01 janeiro 2024

Quem tem medo de Virginia Woolf? - Mike Nichols

Com Elizabeth Taylor, Richard Burton, Sandy Dennis, George Segall
Duração: 126 min

Imaginem um apresentador com ar rasca, cigarro ao canto da boca. Microfone acoplado ao punho, como os vendedores de panelas das feiras. Voz cavernosa. Boa tarde senhoras e senhores. Vamos assistir, em directo, ao grande combate de boxe, ao nível dos campeões Cassius Clay e Mike Tyson. Sem regras. Golpes baixos, patadas imprevisíveis, ataques de surpresa, socos nos rins. Vale tudo menos tirar olhos, como dizíamos quando éramos putos. Vai haver sangue. Luta até à morte, como os gladiadores nos tempos áureos do Império Romano. É um falso combate desigual entre homem e mulher (a mulher tem potentes uppercuts). Certamente vão haver pontos para cada lado. Duelo infatigável, tudo serve como instrumento de agressão - as palavras, os punhos, os actos, as omissões. O espectáculo será maravilhosamente horripilante, mas é isso que todos nós esperamos num ringue. Uma boa guerra. Que o combate comece. Soa o gongo. Aqui vamos nós...

Duas horas da manhã. Um casal - George e Martha - atravessa um campus universitário. Estiveram numa festa na casa do reitor. Vêm bêbados (vamos percebendo que é o estado normal deles). Entram em casa e entre mais uns copos e uns insultos mútuos (um perverso jogo afectivo que eles cultivam) ficam à espera de um jovem professor recém chegado à universidade e sua mulher, convidados na festa que tinham deixado. Aquela noite, provavelmente similar a muitas noites daquele casal, alimentada a whisky e brandy, vai ser uma longa sessão de striptease emocional. Nada ficará incólume. Vão até à medula dos ossos e ao fundo das almas.

George (Richard Burton ) é professor de História, alcoólico, percebe-se que medíocre (e ele tem consciência disso) e Martha (Elizabeth Taylor), a sua mulher, também alcoólica, filha do reitor. Vivem uma vida de contínua desavença, tempestuosa, de crueldade mútua, amargos duelos de palavras, humilhação. Falam sem comunicar. Claustrofobia a dois. Histeria. Comédia negra.

Naquela noite, azar dos deuses, o excesso de álcool deu-lhes para convidar (àquela hora despropositada) o jovem professor (George Segal) e a sua mulher (Sandy Dennis) recém chegados à universidade. Uma visita de cortesia transforma-se gradualmente na participação, não totalmente neutra ou isenta,  num jogo sado-masoquista que revela o inominável (os fantasmas associados ao filho que nunca existiu) e desencadeia a traição sexual da mulher, mas sempre em negação. George e Martha (se calhar não se odeiam, toleram-se) criaram como que uma identidade de negação do real, sad, sad, sad, como ela diz, total alienação da vida, jogo perigoso. Estão todos loucos. Cada situação é, citando George one more game.

Quando a manhã chega, perante os destroços de uma noite muito intensa, disruptiva, voltamos à metáfora pugilística. Quem ganhou? Quem perdeu? Combate suicidário. Cada um matou e  morreu. E assim será provavelmente até ao fim dos seu dias. E o jovem casal de aprendizes da vida? Safar-se-ão? Se calhar...Fica ao critério do imaginário de cada um de vocês.

"Quem tem medo de Virgínia Woolf?". Com regularidade ouvimos o casal mais velho numa cantilena com esta frase. Que título bizarro para esta ficção. Tanto quanto sabemos a Virginia Woolf (coitada, suicidou-se) não metia medo a ninguém, ainda que a sua obra literária não seja propriamente muito fácil de digerir. A coisa é mais fácil. Nos anos 60, era muito generalizada nos meios académicos americanos, aquela cantilena com o sentido figurado de lobo (wolf) mau. Quem tem medo do lobo mau? Pois Edward Albee, jovem dramaturgo americano, apropriou-se dela para titular a sua peça de teatro, estreada em Nova York em 1962. Depois disso nunca mais saiu dos referenciais da dramaturgia contemporânea, sendo encenada por todo o lado. Por cá também. Da Broadway foi "transferida" para Hollywood, umas boas horas de avião, e deu este filme.

Edward Albee foi um grande escritor americano de teatro (referência incontrolável da dramaturgia do século XX) que nos deixou uma mão cheia de obras-primas, algumas das quais têm tido encenações por cá, e com edições traduzidas disponíveis nas livrarias.

Do teatro para o cinema. O caminho nem sempre é fácil. Muitas vezes o que funciona com as convenções do teatro falha na transferência para o ecrã. Aqui, Mike Nichols acertou. Com o know how da encenação na Broadway (com vários anos de teatro em Nova York) Mike Nichols fez aqui o seu primeiro filme de uma carreira cinematográfica muito interessante e fez poucas alterações - umas saídas para o relvado, uma curta viagem de automóvel...Mas não deixa de ser uma bela obra cinematográfica, com o jogo de corpo dos actores a funcionar numa coreografia perigosa.

Cinco Óscares. Melhor actriz (Elizabeth Taylor) e melhor actriz secundária (Sandy Dennis), melhor fotografia (Haskel Wexler).

Elizabeth Taylor e Richard Burton. Referências do nosso imaginário juvenil. O que eles representaram, de forma brilhante, neste filme, viveram-no certamente na pele, em situações pesadas a que a imprensa ia dando eco desde 1963, quando fizeram "Cleópatra" e começaram o duo/duelo amoroso. Se calhar lá em casa ou no hotel era assim quando acabavam as filmagens. Sempre treinavam. Casamentos, divórcios, separações, com excessos de toda a ordem pelo meio. Fizeram uma época.

E o Mike Nichols, também já andou por aqui ("A Difícil Arte de Amar", Jack Nicholson e Meryl Streep). Só para nos situarmos lembro que fez "A Primeira Noite" e "Artigo 22" (este, com o Orson Welles, também já passou).

Os dados estão lançados. O gongo está a soar. Coloquem-se nos vossos lugares. Evitem levar com um murro em cheio. Mesmo metafórico, dói.

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