Com Farley Granger, Robert Walker, Patricia Hitchcock
O comboio para
numa estação. Entradas e saídas. Movimento normal. Um personagem baixote,
redondo, anafado, carregando um contrabaixo (ou violoncelo? Certamente um
violoncelo. Contrabaixo era coisa de pretos lá do Harlem, do jazz, o Charles
Mingus ou o Ron Carter), sobe para a carruagem. É ele. É Alfred Hitchcock
(1899-1980) himself. Uma espécie de intermezzo. O comboio põe-se em movimento e
nós voltamos ao fio narrativo da ficção. É o cameo privado do mestre (cameo é
uma pequena participação de um ator ou celebridade numa peça ou num filme, a
little joke). Já antes tinha acontecido e continuou a acontecer. Os cameo
tornaram-se uma superstição. Segundo os registos dos especialistas, Hitchcock
terá feito 36 aparições fugazes nos seus filmes. Tornou-se uma espécie de selo
de identidade, de imagem de marca. "Strangers on a train" assim se
chamou o filme, assim se chamava o livro que lhe deu origem.
Voltemos ao
comboio, onde tudo começa. Guy, um jovem tenista campeão (Farley Granger) vai
ter com a mulher, que lhe foi infiel. Ele quer o divórcio para poder casar
novamente, com a filha de um senador. Vai apreensivo, na expectativa de obter a
liberdade. Aren't you Guy Haynes?
Quem pergunta é
outro jovem. Bruno (Robert Walker), com pergaminhos aristocráticos e uma
relação odiosa com pai. Encontro acidental (se calhar, não). Conversa elegante.
Bruno conhece toda a história pessoal do tenista - informação dos jornais e das
colunas sociais das revistas. Gradualmente uma conversa descontraída, para
passar o tempo, transforma-se num difuso compromisso: cada um deles
assassinaria o 'obstáculo' do outro. Bruno, a mulher de Guy, e este o pai de
Bruno. Tudo muito difuso, sim. Guy - um rapaz decente, normal, candidato a uma
convencional carreira política, saiu do comboio um bocado perturbado com aquele
encontro, mas sem ligar muito. Como se costuma dizer, há malucos em todo o
lado...
Mas Bruno
estava noutro registo. Aquela é a sua verdade. Psicopata, diabólico, maníaco.
Louco. Mata a mulher do outro e quer o pagamento/recompensa - que o outro mate
o seu pai.
Estamos no
universo privilegiado de Hitchcock. Equívocos comportamentais, difusa fronteira
entre o bem e o mal, mudança de identidades, amoralidade, culpa.
Obviamente no
fim é reposta a normalidade, mas até lá nós vamos andar manuseados (no bom
sentido) pela mestria hitchcockiana, com falsas resoluções de conflitos, com a
prestidigitação sobre os espaços e tempos cinematográficos, com o rigor do
argumento que dá consistência ao que parece inverosímil. Os jogos de montagem
com sentido dramático - toda a sequência
inicial dos sapatos. Há que seguir muito atentamente o vaivém entre o tenista e
o aristocrata (na verdade é como se fosse um jogo de ténis - bola vai, bola vem
- ou como o carrossel desgovernado no
parque de diversões) com os índices dramáticos em subida crescente.
Tudo
esclarecido, o jovem retoma a normalidade. Ou não? 'Aren't you Guy Haynes?' pergunta-lhe um
padre, também no comboio. Efeito circular. É melhor fugir...
Alfred
Hitchcock era um cineasta que não gostava de surpresas no estúdio. Surpresas só
para o espectador. Tudo no seu cinema era pensado ao pormenor. O rigor do
argumento era condição sine qua non para a criação dos seus filmes. A crítica
contemporânea dizia que quando começava a filmar tinha já o filme todo na
cabeça.
Como escreveu
um especialista (Paul Duncan): "A força de Hitchcock como realizador
reside na capacidade de visualizar os seus medos e desejos subconscientes e de
transformá-los em pesadelos insones no ecrã. Muitos espectadores partilham os
seus medos e desejos subconscientes, e é exatamente por isso que Hitchcock
permanecerá na consciência do público".
Os exegetas
escrevem que, com este filme, Hitchcock fez um comeback depois de alguns filmes
que foram flops. Pelo contrário, este teve grande aceitação e foi o início de
uma "década prodigiosa", podemos dizer assim, roubando o título de um
filme do Claude Chabrol (tão esquecido que ele está), que, por acaso, até fez
um filme a partir de um livro da mesma escritora. Só alguns exemplos: "Chamada para a morte", "A
janela indiscreta", "O homem que sabia demais", "A mulher
que viveu duas vezes", "Intriga internacional ",
"Psico"...
Uma parte
substancial do sucesso do filme deveu-se obviamente ao argumento. Hitchcock
"cheirou" a qualidade de um livro de uma desconhecida editado um ano
antes. O primeiro romance de Patricia Highsmith (1921-1995) uma jovem escritora
americana (até aí só tinha publicado short stories em revistas de referência
-"Harper's Bazaar", "Vogue", "The New
Yorker"...). Hitchcock, cultor requintado dos prazeres da comida e da
bebida (dizia-se que tinha uma garrafeira esplendorosa), era noutros domínios
um unhas de fome e comprou os direitos do livro por uma tuta e meia. Mal menor
para a jovem escritora que, com a edição do livro e com o sucesso do filme logo
a seguir, se tornou numa estrela no panorama intelectual americano.
Com este livro
ela iniciou um longo caminho de consagração consolidado em vinte e tal romances
fora as muitas centenas de short stories que foi escrevendo e publicando. Com
variantes, o universo das suas ficções focava-se nas perversões da alma, com
questionamento da identidade e da moralidade.
A opus magna da
sua literatura centrou-se na personagem Tom Ripley (cinco livros). Era um homem
que ambicionava sucesso, dinheiro e aspirava a uma vida em grande. Homem
elegante, a sua amoralidade permitia-lhe tudo. Matava com a maior
naturalidade...porque sim! E safava-se sempre. Horrivelmente atrativo.
Patricia
Highsmith teve muitos livros transformados em filmes, a maior parte adaptações
fracas. Alguns adaptaram as ficções sobre Tom Ripley.
Viveu uma parte
substancial da sua vida fora dos EUA, numa espécie de exílio interior, primeiro
em Inglaterra, depois em França e acabou os seus dias na Suíça.
Personagem
controversa, homossexual, depressiva, antissemita, racista e misantropa.
Perdoemos-lhe citando uma vez mais Billy Wilder: Nobody is perfect.
Gore Vidal, escritor americano de referência (outro exilado europeu) escreveu sobre ela: "Por alguma razão obscura, uma das nossas maiores escritoras modernas - Patricia Highsmith - é vista no seu próprio país apenas como uma autora de thrillers (...). Mas é certamente uma das escritoras mais interessantes deste sombrio século. Praticamente toda a sua obra está disponível em português.
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