Com Marina Hands, Jean Louis Coulloc'h, Hyppolyte Girardot
D. H. Lawrence (1895-1930). Escritor inglês. Obra prolífica. Romancista,
poeta, dramaturgo, escritor de viagens e crítico literário. Intelectual
controverso no seu tempo. A temática dos seus livros acompanhava a dinâmica da
sua vivência - a modernidade, a industrialização, a alienação social e a
sexualidade.
"O Arco-íris", "Mulheres Apaixonadas", "O Amante
de Lady Chatterley", "A Serpente Emplumada". Pelo menos este
livros li-os a partir da Biblioteca da Gulbenkian, passados para as minhas mãos
com a cumplicidade do bibliotecário. Naquele tempo de iniciação à vida havia um
factor adicional de atracção - a sexualidade, a linguagem "forte",
explícita, as descrições bem "apimentadas" daqueles livros.
O escritor não teve vida fácil na sociedade inglesa, onde a hipocrisia é
cultivada quase como um valor (naqueles tempos e agora). D. H. Lawrence foi
acusado de pornografia e obscenidade. Foi perseguido judicialmente no quadro do
"Obscene Publications Act" e acabou por sair de Inglaterra. Com uma
reputação controversa, optou pelo exílio voluntário. Teve uma vida
relativamente curta (morreu de tuberculose aos 40 anos) e andou um pouco à
deriva. Viveu na Alemanha e na França, antes da I Grande Guerra. Depois, na
Austrália, nos EUA, no México e no Sri Lanka, em peregrinação exemplar como lhe
chamou.
Era um personagem complicado. Oriundo da classe operária, naquela altura
muito politizada na Inglaterra, começou por ser marxista e antimilitarista, mas
terminou, nas palavras de Bertrand Russell "fascista proto-alemão".
Harold Bloom, o grande classificador do talento literário do século XX,
escreveu que "na interminável guerra entre homens e mulheres, Lawrence
luta em ambos os lados". Nesse sentido temos que lhe tirar o chapéu. Por
exemplo, "Mulheres apaixonadas" é uma ficção sobre a homossexualidade
naqueles tempos de chumbo.
Mas vamos a "O amante de Lady Chatterley", base do filme. Foi
editado em 1928 (embora tenha tido mais duas versões alternativas) e causou
controvérsia e escândalo. Na verdade, só foi oficialmente publicado em
Inglaterra e nos EUA trinta anos depois.
O autor elucida bem o leitor quando escreveu sobre ele: "Trabalhei
sempre o mesmo tema, encarar a revolução sexual não como algo vergonhoso, mas
válido e precioso. Penso que neste romance fui mais longe do que em qualquer
outro. Para mim, é uma obra bonita, terna e frágil, tal como a nudez."
A partir deste romance já se fizeram múltiplas adaptações para cinema e televisão, mas não se pode dizer que esta é mais uma. Para já, é bizarra, porque uma história intrinsecamente inglesa é filmada por uma realizadora francesa e falada em francês. Depois, tem qualidade e bom gosto, que foram compensados com 5 Césares (os Óscares franceses) - filme, actriz, argumento (adaptado), fotografia e guarda-roupa.
Anos de dor após a I Guerra Mundial. Num palácio/castelo um jovem casal
aristocrata arrasta a sua existência numa nulidade polida e bem educada. Ele
(Sir Clifford) foi gravemente ferido na guerra, ficou quase paralisado e
impotente. Ela (Constance) vive na monotonia e na raiva surda da sexualidade
não fruída, do desejo não realizado. Tristeza, melancolia, angústia e tédio.
O spleen de "Fleurs du Mal" de Baudelaire. Um
dia, acidentalmente, foi dar um recado ao couteiro (Parkin) da propriedade. Mal
passa, pela primeira vez, a cancela que separa o palácio da floresta de Wragby,
há uma nova vida a acontecer. A cancela é a metáfora. Como dizem os amigos do
marido lá em casa, é o destino, não há nada a fazer.
O couteiro torna-se o referente da sua vida. Do primeiro encontro
envergonhado e desconfiado até ao enlace dos corpos em crescente espiral de
trocas e prazeres foi um instante. As diferenças sociais e educacionais são
erodidas pelo imediatismo urgente da fricção das peles e da descoberta dos
corpos. Cada vez mais ela arrisca e o marido consente (dentro das regras da
hipocrisia da classe). Nunca a fusão de classes acontece. Afastamento e
aproximação. Uma viagem ao interior de cada um deles. No fim, nada será
igual. Ela irá ter um filho dele com o acordo do marido. No fim, muitos
promessas para o futuro. Quer um quer o outro sabem que estão a mentir-se
mutuamente. A envolvente social é mais forte. As coisas são assim.
Pascale Ferran é uma realizadora e argumentista francesa, com poucos filmes,
mas politicamente empenhada em causas sociais.
Com este filme atingiu limiares superiores. Quando estreou em Portugal, o
crítico do "Público" escreveu: "É uma obra-prima absoluta.
Traz-nos uma actriz, Marina Hands, em estado de graça."
Não exageremos, mas é uma bela obra cinematográfica onde os pruridos
ficam lá para atrás. É um belo desafio até físico - são quase três horas. Além
do mais é uma espécie de exaltação da natureza. Vale a pena.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.