01 janeiro 2024

O carteiro toca sempre duas vezes - Bob Rafelson (1981)

Com Jack Nicholson, Jessica Lange, Angelica Huston
Duração: 116m

Knock, knock. Quem é? É o carteiro. Até há uma cantiga portuguesa do Conjunto António Mafra (bons velhos tempos, só no sentido revivalista) - "Chegou o carteiro das nove p'ras dez, a vizinha do lado de roupão enfiado"...etc. e tal.

Isto agora é quase uma ficção. Há cada vez menos cartas. Há cada vez menos carteiros. Em Portugal, desde que osj CTT foram oferecidos praticamente de borla a um grupo privado (grande negócio), a relação de proximidade com as pessoas é quase uma ficção.

Ficção, sem equívocos, é este filme. Carteiro nem vê-lo, nem ouvi-lo. Mas já lá vamos. Cada a coisa a seu tempo. Primeiro a escrita e o escritor.

James M. Cain (1892-1977) passou para a história da literatura pelos livros que escreveu nos anos 30 e 40. Três títulos são referências incontornáveis da literatura americana daquele tempo: "The postman allways rings twice" (1934"), "Double Indemnity" (1936) e "Mildred Pierce" (1941). E todos eles deram origem a óptimos filmes. Do primeiro vamos falar. O segundo deu "Pagos a dobrar" feito pelo grande Billy Wilder. O último deu "Alma em suplício", com a Joan Crawford, feito pelo Michel Curtiz que dois anos antes tinha feito "Casablanca". Há uma adaptação recente disponível na HBO. Vê -se muito bem.

Juntamente com Dashiell Hammett e Raymond Chandler, James M. Cain foi, cito, "progenitor of the hardboiled school of American crime fiction."

Histórias dramáticas, violentas, com personagens amorais, sado-masoquistas e erotismo à flor da pele. Em síntese: luxúria, avidez e desejo. 

Mas foram grandes sucessos de mercado. Venderam-se milhões de livros nos EUA. Obviamente que o autor teve que enfrentar o pior da sociedade americana. Foi censurado e atacado pelas ligas conservadoras, da idade da pedra, os trumpistas daqueles tempos.

Perfil tipo do intelectual americano da primeira metade do século XX: combateu em França na I Guerra Mundial, jornalista em Nova York, argumentista (falhado) em Hollywood e escritor.

Noite profunda. Escuro. Vazio. Um carro na estrada. Pára numa bomba de gasolina. Dois homens entram e um deles,  Frank Chambers (Jack Nicholson) fica. Vai continuar lá, a trabalhar para o casal que explora o sítio. Mais tarde sabemos que tinha sido libertado da prisão, andava em vagabundagem, e que o seu currículo pessoal era socialmente pesado. 

"The food is delicious", diz ele para a mulher, Cora Papadakis (Jessica Lange), olhando-a lubricamente. Na verdade, ele quis dizer outra coisa. 

Pois aconteceu como era previsível. O triângulo passional. Uma bela jovem casada com um emigrante grego, um bocado bronco, mas simpático, com idade para ser seu pai. Da chegada do forasteiro à traição da mulher foi um fósforo. As chamas foram despoletadas e, a partir daí, tudo andou ao ritmo do desejo mútuo. O pobre do grego (provavelmente chegado no início do século XX, mas sem nunca se desligar das suas raízes e costumes, isto é, nunca devia ter saído da Grécia) tem que desaparecer. Duas tentativas de assassínio e a morte. 

Cumplicidade entre o casal amoral, mas indícios de que as coisas podiam não resultar. Frank trai Cora com uma artista de circo (Angelica Huston) e Cora quase acredita que as coisas com o marido podiam resultar. 

Mas o impulso irracional proporcionado pelo combustível sexual, encaminhará a acção para um fim dramático.

Tendo-se safado da prisão por mera sorte (morte  do gato lá de casa transformado em argumento de defesa) ou por meios ilegais (trafulhice jurídica), não se safaram do descontrolo de Frank ao volante. Acidente. Morte de Cora. Vinham do casamento, as expectativas positivas alimentadas para o futuro (ela estava grávida) não passaram disso. E agora? Mais cedo ou mais tarde Frank irá parar com os costados à prisão por mais um roubo ou outra ilegalidade. É a sua normalidade. É o seu destino.

O livro é de 1934 e o filme de 1981. Mas até lá as coisas foram mais complexas. 

Em 1946, Hollywood fez a partir do livro um filme que é considerado um dos bons policiais da década - "O destino bate à porta" de Tay Garnett que, segundo as crónicas do tempo, elevou Lana Turner à categoria das divas do star system. Obviamente que o argumento foi burilado dos "excessos" eróticos e violentos para passar pelo código Hays.

Mas, surpresa, na Europa o grande Luchino Visconti em 1943 tinha feito "Obsessão", o seu primeiro filme, a partir do livro, obviamente com ajustamentos a Itália e com ressonâncias neo-realistas.

Bob Rafelson (1933-2022) foi o autor desta nova adaptação cinematográfica. Teve o apoio brilhante de David Mamet, um dos melhores dramaturgos americanos do nosso tempo, como argumentista.  Também realizou alguns filmes interessantes e várias das suas peças têm sido encenadas por cá com regularidade.

Rafelson é um realizador muito associado ao Jack Nicholson. Quando eram novos fizeram vários filmes juntos, nomeadamente "Destinos Opostos",  mais conhecido pelo título original "Five Easy Pieces" (1970).

"A viúva negra" (1987) também é uma óptima ficção. Foi ele que criou num programa televisivo (1966-1968) o fenómeno musical "The Monkies" uma banda pop que não existia na realidade. Acredito que muitos de vós ainda sabem trautear alguma das melodias. 

E agora o título. Segundo James M. Cain, naqueles anos os telegramas eram caros e normalmente portadores de más notícias. Um carteiro batendo à porta ou tocando à campainha duas vezes significava que os problemas estavam a caminho. Era um título metafórico. A justiça adiada. Para segunda via. O autor fez finca-pé e conseguiu impor o título para o livro. Como escreveu..."era um disparate", mas resultou. 

Para nós será certamente um grande momento de cinema. Sem disparates.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.

Johnny Guitar - Nicholas Ray (1954)

"Johnny Guitar" - Nicholas Ray. C/Joan Crawford, Mercedes McCambridge, Sterling Hayden, Ward Bond. 110 M. 1954. Johnny - How many ...