01 janeiro 2024

O medo devora a alma - Rainer Werner Fassbinder (1973)

Com El Hedi ben Salem, Brigitte Mirra
Duração: 93 min

Flash back nas nossas memórias cinéfilas recentes. No dia 8 de Março vimos "O medo devora a alma" do Douglas Sirk. O Rock Hudson jardineiro, lembrem-se .. Vão reler o textozinho que escrevi para se enquadrarem nesta ficção (um bocadinho de trabalho de casa não faz mal a ninguém). 

O Fassbinder, quando descobriu e se apaixonou pelos filmes americanos do seu conterrâneo, encontrou a via privilegiada para os seus futuros filmes. Aqui é o take one desse trajecto (que lamentavelmente iria durar só alguns anos, mas com maravilhas que iremos ver). 

Este é um filme de homenagem ao mestre. Fassbinder pega na ossatura da ficção do Sirk e transfere a sua história para a Alemanha do início dos anos 70. "O medo devora a alma" assim se chama. Sob o milagre alemão do pós guerra, o lado invisível da exploração do trabalho migrante, a vivência cinzenta dos cidadãos ainda não recuperados da barbárie, cumplicidade envergonhada e admiração escondida pelo Hitler e o nazismo. 

Encontro amoroso entre um emigrante marroquino e uma viúva alemã. Origens, idade, raça e cultura - tudo entre eles faz a diferença, mas o coração (ou a solidão) podem fazer milagres. 

Fassbinder vai-nos revelando pouco a pouco o pequeno mundo em que eles circulam em Munique (metaforicamente é o país inteiro que ele retrata).

Discriminação, intolerância, xenofobia e racismo. Aquela ligação entre Emmi e Ali vai gradualmente deixar o espectador em dúvida sobre o futuro. Os couscus podem fazer a diferença, mas a rejeição familiar e social mais ou menos generalizada da situação é um facto inegável. Como diz o personagem masculino num alemão titubeante "Árabes não humano." ou "Penso muito, choro muito." 

Os preconceitos  e os tabus são terríveis.

O último acto de homenagem do Fassbinder ao Sirk é o final feliz. Falso na evidência das coisas... mas deixemos para os deuses wagnerianos as decisões sobre o futuro. Nunca se sabe. 

Passados estes anos todos verificamos que o filme continua com uma pujança lúdica espantosa e uma força visual inegável.

E... lamentavelmente a história continua tão actual como se fosse filmada agora. Os homens não aprendem. Tentemos nós ser solidários com aquele casal e fruirmos os pequenos prazeres do cinema do Fassbinder. Ah. E ele entra como actor, como em muitos dos seus filmes. 

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