01 janeiro 2024

Rebecca - Alfred Hitchcock (1940)

Com Laurence Olivier, Joan Fontaine, Judith Anderson
Duração: 130m

Alfred Hitchcock e Daphne Du Maurier. O cinema e a escrita. 

Cruzaram-se por três vezes. O último filme que ele realizou em Inglaterra, "A Pousada da Jamaica" (1939) - um filme fraquinho - foi feito a partir do romance da escritora com o título homónimo. No ano seguinte, o primeiro que fez nos EUA foi "Rebecca", a partir de outro romance dela, acabado de publicar. Muitos anos depois, em 1963, outro clássico, "Os Pássaros",  foi desenvolvido a partir de uma short story dela.

Daphne Du Maurier, uma escritora inglesa, contemporânea de Graham Greene. E obviamente de Hitchcock (1899-1980). Nas primeiras décadas do século XX teve os seus créditos de mercado. Escritora de best-sellers românticos, com um toque de mistério e às vezes de macabro, romântico gótico, teve fama e fez fortuna, casou com um Montague Browning, família do círculo dos reizinhos ingleses. Portanto fazia parte dos próceres do Império, acabando contemplada com os louros institucionais de Dama do Império Britânico.  

"Rebecca" foi publicado em 1938 e criou de imediato apetência no universo do cinema. Foi o grande David O. Selznick que acabou por comprar os direitos sobre o livro, ainda que nessa altura estivesse enfiado até ao pescoço na longa e turbulenta produção de "E Tudo o Vento Levou". Selznick, com elevado sentido de negócio (complementado pelo superior sentido artístico, como poucos produtores tiveram na longa história de Hollywood) percebeu que havia no livro matéria-prima suculenta para um filme.

Ninguém mais adequado do que Hitchcock, que Selznick tinha aliciado para sair de Inglaterra e ir para Hollywood. Acabado o último filme nos estúdios ingleses ("A Pousada da Jamaica"), aquele mudou-se de armas e bagagens para a América, ao mesmo tempo que os nazis começavam a pôr a Europa em convulsão dramática. Selznick pô-lo a dirigir o processo enquanto ele afinava a versão final da sua obra máxima "E tudo o vento levou".

Com dois artistas tão afirmativos, a coisa não foi fácil (Selznick escreveu sobre Hitchcock: "Não é má pessoa... embora não seja exactamente o companheiro adequado para ir acampar." Provavelmente Hitchcock pensava o mesmo ou pior do Selznick. Egos...). Depois de vários argumentistas ao barulho, de versões mais distantes ou mais fiéis ao livro, de guerras de argumentação entre os dois, por choques de personalidade (ficaram célebres na história do cinema os "Memorandos" que Selznick escrevia para os colaboradores dos seus filmes com indicações precisas, sugestões pertinentes, propostas técnicas, escolhas de actores, tudo e mais alguma coisa que tivesse que ver com a produção)  Hitchcock conseguiu arrancar com as filmagens, ele ainda em aprendizagem de Hollywood, dos seus usos e costumes, das suas individualidades, dos seus truques, dos seus rituais e da especificidade do star system.

Era uma história à medida de Hitchcock, cheia de mistério e emoção, ele já com uma identidade, uma imagem de marca, um currículo e fama, ganhos nos estúdios londrinos.

Uma jovem de origem humilde (Joan Fontaine), dama de companhia de uma velha rica exasperante, casa-se com um aristocrata viúvo, Maxim (Laurence Olivier). Em Manderley, mansão  na Cornualha, o ambiente que gradualmente se lhe revela é hostil, agressivo, perturbador, personificado na hedionda governanta, a sra. Danvers (Judith Anderson), que constantemente lhe recorda quão maravilhosa, bela e sofisticada era Rebecca, a antiga esposa de Maxim, morta por afogamento. Toda a ficção funciona no sentido da opressão. Uma complexa teia psicológica, o peso e a presença invisível da outra, vai enredando a jovem levando-a ao desejo do suicídio. No fim, a inversão de tudo. A quebra da imagem construída, a revelação, a verdade - Rebecca  (permanentemente citada, sempre presente) era pérfida, cruel e adúltera.

Hitchcock sabia muito de cinema e de actores. Fez as escolhas acertadas. Laurence Olivier, o grande actor, encenador e realizador shakespeariano ("Henrique V", "Hamlet" e "Ricardo III"), dá densidade e requinte aristocrático a um personagem em que o fingimento é a forma de estar. Nada na vida amorosa dele tinha sido como contado pela sra. Danvers. Tudo era uma farsa, uma convenção socialmente concertada. A aristocracia tem os seus códigos. A porcaria escondida/embrulhada num manto de organza. A cheirar bem.

Joan Fontaine - voltaria a fazer outro filme com o mestre, na companhia de Cary Grant, "Suspeita" (1942) onde ganhou o Oscar de melhor actriz - foi a jovem esposa ideal. Era a irmã mais nova de Olivia d'Havilland, actriz que brilhou em "E tudo o vento levou" que  Selznick estava naquela altura a acabar. Duas irmãs, duas estrelas máximas de Hollywood, que tinham uma relação familiar quase nula. As más línguas dizem que se odiavam. Coisas da vida. 

Olivia d'Havilland ganhou nos anos 40 o Oscar por duas vezes.

Judith Anderson, a governanta, a má da fita. Tão perversa, horrivel. Teve a morte que merecia, no incêndio emblemático que destruiu para sempre Manderley. Obviamente acredito que esta era a personagem preferida do mestre. Deve-lhe ter dado um gozo suplementar criar aquela identidade diabólica. Aquele olhar esmagava qualquer pessoa decente.

Dez nomeações para os Oscares teve "Rebecca" e foi contemplado com dois - melhor filme e melhor fotografia. Hitchcock fez com "Rebecca" coisas brilhantes em termos de significação. A câmara orientava os sentidos num jogo dinâmico virtuoso, definia os significados e, em certo sentido, criava o quadro ético onde se movimentavam as personagens. Note-se o último plano. Quando tudo arde, num quadro apocalíptico, a câmara entra pelo quarto proíbido e detém-se numa almofada da cama, num pormenor, uma letra - R. De Rebecca. 

Será que a memória de Rebecca desaparecerá para sempre, com o passado consumido pelo fogo? Ou continuará a assombrar o casal que, após o pesadelo, procurará  uma segunda oportunidade?

Se fosse Hitchcock a decidir, seria certamente o segundo quadro. O Arturo Pérez-Reverte, no último livro, "O Problema Final" tem uma frase com que concordo e que se enquadra perfeitamente com o filme: "Uma história perfeita para o gordalhufo libidinoso do Hitchcock, que adorava maltratar mulheres bonitas no ecrã."

Sem qualquer dúvida. A nós cabe-nos fruir com prazer esta ficção requintada num mundo que não é o nosso mundo.

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