01 janeiro 2024

L.A. Confidential - Curtis Hanson (1997)

Com Kevin Spacey, Russell Crowe, Guy Pearce, Kim Basinger, Danny DeVito
Duração: 137m

James Ellroy escritor de policiais. Ou só mesmo escritor. Um grande escritor. Uma forte identidade literária. Na melhor tradição do Raymond Chandler e do Dashiell Hammett, umas décadas depois apareceu com um conjunto de livros que marcaram o imaginário americano dos anos 80 e 90. A matriz policial (o romance negro) marca a ficção. Los Angeles e a Califórnia são o espaço privilegiado e os anos 50 é o tempo. O estilo da narrativa é directo, bruto. Poliédrico. Frases curtas, impactantes. Personagens a dançar perigosamente, sobre o fio navalha, nos limites da lei. Gente dura, gente dúbia, mesmo quando do lado bom.

Quer pelo estilo, quer pelos valores e posições, não me custa nada associar Ellroy com Céline ("Viagem ao fim da noite", "Morte a crédito"). O americano será certamente acólito de Trump e o francês foi anti-semita e colaborou com os nazis. Escritores malditos ambos, mas com uma escrita avassaladora.

James Ellroy teve uma vivência que lhe alimenta as ficções e o estilo. Durante muito tempo viveu fora da normalidade social. Marginal, sem abrigo, drogado, alcoólico. Conseguiu safar-se (às vezes acontece) e com talento deu a volta por cima. Escreveu o primeiro livro em 1981 e passada meia dúzia de anos conquistou um lugar de consagração com "A Dália Negra". Um grande romance policial a partir de uma experiência pessoal dramática.

Em 1958,  a mãe do escritor foi assassinada quando ele tinha 10 anos e a polícia nunca  conseguiu resolver o caso. A partir de memórias difusas, de ecos familiares e de muita  investigação, Ellroy criou uma ficção que é também um mergulho de busca interior.

A sua obra, densa, tem a matriz ficcional do romance policial, mas vai para além. É um descrente do homem, um escritor cínico, acredita pouco na regeneração.

Livros como o citado, ou outros como os que têm tradução em Portugal, são exemplos desse mundo sujo, perverso, corrompido e mórbido. Vale a pena conhecer o universo do James Ellroy e livros como "Sangue vadio", "No escuro da noite", "A colina dos suicídios", "White Jazz" ou "O meu quarto escuro". Quase todos editados pela Presença.

"L.A. Confidential" faz parte desse universo literário. Publicado em 1990, foi um sucesso, confirmando o percurso ascendente do escritor.

Los Angeles nos anos 50. Hollywood, o polo do imaginário de muitos milhões de pessoas em todo o mundo. O maravilhoso do cinema e do star system. O glamour, as festas fabulosas, o exibicionismo social e a agitação nocturna encobrem um outro universo, um submundo dominado pelo crime organizado, a corrupção, o tráfico de drogas, a violência crua e os negócios do sexo.

Os magazines (trash tabloids) serviam--se dessa matéria-prima e alimentavam os sonhos de muita gente. "Hush-Hush" é a publicação que vai enquadrando/orientando a ficção. Tudo o que cheire a escândalo sairá lá. Se for preciso criam-se os factos. Força -se a realidade. Inventa-se. Paga-se por fora. É neste universo que tudo vai acontecer.

Um homicídio em massa num bar - Night Owk -  desencadeia um processo investigatório. Três polícias envolvem -se numa teia perigosa, dúctil, da qual poderão não sair vivos. Um pesadelo. A lealdade, os princípios e a coragem são testados até ao limite. Ninguém sai incólume. Os valores, a ética e os métodos dos agentes da polícia, diferentes personalidades, diferentes passados, confrontam-se. A máquina policial não é neutra, é sujeita a influências, poderes, subornos. Racismo. Corrupção. Uma pequena metáfora da sociedade americana.

A surpresa acontece. A podridão estava no fundo da instituição. Pelo meio, ajustes de contas, feridos e mortos. A mitificação de Hollywood por todo o lado. Los Angeles, City of Angels. As vedetas femininas do cinema copiadas em versões de consumo sexual. Veronica Lake (star da época), em cópia, misteriosa femme fatale, aquela mulher lindíssima, prostituta requintada, que só queria amealhar dinheiro para regressar à sua cidadezinha do Arizona (há-de conseguir, levando consigo um dos polícias, todo partido, mas vivo). Jogos de parecer. E jogos de ser - "Ela é a Lana Turner", e era mesmo. E os filmes. Com um sentido deliberado, realidade e ficção entrelaçam-se. Nas ruas os cartazes do filme em exibição "Cativo do mal" (uma história sobre filmes e actores) do Vincente Minnelli, precisamente com a Lana Turner e o Kirk Douglas. Já o vimos aqui.

A justiça foi feita, mas o sistema venceu. Umas histórias açucaradas, forjadas pelo poder político e institucional para os jornais e os polícias continuam a ser os bons, a lutar contra os maus. Os jornais escrevem e acredita-se. Como escreveu Giuseppe Tomasi di Lampedusa em "O Leopardo", é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. O Visconti fez um grande filme nos anos 60 a partir do livro e agora está disponível na Netflix uma bela série. Vale a pena.

Quem deu corpo fílmico ao livro de James Ellroy foi Curtis Hanson (1945-2016). Realizador e argumentista com uma história interessante. Versátil, proficiente e eficaz em diferentes géneros e estilos.

Antes do sucesso com este filme, fez outros que merecem algum destaque, nomeadamente "A mão que embala o berço", um thriller muito interessante, "O Rio selvagem", com Meryl Streep, "Wonder Boys" com Michael Douglas.

No tempo em que o filme saiu, muitos especialistas o consideraram, juntamente com "Chinatown" (1974) do Roman Polanski, o melhor filme negro daqueles tempos. Naquela altura, um dos críticos americanos de referência escreveu: "L.A. Confidential é sedutor e belo, cínico e perverso, um dos melhores filmes do ano."

É certamente um filme a destacar na história mais recente do cinema. E foi candidato a 9 Óscares. Ganhou dois. Kim Basinger teve o de melhor actriz secundária (bela prestação) e o realizador, Curtis Hanson, teve o de argumentista (adaptação). Trabalhou muito para criar uma linha dramaticamente consistente numa história com muitos desvios e vaivéns próprios da densidade da escrita de James Ellroy. Este aprovou.

A nós compete o prazer de entrar gradualmente naquela rede de cumplicidades, mentiras e muita hipocrisia. Ah...os actores. Um prazer redobrado acompanhar o Kevin Spacey, o Russell Crowe, o Danny DeVito e a Kim Basinger, travestida de Veronica Lake.

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