Imaginem um apresentador com ar
rasca, cigarro ao canto da boca. Microfone acoplado ao punho, como os
vendedores de panelas das feiras. Voz cavernosa. Boa tarde senhoras e senhores.
Vamos assistir, em directo, ao grande combate de boxe, ao nível dos campeões
Cassius Clay e Mike Tyson. Sem regras. Golpes baixos, patadas imprevisíveis,
ataques de surpresa, socos nos rins. Vale tudo menos tirar olhos, como dizíamos
quando éramos putos. Vai haver sangue. Luta até à morte, como os gladiadores
nos tempos áureos do Império Romano. É um falso combate desigual entre homem e
mulher (a mulher tem potentes uppercuts). Certamente vão haver pontos para cada
lado. Duelo infatigável, tudo serve como instrumento de agressão - as palavras,
os punhos, os actos, as omissões. O espectáculo será maravilhosamente
horripilante, mas é isso que todos nós esperamos num ringue. Uma boa guerra.
Que o combate comece. Soa o gongo. Aqui vamos nós...
Duas horas da manhã. Um casal -
George e Martha - atravessa um campus universitário. Estiveram numa festa na
casa do reitor. Vêm bêbados (vamos percebendo que é o estado normal deles).
Entram em casa e entre mais uns copos e uns insultos mútuos (um perverso jogo
afectivo que eles cultivam) ficam à espera de um jovem professor recém chegado
à universidade e sua mulher, convidados na festa que tinham deixado. Aquela
noite, provavelmente similar a muitas noites daquele casal, alimentada a whisky
e brandy, vai ser uma longa sessão de striptease emocional. Nada ficará
incólume. Vão até à medula dos ossos e ao fundo das almas.
George (Richard Burton ) é
professor de História, alcoólico, percebe-se que medíocre (e ele tem
consciência disso) e Martha (Elizabeth Taylor), a sua mulher, também alcoólica,
filha do reitor. Vivem uma vida de contínua desavença, tempestuosa, de crueldade
mútua, amargos duelos de palavras, humilhação. Falam sem comunicar.
Claustrofobia a dois. Histeria. Comédia negra.
Naquela noite, azar dos deuses, o
excesso de álcool deu-lhes para convidar (àquela hora despropositada) o jovem
professor (George Segal) e a sua mulher (Sandy Dennis) recém chegados à
universidade. Uma visita de cortesia transforma-se gradualmente na participação,
não totalmente neutra ou isenta, num
jogo sado-masoquista que revela o inominável (os fantasmas associados ao filho
que nunca existiu) e desencadeia a traição sexual da mulher, mas sempre em
negação. George e Martha (se calhar não se odeiam, toleram-se) criaram como que
uma identidade de negação do real, sad, sad, sad, como ela diz, total alienação
da vida, jogo perigoso. Estão todos loucos. Cada situação é, citando George one
more game.
Quando a manhã chega, perante os
destroços de uma noite muito intensa, disruptiva, voltamos à metáfora
pugilística. Quem ganhou? Quem perdeu? Combate suicidário. Cada um matou e morreu. E assim será provavelmente até ao fim
dos seu dias. E o jovem casal de aprendizes da vida? Safar-se-ão? Se
calhar...Fica ao critério do imaginário de cada um de vocês.
"Quem tem medo de Virgínia
Woolf?". Com regularidade ouvimos o casal mais velho numa cantilena com
esta frase. Que título bizarro para esta ficção. Tanto quanto sabemos a
Virginia Woolf (coitada, suicidou-se) não metia medo a ninguém, ainda que a sua
obra literária não seja propriamente muito fácil de digerir. A coisa é mais
fácil. Nos anos 60, era muito generalizada nos meios académicos americanos,
aquela cantilena com o sentido figurado de lobo (wolf) mau. Quem tem medo do
lobo mau? Pois Edward Albee, jovem dramaturgo americano, apropriou-se dela para
titular a sua peça de teatro, estreada em Nova York em 1962. Depois disso nunca
mais saiu dos referenciais da dramaturgia contemporânea, sendo encenada por
todo o lado. Por cá também. Da Broadway foi "transferida" para
Hollywood, umas boas horas de avião, e deu este filme.
Edward Albee foi um grande
escritor americano de teatro (referência incontrolável da dramaturgia do século
XX) que nos deixou uma mão cheia de obras-primas, algumas das quais têm tido
encenações por cá, e com edições traduzidas disponíveis nas livrarias.
Do teatro para o cinema. O
caminho nem sempre é fácil. Muitas vezes o que funciona com as convenções do
teatro falha na transferência para o ecrã. Aqui, Mike Nichols acertou. Com o
know how da encenação na Broadway (com vários anos de teatro em Nova York) Mike
Nichols fez aqui o seu primeiro filme de uma carreira cinematográfica muito
interessante e fez poucas alterações - umas saídas para o relvado, uma curta
viagem de automóvel...Mas não deixa de ser uma bela obra cinematográfica, com o
jogo de corpo dos actores a funcionar numa coreografia perigosa.
Cinco Óscares. Melhor actriz
(Elizabeth Taylor) e melhor actriz secundária (Sandy Dennis), melhor fotografia
(Haskel Wexler).
Elizabeth Taylor e Richard Burton. Referências
do nosso imaginário juvenil. O que eles representaram, de forma brilhante,
neste filme, viveram-no certamente na pele, em situações pesadas a que a
imprensa ia dando eco desde 1963, quando fizeram "Cleópatra" e
começaram o duo/duelo amoroso. Se calhar lá em casa ou no hotel era assim
quando acabavam as filmagens. Sempre treinavam. Casamentos, divórcios,
separações, com excessos de toda a ordem pelo meio. Fizeram uma época.
E o Mike Nichols, também já andou
por aqui ("A Difícil Arte de Amar", Jack Nicholson e Meryl Streep).
Só para nos situarmos lembro que fez "A Primeira Noite" e
"Artigo 22" (este, com o Orson Welles, também já passou).
Os dados estão lançados. O gongo
está a soar. Coloquem-se nos vossos lugares. Evitem levar com um murro em
cheio. Mesmo metafórico, dói.

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