James Ellroy escritor de
policiais. Ou só mesmo escritor. Um grande escritor. Uma forte identidade
literária. Na melhor tradição do Raymond Chandler e do Dashiell Hammett, umas
décadas depois apareceu com um conjunto de livros que marcaram o imaginário americano
dos anos 80 e 90. A matriz policial (o romance negro) marca a ficção. Los
Angeles e a Califórnia são o espaço privilegiado e os anos 50 é o tempo. O
estilo da narrativa é directo, bruto. Poliédrico. Frases curtas, impactantes.
Personagens a dançar perigosamente, sobre o fio navalha, nos limites da lei.
Gente dura, gente dúbia, mesmo quando do lado bom.
Quer pelo estilo, quer pelos
valores e posições, não me custa nada associar Ellroy com Céline ("Viagem
ao fim da noite", "Morte a crédito"). O americano será
certamente acólito de Trump e o francês foi anti-semita e colaborou com os nazis.
Escritores malditos ambos, mas com uma escrita avassaladora.
James Ellroy teve uma vivência
que lhe alimenta as ficções e o estilo. Durante muito tempo viveu fora da
normalidade social. Marginal, sem abrigo, drogado, alcoólico. Conseguiu
safar-se (às vezes acontece) e com talento deu a volta por cima. Escreveu o primeiro
livro em 1981 e passada meia dúzia de anos conquistou um lugar de consagração
com "A Dália Negra". Um grande romance policial a partir de uma
experiência pessoal dramática.
Em 1958, a mãe do escritor foi assassinada quando ele
tinha 10 anos e a polícia nunca
conseguiu resolver o caso. A partir de memórias difusas, de ecos
familiares e de muita investigação,
Ellroy criou uma ficção que é também um mergulho de busca interior.
A sua obra, densa, tem a matriz
ficcional do romance policial, mas vai para além. É um descrente do homem, um
escritor cínico, acredita pouco na regeneração.
Livros como o citado, ou outros
como os que têm tradução em Portugal, são exemplos desse mundo sujo, perverso,
corrompido e mórbido. Vale a pena conhecer o universo do James Ellroy e livros
como "Sangue vadio", "No escuro da noite", "A colina
dos suicídios", "White Jazz" ou "O meu quarto escuro".
Quase todos editados pela Presença.
"L.A. Confidential" faz
parte desse universo literário. Publicado em 1990, foi um sucesso, confirmando
o percurso ascendente do escritor.
Los Angeles nos anos 50.
Hollywood, o polo do imaginário de muitos milhões de pessoas em todo o mundo. O
maravilhoso do cinema e do star system. O glamour, as festas fabulosas, o
exibicionismo social e a agitação nocturna encobrem um outro universo, um submundo
dominado pelo crime organizado, a corrupção, o tráfico de drogas, a violência
crua e os negócios do sexo.
Os magazines (trash tabloids)
serviam--se dessa matéria-prima e alimentavam os sonhos de muita gente.
"Hush-Hush" é a publicação que vai enquadrando/orientando a ficção.
Tudo o que cheire a escândalo sairá lá. Se for preciso criam-se os factos.
Força -se a realidade. Inventa-se. Paga-se por fora. É neste universo que tudo
vai acontecer.
Um homicídio em massa num bar -
Night Owk - desencadeia um processo
investigatório. Três polícias envolvem -se numa teia perigosa, dúctil, da qual
poderão não sair vivos. Um pesadelo. A lealdade, os princípios e a coragem são
testados até ao limite. Ninguém sai incólume. Os valores, a ética e os métodos
dos agentes da polícia, diferentes personalidades, diferentes passados,
confrontam-se. A máquina policial não é neutra, é sujeita a influências,
poderes, subornos. Racismo. Corrupção. Uma pequena metáfora da sociedade
americana.
A surpresa acontece. A podridão
estava no fundo da instituição. Pelo meio, ajustes de contas, feridos e mortos.
A mitificação de Hollywood por todo o lado. Los Angeles, City of Angels. As
vedetas femininas do cinema copiadas em versões de consumo sexual. Veronica
Lake (star da época), em cópia, misteriosa femme fatale, aquela mulher
lindíssima, prostituta requintada, que só queria amealhar dinheiro para
regressar à sua cidadezinha do Arizona (há-de conseguir, levando consigo um dos
polícias, todo partido, mas vivo). Jogos de parecer. E jogos de ser - "Ela
é a Lana Turner", e era mesmo. E os filmes. Com um sentido deliberado,
realidade e ficção entrelaçam-se. Nas ruas os cartazes do filme em exibição
"Cativo do mal" (uma história sobre filmes e actores) do Vincente
Minnelli, precisamente com a Lana Turner e o Kirk Douglas. Já o vimos aqui.
A justiça foi feita, mas o
sistema venceu. Umas histórias açucaradas, forjadas pelo poder político e
institucional para os jornais e os polícias continuam a ser os bons, a lutar
contra os maus. Os jornais escrevem e acredita-se. Como escreveu Giuseppe Tomasi
di Lampedusa em "O Leopardo", é preciso mudar alguma coisa para que
tudo fique na mesma. O Visconti fez um grande filme nos anos 60 a partir do
livro e agora está disponível na Netflix uma bela série. Vale a pena.
Quem deu corpo fílmico ao livro
de James Ellroy foi Curtis Hanson (1945-2016). Realizador e argumentista com
uma história interessante. Versátil, proficiente e eficaz em diferentes géneros
e estilos.
Antes do sucesso com este filme,
fez outros que merecem algum destaque, nomeadamente "A mão que embala o
berço", um thriller muito interessante, "O Rio selvagem", com
Meryl Streep, "Wonder Boys" com Michael Douglas.
No tempo em que o filme saiu,
muitos especialistas o consideraram, juntamente com "Chinatown"
(1974) do Roman Polanski, o melhor filme negro daqueles tempos. Naquela altura,
um dos críticos americanos de referência escreveu: "L.A. Confidential é
sedutor e belo, cínico e perverso, um dos melhores filmes do ano."
É certamente um filme a destacar
na história mais recente do cinema. E foi candidato a 9 Óscares. Ganhou dois.
Kim Basinger teve o de melhor actriz secundária (bela prestação) e o
realizador, Curtis Hanson, teve o de argumentista (adaptação). Trabalhou muito
para criar uma linha dramaticamente consistente numa história com muitos
desvios e vaivéns próprios da densidade da escrita de James Ellroy. Este
aprovou.
A nós compete o prazer de entrar gradualmente naquela rede de cumplicidades, mentiras e muita hipocrisia. Ah...os actores. Um prazer redobrado acompanhar o Kevin Spacey, o Russell Crowe, o Danny DeVito e a Kim Basinger, travestida de Veronica Lake.
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