Knock, knock. Quem é? É o carteiro. Até há uma cantiga portuguesa
do Conjunto António Mafra (bons velhos tempos, só no sentido revivalista) -
"Chegou o carteiro das nove p'ras dez, a vizinha do lado de roupão
enfiado"...etc. e tal.
Isto agora é quase uma ficção. Há cada vez menos cartas. Há cada vez
menos carteiros. Em Portugal, desde que osj CTT foram oferecidos praticamente
de borla a um grupo privado (grande negócio), a relação de proximidade com as
pessoas é quase uma ficção.
Ficção, sem equívocos, é este filme. Carteiro nem vê-lo, nem ouvi-lo. Mas
já lá vamos. Cada a coisa a seu tempo. Primeiro a escrita e o escritor.
James M. Cain (1892-1977) passou para a história da literatura pelos
livros que escreveu nos anos 30 e 40. Três títulos são referências
incontornáveis da literatura americana daquele tempo: "The postman allways
rings twice" (1934"), "Double Indemnity" (1936) e
"Mildred Pierce" (1941). E todos eles deram origem a óptimos filmes.
Do primeiro vamos falar. O segundo deu "Pagos a dobrar" feito pelo
grande Billy Wilder. O último deu "Alma em suplício", com a Joan
Crawford, feito pelo Michel Curtiz que dois anos antes tinha feito
"Casablanca". Há uma adaptação recente disponível na HBO. Vê -se
muito bem.
Juntamente com Dashiell
Hammett e Raymond Chandler, James M. Cain foi, cito, "progenitor of the
hardboiled school of American crime fiction."
Histórias dramáticas, violentas, com personagens amorais,
sado-masoquistas e erotismo à flor da pele. Em síntese: luxúria, avidez e
desejo.
Mas foram grandes sucessos de mercado. Venderam-se milhões de livros nos
EUA. Obviamente que o autor teve que enfrentar o pior da sociedade americana.
Foi censurado e atacado pelas ligas conservadoras, da idade da pedra, os
trumpistas daqueles tempos.
Perfil tipo do intelectual americano da primeira metade do século XX:
combateu em França na I Guerra Mundial, jornalista em Nova York, argumentista
(falhado) em Hollywood e escritor.
Noite profunda. Escuro. Vazio. Um carro na estrada. Pára numa bomba de
gasolina. Dois homens entram e um deles, Frank Chambers (Jack Nicholson)
fica. Vai continuar lá, a trabalhar para o casal que explora o sítio. Mais
tarde sabemos que tinha sido libertado da prisão, andava em vagabundagem, e que
o seu currículo pessoal era socialmente pesado.
"The food is delicious", diz ele para a mulher, Cora Papadakis
(Jessica Lange), olhando-a lubricamente. Na verdade, ele quis dizer outra
coisa.
Pois aconteceu como era previsível. O triângulo passional. Uma bela jovem
casada com um emigrante grego, um bocado bronco, mas simpático, com idade para
ser seu pai. Da chegada do forasteiro à traição da mulher foi um fósforo. As
chamas foram despoletadas e, a partir daí, tudo andou ao ritmo do desejo mútuo.
O pobre do grego (provavelmente chegado no início do século XX, mas sem nunca
se desligar das suas raízes e costumes, isto é, nunca devia ter saído da
Grécia) tem que desaparecer. Duas tentativas de assassínio e a morte.
Cumplicidade entre o casal amoral, mas indícios de que as coisas podiam
não resultar. Frank trai Cora com uma artista de circo (Angelica Huston) e Cora
quase acredita que as coisas com o marido podiam resultar.
Mas o impulso irracional proporcionado pelo combustível sexual,
encaminhará a acção para um fim dramático.
Tendo-se safado da prisão por mera sorte (morte do gato lá de casa
transformado em argumento de defesa) ou por meios ilegais (trafulhice
jurídica), não se safaram do descontrolo de Frank ao volante. Acidente. Morte
de Cora. Vinham do casamento, as expectativas positivas alimentadas para o
futuro (ela estava grávida) não passaram disso. E agora? Mais cedo ou mais
tarde Frank irá parar com os costados à prisão por mais um roubo ou outra
ilegalidade. É a sua normalidade. É o seu destino.
O livro é de 1934 e o filme de 1981. Mas até lá as coisas foram mais
complexas.
Em 1946, Hollywood fez a partir do livro um filme que é considerado um
dos bons policiais da década - "O destino bate à porta" de Tay
Garnett que, segundo as crónicas do tempo, elevou Lana Turner à categoria das
divas do star system. Obviamente que o argumento foi burilado dos
"excessos" eróticos e violentos para passar pelo código Hays.
Mas, surpresa, na Europa o grande Luchino Visconti em 1943 tinha feito
"Obsessão", o seu primeiro filme, a partir do livro, obviamente com
ajustamentos a Itália e com ressonâncias neo-realistas.
Bob Rafelson (1933-2022) foi o autor desta nova adaptação
cinematográfica. Teve o apoio brilhante de David Mamet, um dos melhores
dramaturgos americanos do nosso tempo, como argumentista. Também realizou
alguns filmes interessantes e várias das suas peças têm sido encenadas por cá
com regularidade.
Rafelson é um realizador muito associado ao Jack Nicholson. Quando eram
novos fizeram vários filmes juntos, nomeadamente "Destinos
Opostos", mais conhecido pelo título original "Five Easy
Pieces" (1970).
"A viúva negra" (1987) também é uma óptima ficção. Foi ele que
criou num programa televisivo (1966-1968) o fenómeno musical "The
Monkies" uma banda pop que não existia na realidade. Acredito que muitos
de vós ainda sabem trautear alguma das melodias.
E agora o título. Segundo James M. Cain, naqueles anos os telegramas eram
caros e normalmente portadores de más notícias. Um carteiro batendo à porta ou
tocando à campainha duas vezes significava que os problemas estavam a caminho.
Era um título metafórico. A justiça adiada. Para segunda via. O autor fez
finca-pé e conseguiu impor o título para o livro. Como escreveu..."era um
disparate", mas resultou.
Para nós será certamente um grande momento de cinema. Sem disparates.
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