagem complicado. Oriundo da classe operária, naquela altura muito politizada na Inglaterra, começou por ser marxista e antimilitarista, mas terminou, nas palavras de Bertrand Russell "fascista proto-alemão". Harold Bloom, o grande classificador do talento literário do século XX, escreveu que "na interminável guerra entre homens e mulheres, Lawrence luta em ambos os lados". Nesse sentido temos que lhe tirar o chapéu. Por exemplo, "Mulheres apaixonadas" é uma ficção sobre a homossexualidade naqueles tempos de chumbo.

Mas vamos a "O amante de Lady Chatterley", base do filme. Foi editado em 1928 (embora tenha tido mais duas versões alternativas) e causou controvérsia e escândalo. Na verdade, só foi oficialmente publicado em Inglaterra e nos EUA trinta anos depois.

O autor elucida bem o leitor quando escreveu sobre ele: "Trabalhei sempre o mesmo tema, encarar a revolução sexual não como algo vergonhoso, mas válido e precioso. Penso que neste romance fui mais longe do que em qualquer outro. Para mim, é uma obra bonita, terna e frágil, tal como a nudez."

A partir deste romance já se fizeram múltiplas adaptações para cinema e televisão, mas não se pode dizer que esta é mais uma. Para já, é bizarra, porque uma história intrinsecamente inglesa é filmada por uma realizadora francesa e falada em francês. Depois, tem qualidade e bom gosto, que foram compensados com 5 Césares (os Óscares franceses) - filme, actriz, argumento (adaptado), fotografia e guarda-roupa.

Anos de dor após a I Guerra Mundial. Num palácio/castelo um jovem casal aristocrata arrasta a sua existência numa nulidade polida e bem educada. Ele (Sir Clifford) foi gravemente ferido na guerra, ficou quase paralisado e impotente. Ela (Constance) vive na monotonia e na raiva surda da sexualidade não fruída, do desejo não realizado. Tristeza, melancolia, angústia e tédio. O spleen de "Fleurs du Mal" de Baudelaire. Um dia, acidentalmente, foi dar um recado ao couteiro (Parkin) da propriedade. Mal passa, pela primeira vez, a cancela que separa o palácio da floresta de Wragby, há uma nova vida a acontecer. A cancela é a metáfora. Como dizem os amigos do marido lá em casa, é o destino, não há nada a fazer.

O couteiro torna-se o referente da sua vida. Do primeiro encontro envergonhado e desconfiado até ao enlace dos corpos em crescente espiral de trocas e prazeres foi um instante. As diferenças sociais e educacionais são erodidas pelo imediatismo urgente da fricção das peles e da descoberta dos corpos. Cada vez mais ela arrisca e o marido consente (dentro das regras da hipocrisia da classe). Nunca a fusão de classes acontece. Afastamento e aproximação.  Uma viagem ao interior de cada um deles. No fim, nada será igual. Ela irá ter um filho dele com o acordo do marido. No fim, muitos promessas para o futuro. Quer um quer o outro sabem que estão a mentir-se mutuamente. A envolvente social é mais forte. As coisas são assim.

Pascale Ferran é uma realizadora e argumentista francesa, com poucos filmes, mas politicamente empenhada em causas sociais.

Com este filme atingiu limiares superiores. Quando estreou em Portugal, o crítico do "Público" escreveu: "É uma obra-prima absoluta. Traz-nos uma actriz, Marina Hands, em estado de graça."

Não exageremos, mas é uma bela obra cinematográfica onde os pruridos ficam lá para atrás. É um belo desafio até físico - são quase três horas. Além do mais é uma espécie de exaltação da natureza. Vale a pena.

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